domingo, 14 de janeiro de 2018

MENTIRAS 10 X BRASIL 0



artigo publicado no jornal O estado do Maranhão


Todo mundo mente em todo lugar do mundo, mas o que distingue a mentiroso brasileiro é que, por ser tão desonesto, consegue enganar a si próprio, passando a acreditar na mentira que ele próprio inventa. E o pior para a verdade é que o mentiroso brasileiro tem uma obsessão: deseja que os outros também acreditem na sua mentira.
            Ora, como todo poderoso  tende para a arrogância, deriva-se, como evidente, que a mentira há de imperar neste país: por vocação, por talento e, se isso ainda não for suficiente, por imposição. Haja mentira pra todo lado!, este País se dando ao luxo de se aprimorar nas ‘mentiras fora de série’,   ou seja, as brasileiríssimas: que todos acabam aceitando  como se fossem verdades.

            1.Deus é brasileiro.

            Pode até ser, mas qual deles? Tem deus que se presta pra tudo neste país, desde para fazer papel de gaiato em discurso de Michel Temer até a aparecer feito guru, um tanto a contragosto,  em música de Roberto Carlos. Já o Deus  único , exclusivo e onipotente esse parece ter corrido há algum tempo desta terra depois que tanta gente não quis mais ser rei e preferiu ser Deus. Primeiro foi Pelé, depois FHC, Lula,  e agora, Neymar que vai fazer vestibular para ser deus na próxima Copa, na boca de Galvão Bueno.
            Aparentemente, foram dois os sinais evidentes de que o Deus verdadeiro não queria mais nada com esta Terra: primeiro  o 7 a 1 da Alemanha, depois quando um raio cortou a mão do Cristo Redentor, logo depois. Os vários sinais de sua debandada seguiram, sendo o mais eloquente a presença de um sujeito como Gilmar Mendes no Supremo Tribunal deste país ( outro que se considera Deus). Hoje já não resta mais dúvida: Deus nos disse Adeus.

            2. O brasileiro não é preconceituoso

            Durante muito tempo acreditou=se que o Brasil era um país em que não havia preconceito racial. Tudo ia relativamente bem até que inventaram o tal sistema de cotas, para despertar o “monstro”. Hoje, além do preconceito racial surgiram à tona vários outros, sendo o mais intolerante o que se pratica contra gente honesta. Honesto é mal visto, na escola ( onde sofre bullyng por causa disso); nas reuniões sociais (rejeitado quando pretendente ao sexo oposto, por não ter futuro) nas blitzes da lei seca ( ser honesto é o primeiro passo para ser tratado como bandido) e, principalmente, na política, onde simplesmente não tem vez.
            É tanto o preconceito que a ideia de um sistema de cotas para o honesto chegou a ser  idealizado, para evitar tanta discriminação. O problema passou  a ser a formação da banca julgadora. Como encontrar um honesto para descobrir quem seja honesto?

            3. Brasileiro é bom naquilo.








            Durante muitos anos o macho brasileiro acreditou piamente nisso, mas parece que se esquecia de perguntar à sua mulher. Novas pesquisas denunciaram que a coisa não é tão boa assim a julgar pelas caixas de pílulas azuis e similares que são consumidas neste país (segundo lugar no mundo) . Como afrodisíaco natural é o que não falta: guaraná, catuaba, açaí, samba, praia, e carnaval, cada vez mais fica evidente que bom nisso é mesmo a fêmea brasileira  até mesmo porque dentro e fora do país ela dá verdadeiro baile, dançando lambada e funk em pé, deitada, e em todas as posições do kama-sutra ( vide Anitta). E ainda sobra para quem quer ser mulher na marra, como o Pablo Vittar.

