segunda-feira, 24 de agosto de 2020

OS DIAMANTES NÃO SÃO ETERNOS

 



DIAMANTES NÃO SÃO ETERNOS

 

Todo ser humano almeja a eternidade e comporta-se como se isso fosse possível. Na vida pós-moderna (especialmente após a virada do século) a cultura da ilusão e do apelo ao imediatismo procura excluir a morte da realidade cotidiana mediante a ocultaçãode sua presença  e do que ela representa.

Assim, tudo aquilo que a morte carreia é, propositadamente,tratado com distanciamento e indiferença, e isso se manifesta de variadas formas: No desprezo cada vez maior à velhice ; Na exaltação exacerbada à beleza e a juventude ; Na condolência pelos assassinos (cruéis, mas vivos) ao invés de pelas vítimas (honestas, mas mortas) ; Na falta de afeto pelos doentes terminais, confinados e entubados nos quartos dos hospitais, em vezde no convívio de seus familiares.

Esse comportamento é constatável no artificialismo a que tendem os funerais nas regiões urbanas, onde predomina o distanciamento afetivo, expresso nas conversas em paralelo e expressões de riso e até de alegria, diferentes da solidariedade espontânea que somente ainda se vê nos rincões mais afastados.

 Igualmente, os valores trazidos pela consciência da finitude da vida ficam relegados, cada vez mais, a segundo plano: a humildade, a honestidade, a maturidade e a reflexão  são interpretados como sendo incompatíveis com a agressividade necessária para competir no mundo atual e são desestimuladas pelos livros de autoajuda e pelas palestras de empreendedorismo que proliferam nos ambientes sociais.

Naatual Pandemia, esse comportamento, ao invés de interrompido ou, pelo menos,amenizado pela iminência da morte, ganhou tons mais concretos de efetivação como se a Pandemia o referendasse. As pequenas regras de solidariedade ao ente terminal, como a contrição, a reserva, o luto e a oração foram substituídos por um ‘salve-se quem puder’ muito adequado a quem já dispensaria os esforços de demonstração de pesar durante as exéquias de alguém.

Nada de estranhar que na Europa empresas hajam se especializado em prestar um ‘serviço de eternização’, digamos assim, transformando as cinzas dos mortos em diamantes. A procura desse serviço virou uma mania para quem pode pagar. Claro que a homenagem assim prestadatem valor afetivo, mas cedo reverbera uma verdade que a empobrece, pois induz à reflexão de que o dinheiro podendo comprar tudo, ao não conseguir vender a eternidade,  tenta, pelo menos, permutar seu símbolo. No fundo, não passa de um“Compra-se memória”, quemesmo quando visto pelo lado do negócio, tem um  custo-benefício do tamanho de um engodo. O dinheiro é gasto à toa, porque as mesmas cinzas conservadas em depósito mais humilde, se referenciadas com ternura teriam valor equivalente ou maior.

“Os diamantes são eternos” é um filme antigo de James Bond. Vá lá que isso seja verdade, porém,um ser humano, que em vida é  constituído de corpo e memória,  pode até transformar os restos de seu corpo em diamante, mas nunca em memória. Ao contrário esta terá de ser efetivadadurante a sua vivência como única chance de eternizar-se, findo o corpo.

A evolução tecnológica pode muita coisa, mas jamais conseguirá dourar a memória do que alguém fez ou do que construiu em prol dos homens e da sociedade. O que, por ser accessível ao mais humilde dos homens, é o seu maior diamante,e o único capaz de eternizar-se.


sexta-feira, 14 de agosto de 2020

WALDEMIRO VIANA E MILSON COUTINHO

 







Estava dia 4, pela  manhã, no  velório do confrade  Waldemiro Viana para me despedir de corpo presente, em oração e afeto,  do amigo escritor que partia em definitivo, quando recebi outra triste notícia, o também confrade e amigo MIlson Coutinho acabara de falecer.

Num ambiente de Pandemia onde  os cuidados protetivos não são suficientes para servir de escudo contra o extravasamento da sensação de impotência e fragilidade humana, imagine a repetição dessa pungente sensação com novo impacto de melancolia e saudade. Permaneci no centro da cidade até chegar o momento de repetir, mais tarde,  a mesma jornada de despedida, desta vez rumo à Academia Maranhense de Letras onde  Milson Coutinho, outro amigo e confrade,  estava sendo velado.

WALDEMIRO VIANA.

As qualidades pessoais de Waldemiro Viana de companheirismo, afabilidade e alegria já foram tão decantadas por confrades, amigos e parentes nas redes sociais, blogs e jornais  que não cabe aqui repeti-las. A essas acresço ainda mais uma: a ironia.  Waldemiro Viana era um formidável irônico do bem. Aquele tipo de ironia desconcertante no trato das pessoas que faz  desanuviar semblantes carregados e emoldurar as faces compenetradas de sorrisos e gargalhadas, mesmo nas ocasiões mais solenes, permitindo que todos escapem brevemente da seriedade protocolar.

