quinta-feira, 21 de setembro de 2017

DUAS LENDAS MARANHENSES





1.A LENDA DO VIRA-PORCO

            Foi na São Luís de outrora, de ruas mal iluminadas, clareadas apenas pela lua e raras fogueiras. Seres esquisitos apareciam do escuro e, avançando sobre os desavisados, os punham para correr nas noites de sexta-feira e de lua cheia. Ninguém duvidava de que certas pessoas haviam adquirido o dom de se transformar em porcos.  No dia seguinte às aparições, bastava uma aparência um pouco mais esquisita para ser logo apontado como um vira-porco em potencial na boca do povo. Certamente, se já houvesse então jornais como hoje, toda essa gente bizarra que se vê nas fotos das colunas sociais teria sido promovida a  vira-porco.
            Acontece  que  ruas mal iluminadas e mal cheirosas eram constantes na cidade de então como diz Domingos Vieira Filho no seu livro Ruas de São Luis “Quanto à limpeza das ruas as autoridades municipais sempre viveram em luta aberta contra os moradores. A rua, nessa época, era lugar para tudo. Nela torrava-se café e estendia-se roupa lavada. Era rio de águas servidas, amontoado de animais mortos, de lixo em suma. “
            Não é de admirar que num ambiente desses, os vira-porcos tivessem meio caminho andado. Quem sabe,  o porco já existisse antes até do humano. Não seria razoável acreditar  que o horror que causavam estivesse mais no fedor  que exalavam do que na aparência em si?
            Nunca se saberá a resposta, mas o fato é que a transformação arrefeceu com o tempo e, hoje, só aparece pros lados dos subúrbios, assim mesmo em forma de cachorro ou de touro, como no Quebra-Pote. Sinais dos tempos. Sendo Touros podem ganhar uma estadia de graça na Expoema e sendo cachorros, uma vaga no desfile de pet da TV Mirante.

2.A LENDA DO OLHO DÁGUA.

            Aconteceu na faixa de praia que hoje corresponde ao bairro do Olho D`água. Uma bela índia, filha do cacique Itaporan enamorou-se de um fogoso índio e era por ele correspondida. Enquanto as núpcias não aconteciam o jovem apreciava banhar na praia defronte, quem sabe para esfriar o fogo de seu ímpeto. Tudo ia bem até que uma mãe d`água, metade peixe , metade mulher-,  botou também o olho no índio e logo enfeitiçou  o rapaz. (Nesse triângulo amoroso  o que não faltava, portanto,  era índio, água e olho). Mal olhado ou não, o certo é que a sedutora mãe d`água levou o rapaz para o fundo do mar e este nunca mais apareceu.
            Os rivais do índio  apressaram-se a explicar que o desaparecido não passava de um aproveitador e, em tempos de escassez de comida, deve ter se aproximado da mãe d`´agua para comer primeiro  de sua metade peixe e, de sobremesa, de sua parte mulher, numa competição muito desfavorável para a filha do cacique.  Para estes, o oportunista continuou vivo em algum palácio no fundo do mar num banquete pra homem nenhum botar defeito, comendo ora peixe, ora mulher, ou os dois ao mesmo tempo.








            O certo é que a indiazinha não suportou seu destino inglório e logo morreu de desgosto. Tantas foram as  lágrimas que elas continuaram a jorrar de seus olhos mesmo depois de morta, gerando uma nascente de lágrima abundante que corre para o mar até hoje.
            Lágrima ou água? Sendo comprovadamente lágrima  é melhor acreditar que a índia continua revoltada, porém, muito mais  com a  CAEMA,  que hoje cobra de seus descendentes pelas lágrimas de sua nascente como se fosse água.

            Esse pessoal tira proveito até das lágrimas de uma índia!

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas 





sábado, 9 de setembro de 2017

PARA ENTENDER OS BEST SELLEERS










artigo publicado no jornal O estado do Maranhão



Muita gente não consegue  entender porque alguns livros se tornam best sellers e outros não. Evidentemente que não é só o conteúdo apelativo que faz o sucesso da maioria em detrimento da boa literatura. Vez por outra surgem best sellers de boa qualidade literária
            Qual seria então a razão? Existem várias, mas os especialistas sabem que o título do livro está entre uma delas. Um título sedutor (para o leitor comum)  tem de ser, à primeira vista, de tal forma incisivo que desperte a sua curiosidade. Se a isso se adiciona uma capa interessante (‘legal’, no sentido de ‘sugar’ o potencial leitor para dentro do contexto da realidade na qual está inserido e que está sendo proposta) já temos meio caminho andado. O resto é o resto. Fisgado o leitor, o esmero do que está escrito lá dentro muita vezes é de somenos para o comprador atual.








            Se prestarmos atenção aos títulos da lista de mais vendidos,  veremos que seus títulos apresentam uma qualidade a mais que as já sugeridas: a  margem  de interpretações que permitem da vida cotidiana . Vejamos alguns da lista de Veja:

            1.Outros jeitos de usar a boca. Rupi Kaur
            Quaisquer que sejam esses jeitos, isso precisa ser urgentemente ensinado à maioria das duplas sertanejas que prolifera por este Brasil. Para bem de nossos ouvidos poderiam usar suas bocas para essas outras coisas,  ao invés de cantar.

