terça-feira, 9 de junho de 2026

40 MARANHENSES



Tempos atrás, na época em que todos liam o Pasquim — a época era de Ditadura e o Pasquim era o único jornal que a criticava usando as sutilezas do humor — em uma de suas tiradas o semanário saiu-se com esta, ironizando as peculiaridades de cada estado da Federação:

Cada 15 cariocas: uma roda de samba, 30 baianos: um trio elétrico; 10 gaúchos, uma roda de chimarrão...  e cada 40 maranhenses:  uma academia de letras.

Referia-se à vocação dos maranhenses para as letras e para a nossa sina de criação de organizações literárias denominadas de Academias. (E olha que, nessa época, não havia sequer um quinto das academias de letras que hoje existem em nosso estado).

Esse fato me envaideceu como maranhense e acho que deveria continuar a nos orgulhar, apesar da brincadeira, pois demonstra o zelo que o maranhense tem pelo exercício das letras. (Se, infelizmente, ao mesmo tempo, o maranhense é um dos cidadãos brasileiros que menos lê, essa questão vira coisa de outros quinhentos —  que cabe uma investigação séria para descobrir o motivo por trás desse aparente paradoxo.)  

O fato é que todo mundo, no Maranhão, pretende e se diz imortal entendendo que esse é um privilégio, ou um título, de quem se torna   acadêmico de letras. O que faz sentido, pelo orgulho da   tradição histórica de esta Terra   ter feito jus ao título de   Atenas Brasileira.

Revendo algumas crônicas por mim escritas em tempos idos deparei com uma publicada no jornal O imparcial em 1989. Eu havia voltado a morar em São Luís após longa ausência e estava ávido por praticar a Literatura dando vazão aos meus impulsos literários e, nessa crônica, fazia a comparação da observação pasquiniana com a proliferação em São Luís, de Academias de Ginástica que então eram, grosso modo, quase uma em cada esquina. 

Eu escrevi: “ Que proliferem também as academias de ginástica é   bom que assim seja para que o maranhense incorpore e exerça em plenitude a sabedoria latina do Mens Sana incorpore sano investindo, também no corpo. Como se sabe, mente sadia é muito mais difícil.”

Não sei a quantas andam hoje em dia as academias de ginástica, parecendo-me   que não sejam tão frequentes quanto eram nessa época.

Quanto à imortalidade lembro, a propósito, algumas frases de   escritores famosos:

“ A única vantagem de um sujeito ser escritor é que ninguém o chama de burro por ganhar tão pouco”

“No Brasil, escritor é chamado de imortal provavelmente porque não tem onde cair morto”

Por último, quando perguntado porque não se candidatava à Academia Brasileira de Letras o genial e sarcástico Millor Fernandes se saiu com esta:

“ Deus me livre! Jamais gostaria de participar de um rodízio de mortos! ”, ou

“ A maior vontade do intelectual é ser rico. E a do rico é ser intelectual. ”   

 

terça-feira, 2 de junho de 2026

MORRER, PENSAR, EXISTIR


   ...Mais tarde Oscar Wilde diria que “ A maioria das pessoas não vive, apenas existe”

 

 

“Penso, logo existo” A frase célebre do filósofo e matemático René Descartes pretendia ser definitiva, pelo menos quanto à existência humana como uma verdade incontestável.  Mais tarde Oscar Wilde diria que “ A maioria das pessoas não vive, apenas existe”, e quis dizer que não basta pensar para viver ou existir, mas que o importante é pensar bem e melhor.

O tempo passou, o avanço tecnológico trouxe as IAS e a capacidade de das máquinas pensarem o que, segundo a máxima de Descartes, prova que existem também, e que, pelo menos quanto a isso, isso não há dúvidas. O que se questiona   é se um dia pensarão melhor que os seres humanos o que parece não ser tão difícil assim, como mostra a lista abaixo.

 

1.Todo ser humano pensa que não morrerá nunca. E vive e age como tal.

 

2.Todo ser humano pensa ao elogiar um defunto que está fazendo algo pelo qual o morto lucra alguma coisa.

 

 

3.Todo sujeito (autoridade, formador de opinião, intelectual etc.) que demonstra piedade de monstros assassinos só porque são menores de 18 anos, pensa que com isso mostra generosidade e amor ao próximo, e não que está sendo hipócrita, pela ousadia cruel de assumir um perdão que não é seu e de doar esmolas às custas do sentimento das pobres vítimas desses assassinos.

