sábado, 14 de julho de 2018

FIM DE COPA. VITÓRIA DO VIRA-LATA





artigo publicado no jornal O estado do Maranhão


Em 1958 quando o Brasil conquistou a sua primeira Copa do Mundo de futebol o escritor Nelson Rodrigues anunciou como definitivamente sepultado o que chamou Complexo de Vira-Lata, a seu ver um tipo de psique predominante nas mentes brasileiras, decorrente de auto depreciação, por sua vez decorrente de subdesenvolvimento e falta de perspectiva. No seu entendimento, a vitória  da Copa do Mundo mostrava pela primeira vez ao mundo o que os brasileiros eram capazes de fazer.
            De fato, embora muita gente ainda insista em relevar o futebol  a um degrau secundário toda a ressonância mundial em torno do mito/evento futebolístico com participação globalizada, hoje, 50 anos após , mostra que o cronista estava certo. Aliadas a outras conquistas, as vitórias nos campos de futebol fazendo do Brasil o primeiro Tri trouxeram visibilidade e autoestima favoráveis à Nação: agora tínhamos o primeiro Rei mundial, o incontestável Pelé.
            O complexo de vira-lata parecia definitivamente enterrado.
            O tempo passou o Brasil virou o decantado País do Futebol  Mesmo sem a exuberância do passado, o Brasil conquistou mais duas Copas. Ainda que  aos trancos e barrancos o futebol parecia estar aí para balizar o futuro de uma grande Nação.
            Até que uma tragédia futebolística aconteceu 4 anos atrás,  a partir da falta de planejamento e do endeusamento midiático de profissionais incapazes (Felipão, um técnico arrogante e tosco),  refletindo o que acontecia na administração pública: o 7 a 1, vergonhoso e acachapante, inibiu  a trajetória crescente de esperança  no rumo de uma nação do primeiro mundo  em paralelo a outras  forças negativas que se juntaram para espezinhar o orgulho popular,  quando muitos líderes  brasileiros foram presos ou suspeitos de transações corruptas.
            O que se esperava era que, após isso, a derrota servisse de farol para uma mudança de rumo. Como apreciador do  futebol apontei, antes desta Copa, como nocivo o endeusamento prematuro do técnico da seleção Tite.  Cheguei a ser contestado por leitores e amigos  e bem  que gostaria que não tivesse tido razão.
            Como todos sabem a seleção fracassou com um desempenho pífio. Mais lamentável, porém,  é que, logo após a derrota iniciou-se o processo de blindagem do técnico da seleção, na base “Uma vez feito santo, tem de continuar santo” num processo de aceitação da derrota que não enxerga os erros técnicos e táticos que foram cometidos, aos quais se adiciona  alguns detalhes inusitados e extravagantes. Basta elencar o  que a Tite foi concedido : desde o salário mais alto entre todos os técnicos  de seleções a até poder se acompanhar de seu grupo de auxiliares do Corinthians, inclusive o filho (25 pessoas). Convocou quem quis e bem quis, transformando a seleção numa espécie de sucursal do Corinthians. Por último, segundo o jornalista Mauro César, da ESPN, teve um privilégio jamais  concedido a outro: o de escolher seu próprio chefe: o Sr. Edu Gaspar, também corintiano, entronizado como diretor de futebol.
            Ora, tudo isso poderia ser aceitável tivesse havido uma contrapartida à altura. Ganhar de times fracos às  custas do talento individual de jogadores não configura meritocracia alguma. No único confronto mais difícil levou um baile tático do treinador da Bélgica para, após, voltar com a aura de puro (como cabe aos santos) e sorridente, como  se nada tivesse acontecido.







            Ora, o técnico Tite já demonstrou  ser um profissional  capaz e inteligente o suficiente para aprender com os erros e continuar. O deplorável é essa tentativa (sua, inclusive) de lustrar a participação da seleção brasileira como coisa digna, na base do “Se não perdeu de 7 a 1, está bom”,  o que configura uma aceitação de perdedor, de leniência com o fracasso e de tapar o sol com a peneira,  que tem o seu equivalente político no ‘rouba mas faz’.  Enfim, esse arsenal de pensamentos complacentes que um dia fez parte do imaginário coletivo da Nação.
            É o velho complexo de vira-lata que está de volta, rondando o país e nossas mentes.

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis



domingo, 8 de julho de 2018

O SAMPAIO FAZ HISTÓRIA




A VERDADEIRA HISTÓRIA DO NOME DO SAMPAIO


            1.Corria o ano de 1922 em São Luís. Quer dizer, nem corria tanto assim. As notícias do resto mundo chegavam atrasadas, o dinheiro no bolso era lerdo, rapidez só mesmo em se falar mal da vida alheia. Avião, por exemplo, era novidade maior do que Seleção Brasileira de Futebol ganhar em Copa do Mundo neste século XXI.