Essa ironia, dom de poucos, Waldemiro Viana carreou para seus romances  explicando-se assim a sedução que sua escrita exercia nos espíritos mais propensos à liberdade - e não apenas de sua livre interpretação no trato ficcional dos personagens e dos fatos. Assim, até nas situações mais angustiantes de A Tara e a Toga, um romance policial  de ficção histórica baseado no icônico e rumoroso caso do Desembargador Pontes Visgueiro, Waldemiro adicionava a sua verve peculiar, que permitiu aos leitores, mesmo no momentos cruciais da história , rir das desgraças humanas. Em outro livro A vez da caça (atenção para a curiosa escolha dos títulos segundo essa tônica),  idem quando nas situações mais inusitadas e imprevistas, o cinismo e a falta de escrúpulos desses anti-heróis fazia com que torcêssemos por eles,  como amigos a quem se perdoa o cinismo em nome de  espírito aventureiro, como tantos leitores torceram por Tom Jones, do escritor inglês Henry Fielding, à reboque de uma narrativa, como as de Waldemiro,  eivadas de deliciosa ironia.

 MILSON COUTINHO

Milson Coutinho também era da estirpe dos que fazem amizades sinceras e perenes com muita facilidade, a par dos cargos de comando que exerceu, onde nem sempre é possível agradar a gregos e troianos.

Literariamente Milson Coutinho enveredou por um gênero de elaboração árdua e complexa,  que é o da Pesquisa Histórica,  tornando-se  na AML e na intelectualidade maranhense um dos expoentes dessa corrente dedicada a esse trabalho de reavivar, documentalmente ou com alguma liberdade de interpretação, memórias e fatos que precisam ser  preservados.

Isso exige dedicação, agudeza e desprendimento e, sobretudo, generosidade, pois é um presente concebido, principalmente, para as gerações posteriores, ocorrendo muitas vezes que estas sim é que reconhecerão mais largamente o presente que lhes foi doado. Fico imaginando que ao autor dessa epopeia fundamental para os maranhenses A revolta de Bequimão só faltou brindar-nos, com aquela que seria outra obra preciosa: a sua autobiografia, sobre a sua trajetória tão rica e tão aplaudida por  todos. 


José Ewerton Neto é membro da Academia Maranhense de Letras e autor do livro  O entrevistador de lendas




quarta-feira, 29 de julho de 2020

O BRASIL QUANDO A PANDEMIA ACABAR




De volta para o futuro. É assim que nos sentiremos quando a vacina chegar,  anunciando o fim da pandemia.
Mas, como será esse futuro? Dá para imaginar?

1. O Pico da Pandemia até agora não foi visto. Nada, porém,  de apavoramentos! Fique tranquilo, leitor, ouso sugerir que,  até o fim do ano, “eles” darão  um jeito de anunciar sua descoberta.  
Sim, porque estaremos chegando ao fim do ano  e, algo me diz que por volta de Novembro,  no mais tardar, ele surgirá . Um milagre?
Sim, um milagre chamado Reveillon.
Pode-se imaginar, no planeta Terra, um ano sem réveillon? Pode até não ter ano, mas Réveillon tem que ter. Para felicidade geral, pela  certeza de que estamos vivos ainda, uma vacina terá de surgir sabe-se lá de onde. Com morcego ou sem morcego, com cientista ou sem cientista, com OMS ou sem OMS. E o  Pico terá de ser  anunciado lá pelos idos de Novembro.  

2.Depois do Pico virá a  Vacina,  sendo fácil prever o que acontecerá,  no Brasil, esse dia.
Galvão Bueno sairá de seu isolamento, (que nos fez tanto bem)  para voltar a gritar. Só que,  ao invés de berrar gooooooool do Flamengo gritará Vaaaaciiiinaaaaaaaaaaaa!!!,   em  programa da Globo.
O presidente Bolsonaro, convencido pelos militares  decretará  luto oficial de 5 dias em homenagem ás vítimas do Covide (sua ideia inicial  era meio dia,   apenas ).
Será aprovada a mudança de nome do estádio do Maracanã para estádio Sérgio Mandetta (ideia de um deputado carioca aprovada a toque de caixa) O primeiro bebê a nascer depois da Vacina receberá o nome de Vacina, se for mulher, e Enfermeiro, se for homem  O vídeo  do nascimento será transmitido pela Globo e repostado por milhões de seguidores na net.
Em seguida, serão iniciados os preparativos para o próximo Carnaval, com aceleração máxima e cobertura do trabalho 24 h por dia. Os temas de todas as escolas de samba,  versarão sobre a Pandemia com diferentes abordagens. A Turma da Mangueira, por exemplo,  terá uma ala da OMS, outra de médicos e, lá em cima, como um Deus egípcio, a figura de Tedros Adhanon em pessoa. (Adhanon, relutante a princípio , acabará aceitando o convite para desfilar na passarela do samba).
A Império Serrano, terá  tema e samba enredo com o título : 20 a 19. A explicação: contra o Covide 19, esperança 20. O vírus será representado em carro alegórico por uma espécie de maxixe gigante, rodeado de travestis,  vestido de diabos, representando as forças do mal.  