            2.O Festim dos Corvos. George Martin
            A imagem de  alguns políticos festejando depois que Temer foi absolvido da primeira acusação (segundo a imprensa a troco de aprovação de emendas de seus interesses ) , dá bem ideia do que pode ser um festim de corvos. A única diferença é que os corvos de verdade festejam quando matam a fome. Essa raça de corvos pelo contrário, quando adicionam grana  aos seus bolsos.

            4.Depois de você. Jojo Moyes
            ‘Depois de você’, evoca uma  sina avassaladora no que tange ao Brasil e à Presidência da República. A regra,  aplicada aos presidentes surgidos depois de FHC  é esta: “Por pior que você seja, depois  virá outro pior”. Assim foi com Lula, Dilma, e agora, Temer. Deus nos proteja! Quem virá depois de você?

            3.A Fúria dos Reis. George Martin
            A fúria dos reis, ou  melhor de um reizinho,  com certeza baixou em King-Jong-Un líder  da Coréia do Norte, que está adorando dar uma de macho e mandando míssil pra tudo quanto é lado. Tanta fúria não tem explicação, já que nem Freud explica. Será que ele é? Alguém já pensou nos estragos que o reizinho faria se fosse Jong-Dois ao invés de Jong-Um?

            5.O Poder do Hábito?
            A corrupção impera neste nosso país pelo hábito do poder ou o poder do hábito? O hábito de roubar nasce com o poder ou a vontade de roubar lhes é inata? Será que o livro responde?

            6.Extraordinário! R.J. Palacio
            Mais do que os 800 milhões pagos pelo PSG por Neymar  é extraordinário que se pague 150 milhões por Vinícius Jr., do Flamengo, apenas uma promessa de craque, que, até agora, nada confirmou. O que houve por trás disso? Quando lembramos   do cabotinismo de  Galvão Bueno e Felipão, vê-se que as coisas do futebol hoje em dia são pra lá de extraordinárias.  Estão  mais para ordinárias do que para extra.

            8.A Dança dos Dragões. George Martin
            A Dança dos  Famosos continua todo domingo na Globo, mas a dos Dragões  só surgirá quando Suzana Vieira entrar em cena para dançar com Faustão. Já pensou?


                                                           José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis 


domingo, 3 de setembro de 2017

CARTÃO DE MORTO




artigo publicado no jornal O estado do Maranhão

Estamos num país em que você tem que provar tudo. Desde que você não é bandido até que ainda está vivo. Desde provar que você  já viveu alguns anos até testemunhar que você já viveu o suficiente ou, até, que viveu mais do que o suficiente.
            E, para isso, não bastam os atestados que lhe obrigaram a possuir: Carteira de Identidade, C.P.F., Bons Antecedentes, Certidão de Idade, de Casamento e o escambáu. Não bastam ações como pagar imposto de renda, multas de trânsito, etc. Para todos os efeitos, você é um sujeito inexistente quando se trata de usufruir alguma regalia.  (Claro, para pagar, nada precisa provar. Pra isso você poderia até ser um E.T.)
            Não é de admirar que anos  atrás tenha surgido a tal PROVA DE VIDA, em que o aposentado precisa provar que está vivo para poder receber a sua aposentadoria. Para isso precisa ir até um caixa do banco (nem que seja arrastado -  se for deficiente), pra espernear, gritar, gemer, chorar, etc.
            Não fique confiante, porém, se tiver conseguido a almejada prova. A Prefeitura de São Luis acabou de inventar um tal CARTÃO DE IDOSO, para atestar que você é, de fato,  velho. Isso mesmo! Você resistiu a ser velho a  vida inteira, mas um dia você chegou lá. E, como se não bastassem as agruras que isso lhe trouxe, a partir de agora você está condenado a enfrentar a tradicional burocracia  para poder usufruir das  duas míseras compensações que a velhice lhe trouxe: fila de idoso e estacionamento livre.
            Ora, se fila de idoso é melhor nem encarar,  só o que lhe restava de privilégio era o estacionamento preferencial. Só que,  para usufruir disso, agora você tem que ter um Cartão de Idoso. Não bastam carteira de identidade, rugas, dentadura postiça, muleta e R-X da coluna ou do  tórax, tem de ter um Cartão. ( Dias atrás, em fato que ganhou as páginas dos jornais uma senhora teve o carro guinchado em pleno shopping porque não lhe bastou mostrar sua carteira de identidade. Faltava o tal cartão. Dá pra acreditar?)
            Dia virá  que lhe exigirão o CARTÃO DE MORTO, para poder ser enterrado. Dá até pra  imaginar a cena: na porta do cemitério, você dentro de um caixão e o parente, que lhe conduz,  sendo interceptado por um guarda.

