SOLDADO
DESCONHECIDO POR QUÊ?
José Ewerton
Neto
Qual o
motivo de uma homenagem a um desconhecido se existe tanta gente conhecida que
mereceria, se não uma homenagem, pelo menos um pouco mais de consideração?
Estamos
falando da homenagem prestada ao soldado desconhecido.
Evidentemente
que os políticos, autoridades e chefes de Estado –fingem estar exercendo um
papel muito digno, supostamente corrigindo uma injustiça ao homenagearem alguém
que morreu pela pátria sem a contrapartida do reconhecimento devido.
E é aí que,
se pensarmos com isenção e racionalidade -
reside uma notória contradição, expondo até onde pode ir a hipocrisia
humana. Pois se o soldado é desconhecido, até hoje, como saber qualquer coisa a
seu respeito? Será que foi, de fato, um herói? Não teria preferido fugir do que
receber uma homenagem como essa depois de morto? E, depois de morto: perpetrar
para o dito cujo uma situação como essa, de incógnito entre tantos outros
presumidos desconhecidos não é muito mais vexatório do que seria a ignorar
completamente o seu passado?
Pensemos
bem. Para uma Nação que se preze o que deveria haver de desconhecido entre seus
cidadãos? Puxa vida, será que nem mesmo sua mãe o conhecia? Nem o dono do
boteco onde tomava umas pingas em dia de folga? Nem sua namorada, ou o agiota
para quem devia? Fica claro que inferir que o cidadão era mesmo desconhecido
faz parte do vício que os mandatários do país têm de jamais se interessarem
pelos humildes, por preguiça, comodidade ou safadeza.
De que
adianta a alguém uma homenagem que lhe é prestada após a morte? Em que isso
engrandece mais sua memória do que o choro de seus filhos? Mesmo porque, dificilmente alguém se julgará homenageado
– nesta vida ou depois dela – sabendo-se tratado como desconhecido pela nação
para a qual deu a vida.
Portanto, se o Estado através de seus
mandatários pretende realmente fazer alguma coisa por aqueles que o dignificaram,
deveria fazê-lo em vida tratando qualquer cidadão, com respeito e consideração.
Que não o obrigue a morrer em vão e depois não o ofenda ignorando sua existência
e tratando como herói um indivíduo sem sequer ter se dado ao trabalho de
conhece-lo. Que ao menos procure dar à sua família um pouco da recompensa pelo
que ele fez pela Pátria.
Essa família que sabe mais do que
todo mundo que ele nunca quis nem pretendeu ser herói, mas apenas um homem
comum e que merece – não homenagens póstumas que não enchem a barriga de seus
filhos, mas o direito de ter aquilo que os
ricos têm, em dobro e em abundância sem nunca ter feito metade do que ele fez:
educação, moradia, direito à assistência médica e social e a tratamento digno.