                                                                       ewerton.neto@hotmail.com

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis


sábado, 6 de janeiro de 2018

JOSÉ LOUZEIRO, UM ROTEIRO




artigo publicado no jornal O estado do Maranhão


Uma das maiores alegrias de minha vida me foi propiciada pelo escritor José Louzeiro, morto na sexta feira passada, quando dele recebi uma pequena carta, quase um bilhete. Dizia: “Um verdadeiro  romance policial. Denso. De suspense. Como um bom roteiro de cinema.”
            Referia-se aos originais do meu primeiro romance O Prazer de Matar ( que ,mais tarde, em duas reedições sucessivas no Sul do país recebeu o nome de O oficio de matar suicidas). Até então, nos idos da década de oitenta eu não sabia que aquilo que havia escrito em trinta dias  – na convalescença de uma cirurgia -  daria um livro: um romance ou, muito menos, um policial.
            Neste episódio destaca-se um dos mais preciosos atributos do caráter de José Louzeiro: a sua generosidade, expressa de duas formas: no apoio que concedia aos escritores em potencial, nos quais vislumbrava o embrião do talento (a bondade do homem);  ou na incorporação  de personagens sofridos e marginalizados ( a generosidade de sua escrita).
            Essa sua magnanimidade haveria, talvez, de atingir seu clímax na criação de seu personagem mais famoso: Pixote, em cujo romance A infância dos Mortos, se desenrola a história de um pivete, sem rumo e sem salvação, que, adaptado ao cinema pelo diretor argentino Hector Babenco ganhou vários  prêmios vindo a se instalar, certamente,  entre os dez melhores filmes já produzidos pela cinematografia brasileira.
            A leitura atenta desse romance permite vislumbrar que o escritor não estava ali criando um personagem e dosando- o para o gosto do público ou das expectativas de mercado, mas sim se transfigurando no mesmo, expondo através dele a sua alma de repórter jornalístico revoltado com as injustiças sociais. José Louzeiro montou sua arquitetura criativa para tornar-se a voz deles todos: De Pixote, a criança excluída;  De Lúcio Flávio, a juventude perdida nas teias dos ideais inalcançáveis  e da menina Araceli ( de Araceli, meu amor)  







a adolescente pobre e bonita, triturada por uma corja de “mauricinhos” ricaços, sob a proteção da impunidade.
            Essa face da postura intelectual de Louzeiro  o fez desaguar  em um gênero literário muito adequado para  isso: o romance-reportagem , por ele inaugurado no Brasil (que teve, lá fora, com  Truman Capote em A Sangue Frio sua marca mais notável)  e que doou à sua literatura um componente de originalidade para cuja concepção eram necessários justamente esses ingredientes: o fato real, o destino  irremediável e acachapante para os fracos, a denúncia.
            Pois foi partindo da realidade nua e crua que José Louzeiro inscreveu sua trajetória romanesca, o que o tornou  um inovador, um dos primeiros cultores do policial no Brasil, esse gênero literário ainda hoje considerado menor pela crítica universitária - o que causa estranheza, justamente numa nação como a nossa, em que tudo acaba em polícia e crime. Seria por isso que José Louzeiro jamais teve um reconhecimento à altura de sua estatura literária, mesmo em sua terra?

            Que a memória trazida pelo seu falecimento corrija essa injustiça trazendo novamente seus livros ao alcance das novas gerações,  e que, a reboque dessa necessária reavaliação se faça uma biografia à altura de sua trajetória de lutas e  realizações, plena de valores essenciais para a construção de uma humanidade melhor. Como um roteiro de cinema. Um grande roteiro! 

José Ewerton Neto é autor de O Oficio de matar suicidas



quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

OS BOTÕES DE KING-jONG-UN





Mandatário coreano King –Jong-Un diz que tem um botão debaixo da mesa para acionar arsenal nuclear e acabar com o ocidente.

Comentário de Juca Polincó: 



O filósofo politicamente incorreto da Periferia



A que ponto chegamos! Uma guerra mundial ao alcance um gay enrustido e punheteiro  

Temos que rezar todo dia para que o cara não tenha um orgasmo. Já pensou? Quem protegerá o pobre do botão, do dedo indicador  do gordinho sob delírio orgástico? 




E se ele apertá-lo pensando que está cutucando o outro botão?


Se o mundo começou às custas, como dizem, de um orgasmo de Deus, que triste fim evolutivo para a humanidade! Desaparecer do mapa  por causa do orgasmo (e do botão)  de  um enrustido cuja maior vontade é ser homem!

2. Após a declaração do norte-coreano foi a vez de Trump dizer que se for por causa de botão , o dele é ainda maior.


Comentário de Juca:

Será? Estaremos diante do colapso da humanidade por causa de uma guerra de botões? Quantas vidas seriam poupadas se ao invés de se digladiarem em público, se recolhessem a um quarto de motel e suas esposas decidissem afinal de contas qual botão é maior. Se desse empate, só chamando o árbitro de vídeo. 





domingo, 31 de dezembro de 2017

ULTIMAS PREVISÕES PARA 2018








A alta cúpula do  Governo Federal tem como certas algumas  previsões para o ano de 2018 que não foram  autorizadas para divulgação. Seguem as principais.

            1.Gilmar Mendes continuará soltando presos da cadeia. Em 2018  com velocidade maior do que solta pum (um problema médico que o faz ficar com o beiço arriado por causa do mal estar).
            Em meados de Agosto, em reconhecimento a seu apoio aos encarcerados, qualquer tipo de indulto a preso receberá o nome de Lei Gilmar. A novidade  é que não será mais necessária data festiva para que isso aconteça. Todos os presos menores de idade (abaixo de 30 anos) terão direito a essa regalia. Bastará pleitear a Lei Gilmar com antecedência de 15 minutos para que o réu seja solto.

