terça-feira, 1 de abril de 2025




DE PERDIDOS A PERDEDORES

José Ewerton Neto

À primeira vista isso parece simples como constituinte do fatídico humano...

 

Perdido. Sem saber quem é, nem de onde veio, nem para onde vai. E cercado de perdas por todos os lados.

É esse o homem?

Sob um ângulo científico, sim. Caso não se socorra de sua fé religiosa para responder à primeira parte das questões fundamentais de sua existência, para as quais a Ciência jamais encontrou resposta.

Mas o pior é que, queira ou não queira, também é um perdedor nato e é disso que se ocupa Kathrin Shuls em artigo intitulado Permanência publicado na revista Época, tempos atrás. E, embora as Perdas sejam fatos corriqueiros em nossas vidas, fingimos não nos dar conta disso.

Estatisticamente dados de uma pesquisa mostram que um cidadão comum perde cerca de nove objetos por dia, o que significa que quando completarmos 60 anos teremos perdidos cerca de 2 mil coisas. Durante toda sua vida você passa cerca de seis meses procurando por objetos perdidos. Somente em celulares perdidos nos USA uma década atrás foram gastos 30 bilhões de dólares, imagine hoje!

À primeira vista isso parece simples como constituinte do fatídico humano, mas essas pequenas perdas não passam de presságios de perdas ainda maiores - da autonomia, da capacidade intelectual e, finalmente, da própria vida. Por isso quando perdemos coisas, mesmo triviais, ficamos tão chateados. Independentemente do que desaparece a perda nos coloca em nosso lugar, nos faz confrontar a desordem, a perda de controle e a natureza efêmera da existência, diz a autora.

Até chegarmos a maior das perdas, a dos entes queridos. Tantas vezes, inconscientemente, saímos à procura daqueles que perdemos e que jamais encontraremos, porque, diferentemente de outras perdas, a morte é a perda sem possibilidade de encontro.

Nossa sina prosseguirá, irreversível, até que em determinado dia deixaremos, afinal, de sermos perdedores. É quando passaremos de perdedores a perdas para os que continuam vivos, a quem só restará para reflexão a frase latina Consummatum Est (Está consumado!) pronunciada  por Jesus Cristo quando estava na cruz e sabia que a sua missão redentora havia sido cumprida -  referindo-nos não mais ao que se foi mas ao que restar de  nossa própria existência.

 

 

domingo, 23 de março de 2025

EMILY, DAS PAIXÕES UIVANTES



EMILY BRONTE, DAS PAIXÕES UIVANTES

José Ewerton Neto

...o morro dos ventos uivantes   é um aprendizado sobre a paixão.

3 anos atrás o livro O morro dos ventos uivantes, de forma um tanto surpreendente porque é um clássico, permaneceu por vários meses na lista dos mais vendidos no Brasil. (Clássicos da literatura, como se sabe, não permanecem tanto tempo na lista dos best-sellers).  Tive a ventura de ler esse romance mais de duas vezes e de ter assistido outro tanto de suas diferentes versões cinematográficas, a última com Juliette Binoche no papel principal.

Se outro clássico famoso, Romeu e Julieta, é um ensinamento sobre o amor   O morro dos ventos uivantes é um aprendizado sobre a paixão. Parece a mesma coisa, mas não é. Creio ser essa uma das razões para tanta fascinação que carreia para suas páginas. A primeira vez que o li, na adolescência, fiquei arrebatado de forma inusitada. Certamente, havia em seu enredo e sua narrativa algo de mágico, sombrio e, ao mesmo tempo,  sedutor.

Pois foi através desse arrebatamento que cheguei à criadora desse romance, Emily Bronte, quando anos mais tarde fui pesquisar a sua biografia.

Parece que a estou vendo agora, na casa onde morava, ou nas charnecas, ao lado, onde os morros uivavam e era fácil ver fantasmas vindo dos cemitérios que circundavam seu rancho. A mente sonhadora, de moça oprimida por um pai autocrático e severo, que tinha como único divertimento com suas duas irmãs, conceber cenas de teatro que escreviam em caixas de papelão.

