sexta-feira, 23 de junho de 2017

GALVÃO BUENO PEITA A REDE GLOBO





AS MELHORES DA SEMANA
Comentadas por Juca Polincó ( o filósofo politicamente incorreto da periferia)








1.QUEM NÃO TEM DEUS VAI DE ARCEBISPO...

Arcebispo do Rio de Janeiro foi invocado como testemunha de defesa de Sérgio Cabral, no processo da Lava Jato.

Comentário de Juca:

Dizem que, desesperado pra se livrar da cadeia e sem poder contar com Gilmar Mendes ( especialista em tirar corrupto da cadeia) , Sérgio Cabral, a princípio teria tentado Deus. Como Deus não lhe deu bola ele foi até  São Sebastião, padroeiro do Rio. Como São Sebastião, em resposta mandou-lhe um pôster de sua  imagem tradicional com  o corpo cheio de flechadas, para mostrar que a população do Rio, por sua culpa está pior do que ele, Sérgio Cabral desceu até o papa que, apenas respondeu que rezaria uma ave-maria pela sua alma. De degrau em degrau, cada vez mais baixo na hierarquia do céu Sérgio Cabral apelou para o arcebispo, que ainda não se manifestou.
“Tudo indica que, se ele se negar, Cabral vai tentar o  pastor Malafaia.”

2. GALVÃO BUENO PEITA A REDE GLOBO

A Rede Globo, pela primeira vez começou a cortar as muitas regalias de Galvão Bueno. Entre cortes de viagens, gratificações  e outras está a imposição de que , ao invés de narrar jogos  na Europa, nas luxuosas cabines de transmissão de estádios caríssimos, hospedado em hotéis com estrelas a perder de vista, Galvão passe a narrá-los, agora,  na frente da tevê, mesmo.

Comentário de Juca:









Dizem que Galvão Bueno teria ficado tão puto que, em represália já teria deixado de tomar as pastilhas especiais para garganta que o fazem demorar quinze minutos gritando GOOOOOOOOOOL, quando o Flamengo joga ou Neymar faz um gol. Segundo ele, o grito de gol agora terá metade de duração , e se for de um time que ele não gosta, tipo Vasco ou Botafogo, ele apenas sussurrará. Mais ou menos como ele faz hoje, com a diferença que já levará o sussurro gravado para não ter que trabalhar as cordas vocais.  

sábado, 17 de junho de 2017

LAVA-JATO = LEI DE MURPHY.



artigo publicado no jornal O estado do Maranhão

A Lei de Murphy, universalmente conhecida como Murphologia, aplica-se sobremaneira à Lava-Jato – e como! Desde o seu axioma fundamental: “Se alguma coisa tiver que dá errado, dará!” até suas mínimas consequências. Entenda-se como Lava-jato, neste caso, não apenas a operação em si, mas os implicados na  mesma, desde os juristas a seus acusados: desde os carregadores de mala de dinheiro até o presidente da república.

            Para simplificar, chamaremos de Corolário LJ ( corolário LJ), àquela lei que, derivada das Leis de Murphy, foi comprovada, aperfeiçoada e aprimorada durante os episódios e o desenrolar da Lava-Jato.

            1.Regra da Jurisprudência, de Nelson: “Numa demanda não é da alçada de ninguém discutir a verdade”.
            Corolário LJ: Se na demanda  o presidente da República estiver sendo acusado,  a verdade se torna relativa , a realidade indecifrável, as testemunhas nebulosas e tudo o que foi visto pode mudar de  lugar ou de interpretação visual.  

            2.Postulado de Spencer: “ Um júri é composto de doze pessoas de ignorância média”.
            Corolário LJ: Se o julgamento for no Brasil e o réu for o presidente, o júri normalmente será composto por um Gilmar e vários Mendes, em média.”





            3.Lei Áurea do Direito à Corrupção no Brasil: “Paranoia é saudável. Cinismo é fundamental”.
            Corolário LJ: Paranoia é fundamental. Cinismo além de saudável é imprescindível, até o máximo do máximo,  beirando o infinito...

            4.Regra do Isomurphismo Legal: “Não há duas situações jurídicas idênticas”.
            Corolário LJ: No Brasil, tal regra só vale  se não houver Caixa 2. Neste caso, o empresário,  o político e a mala de dinheiro se repetem até a exaustão.

            5.Regra do Grande. “Quando aquele profissional conceituado que você admira e respeita parece estar tendo pensamentos profundos, ele provavelmente estará pensando no que vai comer no almoço ou no jantar.”

            Corolário LJ: No Brasil, salvo raras exceções, se  o profissional em questão for o político no qual você votou e admira, ele provavelmente estará pensando na quantidade de dinheiro que seu auxiliar trouxe na mala. 

            6.Lei do rato do navio: “Quando alguma coisa der errado tente pular fora.”
            Corolário LJ: “Se não der tente uma delação premiada.”