 

4. Todo ser humano, que enfrenta todos os dias uma imensa fila de Loteria, pensa que apesar de suas    miseráveis chances de ganhar, um dia a sorte lhe sorrirá.

 

5.Todo Luan Santana pensa que é cantor. Todo Gabi Gol pensa que é Neymar. Todo Neymar pensa que é Cristiano Ronaldo e todo Cristiano Ronaldo pensa que é Pelé. Toda Anitta pensa que é Ivete Sangalo e toda Ivete Sangalo pensa que é Ivete Sangalo.

 

6.Todo jornalista e comentarista de futebol pensa ao comentar uma partida que está falando algo de enorme importância para a humanidade. Age como se o futebol fosse uma ciência complicadíssima   e como se o mais burro dos torcedores, não  soubesse  que ouve e compartilha tanta asneira que sai de suas bocas simplesmente porque , como ser humano, aprecia se divertir ouvindo bobagens   

 

7.Todo ser humano pensa que, de fato, está decidindo alguma coisa melhor para si quando vota em dia de eleição. Insiste em acreditar que existe diferença nas propostas de um de outro e que os contendores não sejam apenas farsantes que fingem se digladiar em nome de   ideologias fajutas. E passa a vida se iludindo que os vencedores de sempre não tenham o único propósito de se assenhorar do poder para exercê-lo em proveito próprio, e de seus parentes e acólitos. 

 


 

terça-feira, 26 de maio de 2026

LULA, BOLSONARO E O INFERNO



BOLSONARO, LULA E O INFERNO

         José Ewerton Neto

 

O tempo passa, mas a luta LULA X BOLSONARO continua. Com a proximidade das eleições tudo vale para destruir o adversário, ou seus representantes.  

Temerosos do resultado, o jeito foi apelarem para uma entrevista pessoal com o Diabo.

O que eles não esperavam é que fossem chamados ao mesmo tempo.  Esta semana, Bolsonaro e Lula se postaram diante de uma live espiritual em sua presença e foram confrontados pelo Todo Poderoso do Mal.

1.Satanás: “Sei que ambos são inimigos. Por acaso, algum de vocês consegue enxergar algum mérito no outro? ”

Bolsonaro. A única virtude que ele teve na vida foi ter cortado o seu dedo quando era torneiro-mecânico. O que prova que era melhor como torneiro-mecânico do que como presidente.

Lula. Reconheço nele a virtude de ter tentado tocar fogo no quartel onde trabalhava. Mas nem pra incendiário serviu.

2.Satanás: “Quando vocês vierem para cá — o que poderá ser em breve — como desejarão encontrar o inferno?

Lula. Com uma boa cachacinha. Sendo das boas, esse fogo do inferno eu tiro de letra. 

Bolsonaro. Uma boa arma para praticar tiro ao alvo, seja o alvo quem for. Mas, por favor, não me venha com foice.

3. Satanás. “Se um dia vocês me sucedessem no comando do inferno, o que, vocês fariam?

Bolsonaro. Liberaria o fuzil semiautomático para todos, inclusive para os diabinhos de 3 meses aposentando o tridente que ainda usam.

Lula. Criaria o bolsa-família. E botaria meu filho Lulinha para tomar conta do dinheiro. 

4.Satanás: “ Algum fato na biografia de seu opositor chegou a lhe entusiasmar?

Lula. A facada. Mas não foi bem executada.

Bolsonaro. A tornozeleira eletrônica. Que ele deveria   ainda estar usando no lugar da aliança de casamento. Sei disso, por experiência própria.

Entusiasmado com o que acabou de ouvir Satanás tomou uma decisão: Vai apoiar os dois, porque qualquer um que vença, o Inferno estará bem servido.


 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

NO REINO DAS ILUSÕES E DAS FATALIDADES INFINITAS



NO REINO DA ILUSÃO E DE FATALIDADE INFINITAS

José Ewerton Neto  

 

O infinito, na matemática, mal consegue disfarçar sua sina de impostor...  Do livro Cidade Aritmética, de José Ewerton Neto

1.FATALIDADE

O ser humano não suporta a realidade, dizia Henry James e a Ciência sabe disso. Os sonhos, por exemplo, são artifícios que o cérebro engendra, durante o sono, para rearranjar a realidade, aliviando a mente da pressão cotidiana para aguentar a pressão do dia seguinte. O que muita gente não atentou ainda é sobre como   se prestam, também para isso, as palavras.