            Pois foi por essa época que Pinto Martins, cearense e Walter Hinton, norte-americano, se uniram numa empreitada. (Normalmente, mistura de cearense com norte-americano ou dá Estátua da Liberdade libertando-se e fazendo ponto na praia de Iracema, ou cabeça-chata fazendo exibição de forró no East Village). Mas, Pinto e Walter, surpreendentemente, estavam era cruzando os céus das Américas, pela primeira vez,  em um hidroavião, com escala prevista em São Luís. Ora, se o primeiro voo do mais pesado que o ar   havia sido feito somente há 16 anos por Santos Dumont, em seu 14 Bis, e, muito longe, em Paris, imagine-se o alvoroço da cidade para participar também da brincadeira e ver de perto que raios de troço era esse tal de avião. Os comentários só podiam ser dessa ordem:




                                                    

                                                               Pinto Martins

            “Já vi muito pinto voar, mas nessa altura, não. Ainda mais cabeça-chata

            2.O certo é que tudo era mesmo extraordinário e jamais visto. Ainda mais que o avião tinha nome,  e se chamava Sampaio Correia, ou melhor Sampaio Correia II.  A explicação para um nome de gente no aparelho é que o avião foi doado aos pilotos aventureiros pelo presidente do Aero Clube Brasileiro, o senador José Matoso Sampaio Correia, carioca, sendo bastante normal, já  nessa época,  que os pilotos retribuíssem a gentileza botando no avião o nome do doador. Não se diga, porém, baseado no que fazem os políticos  hoje em dia , que o senador Sampaio Correia doou o avião em troca da  propaganda de seu nome. Não havia IBOPE e televisão muito menos. Talvez quisesse mesmo era se  eternizar, coisa que de outra forma jamais conseguiria.

            3.Foi então que no dia previsto, 7 de dezembro de 1922 uma multidão de quinze mil pessoas (grande parte da população da cidade) se acotovelou para ver o show da chegada do dito cujo, mais ou menos como se acotovelam hoje as pessoas para saudar celebridades da música Como toda celebridade que se preze Sampaio Correia, o avião, também não compareceu no dia do show. Ficou retido em Belém, não por jogada de marketing, mas por razão mais vulgar: falta de combustível, o que só fez aumentar a ansiedade do povo. Quando aqui aterrissou dois dias depois  dá para imaginar a festa: discurso de político, homenagens, passeios em clubes, etc. 







                                                       

 Quando os pilotos se despediram da Ilha do Amor, só uma semana depois, Pinto estava definitivamente consagrado. Se seu outro pinto (o de baixo) trabalhou enquanto  seu  dono tirava férias, já que mulher pra isso não deve ter faltado, nunca se soube. A herança principal deixada foi justamente o nome do avião.

            4.Nome por nome, o time de São Pantaleão  até que , já tinha um : se chamava Remo. Mas, quer coisa melhor do que um nome de gente e,  ao mesmo tempo, de avião? Pois foi essa brilhante ideia que ocorreu ao taberneiro Almir Vasconcelos ao colocar na pequena agremiação o nome do avião: quem simpatizasse com o time lembrava logo do avião e quem sabe, depois dessa  ele começasse a decolar. E foi o que, definitivamente, aconteceu.
            A partir daí todos sabem da história. Às vezes esquecem é que o time é um dos mais originais do mundo, não só pelo nome como por muitos outros motivos. Entre eles:

            1.O único no mundo que tem nome de um avião.

            2.O único que no seu uniforme, inicialmente visava as cores do Maranhão e dos Estados Unidos e acabou  dando na Bolívia. Ou seja, o único que tem as cores de três países
            3.O único cujo distintivo foi de autoria de um sapateiro.

            4.O único time que já foi campeão da terceira divisão , da segunda e da quarta. (E que em breve vai ser da primeira).

            5. O único que tem o calção cáqui.

            6. O único do Maranhão que é, de fato, O Papão do Nordeste .                                                                
                                                           

            Sei que algum leitor já está contestando: calção cáqui, cadê o calção cáqui? O calção cáqui, senhores está na história do clube e jamais devia ter sido conspurcado. Esse calção verde de hoje não passa de uma aberração e um acinte à originalidade do clube. Que figurinistas, torcedores, diretoria, políticos, embaixadores e presidentes do Brasil ou da Bolívia se unam contra a corrupção de um de seus símbolos, que tornam o time de São Pantaleão o mais original do mundo, enfim, “aquele que se coloca à parte”.

            Pela volta imediata do calção cáqui!

            p.s Algumas dessas Informações foram colhidas no livro Terra, Grama e Paralelepípedos (imprescindível para quem gosta de História e nosso Futebol) de Claunísio Amorim Carvalho.

Este texto e outras informações maranhenses estarão na segunda edição do livro O ABC bem humorado de São Luis, prevista para Setembro




sábado, 30 de junho de 2018

ISSO PODE TE MATAR!