            2.A Temporada de Caça a Gente Honesta aumentará a partir do ano que vem. No caso, entende-se como gente honesta (pegos em falta), as vítimas dos múltiplos artifícios  usados pelo poder público para extorquir o cidadão.
            Assim, se hoje o cidadão que bebe duas  gotas de álcool  é considerado um criminoso pior do que aquele que sequestra, mata ou estupra, a partir do segundo semestre do ano que vem  esse cidadão será condenado à prisão perpétua.
            Para tanto não será necessário o uso de bafômetro ou de outro dispositivo.   Bastará que o guarda sinalize que algum sujeito tenha cara de pinguço. O conceito de criminoso será revisto nas cartilhas escolares. Quem rouba malas de dinheiro ou recebe àquele a quem chama de ladrão no recesso de seu lar, será considerado idealista, já quem bebe e dirige (ainda que sejam dois goles de cerveja ) será execrado , repudiado, humilhado e considerado criminoso para o resto de sua vida.

            3.Os partidos políticos terão menos letras ou trocarão de nome para não serem confundidos com partidos mal vistos pela lava-jato. Consumando assim o processo já iniciado pelo PMDB que virou MDB.








            Assim, o PSDB passará a ser SDB, abreviatura de Se Dê Bem. O PV passará a V de verde, em Janeiro e, meses depois, para A de amarelo. A razão, para os marqueteiros do partido é que a  letra V no fim do alfabeto, pode dar impressão de fim da fila. Com tanta letra sumindo ou sendo trocada surgirá um novo partido: o dos 5 P ( Partido do Povo, Puto, Penando e Procrastinado)

            4.A eleição para presidente terá como candidatos mais fortes: Bolsonaro, Galvão Bueno (que substituirá  Huck como candidato da Globo) e Temer  ( que terá  Lula como vice)











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            A candidatura de Temer terá como slogan  “Unidos Venceremos” que a oposição interpretará como Ladrões Unidos jamais serão Vencidos. Galvão Bueno, cujo slogan será “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”, depois de liderar a pesquisa por vários meses tombará nas pesquisas depois de mais um fracasso internacional do Flamengo. Sobrarão para o segundo turno Bolsonaro e a dupla Lula-Temer.  Os unidos vencerão mais uma vez, mesmo depois de Bolsonaro trocar o nome de Bolso-Naro para Bolso-Vazio para alardear honestidade.

            5.Neymar e Bruna Marquezine continuarão a novela Fica-Volta na razão de 3 separações por mês nos sites de Fofoca e 2 vezes por dia na realidade nua e crua. A razão para tanto encontro-desencontro explicada pela atriz será: “Ele prefere os parças a mim. Exijo exclusividade” Já o craque do PSG dirá : “ Não sei o que acontece comigo, mas enjoo dela  mais depressa que dos parças.”


José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas




                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

domingo, 24 de dezembro de 2017

BANCA É CULTURA!




artigo publicado no jornal O estado do Maranhão


Tempos atrás nas rodas de estudantes, quando se tornava difícil  elucidar uma confusão a respeito de determinado tema, alguém dizia ironicamente: “Não confunda a obra de arte do mestre Picasso com a p... de aço do mestre obra”,   ou então  “ O buraco do lavrador Chico do Funrural com o Funeral do lavrador de Chico Buarque. E encerrava-se a questão.
            Que não se confunda também (nestes tempos de confusão)  Contracultura com Contra a Cultura. Contracultura é um movimento que teve seu auge na década de 1960, quando teve lugar um estilo de mobilização e contestação cultural, através do  qual os jovens tangenciavam  o antissocial aos olhos das famílias mais conservadoras . Contra a Cultura, por seu lado, é algo muito mais danoso,  pernicioso e  chega a ser perverso se praticado por autoridades que não possuem, sequer para justifica-los,  o arroubo demolidor dos jovens. Como,  por exemplo, entre outras coisas, desconsiderar o papel cultural desempenhado por bancas de revistas e livros.
            Bancas de revista , como todo mundo sabe, são aquelas mini lojas que parecem ter vida própria e que se disponibilizam nas avenidas e centros das aglomerações urbanas para dar uma mãozinha ao cidadão quando este menos espera,  afogueado sob a tensão do trânsito. Uma revista aqui, outra ali, um livro, mapa, crédito para celular, ou, simplesmente para prestar uma informação adicional. Enfim, um braço amigo na selva de pedra da cidade grande.
            Dá para acreditar que exista quem  se insurja contra elas, as bancas?  