            7.Axioma de Beiser: “Quando colocar algo na memória , tente memorizar em que lugar da mesma  foi colocado”.
            Corolário LJ: Se você for acusado de corrupção esqueça tudo  o que estiver na memória, mas se os delegados insistirem esqueça até de que você teve memória um dia.

            8.Princípio da Culpa de Collor: “O grau de culpa é diretamente proporcional à intensidade de negação de culpa.
            Corolário LJ: (aprimorado por Temer, passando por Aécio): Como também à vontade obsessiva de não largar o osso.

            9.Lei do Ministério do Planejamento: “Nada jamais sai do jeito que foi planejado.”
            Corolário LJ: “Quando a propina acontece de ser bem planejada,  os apelidos não são.”

            10.Lei do juiz Nicolau: “Sempre que a gente inventa um bom golpe, aparece um FDP para dedurar”
            Corolário LJ: “E ainda sai premiado pela delação!”







            11.Extensaõ da extensão da lei de Murphy: “Nada é tão ruim que não possa piorar ainda mais”
            Corolário LJ: Quando se pensava que não poderia haver nada pior que Lula veio Dilma Roussef. E depois dela, Michel Temer.

Jose E
werton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis





                                                                       ewerton.neto@hotmail.com

terça-feira, 13 de junho de 2017

O JUMENTO ENFRENTA O CAVALO DE LATA





artigo publicado no jornal O estado do Maranhão


Como é triste a sina do pobre do jumento! Ao longo do tempo, para sobreviver,  acabou tendo que se acostumar ( que jeito!) ao chicote do carroceiro e aos seus  xingamentos . Vieram as inovações deste século  e a tudo isso ele aguentou, estoicamente e de longe, como é de seu feitio: internet, o forró eletrônico,  o aedes egyptus; o ecstasy, o sexo virtual, o VLT, o bullyng e a Baleia Azul . Nada disso abalou sua paciência. Até que apareceu o cavalo de lata.
            Sim senhores: o cavalo de lata. Por obra e graça das autoridades do trânsito desta  cidade acaba de ser anunciado O CAVALO-DE-LATA, com o fim de debandar definitivamente o jumento das ruas e avenidas da cidade. Sob a alegação ser um equipamento capaz de melhorar o fluxo de veículos (na verdade, uma parafernália eletrônica a meio caminho entre uma carroça e um carro) a geringonça surge com a função de substituir, com vantagem, segundo os anunciantes, os serviços até agora  prestados pelo humilde jumento. O fato é que, mais uma vez, um  trabalhador brasileiro honesto fica ameaçado de perder o seu emprego e seus direitos. (Honestíssimo, diga-se de passagem, pois nunca se viu um jumento se corromper e exigir propina como fazem tantos por aí).    
            Por que a Reforma Trabalhista de Temer tinha que chegar também ao jumento? Solidários com essa classe tão sofrida, fomos entrevistar um deles. Comia tranquilamente o seu capim numa das praças da cidade. Por coincidência era justamente o presidente do sindicato.







            -E então, senhor Jumento. Tem algo a dizer a respeito da novidade?
            - Uma grande injustiça. Como acreditar que um cavalo venha  nos substituir, ainda por cima, de lata? O que vai acontecer com nossos empregos? Até agora ninguém nos informou de nada.
            - As autoridades garantem que isso beneficiará a classe. Ao melhorar  o fluxo de veículos, ao mesmo tempo, evita que a classe dos burros seja maltratada.
            -Mentira!  O carroceiro nos chicoteia  mas nos arruma o que comer. Quem nos alimentará agora? Onde permaneceremos?
            -Seria uma espécie de aposentadoria.
            - E quem disse que queremos nos aposentar? Garantimos nossa sobrevivência até hoje com nosso trabalho, que nos impediu de sermos exterminados. Por acaso estariam pensando em nos hospedar  em hotéis de luxo com estrebarias com ar condicionado e capinzais a perder de vista?
            - Eles alegam que o exercício da profissão de vocês atrapalha o trânsito.
            -Outra  mentira deslavada. Se  querem trânsito rápido porque enchem as avenidas de barreiras eletrônicas e guardas justamente para que os carros circulem mais devagar? Por que a barreira eletrônica serve para retardar o trânsito e nós não? Haja incoerência e  preconceito.  
            -Que estão pensando em fazer para reagir, como forma de chamar a atenção. Alguma manifestação programada?
            -Não precisa. A nossa própria existência já é uma manifestação de luta, de coragem e patriotismo. Só queríamos era continuar com  nosso trabalho tão pouco valorizado.
            -Sr. Jumento, infelizmente,  o nosso tempo acabou.  O nosso propósito  é justamente chamar a atenção do povo e das autoridades para mais essa injustiça. Alguma coisa a mais?
            -Sim.
            -O quê?
            - Se nada puder impedir que o Cavalo de Lata venha, estamos  dispostos até a aceitar o convívio com eles. Mas que não inventem  jamais o Jumento de Lata. Aí seria demais!