#perigo #morte #bueiro #fonedeouvido


A vida humana é efêmera e, sobretudo, frágil. Todos sabem disso, mas a maioria prefere fazer de conta que esse negócio de  morte foi feita para o outro e não para si. Algumas estatísticas assustam ao mostrar o perigo de hábitos e coisas aparentemente inofensivos.

            1.Imagine estar voltando do supermercado, olhando para seu celular numa rua. De repente, eis que você se vê mergulhando nas profundezas de um  canal de esgoto. Pesadelo? Uma ficção de Stephen King? Nada disso, você está morto.
            Acredite. Pode soar como um exagero, mas em 2011 os bueiros causaram  1843 mortes só na Índia.       Portanto, leitor, por via das duvidas o melhor é se precaver.  Bueiros são redemoinhos prontos para atacar e doidos para aparecer em seu celular, na paisagem de sua última selfie.  









            2.Talvez você ache relaxante uma tarde de  banho quente em uma banheira. Relaxante pode até ser, mas o perigo é quando o relaxamento passa do ponto e se torna tão perfeito que médico nenhum conseguirá fazê-lo parar.  . (Jamais inventaram equipamento capaz de propiciar um relaxamento tão perfeito como a morte, não é mesmo?)
            Entre 1999 e 2003 1700 pessoas  só nos USA acabaram morrendo em uma banheira de hidromassagem e o motivo principal foi o abuso de bebida alcóolica enquanto estavam na banheira.

            3.Todo mundo quer ser bom de cama, mas nem sempre a cama retribui com a mesma bondade. Assim é que camas matam em média 773 pessoas por ano só nos USA.
            Uma cama, na verdade,  é mais propensa a te matar do que um assaltante. Por via das dúvidas prefira as camas baixas, considerando ainda que neste  levantamento não estão consideradas as situações em que o morto foi o Ricardão em cima da cama.  (Ou em baixo).

            4. Todos preferem, por preguiça,  as escadas rolantes às comuns  tanto que se pudessem usariam escadas rolantes  até para sair da cama ou subir na mesma . Hoje elas proliferem nos shoppings e estações de metrô, mas é preciso ter um cuidado triplicado com as mesmas. Segundo o Centro de Controle e prevenção de Doenças dos USA, as escadas rolantes ferem gravemente 17 mil pessoas por ano e desse total são 30 os casos de óbito.
            É normal que todo ser humano queira “subir”  na vida, mas se você for mulher prefira usar saltos altos (15 cm) para isso. São menos perigosos.

            5.Fones de ouvido parecem inofensivos , mas podem ser assassinos mortais, já que deixam o usuário inconsciente diante do que o rodeia e é por isso que somente em 2010 houve 47 acidentes fatais relacionados ao uso.
            Recomenda-se evitar na medida do possível esse costume cujas consequências podem ser ainda mais catastróficas que a morte. Como???? Pode existir  algo pior ainda que a morte?
            Aparentemente sim. Dizem que quem morre escutando música de dupla sertaneja, se for direto para o inferno  nem sente a diferença.

            7.Todos nós gostamos de comer cachorro quente, não é mesmo, leitor?, Só que esse tipo de sanduiche não é nada bom, especialmente para o futuro dos meninos. Só em 2010 mais de dez mil crianças com menos de 10 anos acabaram na sala de emergência após se engasgar com cachorro quente e 77 perderam a vida.
            Por segurança, portanto,  nunca esqueça de que só há um cachorro que nunca foi nem será seu amigo fiel. O cachorro-quente.


José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas



                                                                                   ewerton.neto@hotmail.com

terça-feira, 26 de junho de 2018

NEYMAR E TEMER. SEMELHANÇAS E COINCIDÊNCIAS







O QUE O CRAQUE NEYMAR E O PRESIDENTE TEMER TÊM EM COMUM?

E QUAIS SÃO AS  NÃO-COINCIDÊNCIAS?




A resposta é de Juca PolincÓ ( o filósofo politicamente incorreto da periferia) 




NEYMAR E TEMER TÊM EM COMUM NAMORADAS BONITONAS COMPRADAS A PESO DE OURO


MAS SE DIFEREM NO EQUILÍBRIO DA VIDA:
ENQUANTO UM VIVE CAINDO, O OUTRO ADORA PERMANECER NO MESMO LUGAR. ENQUANTO UM
é CAI CAI, O OUTRO É FICA FICA. 




sábado, 23 de junho de 2018

PENTEADO 7 X BOLA 1




1.O EFEITO VAR
            Nesta Copa só se fala em VAR. Tenho a impressão de que esta tecnologia (implantada para minimizar as falhas dos juízes de futebol) foi concebida, sobretudo, para que se xingue um pouco menos os árbitros. Por isso a inovação foi bem recebida  pelas mães dos juízes  na medida em que ao invés de as torcidas chamarem o árbitro principal de  filho da p...   insultarão  também o árbitro de vídeo , dividindo assim os impropérios. 
           