            Difícil, mas um amigo meu, dono de uma banca de revista na  Praça Deodoro, sugere que sim. Que incrustados na tecnocracia administrativa desta cidade devem existir pessoas que expressam esse ponto de vista, justamente entre os  que comandam as obras que visam o bem-estar da população. Segundo ele, à vista de uma reforma (que todos julgamos necessária) a ser iniciada nessa bela praça, há o planejamento de retirar as bancas de revistas do logradouro, negando aos seus proprietários  a expectativa do devido – e necessário -  retorno.  E, por uma razão que espanta: as  bancas seriam incompatíveis com o layout e o ambiente desejado para a praça por serem  estruturas anacrônicas, incoerentes com o design moderno das metrópoles.
            Ora, como tal argumento não se sustenta diante da realidade, facilmente constatável, que se vê em outros países e outras grandes capitais do país, como na Avenida Paulista em SP ( onde o que não falta é banca de revista), subtende-se  razões de idiossincrasia pessoal: enfim de “contra a cultura”  caso essa ideia venha a prevalecer por aqui.
            Jorge Luís Borges, o escritor argentino dizia que certas ideias, de tão absurdas  eram “ como aceitar a presença de um estranho na cabeceira da minha mente.” Pegando carona na sua frase,  todas as ideias que se insurgem  contra a cultura , sua disseminação e propagação, também assim se parecem: com  um assaltante, um invasor, ou um sequestrador a se instalar na cabeceira de nossa mente. No caso, alguém com a intenção de violentar um bem  precioso que esta cidade possui e que através da comercialização e divulgação do trabalho impresso, tornou-se mais uma das sentinelas do áureo passado de feitos conquistados pela literatura local.   
            Que esses vultos sombrios sejam definitivamente afastados das mentes das autoridades que nos comandam.

José Ewerton Neto é autor de O Entrevistador de lendas





                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com  

DE UMA BOA ENTREVISTA

Françoise Héritier, antropóloga francesa, publicou o livro O sal da vida - entrevista à Revista Isto É no.2303, 15 jan2014

Qual o símbolo mais forte da Sociedade Moderna?

O símbolo mais forte da sociedade moderna é certamente o uso do Facebook e sua rede de falsos amigos, que amam todas as mesmas coisas ao mesmo tempo. Esse grande sentimento falso de pertencimento cria um mundo desmaterializado. Não ver mais as pessoas em carne e osso talvez não impeça os urgimento de laços mais fortes, mas fundir-se aos outros não significa encontrar-se. Isso constitui uma grande armadilha: a despersonalização em vez da afirmação de si.


Sobre uma das obsessões do personagem o escritor irlandês John Banville diz: " A morte nos forma. Tudo o que fazemos é um desafio à morte, em oposição a ela. A morte é o grande dom e o grande horror, que nos foi dado, junto à nossa consciência."

Concorda com essa informação?

Concordo. sem a morte e o saber da morte, o homem seria como os animais que, segundo Bataille, estão no mundo como a água está na água. Andar de quatro seria isso, ser assujeitado ao meio a ponto de não se distinguir dele. A linguagem quebra a cluna do tempo, trazendo a morte do futuro para o presente, e como o presente é o futuro do passado, tudo que é humano é cortado pela morte - o que faz de nós uma espécie solitária, recortada do mundo; faz de cada homem sozinho, recortado do conjunto de outros homens. Por isso não há O homem, há cada um tentando a muito custo lançar alguns fios sobre os bismos que o separam ( desde sempre) dos outros homens. Só que a linguagem é o abismo e são os fios. A linguagem os aproxima, porque de saída afasta os homens irremediavelmente. Depois que estiverem todos muito longe uns dos outros e sobretudo de si mesmos, os homens poderão falar por uns fios de linguagem, mas não falarão uma linguagem que lhes é imposta fascista (Barthes), mas um tanto mais livre porque visitada tanto pela inteligência quanto pelo afeto. Não sabemos nunca o que fazer com o corpo que é uma constante subtração de si. Sabemos ( por culpa de Montagne) que um bebê já é velho suficiente para morrer, então que só se escreve movido por essa constante subtração de si que define o corpo vivo. Não ficamos de pé quando encontramos o fogo, mas quando encontramos a linguagem. Lejeune ( ou Teodórov) diz uma coisa muito bonita:os homens que andam pelas ruas só para de pé porque são homens-narrativa. Eu diria porque são homens-linguagem. Então, então mesmo: só se escreve a partir da morte, que retroage sobre nós, nos impulsiona, exige o trabalho de tornar a vida minimamente viável, não aplacando seus núcleos infernais, mas fazendo disso alguma coisa que nos coloque de pé.