            - Cadê o cartão de morto dele? Sem isso ele não pode ser enterrado.
            - Bem, tá aqui o Atestado de Óbito.
            - Não basta! Ele precisa apresentar o seu cartão de morto. Todos sabem disso. Agora é lei.
            - Não deu tempo pra isso, ele morreu antes. Como poderia tirar um cartão de morto se ainda não tinha falecido?
            - Poderia ter sido previdente e ter se antecipado.
            - Como assim? Ele não estava desenganado,  e tinha esperanças, coitado. Queria viver mais um pouco.
            - Tirasse então um cartão de QUASE MORTO.
            - De quase-morto?
            - Sim, de quase morto, ou meio morto, tanto faz. Já colocamos à disposição do público. É só requerer.  
            - Por favor, desculpe, não sabíamos. Deixe-o passar só esta vez. Como você sabe  ele não terá outra chance.
            - Huuuummm! Tá certo. Desta vez pode passar, mas na próxima providencie.
            - Na próxima? Só se for o meu,  você quer dizer...

            - Não se faça de engraçadinho. Na próxima entrada dele. No céu, no inferno ou no purgatório. Sem cartão não passará por lá também. E agradeça pela paciência!

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis 



domingo, 27 de agosto de 2017

UM NOME ; JOMAR MORAES






artigo publicado no jornal O estado do Maranhão

A Academia Maranhense de Letras tomou a iniciativa de celebrar, com uma missa em sua sede, a passagem de um ano de falecimento do escritor, pesquisador e ensaísta,  Jomar Moraes , um intelectual cuja vivência foi dedicada em grande parte  essa instituição, a par de uma atividade febril e diversificada para composição de uma trajetória literária que serviu de referência e dinamizou a vida cultural do estado.
            Assim como o escritor de romances  pode ser dividido ente o construtor de texto, de ideias e de enredos ou de personagens , como classificou em recente artigo o escritor Raimundo Carreiro, também se poderia dizer que, em termos do comportamento em relação ao ambiente cultural que o cerca,  o escritor pode agir de duas formas, conforme sua personalidade  e vocação. De um lado estão aqueles que objetivam e reverberam apenas sua produção, não se permitindo atuar como personagem de referência, fora dos limites de sua obra. Muitos chegam a ser arredios nesse propósito, sendo exemplos típicos J.D.Sallinger nos USA e Dalton Trevisan, no Brasil.
            Há, no entanto,  aqueles que proliferam sua atuação e não  se completam apenas no mero exercício do ofício que escolheram. Fazendo uma analogia futebolística,  assim como existem jogadores que se comprazem na plenitude do gol, existem aqueles que se realizam em dar o passe - para que outros atinjam esse clímax. Certamente Jomar Moraes fez parte dessa segunda categoria, secundando a própria produção e abraçando a tarefa de propiciar esse deslumbre para outros. Esse aspecto generoso do seu caráter foi lembrado durante a missa realizada, tanto pelo capelão João Rezende como pelo intelectual Sebastião Moreira Duarte, em seu discurso,  nessa noite.
            Evidentemente, não cabe aqui o detalhamento de sua obra tão  extensa e do conhecimento de todos. Daí porque o tom mais eloquente  da cerimônia foi a rememoração, justamente,  dos aspectos humanos de sua personalidade; um humor sutil por trás da postura combativa, seu exacerbado espírito crítico em relação à literatura que considerava de pouco valor, enfim, alguém cuja sinceridade intelectual não poupava nem a si mesmo e que atinge o seu ápice quando ele, ironicamente, ao responder a uma pergunta sobre onde poderia ser encontrado seu primeiro livro de poesias disse  “ Gostaria até de saber quem  tenha,  para dar fim aos dois, ao leitor e ao livro.”, o que provocou risos generalizados na plateia. 






Tudo isso está registrado no documentário realizado pelo cineasta Joaquim Haickel, exibido após a missa. Aliás, essa série de  documentários, com  testemunhos valiosos sobre gente do calibre cultural de Jomar Moraes, Erasmo Dias e outros , a meu ver,  deveria ser exibido em todas as escolas públicas, com o objetivo de ampliar o horizonte intelectual e contribuir para a formação de nossa juventude.
            Por fim, ao nome Jomar Moraes, que motivou esta crônica. Lamentável que este ainda não tenha sido escolhido para título de via ou edificação pública  relevante. Jomar Moraes, assim como Nauro Machado, José Chagas e Ferreira Gullar,  merecidamente já contemplados com a inserção na pedra da memória cultural maranhense, fez jus a também fazer parte dessa plêiade, por ter sido um intelectual de estirpe equivalente. A AML, através de sua diretoria já principiou diligências nesse sentido. Que os homens públicos atendam a esse reclame, e que se proceda então. 

José Ewerton Neto é autor de O ofício de matar suicidas 

                                          

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

LINGUAJAR MARANHENSE (pérolas)










artigo publicado no jornal o Estado do Maranhão

josé ewerton neto é autor de  O ABC bem humorado de São Luis






Aqui se fala assim. Ou se falava? Dia virá ( e não falta muito) em que do Oiapoque ao Chuí só haverá uma fala, sem a riqueza idiomática peculiar a cada região do país.  E essa fala será em uníssono, repetição das asneiras que se repetem na Tevê: no maneirismo dos apresentadores, nos tiques das celebridades das novelas, uma coisa só.  
                Bem, o que ainda se fala por aqui estará na reedição de O ABC bem humorado de São Luís, ainda  uma vez explorando sua provável origem risível.