Um exemplo disso á a palavra Fatalidade que, no Brasil, é usada a torto e a direito, pelos responsáveis pelas tragédias para se omitirem de suas responsabilidades. Os autores dos crimes primeiro recorrem ao termo Fatalidade, e depois ao tempo para que suas participações sejam esquecidas. Assim foi o horror de Santa Maria (quem se lembra?), depois a chacina de crianças no Ninho do Urubu, depois as quedas de pontes, as enchentes — enfim, onde houver tragédia.

“São Fatalidades”, dirão governadores e presidentes da República, quando as vítimas abarrotarem os cemitérios por conta da indiferença das autoridades. Fatalidades! Acabarão por dizer as próprias vítimas, ou seja, o povo, obrigado a se conformar.

Assim, a palavra Fatalidade   — coitada! — Presta-se sobremaneira para isso, (como, afinal, todas as palavras): para serem usurpadas ao sabor da capacidade humana (brasileira em especial) de escamotear a realidade.  

2.INFINITO

Certo dia, conversava com uma amiga escritora quando ela se saiu com esta: “ Cheguei à conclusão de que o ser humano, eternamente incapaz de saber o que é; de onde veio, e para onde vai — e sendo incapaz de admitir isso — se socorre das palavras que inventa para solucionar suas dúvidas decorrentes de sua pequenez e insignificância diante do Universo. Um exemplo é a palavra Infinito.

Ora — continuou ela — alguém pode me explicar o que significa infinito? O que é a palavra infinito mais do que uma tentativa, vã, de conceber o inexplicável? ”  

Tive de concordar com ela, ao mesmo tempo que lembrei de tantas palavras, irmãs da “fatalidade”, sem significado concreto, e que na maioria das vezes são usadas por conveniência: amor, eternidade, paixão, felicidade etc. Palavras que ninguém sabe traduzir exatamente o que significam, mas a quem se recorre cotidianamente por suas infinitas serventias ao gosto do freguês.

A palavra Infinito é outra. Confesso que ela sempre me perturbou desde que travei conhecimento com a Matemática e queria apreender o que havia por trás de uma fórmula que dizia que a unidade   dividida por zero era igual a infinito. Para mim era impossível captar como se podia dividir algo por nada e o resultado dar infinito. Anos mais tarde, meio que filosoficamente, deduzi que aplicada ao ser humano essa fórmula era salvadora e um tanto poética, traduzindo, apoiada na lógica, a medida do homem.

Enfim, a vida do ser humano precisa ser considerada infinita (e deve assim ser avaliada e sentida) por   seu destino cruel de acabar em nada.  


 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O DIA MUNDIAL DO LIVRO ( SEGUNDO 645)



NO DIA MUNDIAL DO LIVRO O SR.LIVRO SONHA COM O DIA EM QUE NÃO SE PRECISARÁ DE  DIAS ESPECIAIS PARA LEMBRAREM DELE 

 

domingo, 19 de abril de 2026

SEM PERDER A TERNURA




AS FRASES CÉLEBRES E SUAS SERVENTIAS


.”Hay que endurecerse. Pero sin perder la ternura, jamas. ” Che Guevara

 

Você já se sentiu sem argumento no meio de um debate, ou em uma palestra? Já experimentou se socorrer de uma frase célebre?

Pois é, pode usá-las à vontade. Na verdade, é para isso que elas servem. Eis 3 exemplos.

 

1.” Hay que endurecerse. Pero sin perder la ternura, jamas. ” Dita pelo guerrilheiro   Che Guevara

Tradução. É preciso endurecer, sim. Porém, sem perder a ternura.

Significado. O Homem forte e corajoso, jamais abre mão da delicadeza e da ternura.

Aplicação Prática:

Nas brochadas épicas.

Pode ser um bom começo para insinuar à sua a parceira carente — e inconformada —  que   o   importante   é o amor e o carinho e não o desempenho sexual.

Vai que cole!

 

2.”A arte existe porque a vida não basta” De Fernando Pessoa, e repetida   por Ferreira Gullar.

Significado. Significaria que todo artista, por ser dotado de um dom especial que os outros não têm, conseguiria dar a sua existência um valor que os outros não conseguem — como se a vida bastasse para os demais seres humanos e todos vivessem satisfeitos com a vida que levam, com a sua brevidade etc.