            Fico imaginando se o Var for submetido a um juiz  do tipo Gilmar Mendes na função de árbitro de vídeo. Com ele não haveria pênalti, nem impedimento, nem cartão amarelo, muito menos expulsão  para o infrator. As regras  do jogo valeriam apenas para jogadores comuns, já para os  bem aquinhoados até gol de mão (como o famoso de Maradona) passaria. Neste caso, nada tendo a ver com “La Mano de Dios”.

2. CANONIZAÇÃO Interrompida.
            Pelo menos temporariamente, depois do empate do Brasil na Copa, foi interrompido o processo de canonização de Tite promovido por Galvão Bueno, Rede Globo e comentaristas esportivos adoradores do técnico. Estacionou antes de chegar ao Papa,  já que  os primeiros sinais de incômodo com essa santificação antecipada começaram  a pipocar aqui e ali em todo o território nacional. 






            Acontece que São Tite, na hora de fazer milagres, depende de pedi-los emprestados aos jogadores de talento da seleção como Neymar, Coutinho, Marcelo etc que nem sempre estão inspirados para patrocinar a divinização tão esperada. A Copa é longa e o que se teme é que  um Coutinho só ( que tirou um milagre da cartola fazendo um gol incrível contra a Suíça) não seja  suficiente.

3.Penteado 7 , Bola 1.

            Bons tempos aqueles em que os craques apelidavam seus gols com títulos bizarros, mas engraçados. Era gol Helicóptero aqui, gol Borboleta acolá, como fazia Dario Maravilha um atacante cujo talento para fazer gols era da mesma ordem de sua capacidade de estabelecer empatia com os torcedores.
            Os tempos mudaram e se tornou mais importante a visibilidade nas redes sociais com gol ou sem gols. Alguns craques são obsessivos em promover  o visual, como qualquer celebridade.   Isso explica porque o goleiro Alisson da seleção brasileira se fez acompanhar, na concentração, de um cabeleireiro pago a peso de ouro.
            Neymar, por sua vez, tornou-se um mestre nisso, inovando o que está acima de sua cabeça com maior apuro do que o que tem dentro.  Como muda a cada jogo mais de penteado do que de drible a grande dificuldade para os torcedores é encontrar um apelido à altura para  cada uma de suas performances.
            Assim é que basta Neymar adentrar o gramado para que se inicie, entre os torcedores, o exercício de escolher um apelido para o que se vê. Na estreia do Brasil surgiram as opções: Cabelo de Martnália, Penteado Nissin Miojo, penteado Espiga de Milho etc.
            Menos mal que restou aos brasileiros esse consolo: quando os gols escasseiam, a diversão é tentar nomear os penteados de Neymar. Qual será o próximo?


José Ewerton Neto é autor de O ABC ben humorado de São Luis 


                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

DE UMA BOA ENTREVISTA

Françoise Héritier, antropóloga francesa, publicou o livro O sal da vida - entrevista à Revista Isto É no.2303, 15 jan2014

Qual o símbolo mais forte da Sociedade Moderna?

O símbolo mais forte da sociedade moderna é certamente o uso do Facebook e sua rede de falsos amigos, que amam todas as mesmas coisas ao mesmo tempo. Esse grande sentimento falso de pertencimento cria um mundo desmaterializado. Não ver mais as pessoas em carne e osso talvez não impeça os urgimento de laços mais fortes, mas fundir-se aos outros não significa encontrar-se. Isso constitui uma grande armadilha: a despersonalização em vez da afirmação de si.


Sobre uma das obsessões do personagem o escritor irlandês John Banville diz: " A morte nos forma. Tudo o que fazemos é um desafio à morte, em oposição a ela. A morte é o grande dom e o grande horror, que nos foi dado, junto à nossa consciência."

Concorda com essa informação?

Concordo. sem a morte e o saber da morte, o homem seria como os animais que, segundo Bataille, estão no mundo como a água está na água. Andar de quatro seria isso, ser assujeitado ao meio a ponto de não se distinguir dele. A linguagem quebra a cluna do tempo, trazendo a morte do futuro para o presente, e como o presente é o futuro do passado, tudo que é humano é cortado pela morte - o que faz de nós uma espécie solitária, recortada do mundo; faz de cada homem sozinho, recortado do conjunto de outros homens. Por isso não há O homem, há cada um tentando a muito custo lançar alguns fios sobre os bismos que o separam ( desde sempre) dos outros homens. Só que a linguagem é o abismo e são os fios. A linguagem os aproxima, porque de saída afasta os homens irremediavelmente. Depois que estiverem todos muito longe uns dos outros e sobretudo de si mesmos, os homens poderão falar por uns fios de linguagem, mas não falarão uma linguagem que lhes é imposta fascista (Barthes), mas um tanto mais livre porque visitada tanto pela inteligência quanto pelo afeto. Não sabemos nunca o que fazer com o corpo que é uma constante subtração de si. Sabemos ( por culpa de Montagne) que um bebê já é velho suficiente para morrer, então que só se escreve movido por essa constante subtração de si que define o corpo vivo. Não ficamos de pé quando encontramos o fogo, mas quando encontramos a linguagem. Lejeune ( ou Teodórov) diz uma coisa muito bonita:os homens que andam pelas ruas só para de pé porque são homens-narrativa. Eu diria porque são homens-linguagem. Então, então mesmo: só se escreve a partir da morte, que retroage sobre nós, nos impulsiona, exige o trabalho de tornar a vida minimamente viável, não aplacando seus núcleos infernais, mas fazendo disso alguma coisa que nos coloque de pé.