                BICA. Torneira.
                O maranhense chama torneira de bica porque num estado com tanta abundância de água de chuva, o fato de as torneiras viverem secas só tem uma explicação. Para muita gente, o negócio de água virou bico.

                PEGADOR. Brincadeira de esconde-esconde. Originalmente, de crianças.
                A brincadeira adquiriu esse nome por aqui porque o garoto, futuro ‘pegador’, começa sua futura vocação de Don Juan se escondendo com as meninas, sabe-se lá onde.

                JUÇARA. Açaí
                O maranhense chama açaí de juçara porque lembra uma crioula com esse nome, suculenta, gostosa e que vai lhe dar muita força e algo mais.

                ATRACA. Diadema ou tiara.
                O que lá fora é chamado de diadema ou tiara ganhou por aqui o nome de atraca, porque, antigamente,  os marinheiros quando aportavam no Desterro  doavam tiaras para as meninas da Rua 28, (zona do baixo meretrício) com o objetivo, pré-anunciado, de atracá-las.

                RI-RI. Fecho éclair, zíper.
                O maranhense chama zíper de ri-ri porque, via de  regra, quando ele abre o de sua parceira e ri de felicidade. Depois é a vez de ela rir, quando abre, por sua vez,  o dele.

                                         




                BANHAR. Tomar banho.
                O maranhense diz banhar ao invés de tomar banho porque, ao contrário dos que aqui chegaram tentando impor a fala “tomar banho”, não está tomando o banho de ninguém, aqui chove o suficiente, não há razão para isso.

                BALDIAR. Vomitar
                O maranhense diz baldiar ao invés de vomitar porque no carnaval de antigamente ( quando o daqui era o terceiro do Brasil) ao chegar na quarta-feira de cinzas estava tão bêbado que na hora de vomitar confundia o penico com um balde. 
               
                PEGAR CORDA. Ficar zangado.
                O maranhense , quando está zangado diz até hoje que está pegando corda porque na época da escravidão quando o feitor se zangava , bastava ameaçar os escravos: “Já tô pegando a corda!”

                DIZENDO. Algo está ‘Dizendo’, quando dá uma impressão muito positiva.         
                O maranhense julga que uma coisa espetacular está dizendo por que certas bocas gostosas  (mudas e não oficiais, de sua parceira ) no seu entender, só faltam falar, e dizem mais que se pudessem.  

                CINTURÃO. Cinto grande.
                O maranhense chama cinto de cinturão porque quando as crianças apanhavam de cinto,  a dor era tanta que viam tudo no aumentativo. Não parecia cinto, mas um cinturão.

                HEIN-HEIN. Concordância, negação. Fala-se com a voz anasalada.
                Essa expressão típica maranhense tanto pode significar sim como não. Até hoje, as grandes decisões administrativas maranhenses são tomadas desse jeito. Daí...  nosso  caos organizacional .  Antigamente, durante o casamento,  tanto o noivo como a futura esposa diziam Hein Hein, ao invés de sim ou não, quando o padre perguntava. Acontece que ao sair logo depois, atrás da virgindade da esposa,  o marido, atônito perguntava “Hein? Onde?” Ela respondia Hein, Hein, confirmando que havia acabado de surgir um corno novo na praça .






                                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com

DE UMA BOA ENTREVISTA

Françoise Héritier, antropóloga francesa, publicou o livro O sal da vida - entrevista à Revista Isto É no.2303, 15 jan2014

Qual o símbolo mais forte da Sociedade Moderna?

O símbolo mais forte da sociedade moderna é certamente o uso do Facebook e sua rede de falsos amigos, que amam todas as mesmas coisas ao mesmo tempo. Esse grande sentimento falso de pertencimento cria um mundo desmaterializado. Não ver mais as pessoas em carne e osso talvez não impeça os urgimento de laços mais fortes, mas fundir-se aos outros não significa encontrar-se. Isso constitui uma grande armadilha: a despersonalização em vez da afirmação de si.


Sobre uma das obsessões do personagem o escritor irlandês John Banville diz: " A morte nos forma. Tudo o que fazemos é um desafio à morte, em oposição a ela. A morte é o grande dom e o grande horror, que nos foi dado, junto à nossa consciência."

Concorda com essa informação?