José Ramos Tinhorão, jornalista e crítico musical à revista , Jornalismo/Cultura, edição 2


O que teria motivado ele a fazer isso [ sobre ter sido chamado agente da CIA por Sérgio Cabral em o Pasquim]?

Sèrgio Cabral fez aquilo dentro de coisas que achava correto naquele momento. Ele ficou amigo de Tom Jobim. Tom Jobim como figura humana era extraordinária: gostava de passarinho, gostava da natureza...Mas não venha dizer para mim que ele é uma expressão da cultura brasileira, não é!As harmonias são harmonias americanas, ele chupava música americana. E não é um cara original: Samba de uma nota só é Mr Monotny, de Irving Berlin ( gravado por Judy Garland); Sabiá é a overture da Ópera dos três vinténs, de Kurt Weill; Desafinado, é o samba Violão Amigo, de Bide e Marçal ( cantarola as melodias idênticas de Violão Amigo e Desafinado) Então não é, não tem criação! Uma vez eu escrevi isso, eles ficaram putos, mas escrevi que Tom Jobim era "barriga de aluguel" da música popular. Quando o inseminavam, ele produzia coisa boa. Se não fosse inseminado não produzia nada.









Arnaldo Cohen, pianista renomado, à revista Época, número 771, março, 2013

A música brasileira não é um orgulho nacional?

É preciso dizer uma coisa: do ponto de vista rítmico a música brasileira encontra poucos rivais na erudita. Talvez Igor Stravinski ( compositor russo) tenha conseguido criar um universo sonoro rítmico tão sofisticado quanto os ritmos afro-brasileiros. Na parte harmônica, porém, ela é pobre. Claro, há excessoes como as composições de Egberto Gismonti, Tom Jobim ou Francis Hime. Mas, em geral, a musica popular brasileira precisa se beneficiar adas lições de harmonia que o Ocidente vem dando há 300 anos...


Suzan Greenfield, neurocientista inglesa, em entrevista à Veja, 09.01.13, edição 2303 alerta para os riscos para o cérebro em consequência dos estímulos positivos da internet, rede social e video-games


O convívio nas redes sociais aceita uma latitude maior na conduta ética das pessoas?

Sem dúvida. Nas redes sociais as pessoas podem se comportar como jamais fariam no mundo real. Elas perdem seus constrangimentos, o que normalmente barra os maus comportamentos. Na rede muita gente se expõe como jamais faria nem mesmo no ambiente familiar ou na frente de amigos íntimos. Essa liberalidade começou com os e-mails, mas atingiu o ápice com o facebook. os limites do certo e errado estão cada vez mais difíceis de ser definidos. O livro O senhor das Moscas de William Golding, conta a história do naufrágio de alguns estudantes. Presos em uma ilha e submetidos a enormes privações, eles perdem o verniz civilizatório e se tornam selvagens. Por alguma razão estar nas redes sociais pode produzir o mesmo efeito de desconsideração com os outros que acometeu os estudantes de Golding, presos na ilha.

A comunidade científica levou a sério seu alerta sobre o perigo de os vídeos-games, na infância estarem produzindo adultos sem ética e atrofiados emocionalmente?

Essa é uma constatação irrefutável. Pense na fábula da princesa presa na torre. existe uma enorme diferença entre ler Rapunzel em um livro e ade participar de uma game em que o objetivo é resgatá-la. O livro apresenta à criança a narração plena da história da princesa. A vida dela faz parte de um contexto. Já no game a princesa é apenas um objetivo, não importa nem como ela chegou aprisionada na torre, não se constrói em nenhum momento um vínculo emocional com a personagem, tampouco se discutem as questões éticas de aprisionar alguém ou as vindas de caráter ou do coração do ato de salvá-la. A única coisa que imporqa é ganhar o jogo. Parece-me evidente que são vias bem distintas.


Antes eram as revistas em quadrinhos, depois a televisão, agora a Internet e os games. Será que cada era tem o seu falso inimigo do cérebro das crianças?

Existe uma diferença crucial. As novas tecnologias são muito mais invasivas e têm um impacto infinitamente maior até mesmo da televisão. As pessoas agora estão sendo levadas a ter uma percepção da vida como uma sucessão de pequenas tarefas desconectadas entre si, exatamente como no game de Rapunzel. O ser humano é produto de histórias, da preservação de memórias, enfim, da narrativa. Não há mais narrativa. Tudo não passa de ação e reação.








Paulinho da Viola, cantor, entrevista concedida ao jornal O estado de São Paulo, sábado, 10.11.2012


Sobre a estética do samba, as novas gerações parecem apenas reproduzir um padrão sedimentado...