3. Decretos governamentais estabelecerão que as máscaras serão distribuídas gratuitamente, aos pares, com camisinhas. Um empresário pernambucano terá a feliz ideia de fabricar uma engenhosa Máscara/ Camisinha com dupla finalidade. Luciano Hulk, um dos entusiastas da ideia, apresentará  a máscara em seu programa e dirá que ficou perfeita para o seu imenso nariz.
Os bailes de máscara serão liberados, todos se divertirão pra valer! João Dória aparecerá vestido de Batman, o morcego do bem, no bloco da Preta  Gil.  Infelizmente, porém, um  gigantesco Covide-19 despencará  de cima de um carro alegórico e cairá na cabeça de duas folionas. Uma delas, vítima recente do Covid, ao se recuperar do impacto, no hospital,   bombará na net com esta frase: “É mais fácil escapar de um Covid de verdade do que de um Covid feito por gente.”  

Quem viver verá!


José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas, 2a edição nas livrarias de São Luis  


sábado, 18 de julho de 2020

O.M.S ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO SUSTO.




artigo publicado no jornal O estado do Maranhão


DO JEITO QUE AS MÃES RALHAVAM


Observem como as recomendações repetitivas e monocórdias da OMS ( que um amigo jornalista chama de Organização Mundial do Susto) se parecem com as falas de nossas mães, avós, tetravós,  não só nos seus  objetivos de nos antecipar proteção  como também no mesmo jeito das suas cantilenas imemoriais.
São os conselhos óbvios, elementares e necessários, como se estivessem ralhando com a gente, de nossas mães.  Mas, no caso da Pandemia, ausentes de uma solução,  que nunca se  esperaria  de uma intuitiva mãe - ansiosa por proteger suas crias, mas, obviamente, de uma organização Global dotada de vultosos recursos financeiros  e de inteligências científicas escolhidas a dedo para que , pelo menos em tese, fossem capazes de trazer soluções menos triviais do que apenas exortações de fuga e recolhimento.
Na prática,  repetem-se tanto as notícias pavorosas todo dia,  que nosso amigo acabou associando a OMS a uma agência disseminadora de pavor. Sei que alguém pode contrapor, com justa razão: “Como falar de notícias boas, se a realidade é tão cruel?” Sem dúvida, temos  de concordar com isso, mas com o passar do tempo e a ausência total de soluções é fácil intuir que deve haver algo deletério  nos alicerces dessa instituição para que, visivelmente,  exiba tanta  incapacidade de conduzir e orientar  soluções que façam frente  a epidemias desse porte.
Era de se esperar  estudos técnicos conclusivos sobre, por exemplo:  influência do clima;  remédios promissores ou nocivos;  perspectivas de curto e médio prazo etc. Mas o que sobressai são líderes atarantados que agem como vítimas, incapazes de se pronunciarem adequadamente sobre o manancial de dados colhidos, resumindo-se a lamentar os fatos e apontar os dedos como se fizessem parte, realmente, de  uma organização assustada e sem rumo.
E, assim, repetem as nossas mães sem serem dotados, sequer, do afeto e da empatia que ela  possuem. Basta comparar suas falas para vermos as semelhanças. A OMS, como mãe. O homem do povo, como o filho que responde.  

1.”Lá em casa, a gente conversa”.
Certo  mamãe OMS. Mas, primeiro preciso, pelo menos, ter uma casa.

2.”Você não faz mais que sua obrigação ao se proteger”.
Com certeza, mamãe OMS. Mas se minha obrigação é a de me proteger, a da senhora deveria ser a de estar propondo soluções, que já vão tarde. Ou não?

3.”Repete isso que você falou”.
Quem repete todo dia a mesma cantilena “Vá pra casa”, é a senhora. Quando  vai dizer  algo diferente ?

4.”Quantas vezes terei que falar?
Não sei, mamãe OMS. Só espero que não seja por toda a eternidade, como a senhora parece agourar. Rezo que seja antes de morrermos todos.