Concordo. sem a morte e o saber da morte, o homem seria como os animais que, segundo Bataille, estão no mundo como a água está na água. Andar de quatro seria isso, ser assujeitado ao meio a ponto de não se distinguir dele. A linguagem quebra a cluna do tempo, trazendo a morte do futuro para o presente, e como o presente é o futuro do passado, tudo que é humano é cortado pela morte - o que faz de nós uma espécie solitária, recortada do mundo; faz de cada homem sozinho, recortado do conjunto de outros homens. Por isso não há O homem, há cada um tentando a muito custo lançar alguns fios sobre os bismos que o separam ( desde sempre) dos outros homens. Só que a linguagem é o abismo e são os fios. A linguagem os aproxima, porque de saída afasta os homens irremediavelmente. Depois que estiverem todos muito longe uns dos outros e sobretudo de si mesmos, os homens poderão falar por uns fios de linguagem, mas não falarão uma linguagem que lhes é imposta fascista (Barthes), mas um tanto mais livre porque visitada tanto pela inteligência quanto pelo afeto. Não sabemos nunca o que fazer com o corpo que é uma constante subtração de si. Sabemos ( por culpa de Montagne) que um bebê já é velho suficiente para morrer, então que só se escreve movido por essa constante subtração de si que define o corpo vivo. Não ficamos de pé quando encontramos o fogo, mas quando encontramos a linguagem. Lejeune ( ou Teodórov) diz uma coisa muito bonita:os homens que andam pelas ruas só para de pé porque são homens-narrativa. Eu diria porque são homens-linguagem. Então, então mesmo: só se escreve a partir da morte, que retroage sobre nós, nos impulsiona, exige o trabalho de tornar a vida minimamente viável, não aplacando seus núcleos infernais, mas fazendo disso alguma coisa que nos coloque de pé.





José Ramos Tinhorão, jornalista e crítico musical à revista , Jornalismo/Cultura, edição 2


O que teria motivado ele a fazer isso [ sobre ter sido chamado agente da CIA por Sérgio Cabral em o Pasquim]?

Sèrgio Cabral fez aquilo dentro de coisas que achava correto naquele momento. Ele ficou amigo de Tom Jobim. Tom Jobim como figura humana era extraordinária: gostava de passarinho, gostava da natureza...Mas não venha dizer para mim que ele é uma expressão da cultura brasileira, não é!As harmonias são harmonias americanas, ele chupava música americana. E não é um cara original: Samba de uma nota só é Mr Monotny, de Irving Berlin ( gravado por Judy Garland); Sabiá é a overture da Ópera dos três vinténs, de Kurt Weill; Desafinado, é o samba Violão Amigo, de Bide e Marçal ( cantarola as melodias idênticas de Violão Amigo e Desafinado) Então não é, não tem criação! Uma vez eu escrevi isso, eles ficaram putos, mas escrevi que Tom Jobim era "barriga de aluguel" da música popular. Quando o inseminavam, ele produzia coisa boa. Se não fosse inseminado não produzia nada.









Arnaldo Cohen, pianista renomado, à revista Época, número 771, março, 2013

A música brasileira não é um orgulho nacional?

É preciso dizer uma coisa: do ponto de vista rítmico a música brasileira encontra poucos rivais na erudita. Talvez Igor Stravinski ( compositor russo) tenha conseguido criar um universo sonoro rítmico tão sofisticado quanto os ritmos afro-brasileiros. Na parte harmônica, porém, ela é pobre. Claro, há excessoes como as composições de Egberto Gismonti, Tom Jobim ou Francis Hime. Mas, em geral, a musica popular brasileira precisa se beneficiar adas lições de harmonia que o Ocidente vem dando há 300 anos...


Suzan Greenfield, neurocientista inglesa, em entrevista à Veja, 09.01.13, edição 2303 alerta para os riscos para o cérebro em consequência dos estímulos positivos da internet, rede social e video-games


O convívio nas redes sociais aceita uma latitude maior na conduta ética das pessoas?

Sem dúvida. Nas redes sociais as pessoas podem se comportar como jamais fariam no mundo real. Elas perdem seus constrangimentos, o que normalmente barra os maus comportamentos. Na rede muita gente se expõe como jamais faria nem mesmo no ambiente familiar ou na frente de amigos íntimos. Essa liberalidade começou com os e-mails, mas atingiu o ápice com o facebook. os limites do certo e errado estão cada vez mais difíceis de ser definidos. O livro O senhor das Moscas de William Golding, conta a história do naufrágio de alguns estudantes. Presos em uma ilha e submetidos a enormes privações, eles perdem o verniz civilizatório e se tornam selvagens. Por alguma razão estar nas redes sociais pode produzir o mesmo efeito de desconsideração com os outros que acometeu os estudantes de Golding, presos na ilha.

A comunidade científica levou a sério seu alerta sobre o perigo de os vídeos-games, na infância estarem produzindo adultos sem ética e atrofiados emocionalmente?

Essa é uma constatação irrefutável. Pense na fábula da princesa presa na torre. existe uma enorme diferença entre ler Rapunzel em um livro e ade participar de uma game em que o objetivo é resgatá-la. O livro apresenta à criança a narração plena da história da princesa. A vida dela faz parte de um contexto. Já no game a princesa é apenas um objetivo, não importa nem como ela chegou aprisionada na torre, não se constrói em nenhum momento um vínculo emocional com a personagem, tampouco se discutem as questões éticas de aprisionar alguém ou as vindas de caráter ou do coração do ato de salvá-la. A única coisa que imporqa é ganhar o jogo. Parece-me evidente que são vias bem distintas.