                                                 



José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas





                                                                       ewerton.neto@hotmail.com

sábado, 10 de junho de 2017

AO NAMORADO. COM CARINHO







As mulheres (namoradas ou não) sempre reclamam  da  dificuldade de escolher um presente para um namorado.  Na verdade, parece que mais importante para a mulher  que o namorado em si, é ter alguém para quem dar um presente  mesmo que raramente eles o mereçam, principalmente se forem namorados de verdade.

             A dificuldade é  elementar : os homens são tão básicos que a lista de opções não passa de três (bermuda, boné e bebida) sendo que qualquer tentativa de inovação acaba dando em merda. Como, por exemplo, um caso recente na Rússia, quando a companheira de um moscovita  quis dar-lhe de presente uma prótese peniana e ele, em troca lhe deu um nariz novo, depois de uma sessão de bofetes.                                                     
                                                   
            Entre outras alternativas seguem as 6 melhores

            1.Dê-lhe um namorado.
            Isso mesmo: um namorado. Com duas possibilidades Na primeira, o namorado que você vai lhe dar de presente é outro  namorado seu (oculto, claro) o que implica fazê-lo desconfiado, de que você tem outro. Embora aparentemente inconformado com o chifre em potencial, acredite, num futuro não muito distante ele estará feliz da vida com isso. A explicação – se Freud não explica, Darwin dá um jeito – é a de que todo homem adora uma competição e tende irremediavelmente para ser corno, ( no final, quando morre,  é  traído pela vida – sua mais adorada companhia) e no resto do tempo, ( que jeito!) aprimora-se .  



                                                   




            Na segunda hipótese arranje um namorado para ele. Isso, de acordo com as tendências atuais o fará exultar.  As razões são por demais evidentes: sucesso na mídia, destaque nas redes sociais e, para o futuro, direito a cotas nos concursos públicos. (depois de negros e pardos é o que se espera das próximas ). Enfim, ao invés de você ter de dar uma de homem para salvar o relacionamento, trocando as lâmpadas de sua casa, xingando os motoristas por ele, torcendo por time de futebol ou lhe ensinando MMA, dê-lhe logo um homem de verdade.  

            2.Um livro.

            Vá de best-seller, mas, de preferência um que tenha virado filme, como A culpa é das estrelas.  Se o cara não gostar de ler, há de gostar de cinema,  e orgulhosamente, poderá dizer que gostou mais do filme que do livro,  sem ter aberto sequer uma página do mesmo. Se ele não gosta nem de livro, nem de cinema e muito menos de você há uma vantagem óbvia nesse presente específico. Quando as amigas lhe perguntarem  porque o namoro acabou você poderá responder candidamente que A culpa foi  das estrelas.

            3.Uma camisa de futebol.

            Existe homem que não gosta de futebol? São poucos, mas existem. Mas, que não goste de camisa não existe nenhum, certo? Se na hora de adquiri-la você não se lembrar do time dele (mulheres não costumam lembrar-se disso e além disso tem marmanjo  que troca de time mais rápido do que de namorada) só tenha o cuidado de escolher um produto pirata para que dure , pelo menos, o tempo em que vocês se suportarem. E já que o assunto é camisa porque não dar-lhe uma camisinha? Eles não costumam gostar do produto, mas da insinuação, sim.



                                                      




            4.Uma lupa.
            Um presente além de original,  significativo, se ele for bom entendedor ou não. Para que ele consiga descobrir onde está o seu Ponto G.

            5.Uma passagem para o Japão.

            Não para ambos, mas para ele, somente, e isso se você já tiver um tempo longo de namoro, digamos, mais de oito meses, atualmente.  Trabalhe, sue a camisa, faça um pouco de sacrifício, mas mande-o urgentemente para o Japão ou para a Cochinchina, sem passagem de  volta. Claro,  nem toda mulher tem dinheiro para gastar com passagens de avião para namorado,  mas lembre-se : sairá muito mais caro se ele continuar com você.



                                                          





            6.Uma criança.
            Isso , dê-lhe uma criança. De preferência sua, e de preferência com outro (sem que ele saiba). Isso o fará refletir pela primeira vez na vida e num segundo você descobrirá  o que ele quer, de fato, com você. Você tem uma chance em mil  de ele assumir seu presente, mas creia, isso acabará lhe saindo vantajoso. É melhor uma filhinho na mão do que um cafajeste enfiado em outro lugar seu. 


José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis



domingo, 4 de junho de 2017

INTRODUÇÃO À TEORIA DO NADA SEI





artigo publicado no jornal O estado do Maranhão, quinta-feira

Tudo indica que o Não sei começou milionésimos de segundos após Deus ter criado o Universo. Inquirido por si mesmo (Deus é pai e filho ao mesmo tempo)  sobre qual a  razão  de ter feito isso ele, sentindo-se culpado e já com remorso,  respondeu: “Não sei”.