5.”Se você não guardar suas porcarias, vou jogar no lixo”.
O que aprendi mamãe OMS, é que nós, seres humanos,  não passamos de grandes porcarias, frágeis e indefesas diante de um minúsculo vírus. Quanto a jogar-nos no lixo, a verdade é que essa pandemia já nos jogou lá dentro há muito tempo.

6.”Se eu for aí e achar, esfrego em sua cara”.
A senhora está falando da máscara, mamãe OMS? Fique certa de que ela está em minha  cara há tanto tempo que não sei mais como era antes.


josé Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas 


Primeira novela de ficção científica sobre lendas maranhenses. Ação, aventura, e, de quebra, conhecimento! Agora em segunda edição. 

sábado, 11 de julho de 2020

MARTA ROCHA ( A BELEZA MORRE)





A beleza vive. A beleza morre. A beleza que morreu desta vez chamava-se Marta Rocha.
Lembro-me de quando eu tinha uns cinco anos de idade, em Guimarães, onde minha família residida. Na ocasião meu avô, José Ribamar Ewerton, me fez decorar uma fala de sua autoria. Satisfeito com meu rápido aprendizado, mandava me chamar onde eu estivesse para que a repetisse para os amigos, quando acontecia de se reunirem num armazém defronte à minha casa.  Ele me estimulava: - Vamos lá, rapaz, mostra para essa turma que você já sabe dizer o nome completo. Compenetrado, eu repetia tintim por tintim o pequeno discurso que ele havia me ensinado e falava: “Meu nome é José Ribamar Ewerton Neto, sou moço garoto da miss Brasil, Maria José Cardoso, minha querida noiva”. Eles gargalhavam, encenavam me cumprimentar como a um adulto e diziam: “Zé Ewerton, esse moço tem futuro, e já começa pela Miss Brasil.”




                               





Mais tarde tomei consciência, através do que via nas fotos de revistas como O Cruzeiro,  de que Maria José Cardoso “ a minha noiva” , era sim, muito bonita e , além disso, havia ganho o concurso de Miss Brasil em 1956. Mas  a beleza, a beleza de fato, não era ela, mas Marta Rocha,  que fora miss Brasil antes dela e cujos dons de formosura capitalizaram o entusiasmo  dos anos vindouros a ponto de seu nome se tornar  um sinônimo de beleza. Quando se dizia que fulana era Marta Rocha, as moças se engrandeciam muito mais do que se alguém dissesse que eram formosas.  
Confesso que para meu gosto pessoal ainda embrionário, Marta Rocha era, sim, bonita, mas não abarcava toda a  gama de suscetibilidades estéticas trazidas, a seguir, por certas atrizes como Sofia Loren , de quem me tornei ardoroso fã tão logo nos mudamos para a capital e vim a conhecer o cinema. Era fatal que Marta, como ideário de beleza, fosse sobrepujada por aquelas, cujas imagens se movimentando nas telas dos cinemas incorporavam uma dose adicional de erotismo, sedução, e amor platônico, que uma fotografia solitária era incapaz de sugerir. Dessa forma, Marta Rocha nunca foi páreo para a italiana, que me fazia sair de casa célere em direção aos seus filmes, assistidos muitas vezes à custa de burlar a idade mínima exigida.  
Em paralelo, mesmo envelhecendo, Marta Rocha continuou por muito tempo como símbolo da plenitude da beleza brasileira. Afinal era possuidora da eterna beleza, como disse a seu respeito,  Vera Fisher, outra bela,  em entrevista à rede Globo no dia de sua definitiva ida.
Ao conceber o título desta crônica em homenagem a essa mulher que obteve, como nenhuma outra, no Brasil, o máximo que pode ser  concedido à  transitoriedade da beleza física, talvez haja me inspirado no título do romance do japonês, premio Nobel, Yasunari Kawabata  intitulado Beleza e Tristeza,  no qual o narrador ao mesmo tempo em que se rende ao esplendor da beleza, traduz-lhe  a precariedade diante da derrocada humana
Como disse Stendhal  “A beleza é apenas a promessa da felicidade”.  Infelizmente, é ceifada pela morte também, sendo, no entanto,  suficiente para ter sido capaz de sobrepuja-la que, exuberantemente, nos traga, como agora,   toda  essa conjugação  de apogeu, melancolia e saudade.


José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas 



Segunda edição já nas livrarias. 
As mais belas lendas maranhenses. Ação, aventura, e informação
em uma novela de ficção científica para jovens e adultos. 

quarta-feira, 8 de julho de 2020

VENTOS CONTAMINADOS SE TORNAM VIOLENTOS







REFLEXÕES DA QUARENTENA 


645 é o pensador politicamente incorreto da Pandemia
Tão direto como a Matemática
tão simples como um número 

e chama a OMS de Organização Mundial do Susto