 A terna Emily, que não se casou e morreu cedo, falecendo antes de completar 30 anos, de tuberculose, ao se recusar a receber cuidados médicos. Que passava seus dias com o olhar fixo na janela, onde batiam os ventos, transportando-se para o único lugar possível fora do lar onde as confinavam, vivificando as cenas com que revestiria o romance que a imortalizaria. Um drama em que as paixões beiravam o paroxismo, resvalavam para o doentio, mas jamais atingiam o ponto da insanidade ou do puramente tenebroso ou fantasmagórico. Humano, demasiadamente humano, como diria o filósofo escritor

Uma moça débil, mas formosa, de beleza melancólica e suave, dotada de um coração que guardava paixões tão intensas que foi capaz de transformá-las em furacões uivantes para deleite de seus eternos leitores


 

quinta-feira, 20 de março de 2025

ENTRE BALA E BULLYNG


O nome pegou: bullyng. Quando o termo se propagou no início do século ainda se usava nos colégios chateação, aporrinhação, perseguição, maltrato ou, no popular, escrotidão. Mas tudo na vida evolui e parece ser de menor sofrência hoje em dia dizer que se sofre bullyng ao invés de dizer que se está sendo perseguido. Enfim, o estudante brasileiro, definitivamente está entre balas (perdidas)  e bullyngs. 

Mas se ainda tiver alguém que não sabe ainda o que é bullyng , nada como refletir sobre os 3 tipos mais comuns para não confundi-los:

BULLYNG TIPO 1 : É o bullyng clássico, como imaginamos à primeira vista, mesmo que não saibamos a tradução exata: uma apelido aqui, outro ali, um empurrão indelicado, a implicância pura e simples sempre com a intenção de deixar a vítima em desvantagem.

BULLYNG TIPO 2: É o bullyng disfarçado, mas que todo mundo aceita como sendo inerente às organizações onde se trabalha. Fazer o quê? É o assédio sexual, a imposição de ser revistado na saída das fábricas como se fosse um ladrão, é ser tratado pelo chefe como moleque de recados, é puxar o saco do chefe escancaradamente. Este pensa que é um elogio, mas para você não passa de bullyng, ainda pior do que o do Tipo 1. É aquele que você impõe a si próprio, para sobreviver neste mundo de puxa-sacos.

BULLYNG TIPO 3: É o bullyng imposto pelas autoridades a uma  comunidade ou a um povo. É ter de aceitar impostos absurdos, multas de trânsito extorsivas, filas intermináveis de SUS, educação de quinta categoria. É se obrigar a ter por ídolos Anitta, cantores sertanejos, Gabi Gol. e ex- BBBs É te obrigarem a votar em quem você não quer  e ter sempre que escolher um menos pior. 


 

quarta-feira, 19 de março de 2025

ACERTE NO AMOR

 



645 O NÚMERO PENSATIVO COMENTA 








KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

domingo, 9 de março de 2025

MULHERES GEOMÉTRICAS

 



MULHERES GEOMÉTRICAS

 José Ewerton Neto

A mulher esférica é um coração que vibra em todas as direções como um pião girando”


Como singela homenagem às mulheres neste dia   especial os três   poemas abaixo talvez digam mais que uma crônica habitual sobre o ser feminino:  sua exuberância, sua simbologia e seus símbolos...  Extraídos   do livro Cidade Aritmética, deste autor, nessa eterna busca de interpretá-las na transcendência sutil de suas representações. 

 

A MULHER CÔNICA

 

MULHER cuja altura dela foge /Toda vez que em círculos de prazer se deita/ a acariciar às escondidas o mais profundo poço de si mesma

 

Altura que dela foge e, de repente, às ribaltas, aos voos, às asas /quase lhe leva junto num momento de ternura e rosas

 

Porém, ao bater com a cabeça no céu/ sua altura para num ponto, uma cruz / Mas não ela, que pacientemente faz do novelo desse sonho, seu capuz.


A MULHER ESFÉRICA


A mulher esférica é um coração que vibra /
em todas as direções como um pião girando

em torno do próprio espanto/ longe de seu lugar e hora.
Como um ponteiro que descompassado cai da abóboda do tempo

é logo capturada pela dança da ilusão e do sonho...
E roda ribanceira abaixo ou acima/ ao sabor dos impulsos de amor e dor.

 

 

 

A MULHER CILÍNDRICA

 

A   mulher cilíndrica é um gato/ que aos círculos sobe, foge/

Mas ao rodar não se lembra que é escrava do próprio giro

 

E nem adianta arranhar/ as transparentes paredes

desse anel que se projeta num céu que não acaba

 

Muito menos recordar/ que esse anel tem fronteiras/

É crescer, crescer, até que, de repente, a vida surja como tampa.

