“Uma voz inumana, monocórdia, repetitiva, chata,
estoica e...”
Ser um humano algum dia soou como
algo que sempre dava a qualquer ser vivo, tido como racional, muito orgulho.
O tempo passou... e, hoje, esse
orgulho passou a diminuir depois que essa raça, ao tentar resolver suas
próprias necessidades, foi substituída por artifícios tecnológicos criados por
ela mesmo. Sua inteligência está sendo gradativamente trocada pela IA e sua voz
por outra desconhecida e indiferente.
Uma voz inumana, monocórdia,
repetitiva, chata, estoica e...
Outro dia tentei resolver um problema
por telefone com um plano de saúde. Após inúmeras tentativas fui recebido por
uma voz aparentemente gentil, listando pra mais de quinze opções, para que eu
escolhesse uma só, apenas para que esta, por sua vez, me encaminhasse para
...outra voz.
De opção em opção, tendo por
referência sempre aquele som repetido e imperturbável, adentrei no reino do
desconhecido, do improvável, do apavorante e, logo vi, do insolucionável.
Depois de mais de vinte minutos, sem outra alternativa, e perdido naquele
labirinto de mensagens que não me levavam a lugar algum, desisti batendo o
telefone.
Raciocinei, desolado, que dia virá em
que — numa evolução dessa situação kafkiana, você será acusado pela mesma voz
receptora de algum crime que não cometeu e sequer tem ideia do que seja.
Mecanicamente a voz lhe
direcionará para um site da Internet onde você supostamente poderá tentar
provar a sua inocência. Sem alternativa, você tentará sua salvação apertando
botões e abrindo janelas inacessíveis usando um mundão de senhas até que o
veredito chegue em forma de mensagem lhe indicando que você está usando dados
inválidos, enfim, que você não é você.
Desesperado, você buscará falar com
uma outra voz (agora você estará sujeito a qualquer uma) indicada pelo site,
mas que se recusará a atende-lo sem que especifique qual foi o crime que você
cometeu, terminando por anunciar que em dez minutos a polícia estará batendo em
sua porta.
É quando você pensa que será até bom
ir para a cadeia porque lá, pelo menos, você terá um ser humano vivo para lhe
atender.