Aplicação Prática. Se você for escritor e mestre em literatura, estiver dando uma palestra e alguém da plateia perguntar se seu autor preferido é Proust ou James Joyce. Claro, você não leu nem um nem outro, mas se lembra dessa frase pra lá de chata.

Vai que cole.

 

3. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena” Fernando Pessoa

Significado. Significa que quando sua alma é grandiosa em virtudes, todas as suas atitudes se tornam valiosas graças ao esplendor de seus sentimentos.

Aplicação Prática: Se você for o jogador do time escolhido para bater o pênalti e perde o gol que daria o título ao seu clube.

Em resposta ao repórter idiota (sempre tem um) que vem lhe indagar como está se sentindo, você poderia se socorrer desta frase tentando filosofar.

Vai que cole. 


 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

O VERSO MAIS BONITO DA LÍNGUA PORTUGUESA



“...Alguém poderia me ajudar   a escolher o  verso mais bonito? ”

 

Tu pisavas nos astros, distraída” da música   Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa, foi considerado por Manuel Bandeira o mais bonito verso da língua portuguesa.

            O fato de tê-lo escolhido não de um poema concebido inicialmente para ser apenas lido (como a maioria) sugere que a escolha de um verso bonito não é simples e demanda atenção, percepção e sensibilidades típicas de alguém do ramo, no caso um poeta da envergadura de Manuel Bandeira.

            Talvez porque a captação da emoção propiciada pela beleza, tal como ocorre na atração física, envolva submeter-se inicialmente ao impacto do conjunto e, somente no instante seguinte, aos detalhes que suportam e evidenciam essa sedução. No caso da atração física, a harmonia do conjunto é sucedida pelo êxtase concedido pela contemplação distinta de olhos, boca, postura, etc. No caso da leitura a sequência não se dá, fragmentando-se os elementos que compõem a teia de sedução.  

            Por isso, ao indagar-se a alguém pelo poema mais bonito que leu muitos hão de se lembrar de seu favorito com alguma facilidade, enquanto à indagação de seu verso favorito, poucos se arriscarão a uma resposta. Imagino que alguns poemas tornados clássicos, se destacariam na preferência coletiva, casos de A Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, As Pombas, de Raimundo Correia, ou algum poema de Augusto dos Anjos. Outros menos votados somente surgiriam de leitura e preferência pessoais. No meu caso, entre os brasileiros prefiro A Mosca Azul de Machado de Assis, ainda que o escritor carioca seja mais conhecido como romancista do que como poeta. Mas, e o verso? Quantos se arriscariam a escolhê-lo? 

            Certamente não seria o “escarra nesta boca que te beija”, ainda que coexista muito à vontade no soneto popular — e belíssimo — de Augusto de Anjos. Uma nova leitura do poema Versos Íntimos, focada nesta frase, sugere o fato de que um poema bonito subsiste a não ter sequer um grande verso ou, até mesmo, ter versos bizarros como esse. Em   Canção do Exílio nenhum verso se distingue sozinho, e o conjunto compõe uma peça poética que, mesmo sem ser cantada, produz acordes nostálgicos de alta vibração, com harmonia e ritmo tão apropriados à fala que poucas canções chegam perto. Assim, como esse poema não sente falta de um belo verso, versos muito bonitos podem sobreviver a poemas sofríveis.

            Dito isso, alguém poderia ajudar-me a escolher o ‘meu’ Verso mais Bonito? Lembro, de supetão, de algumas construções lidas há pouco dos grandes de nossa terra que nos deixaram recentemente como “Palavra, escrevo-a nua: água”, de Nauro Machado ou “Um pássaro preso, mesmo cantando é mudo”, de José Chagas ou, indo mais longe, “Eu vi um homem perseguindo o horizonte. ”  de Stephen Crane.

            Como não fui capaz, porém, de escolher um entre tantos, resta-me a opção de render-me à sabedoria do poeta pernambucano e concluir que sim, de fato, o verso escolhido por ele é o mais bonito.  Mesmo porque, se não for, ainda assim ele terá acertado, pois o verso mais belo será sempre aquele capaz de nos prostrar extasiados diante de sua sedução — enfim, aquele capaz de fazer com que pisemos nos astros, distraídos.