                                  





            E foi assim que o “Não sei” começou sua grande trajetória. Toda a matéria em expansão a partir do big-bang (átomos se chocando entre si sem saber por que) reproduzia,  em pensamento, claro, as primeiras palavras sentenciadas pelo Todo Poderoso. Os átomos em revolução, nem precisavam falar  para deixar a entender que estavam movidos de agora em diante pela Lei do Não sei. Por que vocês estão se expandindo? “Não sei”. Onde e quando isso vai parar? “Não sei”.
            E assim o Não sei passou a conduzir todas as ações do Universo através do tempo. A dúvida, não a certeza, comandava as realizações, se é que podemos chamar assim. Quando 12 bilhões e muitos  milhões de anos  depois, os ancestrais dos homens começaram a se formar (parecidos a chimpanzés, num planeta minúsculo de uma galáxia desprezível)  algo, ou alguém, quis saber de Deus porque ele havia cometido o desperdício de deixar nascer esses seres insignificantes, dando-lhes  a capacidade de pensar. Deus teria respondido: “Para ter alguém que  pense e fale Não sei, como eu naquele dia. Por vingança, talvez”  Enfim, Deus precisava de alguém para dividir sua culpa original.
            E assim de Não sei em Não sei,  os homens e o Universo chegaram  até hoje. Cerca de 2500 anos atrás, Confúcio, um humano que pensava um pouquinho mais  que os outros, resumiu em poucas palavras a arquitetura desse dilema divino, que se tornou humano : “Quanto mais sei , mais sei que nada sei.”
            Dizem que Deus teria ficado muito satisfeito com o resumo de Confúcio.  

            2. Ninguém poderia imaginar, porém, que, algum tempo depois,  neste século de 2000 d.c.  o Não sei viesse a se alastrar como epidemia num país chamado Brasil, o país do lava-jato, a ponto de ser a expressão mais repetida pelas autoridades  que o dirigem. É Não Sei pra cá, Não sei pra lá, a cada pergunta da Justiça, parecendo que os políticos, só sabem  conjugar o verbo saber da seguinte maneira: Eu não sei, tu sabes , ele sabe, nós sabemos, vós sabeis eles sabem. Ou seja, todo mundo sabe que eles sabem, só eles não. Ora, que impacto tem isso para a teoria?




                                  





            Tudo indica  que o Não sei da dúvida,  que se iniciou divina e universal aos poucos se tornou  existencial e humana, evoluiu,  e se transformou no  Não Sei do cinismo e da desfaçatez . Só assim se  explica que alguém que receba um meliante em sua casa (ou palácio) dez horas da noite, ou então se aposse de uma mala de dinheiro, ou então se apodere de um sítio,  com gravações, vídeos, e testemunhas comprovando o crime, tenha o desplante de dizer,  com a maior cara de pau,  que não sabe e não viu o que aconteceu.
            Pobre Confúcio, pobre Deus! Os  brasileiros, sem conseguir corromper a realidade, corromperam o Não sei original a ponto de transformarem a sábia frase de Confúcio “Quanto mais sei, mais sei que nada sei” em: “ Quanto mais eu sei que sei, mais minto que nada sei ”  

            Deus não deve estar nada satisfeito.   

José Ewerton Neto é autor de O oficio de matar suicidas

DE UMA BOA ENTREVISTA

Françoise Héritier, antropóloga francesa, publicou o livro O sal da vida - entrevista à Revista Isto É no.2303, 15 jan2014

Qual o símbolo mais forte da Sociedade Moderna?

O símbolo mais forte da sociedade moderna é certamente o uso do Facebook e sua rede de falsos amigos, que amam todas as mesmas coisas ao mesmo tempo. Esse grande sentimento falso de pertencimento cria um mundo desmaterializado. Não ver mais as pessoas em carne e osso talvez não impeça os urgimento de laços mais fortes, mas fundir-se aos outros não significa encontrar-se. Isso constitui uma grande armadilha: a despersonalização em vez da afirmação de si.


Sobre uma das obsessões do personagem o escritor irlandês John Banville diz: " A morte nos forma. Tudo o que fazemos é um desafio à morte, em oposição a ela. A morte é o grande dom e o grande horror, que nos foi dado, junto à nossa consciência."

Concorda com essa informação?