José Ramos Tinhorão, jornalista e crítico musical à revista , Jornalismo/Cultura, edição 2


O que teria motivado ele a fazer isso [ sobre ter sido chamado agente da CIA por Sérgio Cabral em o Pasquim]?

Sèrgio Cabral fez aquilo dentro de coisas que achava correto naquele momento. Ele ficou amigo de Tom Jobim. Tom Jobim como figura humana era extraordinária: gostava de passarinho, gostava da natureza...Mas não venha dizer para mim que ele é uma expressão da cultura brasileira, não é!As harmonias são harmonias americanas, ele chupava música americana. E não é um cara original: Samba de uma nota só é Mr Monotny, de Irving Berlin ( gravado por Judy Garland); Sabiá é a overture da Ópera dos três vinténs, de Kurt Weill; Desafinado, é o samba Violão Amigo, de Bide e Marçal ( cantarola as melodias idênticas de Violão Amigo e Desafinado) Então não é, não tem criação! Uma vez eu escrevi isso, eles ficaram putos, mas escrevi que Tom Jobim era "barriga de aluguel" da música popular. Quando o inseminavam, ele produzia coisa boa. Se não fosse inseminado não produzia nada.









Arnaldo Cohen, pianista renomado, à revista Época, número 771, março, 2013

A música brasileira não é um orgulho nacional?

É preciso dizer uma coisa: do ponto de vista rítmico a música brasileira encontra poucos rivais na erudita. Talvez Igor Stravinski ( compositor russo) tenha conseguido criar um universo sonoro rítmico tão sofisticado quanto os ritmos afro-brasileiros. Na parte harmônica, porém, ela é pobre. Claro, há excessoes como as composições de Egberto Gismonti, Tom Jobim ou Francis Hime. Mas, em geral, a musica popular brasileira precisa se beneficiar adas lições de harmonia que o Ocidente vem dando há 300 anos...


Suzan Greenfield, neurocientista inglesa, em entrevista à Veja, 09.01.13, edição 2303 alerta para os riscos para o cérebro em consequência dos estímulos positivos da internet, rede social e video-games


O convívio nas redes sociais aceita uma latitude maior na conduta ética das pessoas?

Sem dúvida. Nas redes sociais as pessoas podem se comportar como jamais fariam no mundo real. Elas perdem seus constrangimentos, o que normalmente barra os maus comportamentos. Na rede muita gente se expõe como jamais faria nem mesmo no ambiente familiar ou na frente de amigos íntimos. Essa liberalidade começou com os e-mails, mas atingiu o ápice com o facebook. os limites do certo e errado estão cada vez mais difíceis de ser definidos. O livro O senhor das Moscas de William Golding, conta a história do naufrágio de alguns estudantes. Presos em uma ilha e submetidos a enormes privações, eles perdem o verniz civilizatório e se tornam selvagens. Por alguma razão estar nas redes sociais pode produzir o mesmo efeito de desconsideração com os outros que acometeu os estudantes de Golding, presos na ilha.

A comunidade científica levou a sério seu alerta sobre o perigo de os vídeos-games, na infância estarem produzindo adultos sem ética e atrofiados emocionalmente?

Essa é uma constatação irrefutável. Pense na fábula da princesa presa na torre. existe uma enorme diferença entre ler Rapunzel em um livro e ade participar de uma game em que o objetivo é resgatá-la. O livro apresenta à criança a narração plena da história da princesa. A vida dela faz parte de um contexto. Já no game a princesa é apenas um objetivo, não importa nem como ela chegou aprisionada na torre, não se constrói em nenhum momento um vínculo emocional com a personagem, tampouco se discutem as questões éticas de aprisionar alguém ou as vindas de caráter ou do coração do ato de salvá-la. A única coisa que imporqa é ganhar o jogo. Parece-me evidente que são vias bem distintas.


Antes eram as revistas em quadrinhos, depois a televisão, agora a Internet e os games. Será que cada era tem o seu falso inimigo do cérebro das crianças?