Antes eram as revistas em quadrinhos, depois a televisão, agora a Internet e os games. Será que cada era tem o seu falso inimigo do cérebro das crianças?

Existe uma diferença crucial. As novas tecnologias são muito mais invasivas e têm um impacto infinitamente maior até mesmo da televisão. As pessoas agora estão sendo levadas a ter uma percepção da vida como uma sucessão de pequenas tarefas desconectadas entre si, exatamente como no game de Rapunzel. O ser humano é produto de histórias, da preservação de memórias, enfim, da narrativa. Não há mais narrativa. Tudo não passa de ação e reação.








Paulinho da Viola, cantor, entrevista concedida ao jornal O estado de São Paulo, sábado, 10.11.2012


Sobre a estética do samba, as novas gerações parecem apenas reproduzir um padrão sedimentado...

(interrompendo) Mas eu não vejo mal nenhum em reverenciar os mestres do passado. Isso aconteceu comigo, sempre tive enorme admiração por Pixinguinha e Luis Gonzaga, os dois grandes nomes da música brasileira no século passado. Não vejo contradição, não vejo como um fato negativo, o fato de artistas jovens fazerem por amor a reprodução de coisas que já foram feitas. Isso faz parte. Quando uma turma se junta para cantar um samba com cavaquinho, pandeiro e tamborim, é aquele samba mesmo que ela vai cantar. Ninguém está pensando em evolução, nesse momento.As pessoas estão felizes, cantando. Já participei muito dessas rodas e posso dizer que quem está lá, faz isso por amor.







Gilles Lipovetsky, filósofo francês, à revista Isto É, número 2231

Como descreveria , citando uma expressão sua, o mundo de hiperconsumismo em que vivemos?

Tudo no dia a dia depende de uma compra. Somos constantemente obrigados a comprar. Se você sai, tem de pagar o carro, o avião e isso implica gastar dinheiro. Pense em coisas que antes não eram consumidas. Da última vez em que estive em São Paulo, o motorista me levava ao hotel e, no caminho, via as pessoas correndo em academias, em esteiras. As pessoas hoje pagam para correr, sendo que, antes, corríamos de graça. Antes para nadar, íamos aos rios. Agora temos que pagar para frequentar piscinas. Antes quando tínhamos problemas pessoais falávamos com o padre e ele dizia o que fazer. Hoje falamos com o piscólogo . O gosto mais elementar da vida, que é conversar, pedir conselhos, virou consumo, pagamento.



Jonathan Franzen, escritor americano, à revista Época no. 737, edição de 2 de julho de 2012.Escreveu os romances Correções e Liberdade.

No livro Como ficar sozinho o senhor ataca a dependência do celular. Mesmo assim o senhor usa celular, não?

Sou um dinossauro em tecnologia.Detesto comandos de toque,meus dedos sentem desconforto com celulares touch. Não gosto de programas que completa palavras, do iPhone e da Apple. Não acho que Steve Jobs tenha feito um bem à humanidade. O iPhone e similares substituíram o cigarro. Os tabagistas trocaram a compulsão do cigarro pela do celular. A razão é que as pessoas ficam nervosas quando não estão fazendo alguma coisa. Aí entra o celular com o elixir para a obsessão de faze algo. Precisamos aprender a não fazer nada.

Como então seduzir as pessoas para algo tão antiquado quanto a literatura?

O escritor precisa despertar o interesse do leitor com uma história original e de compreensão fácil. Não adianta querer fazer malabarismo experimental que o leitor vai fugir. Ninguém mais tem paciência para jogos de linguagem como os de James Joyce. Quero ser legível. O mercado de livros é competitivo. O desafio é alcançar ao mesmo tempo a relevância artística e a adesão do leitor. Com escrever ficção e ser verdadeiro? Eis aí o paradoxo. Infelizmente, no mundo de hoje, se você não vende, não alcança repercussão. Se não fosse a revista Time ter elogiado meus livros, eu certamente não teria feito sucesso.


Nelson Rodrigues , revista Época, edição histórica da editora Globo, 2012, texto de Luis Antonio Giron.

O senhor pode dar uma mensagem à posteridade?Eu queria dizer à juventude que seja livre. Se o homem de um modo geral , tem vocação para a escravidão, o jovem tem uma vocação ainda maior. O jovem, justamente por ser mais agressivo e ter uma potencialidade muito generosa, é muito suscetível aototalitarismo. A vocação do jovem para o totalitarismo, para a intolerância é enorme. Eu recomendo aos jovens, envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais depressa possível, isso é um azar, uma infelicidade. Eu já fui jovem também e não me reconheço no jovem que fui. Eu só me acho parecido comigo até os dez anos e após os trinta. Eu já era o que sou quando criança. Na adolescência eu me considero uma paródia, uma falsificação de mim mesmo. Depois, a partir dos trinta eu me reencontro. Por isso, digo aos jovens: não permaneçam muito tempo na juventude que isso compromete.