Concordo. sem a morte e o saber da morte, o homem seria como os animais que, segundo Bataille, estão no mundo como a água está na água. Andar de quatro seria isso, ser assujeitado ao meio a ponto de não se distinguir dele. A linguagem quebra a cluna do tempo, trazendo a morte do futuro para o presente, e como o presente é o futuro do passado, tudo que é humano é cortado pela morte - o que faz de nós uma espécie solitária, recortada do mundo; faz de cada homem sozinho, recortado do conjunto de outros homens. Por isso não há O homem, há cada um tentando a muito custo lançar alguns fios sobre os bismos que o separam ( desde sempre) dos outros homens. Só que a linguagem é o abismo e são os fios. A linguagem os aproxima, porque de saída afasta os homens irremediavelmente. Depois que estiverem todos muito longe uns dos outros e sobretudo de si mesmos, os homens poderão falar por uns fios de linguagem, mas não falarão uma linguagem que lhes é imposta fascista (Barthes), mas um tanto mais livre porque visitada tanto pela inteligência quanto pelo afeto. Não sabemos nunca o que fazer com o corpo que é uma constante subtração de si. Sabemos ( por culpa de Montagne) que um bebê já é velho suficiente para morrer, então que só se escreve movido por essa constante subtração de si que define o corpo vivo. Não ficamos de pé quando encontramos o fogo, mas quando encontramos a linguagem. Lejeune ( ou Teodórov) diz uma coisa muito bonita:os homens que andam pelas ruas só para de pé porque são homens-narrativa. Eu diria porque são homens-linguagem. Então, então mesmo: só se escreve a partir da morte, que retroage sobre nós, nos impulsiona, exige o trabalho de tornar a vida minimamente viável, não aplacando seus núcleos infernais, mas fazendo disso alguma coisa que nos coloque de pé.





José Ramos Tinhorão, jornalista e crítico musical à revista , Jornalismo/Cultura, edição 2


O que teria motivado ele a fazer isso [ sobre ter sido chamado agente da CIA por Sérgio Cabral em o Pasquim]?

Sèrgio Cabral fez aquilo dentro de coisas que achava correto naquele momento. Ele ficou amigo de Tom Jobim. Tom Jobim como figura humana era extraordinária: gostava de passarinho, gostava da natureza...Mas não venha dizer para mim que ele é uma expressão da cultura brasileira, não é!As harmonias são harmonias americanas, ele chupava música americana. E não é um cara original: Samba de uma nota só é Mr Monotny, de Irving Berlin ( gravado por Judy Garland); Sabiá é a overture da Ópera dos três vinténs, de Kurt Weill; Desafinado, é o samba Violão Amigo, de Bide e Marçal ( cantarola as melodias idênticas de Violão Amigo e Desafinado) Então não é, não tem criação! Uma vez eu escrevi isso, eles ficaram putos, mas escrevi que Tom Jobim era "barriga de aluguel" da música popular. Quando o inseminavam, ele produzia coisa boa. Se não fosse inseminado não produzia nada.









Arnaldo Cohen, pianista renomado, à revista Época, número 771, março, 2013

A música brasileira não é um orgulho nacional?

É preciso dizer uma coisa: do ponto de vista rítmico a música brasileira encontra poucos rivais na erudita. Talvez Igor Stravinski ( compositor russo) tenha conseguido criar um universo sonoro rítmico tão sofisticado quanto os ritmos afro-brasileiros. Na parte harmônica, porém, ela é pobre. Claro, há excessoes como as composições de Egberto Gismonti, Tom Jobim ou Francis Hime. Mas, em geral, a musica popular brasileira precisa se beneficiar adas lições de harmonia que o Ocidente vem dando há 300 anos...


Suzan Greenfield, neurocientista inglesa, em entrevista à Veja, 09.01.13, edição 2303 alerta para os riscos para o cérebro em consequência dos estímulos positivos da internet, rede social e video-games


O convívio nas redes sociais aceita uma latitude maior na conduta ética das pessoas?

Sem dúvida. Nas redes sociais as pessoas podem se comportar como jamais fariam no mundo real. Elas perdem seus constrangimentos, o que normalmente barra os maus comportamentos. Na rede muita gente se expõe como jamais faria nem mesmo no ambiente familiar ou na frente de amigos íntimos. Essa liberalidade começou com os e-mails, mas atingiu o ápice com o facebook. os limites do certo e errado estão cada vez mais difíceis de ser definidos. O livro O senhor das Moscas de William Golding, conta a história do naufrágio de alguns estudantes. Presos em uma ilha e submetidos a enormes privações, eles perdem o verniz civilizatório e se tornam selvagens. Por alguma razão estar nas redes sociais pode produzir o mesmo efeito de desconsideração com os outros que acometeu os estudantes de Golding, presos na ilha.

A comunidade científica levou a sério seu alerta sobre o perigo de os vídeos-games, na infância estarem produzindo adultos sem ética e atrofiados emocionalmente?

Essa é uma constatação irrefutável. Pense na fábula da princesa presa na torre. existe uma enorme diferença entre ler Rapunzel em um livro e ade participar de uma game em que o objetivo é resgatá-la. O livro apresenta à criança a narração plena da história da princesa. A vida dela faz parte de um contexto. Já no game a princesa é apenas um objetivo, não importa nem como ela chegou aprisionada na torre, não se constrói em nenhum momento um vínculo emocional com a personagem, tampouco se discutem as questões éticas de aprisionar alguém ou as vindas de caráter ou do coração do ato de salvá-la. A única coisa que imporqa é ganhar o jogo. Parece-me evidente que são vias bem distintas.


Antes eram as revistas em quadrinhos, depois a televisão, agora a Internet e os games. Será que cada era tem o seu falso inimigo do cérebro das crianças?