(interrompendo) Mas eu não vejo mal nenhum em reverenciar os mestres do passado. Isso aconteceu comigo, sempre tive enorme admiração por Pixinguinha e Luis Gonzaga, os dois grandes nomes da música brasileira no século passado. Não vejo contradição, não vejo como um fato negativo, o fato de artistas jovens fazerem por amor a reprodução de coisas que já foram feitas. Isso faz parte. Quando uma turma se junta para cantar um samba com cavaquinho, pandeiro e tamborim, é aquele samba mesmo que ela vai cantar. Ninguém está pensando em evolução, nesse momento.As pessoas estão felizes, cantando. Já participei muito dessas rodas e posso dizer que quem está lá, faz isso por amor.







Gilles Lipovetsky, filósofo francês, à revista Isto É, número 2231

Como descreveria , citando uma expressão sua, o mundo de hiperconsumismo em que vivemos?

Tudo no dia a dia depende de uma compra. Somos constantemente obrigados a comprar. Se você sai, tem de pagar o carro, o avião e isso implica gastar dinheiro. Pense em coisas que antes não eram consumidas. Da última vez em que estive em São Paulo, o motorista me levava ao hotel e, no caminho, via as pessoas correndo em academias, em esteiras. As pessoas hoje pagam para correr, sendo que, antes, corríamos de graça. Antes para nadar, íamos aos rios. Agora temos que pagar para frequentar piscinas. Antes quando tínhamos problemas pessoais falávamos com o padre e ele dizia o que fazer. Hoje falamos com o piscólogo . O gosto mais elementar da vida, que é conversar, pedir conselhos, virou consumo, pagamento.



Jonathan Franzen, escritor americano, à revista Época no. 737, edição de 2 de julho de 2012.Escreveu os romances Correções e Liberdade.

No livro Como ficar sozinho o senhor ataca a dependência do celular. Mesmo assim o senhor usa celular, não?

Sou um dinossauro em tecnologia.Detesto comandos de toque,meus dedos sentem desconforto com celulares touch. Não gosto de programas que completa palavras, do iPhone e da Apple. Não acho que Steve Jobs tenha feito um bem à humanidade. O iPhone e similares substituíram o cigarro. Os tabagistas trocaram a compulsão do cigarro pela do celular. A razão é que as pessoas ficam nervosas quando não estão fazendo alguma coisa. Aí entra o celular com o elixir para a obsessão de faze algo. Precisamos aprender a não fazer nada.

Como então seduzir as pessoas para algo tão antiquado quanto a literatura?

O escritor precisa despertar o interesse do leitor com uma história original e de compreensão fácil. Não adianta querer fazer malabarismo experimental que o leitor vai fugir. Ninguém mais tem paciência para jogos de linguagem como os de James Joyce. Quero ser legível. O mercado de livros é competitivo. O desafio é alcançar ao mesmo tempo a relevância artística e a adesão do leitor. Com escrever ficção e ser verdadeiro? Eis aí o paradoxo. Infelizmente, no mundo de hoje, se você não vende, não alcança repercussão. Se não fosse a revista Time ter elogiado meus livros, eu certamente não teria feito sucesso.


Nelson Rodrigues , revista Época, edição histórica da editora Globo, 2012, texto de Luis Antonio Giron.

O senhor pode dar uma mensagem à posteridade?Eu queria dizer à juventude que seja livre. Se o homem de um modo geral , tem vocação para a escravidão, o jovem tem uma vocação ainda maior. O jovem, justamente por ser mais agressivo e ter uma potencialidade muito generosa, é muito suscetível aototalitarismo. A vocação do jovem para o totalitarismo, para a intolerância é enorme. Eu recomendo aos jovens, envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais depressa possível, isso é um azar, uma infelicidade. Eu já fui jovem também e não me reconheço no jovem que fui. Eu só me acho parecido comigo até os dez anos e após os trinta. Eu já era o que sou quando criança. Na adolescência eu me considero uma paródia, uma falsificação de mim mesmo. Depois, a partir dos trinta eu me reencontro. Por isso, digo aos jovens: não permaneçam muito tempo na juventude que isso compromete.




PAUL AUSTER, na entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, caderno 2, 06.04

Escritores de geração diferentes, como Philip Rothe Gary Shteingart, disseram a este jornal que o romance está se tornando uma arte irrelevante

Eu já tive essa conversa com o Philip até em público e discordo dele. E acho que o romance ainda é importante para o públicoleitor. Como arte ele proporciona algo que não temos em nenhuma forma, uma intimidade com o outro. Cada romance é escrito por duas pessoas, pelo autor e pelo leitor, eles produzem a obra juntos. Ele coloca dois estranhos em absoluta intimidade. E isto nos remete ao que significa ser humano. Ainda que em números, o público seja menor, para nós, que ainda queremos ler romances, ele continua muito relevante.