 


terça-feira, 4 de março de 2025

ENCONTRO COM O ESPÍRITO DO CARNAVAL




ENCONTRAMOS O ESPÍRITO CARNAVALESCO


Diziam que o espírito carnavalesco se ausentou dos últimos carnavais porque não se faz mais carnavais como antigamente. Fomos atrás para tirar essa dúvida e – surpresa – não foi difícil encontra-lo.

O mesmo de sempre, animado, mas com uma diferença. Já não canta mais as músicas carnavalescas como eram antes. Vejamos:

1.Como era:

“ Olha a cabeleira do Zezé. Será que ele é, será que ele é? Será que ele é bossa nova, será que ele é Maomé. Parece que é transviado, mas isso não sei se ele é”




.

Agora: Olha a cabeleira do Vittar, será que ele é, será que ele é. Será que ele é dançarino, será que ele é travesti. Parece que é tudo isso, mas nem isso eu sei se ele é.            

 

  2. Como era:

“Oh, jardineira, por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros, depois morreu! ”.

 

Agora: Oh, periguete, por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu. Foi o coroa que quebrava teu galho, deu dois suspiros, depois morreu.

 

3. Como era:

“Vestiu   uma camisa listrada e saiu por aí, em vez de tomar chá com torrada ele bebeu Parati. Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão e saia dizendo mamãe eu quero mamar, mamãe eu quero mamar, mamãe eu quero mamar. 

 

Agora: Pegou sua moto surrada   e saiu por aí. Em vez de tomar mel com cachaça cheirou um monte de pó. Levava um   canivete no cinto e um trinta e oito na   mão... E saiu dizendo Papai eu quero matar, papai eu quero matar, papai eu quero matar!

 

4. Como era:

“Acorda Maria Bonita. Levanta vem fazer café. Que o dia já vem raiando e a polícia já está de pé. ”

Agora: “Acorda Maria Bonita. Levanta sai atrás de café. Que minha grana já não tá dando, e a Polícia tá no meu pé. ”

 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

SOLDADO DESCONHECIDO POR QUÊ?



SOLDADO DESCONHECIDO POR QUÊ?

 

José Ewerton Neto

 

            Qual o motivo de uma homenagem a um desconhecido se existe tanta gente conhecida que mereceria, se não uma homenagem, pelo menos um pouco mais de consideração?

            Estamos falando da homenagem prestada ao soldado desconhecido.

            Evidentemente que os políticos, autoridades e chefes de Estado –fingem estar exercendo um papel muito digno, supostamente corrigindo uma injustiça ao homenagearem alguém que morreu pela pátria sem a contrapartida do reconhecimento devido.

            E é aí que, se pensarmos com isenção e racionalidade -  reside uma notória contradição, expondo até onde pode ir a hipocrisia humana. Pois se o soldado é desconhecido, até hoje, como saber qualquer coisa a seu respeito? Será que foi, de fato, um herói? Não teria preferido fugir do que receber uma homenagem como essa depois de morto? E, depois de morto: perpetrar para o dito cujo uma situação como essa, de incógnito entre tantos outros presumidos desconhecidos não é muito mais vexatório do que seria a ignorar completamente o seu passado?

            Pensemos bem. Para uma Nação que se preze o que deveria haver de desconhecido entre seus cidadãos? Puxa vida, será que nem mesmo sua mãe o conhecia? Nem o dono do boteco onde tomava umas pingas em dia de folga? Nem sua namorada, ou o agiota para quem devia? Fica claro que inferir que o cidadão era mesmo desconhecido faz parte do vício que os mandatários do país têm de jamais se interessarem pelos humildes, por preguiça, comodidade ou safadeza.

            De que adianta a alguém uma homenagem que lhe é prestada após a morte? Em que isso engrandece mais sua memória do que o choro de seus filhos?  Mesmo porque, dificilmente alguém se julgará homenageado – nesta vida ou depois dela – sabendo-se tratado como desconhecido pela nação para a qual deu a vida.

Portanto, se o Estado através de seus mandatários pretende realmente fazer alguma coisa por aqueles que o dignificaram, deveria fazê-lo em vida tratando qualquer cidadão, com respeito e consideração. Que não o obrigue a morrer em vão e depois não o ofenda ignorando sua existência e tratando como herói um indivíduo sem sequer ter se dado ao trabalho de conhece-lo. Que ao menos procure dar à sua família um pouco da recompensa pelo que ele fez pela Pátria.