Existe uma diferença crucial. As novas tecnologias são muito mais invasivas e têm um impacto infinitamente maior até mesmo da televisão. As pessoas agora estão sendo levadas a ter uma percepção da vida como uma sucessão de pequenas tarefas desconectadas entre si, exatamente como no game de Rapunzel. O ser humano é produto de histórias, da preservação de memórias, enfim, da narrativa. Não há mais narrativa. Tudo não passa de ação e reação.








Paulinho da Viola, cantor, entrevista concedida ao jornal O estado de São Paulo, sábado, 10.11.2012


Sobre a estética do samba, as novas gerações parecem apenas reproduzir um padrão sedimentado...

(interrompendo) Mas eu não vejo mal nenhum em reverenciar os mestres do passado. Isso aconteceu comigo, sempre tive enorme admiração por Pixinguinha e Luis Gonzaga, os dois grandes nomes da música brasileira no século passado. Não vejo contradição, não vejo como um fato negativo, o fato de artistas jovens fazerem por amor a reprodução de coisas que já foram feitas. Isso faz parte. Quando uma turma se junta para cantar um samba com cavaquinho, pandeiro e tamborim, é aquele samba mesmo que ela vai cantar. Ninguém está pensando em evolução, nesse momento.As pessoas estão felizes, cantando. Já participei muito dessas rodas e posso dizer que quem está lá, faz isso por amor.







Gilles Lipovetsky, filósofo francês, à revista Isto É, número 2231

Como descreveria , citando uma expressão sua, o mundo de hiperconsumismo em que vivemos?

Tudo no dia a dia depende de uma compra. Somos constantemente obrigados a comprar. Se você sai, tem de pagar o carro, o avião e isso implica gastar dinheiro. Pense em coisas que antes não eram consumidas. Da última vez em que estive em São Paulo, o motorista me levava ao hotel e, no caminho, via as pessoas correndo em academias, em esteiras. As pessoas hoje pagam para correr, sendo que, antes, corríamos de graça. Antes para nadar, íamos aos rios. Agora temos que pagar para frequentar piscinas. Antes quando tínhamos problemas pessoais falávamos com o padre e ele dizia o que fazer. Hoje falamos com o piscólogo . O gosto mais elementar da vida, que é conversar, pedir conselhos, virou consumo, pagamento.



Jonathan Franzen, escritor americano, à revista Época no. 737, edição de 2 de julho de 2012.Escreveu os romances Correções e Liberdade.

No livro Como ficar sozinho o senhor ataca a dependência do celular. Mesmo assim o senhor usa celular, não?

Sou um dinossauro em tecnologia.Detesto comandos de toque,meus dedos sentem desconforto com celulares touch. Não gosto de programas que completa palavras, do iPhone e da Apple. Não acho que Steve Jobs tenha feito um bem à humanidade. O iPhone e similares substituíram o cigarro. Os tabagistas trocaram a compulsão do cigarro pela do celular. A razão é que as pessoas ficam nervosas quando não estão fazendo alguma coisa. Aí entra o celular com o elixir para a obsessão de faze algo. Precisamos aprender a não fazer nada.

Como então seduzir as pessoas para algo tão antiquado quanto a literatura?

O escritor precisa despertar o interesse do leitor com uma história original e de compreensão fácil. Não adianta querer fazer malabarismo experimental que o leitor vai fugir. Ninguém mais tem paciência para jogos de linguagem como os de James Joyce. Quero ser legível. O mercado de livros é competitivo. O desafio é alcançar ao mesmo tempo a relevância artística e a adesão do leitor. Com escrever ficção e ser verdadeiro? Eis aí o paradoxo. Infelizmente, no mundo de hoje, se você não vende, não alcança repercussão. Se não fosse a revista Time ter elogiado meus livros, eu certamente não teria feito sucesso.


Nelson Rodrigues , revista Época, edição histórica da editora Globo, 2012, texto de Luis Antonio Giron.

O senhor pode dar uma mensagem à posteridade?Eu queria dizer à juventude que seja livre. Se o homem de um modo geral , tem vocação para a escravidão, o jovem tem uma vocação ainda maior. O jovem, justamente por ser mais agressivo e ter uma potencialidade muito generosa, é muito suscetível aototalitarismo. A vocação do jovem para o totalitarismo, para a intolerância é enorme. Eu recomendo aos jovens, envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais depressa possível, isso é um azar, uma infelicidade. Eu já fui jovem também e não me reconheço no jovem que fui. Eu só me acho parecido comigo até os dez anos e após os trinta. Eu já era o que sou quando criança. Na adolescência eu me considero uma paródia, uma falsificação de mim mesmo. Depois, a partir dos trinta eu me reencontro. Por isso, digo aos jovens: não permaneçam muito tempo na juventude que isso compromete.