FINALMENTE, CHICO BUARQUE saiu do armário e disse a que veio, entrevista à Rolling Stone


Hoje parece que há mais interesse sobre a vida pessoal do artista. Você percebe isso?

( Longo silêncio) Que a vida pessoal ficou mais exposta do que há vinte, trinta anos, não tem a menor dúvida(...) mas não me afeta tanto assim.Me afeta, por exemplo, ao ir à praia. Nasci em frente ao mar, nadava em Copacabana, pegava jacaré no arpoador, mergulhava. Até o dia em que saio da praia e um sujeito se agarra em mim, começa a berrar, gritar no meu ouvido e perguntar algumas coisas. Quando me dou conta; "Ih, tem um cara lá filmando. Isso aqui é um número cômico de um programa de televisão" Resultado: não posso ir à praia. Mas não é o fim do mundo. Deixo de ir à praia, de ir ao restaurante da rua Dias Ferreira e pronto. Isso não me afeta grandemente. falei sobre isso na Internet: você está mais exposto, mas aí é você - pessoa - e sua obra também. Com a Internet aumentou muito o número de críticos, se multiplicou um milhão de vezes. Como no caso da história do verso que você está apontando. Sei exatamente como ela foi criada; num blog de um cara da revista Veja que tem uma enorme estima pela minha pessoa e gosta de lançar esse tipo de futrica. ali vale tudo, já sugeriram até que eu desapropriasse meu campo de futebol para a construção de casas populares. é um problema que vem de muitos anos, uma questão doentia de uma revista contra um artista. Parece que o cara que manda nessa revista tem ambições literárias. Então ele não gostou de os meus livros ganharem prêmios porque ele quer ser escritor. Aí decidi me vingar. Sabe o que fiz? li o romance do cara, um tal de [Mario] Sabino. Não é parente do Fernando Sabino, acho. Fui até o fim, li tudo, tudo. E fiquei tranquilo, passou a raiva [risos]. falei; " Bom o melhor que esse cara tem a fazer é ser editor da revista Veja".


NOSSO CÉREBRO NOS FAZ PENAR PORQUE

NÃO SE MODERNIZOU COMO DEVERIA


Dean Buonomano, professor do departamento de Neurobiologia e Psicologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, autor de O cérebro Imperfeito

Em seu novo livro o senhor afirma que o cérebro humano é a máquina mais complexa que se conhece, mas aponta problemas em seu funcionamento. Poderia nos dar um exemplo?

Se você memorizar as palavras chocolate, paçoquinha e chiclete e, logo em seguida, eu perguntar se a palavra doce está entre elas, você provavelmente precisaria pensar por alguns instantes antes de responder. Doce não estava na lista, mas como todas as outras palavras se referiam a doces, o cérebro se confunde. Não seria assim se eu perguntasse sobre a palavra capivara. Por nada ter com as demais ela seria rapidamente descartada. Isso acontece porque nossa memória não armazena itens. Ela funciona relacionando conceitos e significados, como na lista de doces. Isso pode ser bom em alguns casos, uma fonte de problemas em outros.

Há outras falhas além dessas?

Sim, o cérebro não foi moldado para ter a capacidade cálculo de um computador, que é o que se exige dele hoje em dia. Isso se explica , em parte, pelo processo de evolução por seleção natural

As falhas do cérebro estão relacionadas à evolução?

Nosso cérebro está adaptado para um passado remoto, quando não era necessário lidar com números da forma que hoje somos exigidos hje: temos de lembrar de telefones, senhas , estatísticas. O cérebro não evoluiu para essas necessidades e os neurônios parecem não estar preparados para processar números. No mundo primitivo se você via um ninho de cobras, não precisava contar se eram dez ou doze. Bastava saber que eram muitas e fugir.

Nossa bagagem evolutiva explica os problemas das pessoas com o planejamento financeiro?

Sim. É isso que faz com que nossas decisões sejam influenciadas com o curto prazo. Em termos evolutivos faz todo o sentido. Se você oferecesse uma maçã a um homem há cerca de 100 mil anos, ele a pegaria naquele momento, mesmo se você prometesse, em troca da recusa, duas maçãs para a próxima semana. O raciocínio é da sobrevivencia. Diante da opção de obter uma uva imediatamente ou duas depois, até os macacos mais bem treinados não resistem à tentação por dez segundos.

Existe então uma luta entre um sistema de tomada de decisões intuitivo, emocional e , portanto, primitivo e outro mais reflexivo, resultado de planejamento e análise?

Certamente. Em muitos casos, o raciocínio automático pode predominar em determinado momento. É como disse logo no início: se você perguntar a alguns amigos o que as vacas bebem uma parte deles dirá leite. Isso acontece porque, quando criança, aprendemos a associar vaca com leite, e os neurônios que codificam as duas palavras aprendem a se ativar ao mesmo tempo.