Essa família que sabe mais do que todo mundo que ele nunca quis nem pretendeu ser herói, mas apenas um homem comum e que merece – não homenagens póstumas que não enchem a barriga de seus filhos,  mas o direito de ter aquilo que os ricos têm, em dobro e em abundância sem nunca ter feito metade do que ele fez: educação, moradia, direito à assistência médica e social e a tratamento digno. 


 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

CACHORRO TAL E QUAL O DONO




645 O NÚMERO PENSATIVO ESTÁ DE VOLTA


SINCERO COMO UM NÚMERO
ASSERTIVO COMO A MATEMÁTICA
GOZADOR COMO ELE SÓ 

 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

QUE ME PERDOE O POETA


 

QUE O POETA ME PERDOE ...

José Ewerton Neto

“Que me perdoem as apenas belas, mas a ternura, esta sim, é fundamental.”

O poeta Vinícius Moraes cometeu um dia uma sentença que, infelizmente, continua servindo de inspiração para machistas, galãs frustrados e colunistas sociais/influenciadores do terceiro time “ Que me perdoem as feias, mas a beleza é fundamental! ”...

Essa frase de rasa inspiração se coaduna nos tempos modernos aos interesses comerciais da indústria da beleza a propagar que a aparência física foi tornada uma meta alcançável mesmo que, em nome disso, tantos desatinos e até crimes sejam cometidos. O preço dos procedimentos cirúrgicos não importa e a meta de tornar-se mais bela transformou-se em uma das principais angústias da mulher moderna, somada a tantas outras: como cuidar dos filhos, trabalhar, suportar o egoísmo e as frustrações dos parceiros e, ainda por cima, tendo a obrigação de manter a esperança diante das adversidades.

Pode-se argumentar que a valorização da aparência sempre foi natural na espécie humana por estabelecer uma vantagem competitiva na luta pela sobrevivência. No passado, as mulheres curvilíneas e voluptuosas faziam a cabeça de artistas e pintores o que estaria mais de acordo com a natureza feminina e o seu maior objetivo de vida que é a procriação. A exigência da magreza para ser atraente, uma invenção modernosa, no entanto virou tendência e vai de encontro a adequação do corpo da fêmea para enfrentar o desgaste físico e mental consumido pela gestação. Essa exigência, um tema obsessivo nas conversas das mulheres, torna-se massacrante e singularmente desvantajosa para elas quando contraposta ao que se exige para o homem, para quem bastam o poder ou a fama.

Mas o que é mesmo a beleza? Aí é que está. Num meio ainda dominado pelos homens a beleza das mulheres busca-se concentrar nos seus atributos físicos fazendo com que mesmo quando possuidoras de outras qualidades estas não sejam apreciadas na mesma escala de valores. Não soa estranho, portanto, que vítimas dessa ditadura que lhes é imposta, as mulheres não se apercebam que se tornaram escravas de uma armadilha e que se submetam a participar do jogo. Não se dão conta de que o sexo oposto, ainda dominador, dá as cartas nessa direção praticando um jogo oportunista que degenera na prostituição de menores, potencialmente mais atraentes, e que também se revela na prática popular de xingarem seus iguais empregando para desqualificá-los o apelido do órgão sexual feminino ( Zé B...) , numa manifestação de desprezo e grosseria pelo sexo do qual propagam gostar. .

Embora tenha havido progressos ainda são poucos os homens que se dotaram da sensibilidade de enxergar que a grande verdadeira beleza da mulher está no seu potencial de gestação desenvolvendo e criando um novo ser vivo, o que é acessível a todas elas indistintamente e jamais ao homem.

Nenhuma paisagem ou obra de arte por mais bela que seja se eterniza com tanta perfeição como o olhar terno de uma mãe endereçado a um filho, portanto o poeta Vinícius de Moraes – que por sinal era barrigudo e feio – devia ter acordado de porre e mal-humorado, justamente ele, que fez sensíveis construções poéticas a elas endereçadas.

Através delas e da memória da época chega-se ao seu contemporâneo, o guerrilheiro Che Guevara, que criou outra frase eternizada, desta vez pela sabedoria e delicadeza que diz “Tem-se que endurecer sim, porém, sem jamais perder a ternura. ” Da junção das duas se chegaria a algo certamente muito mais de acordo com o talento do poeta e de sua gentileza: “Que me perdoem as apenas belas, mas a ternura, esta sim, é fundamental! ”