PAUL AUSTER, na entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, caderno 2, 06.04

Escritores de geração diferentes, como Philip Rothe Gary Shteingart, disseram a este jornal que o romance está se tornando uma arte irrelevante

Eu já tive essa conversa com o Philip até em público e discordo dele. E acho que o romance ainda é importante para o públicoleitor. Como arte ele proporciona algo que não temos em nenhuma forma, uma intimidade com o outro. Cada romance é escrito por duas pessoas, pelo autor e pelo leitor, eles produzem a obra juntos. Ele coloca dois estranhos em absoluta intimidade. E isto nos remete ao que significa ser humano. Ainda que em números, o público seja menor, para nós, que ainda queremos ler romances, ele continua muito relevante.


FINALMENTE, CHICO BUARQUE saiu do armário e disse a que veio, entrevista à Rolling Stone


Hoje parece que há mais interesse sobre a vida pessoal do artista. Você percebe isso?

( Longo silêncio) Que a vida pessoal ficou mais exposta do que há vinte, trinta anos, não tem a menor dúvida(...) mas não me afeta tanto assim.Me afeta, por exemplo, ao ir à praia. Nasci em frente ao mar, nadava em Copacabana, pegava jacaré no arpoador, mergulhava. Até o dia em que saio da praia e um sujeito se agarra em mim, começa a berrar, gritar no meu ouvido e perguntar algumas coisas. Quando me dou conta; "Ih, tem um cara lá filmando. Isso aqui é um número cômico de um programa de televisão" Resultado: não posso ir à praia. Mas não é o fim do mundo. Deixo de ir à praia, de ir ao restaurante da rua Dias Ferreira e pronto. Isso não me afeta grandemente. falei sobre isso na Internet: você está mais exposto, mas aí é você - pessoa - e sua obra também. Com a Internet aumentou muito o número de críticos, se multiplicou um milhão de vezes. Como no caso da história do verso que você está apontando. Sei exatamente como ela foi criada; num blog de um cara da revista Veja que tem uma enorme estima pela minha pessoa e gosta de lançar esse tipo de futrica. ali vale tudo, já sugeriram até que eu desapropriasse meu campo de futebol para a construção de casas populares. é um problema que vem de muitos anos, uma questão doentia de uma revista contra um artista. Parece que o cara que manda nessa revista tem ambições literárias. Então ele não gostou de os meus livros ganharem prêmios porque ele quer ser escritor. Aí decidi me vingar. Sabe o que fiz? li o romance do cara, um tal de [Mario] Sabino. Não é parente do Fernando Sabino, acho. Fui até o fim, li tudo, tudo. E fiquei tranquilo, passou a raiva [risos]. falei; " Bom o melhor que esse cara tem a fazer é ser editor da revista Veja".


NOSSO CÉREBRO NOS FAZ PENAR PORQUE

NÃO SE MODERNIZOU COMO DEVERIA


Dean Buonomano, professor do departamento de Neurobiologia e Psicologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, autor de O cérebro Imperfeito

Em seu novo livro o senhor afirma que o cérebro humano é a máquina mais complexa que se conhece, mas aponta problemas em seu funcionamento. Poderia nos dar um exemplo?

Se você memorizar as palavras chocolate, paçoquinha e chiclete e, logo em seguida, eu perguntar se a palavra doce está entre elas, você provavelmente precisaria pensar por alguns instantes antes de responder. Doce não estava na lista, mas como todas as outras palavras se referiam a doces, o cérebro se confunde. Não seria assim se eu perguntasse sobre a palavra capivara. Por nada ter com as demais ela seria rapidamente descartada. Isso acontece porque nossa memória não armazena itens. Ela funciona relacionando conceitos e significados, como na lista de doces. Isso pode ser bom em alguns casos, uma fonte de problemas em outros.

Há outras falhas além dessas?

Sim, o cérebro não foi moldado para ter a capacidade cálculo de um computador, que é o que se exige dele hoje em dia. Isso se explica , em parte, pelo processo de evolução por seleção natural

As falhas do cérebro estão relacionadas à evolução?

Nosso cérebro está adaptado para um passado remoto, quando não era necessário lidar com números da forma que hoje somos exigidos hje: temos de lembrar de telefones, senhas , estatísticas. O cérebro não evoluiu para essas necessidades e os neurônios parecem não estar preparados para processar números. No mundo primitivo se você via um ninho de cobras, não precisava contar se eram dez ou doze. Bastava saber que eram muitas e fugir.

Nossa bagagem evolutiva explica os problemas das pessoas com o planejamento financeiro?

Sim. É isso que faz com que nossas decisões sejam influenciadas com o curto prazo. Em termos evolutivos faz todo o sentido. Se você oferecesse uma maçã a um homem há cerca de 100 mil anos, ele a pegaria naquele momento, mesmo se você prometesse, em troca da recusa, duas maçãs para a próxima semana. O raciocínio é da sobrevivencia. Diante da opção de obter uma uva imediatamente ou duas depois, até os macacos mais bem treinados não resistem à tentação por dez segundos.

Existe então uma luta entre um sistema de tomada de decisões intuitivo, emocional e , portanto, primitivo e outro mais reflexivo, resultado de planejamento e análise?