O OTIMISMO PODE SER MUITO NOCIVO


Roger Scruton, filósofo inglês , entrevista à Veja,

No seu último livro, o senhor afirma que o otimismo é mais nocivo para os indivíduos e para as nações que o pessimismo. Como o otimismo pode ser tão prejudicial?

Não falo do otimsmo como virtude, nem da esperança, ou da fé que servem para a elevação espiritual do indivíduo e fomentam inovações e avanços. O otimismo prejudicial é o desmedido, ou, como disse o filósofo Arthur Shopenhauer, o otimismo mal-intencionado, inescrupuloso. É o tipo de pensamento que está por trás de todas as tentativas radicais de transformar o mundo, de superar as perturbações típicas da humanidade por meio de um ajuste em larga escala, de uma solução ingênua e utópica como o comunismo, o fascismo e o nazismo. Otimismo e utopia em excesso , em geral, acabam em nada, ou pior, dão em totalitarismo .


ROGER, DA BANDA ULTRAJE A RIGOR

De que você mais sente falta dos anos 80, época do auge do sucesso popular de vocês?

Vi o Caetano falar recentemente uma coisa com a qual concordo. Na verdade, sinto falta de juventude, desse ímpeto maior de fazer as coisas, desse nível de testosterona mais alto, cientificamente falando(risos). A gente vivia uma vida maravilhosa, mas não é a vida que eu queria estar levando agora(...)

O que você acha do rock nacional, agora?

Se infantilizou, né?Existem , claro, várias bandas, mas não é um movimento(...) Na nossa época a gente percebia que tinha uma cena(...) Mas me parece uma coisa mais voltada para a finalidade de aparecer, na nossa época era uma coisa mais espontânea. Hoje parece que o rock é feito para um público de 12, 13 anos.



Lars Von Trier, revista Veja, edição de 10 de Set


Em Melancolia, o senhor simpatiza com o sentimento de Claire, a personagem que se desespera quando sente que o mundo vai acabar. Mas é com a depressiva Justine, que encara o fim do mundo com serenidade, como uma libertação, que o senhor se irmana. em sua opinião, estaríamos melhor, como indivíduos, se simplesmente parássemos de brigar com a ideia de que estamos sós, e rumando para o nosso fim?

Acho que a vida é uma ideia muito ruim. Se essa ideia partiu de Deus eu o culpo por largar essa ideia no meio do caminho, sem levá-la a uma conclusão lógica. Imagine uma criança que ganha um trem de brinquedo e o põe para funcionar; ele corre no trilho uma dezena de vezes, a criança se diverte , e então perde o interesse. O que acontece com o trem depois que a criança o larga? Isso, para mim é a vida- se Deus a criou, e eu não acredito Nele, mas vamos supor que exista, Ele logo a largou, correndo por aí, sem um pensamento para o fato de que criou seres que sabem que cada passo deles na Terra causa o sofrimento de uma planta, um animal, ou outro homem, e que têm de enfrentar a consciência de que sua existência é finita.
Isto é, nascer sob uma sentença de morte. Se eu fosse um bicho, sem noção de que vou morrer e de que posso magoar os outros o tempo todo, sem culpa de espécia alguma e ocupado apenas em comer, excretar e me reproduzir, então a vida poderia ser tolerável. Mas não da maneira que ela é, para os homens. Não é justo. Se antes de eu nascer me consultassem sobre se eu quero existir neste mundo, eu diria não - absolutamente não.


(...) A letra de música não se explica, se ampara na própria melodia. Pois melodia já é letra: já sugere se é alegre outriste. A literatura não: mantém muito mais a ambiguidade. A letra não quer que tu não a entendas. Penso assim: quando o sil~encio é muito forte, é literatura. Na música o silêncio é mais curto. Na poesia, a melodia (é) a palavra. A música tem um sentido mais comunicativo, mais generoso. Não é preciso entrar nela para entendê-la. Já na poesia tem de entrar. Não Há como olhar de fora. A diferença é grande.

Nelson Mota:

Se Tim Maia surgisse hoje com o mesmo talento e o mesmo temperamento, ele teria chance de estourar, como em 1974?

Acho difícil. A sociedade está mais careta, repressiva, intolerante.Dificilmente aceitaria um personagem com a liberdade e anarquia dele. Tim Maia é palavrão, um baseado atrás do outro. Mas as pessoas riam, não se chocavam com ele. As pessoas não o levavam a sério. Hoje iam acusá-lo de falar mal disso, daquilo, de gays, de evangélicos. Tim Maia nasceu na época certa.