Existe uma diferença crucial. As novas tecnologias são muito mais invasivas e têm um impacto infinitamente maior até mesmo da televisão. As pessoas agora estão sendo levadas a ter uma percepção da vida como uma sucessão de pequenas tarefas desconectadas entre si, exatamente como no game de Rapunzel. O ser humano é produto de histórias, da preservação de memórias, enfim, da narrativa. Não há mais narrativa. Tudo não passa de ação e reação.








Paulinho da Viola, cantor, entrevista concedida ao jornal O estado de São Paulo, sábado, 10.11.2012


Sobre a estética do samba, as novas gerações parecem apenas reproduzir um padrão sedimentado...

(interrompendo) Mas eu não vejo mal nenhum em reverenciar os mestres do passado. Isso aconteceu comigo, sempre tive enorme admiração por Pixinguinha e Luis Gonzaga, os dois grandes nomes da música brasileira no século passado. Não vejo contradição, não vejo como um fato negativo, o fato de artistas jovens fazerem por amor a reprodução de coisas que já foram feitas. Isso faz parte. Quando uma turma se junta para cantar um samba com cavaquinho, pandeiro e tamborim, é aquele samba mesmo que ela vai cantar. Ninguém está pensando em evolução, nesse momento.As pessoas estão felizes, cantando. Já participei muito dessas rodas e posso dizer que quem está lá, faz isso por amor.







Gilles Lipovetsky, filósofo francês, à revista Isto É, número 2231

Como descreveria , citando uma expressão sua, o mundo de hiperconsumismo em que vivemos?

Tudo no dia a dia depende de uma compra. Somos constantemente obrigados a comprar. Se você sai, tem de pagar o carro, o avião e isso implica gastar dinheiro. Pense em coisas que antes não eram consumidas. Da última vez em que estive em São Paulo, o motorista me levava ao hotel e, no caminho, via as pessoas correndo em academias, em esteiras. As pessoas hoje pagam para correr, sendo que, antes, corríamos de graça. Antes para nadar, íamos aos rios. Agora temos que pagar para frequentar piscinas. Antes quando tínhamos problemas pessoais falávamos com o padre e ele dizia o que fazer. Hoje falamos com o piscólogo . O gosto mais elementar da vida, que é conversar, pedir conselhos, virou consumo, pagamento.



Jonathan Franzen, escritor americano, à revista Época no. 737, edição de 2 de julho de 2012.Escreveu os romances Correções e Liberdade.

No livro Como ficar sozinho o senhor ataca a dependência do celular. Mesmo assim o senhor usa celular, não?

Sou um dinossauro em tecnologia.Detesto comandos de toque,meus dedos sentem desconforto com celulares touch. Não gosto de programas que completa palavras, do iPhone e da Apple. Não acho que Steve Jobs tenha feito um bem à humanidade. O iPhone e similares substituíram o cigarro. Os tabagistas trocaram a compulsão do cigarro pela do celular. A razão é que as pessoas ficam nervosas quando não estão fazendo alguma coisa. Aí entra o celular com o elixir para a obsessão de faze algo. Precisamos aprender a não fazer nada.

Como então seduzir as pessoas para algo tão antiquado quanto a literatura?

O escritor precisa despertar o interesse do leitor com uma história original e de compreensão fácil. Não adianta querer fazer malabarismo experimental que o leitor vai fugir. Ninguém mais tem paciência para jogos de linguagem como os de James Joyce. Quero ser legível. O mercado de livros é competitivo. O desafio é alcançar ao mesmo tempo a relevância artística e a adesão do leitor. Com escrever ficção e ser verdadeiro? Eis aí o paradoxo. Infelizmente, no mundo de hoje, se você não vende, não alcança repercussão. Se não fosse a revista Time ter elogiado meus livros, eu certamente não teria feito sucesso.


Nelson Rodrigues , revista Época, edição histórica da editora Globo, 2012, texto de Luis Antonio Giron.

O senhor pode dar uma mensagem à posteridade?Eu queria dizer à juventude que seja livre. Se o homem de um modo geral , tem vocação para a escravidão, o jovem tem uma vocação ainda maior. O jovem, justamente por ser mais agressivo e ter uma potencialidade muito generosa, é muito suscetível aototalitarismo. A vocação do jovem para o totalitarismo, para a intolerância é enorme. Eu recomendo aos jovens, envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais depressa possível, isso é um azar, uma infelicidade. Eu já fui jovem também e não me reconheço no jovem que fui. Eu só me acho parecido comigo até os dez anos e após os trinta. Eu já era o que sou quando criança. Na adolescência eu me considero uma paródia, uma falsificação de mim mesmo. Depois, a partir dos trinta eu me reencontro. Por isso, digo aos jovens: não permaneçam muito tempo na juventude que isso compromete.