Certamente. Em muitos casos, o raciocínio automático pode predominar em determinado momento. É como disse logo no início: se você perguntar a alguns amigos o que as vacas bebem uma parte deles dirá leite. Isso acontece porque, quando criança, aprendemos a associar vaca com leite, e os neurônios que codificam as duas palavras aprendem a se ativar ao mesmo tempo.




O OTIMISMO PODE SER MUITO NOCIVO


Roger Scruton, filósofo inglês , entrevista à Veja,

No seu último livro, o senhor afirma que o otimismo é mais nocivo para os indivíduos e para as nações que o pessimismo. Como o otimismo pode ser tão prejudicial?

Não falo do otimsmo como virtude, nem da esperança, ou da fé que servem para a elevação espiritual do indivíduo e fomentam inovações e avanços. O otimismo prejudicial é o desmedido, ou, como disse o filósofo Arthur Shopenhauer, o otimismo mal-intencionado, inescrupuloso. É o tipo de pensamento que está por trás de todas as tentativas radicais de transformar o mundo, de superar as perturbações típicas da humanidade por meio de um ajuste em larga escala, de uma solução ingênua e utópica como o comunismo, o fascismo e o nazismo. Otimismo e utopia em excesso , em geral, acabam em nada, ou pior, dão em totalitarismo .


ROGER, DA BANDA ULTRAJE A RIGOR

De que você mais sente falta dos anos 80, época do auge do sucesso popular de vocês?

Vi o Caetano falar recentemente uma coisa com a qual concordo. Na verdade, sinto falta de juventude, desse ímpeto maior de fazer as coisas, desse nível de testosterona mais alto, cientificamente falando(risos). A gente vivia uma vida maravilhosa, mas não é a vida que eu queria estar levando agora(...)

O que você acha do rock nacional, agora?

Se infantilizou, né?Existem , claro, várias bandas, mas não é um movimento(...) Na nossa época a gente percebia que tinha uma cena(...) Mas me parece uma coisa mais voltada para a finalidade de aparecer, na nossa época era uma coisa mais espontânea. Hoje parece que o rock é feito para um público de 12, 13 anos.



Lars Von Trier, revista Veja, edição de 10 de Set


Em Melancolia, o senhor simpatiza com o sentimento de Claire, a personagem que se desespera quando sente que o mundo vai acabar. Mas é com a depressiva Justine, que encara o fim do mundo com serenidade, como uma libertação, que o senhor se irmana. em sua opinião, estaríamos melhor, como indivíduos, se simplesmente parássemos de brigar com a ideia de que estamos sós, e rumando para o nosso fim?

Acho que a vida é uma ideia muito ruim. Se essa ideia partiu de Deus eu o culpo por largar essa ideia no meio do caminho, sem levá-la a uma conclusão lógica. Imagine uma criança que ganha um trem de brinquedo e o põe para funcionar; ele corre no trilho uma dezena de vezes, a criança se diverte , e então perde o interesse. O que acontece com o trem depois que a criança o larga? Isso, para mim é a vida- se Deus a criou, e eu não acredito Nele, mas vamos supor que exista, Ele logo a largou, correndo por aí, sem um pensamento para o fato de que criou seres que sabem que cada passo deles na Terra causa o sofrimento de uma planta, um animal, ou outro homem, e que têm de enfrentar a consciência de que sua existência é finita.
Isto é, nascer sob uma sentença de morte. Se eu fosse um bicho, sem noção de que vou morrer e de que posso magoar os outros o tempo todo, sem culpa de espécia alguma e ocupado apenas em comer, excretar e me reproduzir, então a vida poderia ser tolerável. Mas não da maneira que ela é, para os homens. Não é justo. Se antes de eu nascer me consultassem sobre se eu quero existir neste mundo, eu diria não - absolutamente não.


(...) A letra de música não se explica, se ampara na própria melodia. Pois melodia já é letra: já sugere se é alegre outriste. A literatura não: mantém muito mais a ambiguidade. A letra não quer que tu não a entendas. Penso assim: quando o sil~encio é muito forte, é literatura. Na música o silêncio é mais curto. Na poesia, a melodia (é) a palavra. A música tem um sentido mais comunicativo, mais generoso. Não é preciso entrar nela para entendê-la. Já na poesia tem de entrar. Não Há como olhar de fora. A diferença é grande.

Nelson Mota:

Se Tim Maia surgisse hoje com o mesmo talento e o mesmo temperamento, ele teria chance de estourar, como em 1974?

Acho difícil. A sociedade está mais careta, repressiva, intolerante.Dificilmente aceitaria um personagem com a liberdade e anarquia dele. Tim Maia é palavrão, um baseado atrás do outro. Mas as pessoas riam, não se chocavam com ele. As pessoas não o levavam a sério. Hoje iam acusá-lo de falar mal disso, daquilo, de gays, de evangélicos. Tim Maia nasceu na época certa.