PAUL AUSTER, na entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, caderno 2, 06.04

Escritores de geração diferentes, como Philip Rothe Gary Shteingart, disseram a este jornal que o romance está se tornando uma arte irrelevante

Eu já tive essa conversa com o Philip até em público e discordo dele. E acho que o romance ainda é importante para o públicoleitor. Como arte ele proporciona algo que não temos em nenhuma forma, uma intimidade com o outro. Cada romance é escrito por duas pessoas, pelo autor e pelo leitor, eles produzem a obra juntos. Ele coloca dois estranhos em absoluta intimidade. E isto nos remete ao que significa ser humano. Ainda que em números, o público seja menor, para nós, que ainda queremos ler romances, ele continua muito relevante.


FINALMENTE, CHICO BUARQUE saiu do armário e disse a que veio, entrevista à Rolling Stone


Hoje parece que há mais interesse sobre a vida pessoal do artista. Você percebe isso?

( Longo silêncio) Que a vida pessoal ficou mais exposta do que há vinte, trinta anos, não tem a menor dúvida(...) mas não me afeta tanto assim.Me afeta, por exemplo, ao ir à praia. Nasci em frente ao mar, nadava em Copacabana, pegava jacaré no arpoador, mergulhava. Até o dia em que saio da praia e um sujeito se agarra em mim, começa a berrar, gritar no meu ouvido e perguntar algumas coisas. Quando me dou conta; "Ih, tem um cara lá filmando. Isso aqui é um número cômico de um programa de televisão" Resultado: não posso ir à praia. Mas não é o fim do mundo. Deixo de ir à praia, de ir ao restaurante da rua Dias Ferreira e pronto. Isso não me afeta grandemente. falei sobre isso na Internet: você está mais exposto, mas aí é você - pessoa - e sua obra também. Com a Internet aumentou muito o número de críticos, se multiplicou um milhão de vezes. Como no caso da história do verso que você está apontando. Sei exatamente como ela foi criada; num blog de um cara da revista Veja que tem uma enorme estima pela minha pessoa e gosta de lançar esse tipo de futrica. ali vale tudo, já sugeriram até que eu desapropriasse meu campo de futebol para a construção de casas populares. é um problema que vem de muitos anos, uma questão doentia de uma revista contra um artista. Parece que o cara que manda nessa revista tem ambições literárias. Então ele não gostou de os meus livros ganharem prêmios porque ele quer ser escritor. Aí decidi me vingar. Sabe o que fiz? li o romance do cara, um tal de [Mario] Sabino. Não é parente do Fernando Sabino, acho. Fui até o fim, li tudo, tudo. E fiquei tranquilo, passou a raiva [risos]. falei; " Bom o melhor que esse cara tem a fazer é ser editor da revista Veja".


NOSSO CÉREBRO NOS FAZ PENAR PORQUE

NÃO SE MODERNIZOU COMO DEVERIA


Dean Buonomano, professor do departamento de Neurobiologia e Psicologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, autor de O cérebro Imperfeito

Em seu novo livro o senhor afirma que o cérebro humano é a máquina mais complexa que se conhece, mas aponta problemas em seu funcionamento. Poderia nos dar um exemplo?

Se você memorizar as palavras chocolate, paçoquinha e chiclete e, logo em seguida, eu perguntar se a palavra doce está entre elas, você provavelmente precisaria pensar por alguns instantes antes de responder. Doce não estava na lista, mas como todas as outras palavras se referiam a doces, o cérebro se confunde. Não seria assim se eu perguntasse sobre a palavra capivara. Por nada ter com as demais ela seria rapidamente descartada. Isso acontece porque nossa memória não armazena itens. Ela funciona relacionando conceitos e significados, como na lista de doces. Isso pode ser bom em alguns casos, uma fonte de problemas em outros.

Há outras falhas além dessas?

Sim, o cérebro não foi moldado para ter a capacidade cálculo de um computador, que é o que se exige dele hoje em dia. Isso se explica , em parte, pelo processo de evolução por seleção natural

As falhas do cérebro estão relacionadas à evolução?

Nosso cérebro está adaptado para um passado remoto, quando não era necessário lidar com números da forma que hoje somos exigidos hje: temos de lembrar de telefones, senhas , estatísticas. O cérebro não evoluiu para essas necessidades e os neurônios parecem não estar preparados para processar números. No mundo primitivo se você via um ninho de cobras, não precisava contar se eram dez ou doze. Bastava saber que eram muitas e fugir.

Nossa bagagem evolutiva explica os problemas das pessoas com o planejamento financeiro?

Sim. É isso que faz com que nossas decisões sejam influenciadas com o curto prazo. Em termos evolutivos faz todo o sentido. Se você oferecesse uma maçã a um homem há cerca de 100 mil anos, ele a pegaria naquele momento, mesmo se você prometesse, em troca da recusa, duas maçãs para a próxima semana. O raciocínio é da sobrevivencia. Diante da opção de obter uma uva imediatamente ou duas depois, até os macacos mais bem treinados não resistem à tentação por dez segundos.