PAUL AUSTER, na entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, caderno 2, 06.04

Escritores de geração diferentes, como Philip Rothe Gary Shteingart, disseram a este jornal que o romance está se tornando uma arte irrelevante

Eu já tive essa conversa com o Philip até em público e discordo dele. E acho que o romance ainda é importante para o públicoleitor. Como arte ele proporciona algo que não temos em nenhuma forma, uma intimidade com o outro. Cada romance é escrito por duas pessoas, pelo autor e pelo leitor, eles produzem a obra juntos. Ele coloca dois estranhos em absoluta intimidade. E isto nos remete ao que significa ser humano. Ainda que em números, o público seja menor, para nós, que ainda queremos ler romances, ele continua muito relevante.


FINALMENTE, CHICO BUARQUE saiu do armário e disse a que veio, entrevista à Rolling Stone


Hoje parece que há mais interesse sobre a vida pessoal do artista. Você percebe isso?

( Longo silêncio) Que a vida pessoal ficou mais exposta do que há vinte, trinta anos, não tem a menor dúvida(...) mas não me afeta tanto assim.Me afeta, por exemplo, ao ir à praia. Nasci em frente ao mar, nadava em Copacabana, pegava jacaré no arpoador, mergulhava. Até o dia em que saio da praia e um sujeito se agarra em mim, começa a berrar, gritar no meu ouvido e perguntar algumas coisas. Quando me dou conta; "Ih, tem um cara lá filmando. Isso aqui é um número cômico de um programa de televisão" Resultado: não posso ir à praia. Mas não é o fim do mundo. Deixo de ir à praia, de ir ao restaurante da rua Dias Ferreira e pronto. Isso não me afeta grandemente. falei sobre isso na Internet: você está mais exposto, mas aí é você - pessoa - e sua obra também. Com a Internet aumentou muito o número de críticos, se multiplicou um milhão de vezes. Como no caso da história do verso que você está apontando. Sei exatamente como ela foi criada; num blog de um cara da revista Veja que tem uma enorme estima pela minha pessoa e gosta de lançar esse tipo de futrica. ali vale tudo, já sugeriram até que eu desapropriasse meu campo de futebol para a construção de casas populares. é um problema que vem de muitos anos, uma questão doentia de uma revista contra um artista. Parece que o cara que manda nessa revista tem ambições literárias. Então ele não gostou de os meus livros ganharem prêmios porque ele quer ser escritor. Aí decidi me vingar. Sabe o que fiz? li o romance do cara, um tal de [Mario] Sabino. Não é parente do Fernando Sabino, acho. Fui até o fim, li tudo, tudo. E fiquei tranquilo, passou a raiva [risos]. falei; " Bom o melhor que esse cara tem a fazer é ser editor da revista Veja".


NOSSO CÉREBRO NOS FAZ PENAR PORQUE

NÃO SE MODERNIZOU COMO DEVERIA


Dean Buonomano, professor do departamento de Neurobiologia e Psicologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, autor de O cérebro Imperfeito

Em seu novo livro o senhor afirma que o cérebro humano é a máquina mais complexa que se conhece, mas aponta problemas em seu funcionamento. Poderia nos dar um exemplo?

Se você memorizar as palavras chocolate, paçoquinha e chiclete e, logo em seguida, eu perguntar se a palavra doce está entre elas, você provavelmente precisaria pensar por alguns instantes antes de responder. Doce não estava na lista, mas como todas as outras palavras se referiam a doces, o cérebro se confunde. Não seria assim se eu perguntasse sobre a palavra capivara. Por nada ter com as demais ela seria rapidamente descartada. Isso acontece porque nossa memória não armazena itens. Ela funciona relacionando conceitos e significados, como na lista de doces. Isso pode ser bom em alguns casos, uma fonte de problemas em outros.

Há outras falhas além dessas?

Sim, o cérebro não foi moldado para ter a capacidade cálculo de um computador, que é o que se exige dele hoje em dia. Isso se explica , em parte, pelo processo de evolução por seleção natural

As falhas do cérebro estão relacionadas à evolução?

Nosso cérebro está adaptado para um passado remoto, quando não era necessário lidar com números da forma que hoje somos exigidos hje: temos de lembrar de telefones, senhas , estatísticas. O cérebro não evoluiu para essas necessidades e os neurônios parecem não estar preparados para processar números. No mundo primitivo se você via um ninho de cobras, não precisava contar se eram dez ou doze. Bastava saber que eram muitas e fugir.

Nossa bagagem evolutiva explica os problemas das pessoas com o planejamento financeiro?

Sim. É isso que faz com que nossas decisões sejam influenciadas com o curto prazo. Em termos evolutivos faz todo o sentido. Se você oferecesse uma maçã a um homem há cerca de 100 mil anos, ele a pegaria naquele momento, mesmo se você prometesse, em troca da recusa, duas maçãs para a próxima semana. O raciocínio é da sobrevivencia. Diante da opção de obter uma uva imediatamente ou duas depois, até os macacos mais bem treinados não resistem à tentação por dez segundos.

Existe então uma luta entre um sistema de tomada de decisões intuitivo, emocional e , portanto, primitivo e outro mais reflexivo, resultado de planejamento e análise?