Existe então uma luta entre um sistema de tomada de decisões intuitivo, emocional e , portanto, primitivo e outro mais reflexivo, resultado de planejamento e análise?

Certamente. Em muitos casos, o raciocínio automático pode predominar em determinado momento. É como disse logo no início: se você perguntar a alguns amigos o que as vacas bebem uma parte deles dirá leite. Isso acontece porque, quando criança, aprendemos a associar vaca com leite, e os neurônios que codificam as duas palavras aprendem a se ativar ao mesmo tempo.




O OTIMISMO PODE SER MUITO NOCIVO


Roger Scruton, filósofo inglês , entrevista à Veja,

No seu último livro, o senhor afirma que o otimismo é mais nocivo para os indivíduos e para as nações que o pessimismo. Como o otimismo pode ser tão prejudicial?

Não falo do otimsmo como virtude, nem da esperança, ou da fé que servem para a elevação espiritual do indivíduo e fomentam inovações e avanços. O otimismo prejudicial é o desmedido, ou, como disse o filósofo Arthur Shopenhauer, o otimismo mal-intencionado, inescrupuloso. É o tipo de pensamento que está por trás de todas as tentativas radicais de transformar o mundo, de superar as perturbações típicas da humanidade por meio de um ajuste em larga escala, de uma solução ingênua e utópica como o comunismo, o fascismo e o nazismo. Otimismo e utopia em excesso , em geral, acabam em nada, ou pior, dão em totalitarismo .


ROGER, DA BANDA ULTRAJE A RIGOR

De que você mais sente falta dos anos 80, época do auge do sucesso popular de vocês?

Vi o Caetano falar recentemente uma coisa com a qual concordo. Na verdade, sinto falta de juventude, desse ímpeto maior de fazer as coisas, desse nível de testosterona mais alto, cientificamente falando(risos). A gente vivia uma vida maravilhosa, mas não é a vida que eu queria estar levando agora(...)

O que você acha do rock nacional, agora?

Se infantilizou, né?Existem , claro, várias bandas, mas não é um movimento(...) Na nossa época a gente percebia que tinha uma cena(...) Mas me parece uma coisa mais voltada para a finalidade de aparecer, na nossa época era uma coisa mais espontânea. Hoje parece que o rock é feito para um público de 12, 13 anos.



Lars Von Trier, revista Veja, edição de 10 de Set


Em Melancolia, o senhor simpatiza com o sentimento de Claire, a personagem que se desespera quando sente que o mundo vai acabar. Mas é com a depressiva Justine, que encara o fim do mundo com serenidade, como uma libertação, que o senhor se irmana. em sua opinião, estaríamos melhor, como indivíduos, se simplesmente parássemos de brigar com a ideia de que estamos sós, e rumando para o nosso fim?

Acho que a vida é uma ideia muito ruim. Se essa ideia partiu de Deus eu o culpo por largar essa ideia no meio do caminho, sem levá-la a uma conclusão lógica. Imagine uma criança que ganha um trem de brinquedo e o põe para funcionar; ele corre no trilho uma dezena de vezes, a criança se diverte , e então perde o interesse. O que acontece com o trem depois que a criança o larga? Isso, para mim é a vida- se Deus a criou, e eu não acredito Nele, mas vamos supor que exista, Ele logo a largou, correndo por aí, sem um pensamento para o fato de que criou seres que sabem que cada passo deles na Terra causa o sofrimento de uma planta, um animal, ou outro homem, e que têm de enfrentar a consciência de que sua existência é finita.
Isto é, nascer sob uma sentença de morte. Se eu fosse um bicho, sem noção de que vou morrer e de que posso magoar os outros o tempo todo, sem culpa de espécia alguma e ocupado apenas em comer, excretar e me reproduzir, então a vida poderia ser tolerável. Mas não da maneira que ela é, para os homens. Não é justo. Se antes de eu nascer me consultassem sobre se eu quero existir neste mundo, eu diria não - absolutamente não.


(...) A letra de música não se explica, se ampara na própria melodia. Pois melodia já é letra: já sugere se é alegre outriste. A literatura não: mantém muito mais a ambiguidade. A letra não quer que tu não a entendas. Penso assim: quando o sil~encio é muito forte, é literatura. Na música o silêncio é mais curto. Na poesia, a melodia (é) a palavra. A música tem um sentido mais comunicativo, mais generoso. Não é preciso entrar nela para entendê-la. Já na poesia tem de entrar. Não Há como olhar de fora. A diferença é grande.

Nelson Mota:

Se Tim Maia surgisse hoje com o mesmo talento e o mesmo temperamento, ele teria chance de estourar, como em 1974?

Acho difícil. A sociedade está mais careta, repressiva, intolerante.Dificilmente aceitaria um personagem com a liberdade e anarquia dele. Tim Maia é palavrão, um baseado atrás do outro. Mas as pessoas riam, não se chocavam com ele. As pessoas não o levavam a sério. Hoje iam acusá-lo de falar mal disso, daquilo, de gays, de evangélicos. Tim Maia nasceu na época certa.