Certamente. Em muitos casos, o raciocínio automático pode predominar em determinado momento. É como disse logo no início: se você perguntar a alguns amigos o que as vacas bebem uma parte deles dirá leite. Isso acontece porque, quando criança, aprendemos a associar vaca com leite, e os neurônios que codificam as duas palavras aprendem a se ativar ao mesmo tempo.




O OTIMISMO PODE SER MUITO NOCIVO


Roger Scruton, filósofo inglês , entrevista à Veja,

No seu último livro, o senhor afirma que o otimismo é mais nocivo para os indivíduos e para as nações que o pessimismo. Como o otimismo pode ser tão prejudicial?

Não falo do otimsmo como virtude, nem da esperança, ou da fé que servem para a elevação espiritual do indivíduo e fomentam inovações e avanços. O otimismo prejudicial é o desmedido, ou, como disse o filósofo Arthur Shopenhauer, o otimismo mal-intencionado, inescrupuloso. É o tipo de pensamento que está por trás de todas as tentativas radicais de transformar o mundo, de superar as perturbações típicas da humanidade por meio de um ajuste em larga escala, de uma solução ingênua e utópica como o comunismo, o fascismo e o nazismo. Otimismo e utopia em excesso , em geral, acabam em nada, ou pior, dão em totalitarismo .


ROGER, DA BANDA ULTRAJE A RIGOR

De que você mais sente falta dos anos 80, época do auge do sucesso popular de vocês?

Vi o Caetano falar recentemente uma coisa com a qual concordo. Na verdade, sinto falta de juventude, desse ímpeto maior de fazer as coisas, desse nível de testosterona mais alto, cientificamente falando(risos). A gente vivia uma vida maravilhosa, mas não é a vida que eu queria estar levando agora(...)

O que você acha do rock nacional, agora?

Se infantilizou, né?Existem , claro, várias bandas, mas não é um movimento(...) Na nossa época a gente percebia que tinha uma cena(...) Mas me parece uma coisa mais voltada para a finalidade de aparecer, na nossa época era uma coisa mais espontânea. Hoje parece que o rock é feito para um público de 12, 13 anos.



Lars Von Trier, revista Veja, edição de 10 de Set


Em Melancolia, o senhor simpatiza com o sentimento de Claire, a personagem que se desespera quando sente que o mundo vai acabar. Mas é com a depressiva Justine, que encara o fim do mundo com serenidade, como uma libertação, que o senhor se irmana. em sua opinião, estaríamos melhor, como indivíduos, se simplesmente parássemos de brigar com a ideia de que estamos sós, e rumando para o nosso fim?

Acho que a vida é uma ideia muito ruim. Se essa ideia partiu de Deus eu o culpo por largar essa ideia no meio do caminho, sem levá-la a uma conclusão lógica. Imagine uma criança que ganha um trem de brinquedo e o põe para funcionar; ele corre no trilho uma dezena de vezes, a criança se diverte , e então perde o interesse. O que acontece com o trem depois que a criança o larga? Isso, para mim é a vida- se Deus a criou, e eu não acredito Nele, mas vamos supor que exista, Ele logo a largou, correndo por aí, sem um pensamento para o fato de que criou seres que sabem que cada passo deles na Terra causa o sofrimento de uma planta, um animal, ou outro homem, e que têm de enfrentar a consciência de que sua existência é finita.
Isto é, nascer sob uma sentença de morte. Se eu fosse um bicho, sem noção de que vou morrer e de que posso magoar os outros o tempo todo, sem culpa de espécia alguma e ocupado apenas em comer, excretar e me reproduzir, então a vida poderia ser tolerável. Mas não da maneira que ela é, para os homens. Não é justo. Se antes de eu nascer me consultassem sobre se eu quero existir neste mundo, eu diria não - absolutamente não.


(...) A letra de música não se explica, se ampara na própria melodia. Pois melodia já é letra: já sugere se é alegre outriste. A literatura não: mantém muito mais a ambiguidade. A letra não quer que tu não a entendas. Penso assim: quando o sil~encio é muito forte, é literatura. Na música o silêncio é mais curto. Na poesia, a melodia (é) a palavra. A música tem um sentido mais comunicativo, mais generoso. Não é preciso entrar nela para entendê-la. Já na poesia tem de entrar. Não Há como olhar de fora. A diferença é grande.

Nelson Mota:

Se Tim Maia surgisse hoje com o mesmo talento e o mesmo temperamento, ele teria chance de estourar, como em 1974?

Acho difícil. A sociedade está mais careta, repressiva, intolerante.Dificilmente aceitaria um personagem com a liberdade e anarquia dele. Tim Maia é palavrão, um baseado atrás do outro. Mas as pessoas riam, não se chocavam com ele. As pessoas não o levavam a sério. Hoje iam acusá-lo de falar mal disso, daquilo, de gays, de evangélicos. Tim Maia nasceu na época certa.