domingo, 22 de março de 2026

10 LIVROS DESLUMBRANTES



10 LIVROS

José Ewerton Neto

“O que somos, de onde viemos, para onde vamos?”...

            Em 2006, 20 anos atrás, portanto, listei em crônica no jornal O estado do Maranhão os livros mais marcantes e essenciais para minha formação literária e humana. Ressaltei que não se tratava de uma lista dos melhores romances, mas sim dos mais significativos para mim.

20 anos depois, embora tenha lido preciosos títulos de lá para cá, a lista permaneceu a mesma com apenas uma alteração.

 

1.A MARCA DO ZORRO de Johnston Mc Culley 

Foi o primeiro livro que me deu a noção de que um dos maiores prazeres da vida poderia estar, também, em um monte de palavras em sequência sem sequer uma ilustração. Antes disso só lia quadrinhos. Lembro que não consegui despregar-me de sua leitura de mais 150 páginas e, mais tarde, o   reli mais de uma vez. Devo a ele a introdução nessa coisa de felicidade que é a leitura.

2.ROBINSON CRUZOE de Daniel Defoe

Li na versão para jovens, de Monteiro Lobato — este com deliciosas ilustrações— numa edição capa dura, presente de minha saudosa tia Rosa Ewerton. Muitos anos depois encontrei um maltratado exemplar dessa edição, num sebo da Rua do Catete. Imediatamente adquiri o livro e até hoje está conservado, sem que eu tenha tido coragem de ler de novo (para não perder o encanto), sabendo que ali está preservado um dos pedaços mais gloriosos de minha infância.

3. O ATENEU, de Raul Pompéia

Aquelas palavras insólitas, aqueles longos parágrafos, nem sempre inteligíveis à primeira leitura e, nas entrelinhas, sombras que precocemente marcam a trajetória de vida do ser humano. Livro denso, mórbido, talvez muito forte para ser lido por um pré-adolescente e que deixa marcas indeléveis sob uma nuvem de incerteza e fatalidade, através de uma escrita a um só tempo mágica e sombria (Mais tarde soube que seu autor era um homem atormentado). Minha visão do mundo jamais foi a mesma depois. Marcante e essencial.

4.O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, de Emily Bronte.

Uma história de amor, simplesmente. Talvez a mais intensa história de amor jamais narrada em qualquer época contendo os ingredientes básicos de amor, paixão e drama.  Nenhum filme (e olha que já foram feitas belas versões!)  reproduziu  plenamente o que a imaginação da autora foi capaz de criar sob o uivo das ventanias vagando pelos morros, onde pontua uma história de amor selvagem e transcendente. Quem nunca leu o livro está condenado a uma pena irreparável: a de jamais ter se apaixonado por Catarina Earnshaw, a personagem principal do livro. 

5.DON QUIXOTE DE LA MANCHA, de Miguel de Cervantes

Refiro-me à edição completa, que li depois de adulto, já que a edição adaptada para jovens não me empolgara tanto. Devo ao romancista espanhol o melhor riso possível da existência humana que é o riso sem sarcasmo, condescendente com o ridículo da condição humana. Está em minha lista por isso e não por ter sido considerado, recentemente, o maior romance da literatura universal.

6.O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO, de J.D. Sallinger

Penso que este livro está para a literatura como os Beatles estão para a música no que tange à tradução dos anseios juvenis. Sintomaticamente, ou não, o assassino de John Lennon carregava nas mãos, na hora da execução, um exemplar desse livro. Alguém que queira sentir o pulsar da juventude em suas veias — independentemente de sua idade — não precisa tomar remédio ou estimulante, basta ler algumas páginas deste romance.

7.A BÍBLIA, vários autores.

Hesitei em colocar este título por ser um livro especial, que acabei confirmando por seu conteúdo ter sido muito edificante para mim — além de literatura das boas. O livro   O poder do pensamento positivo, de Norman Vincent Peale, é todo calcado nele e me ajudou muito no período de transição para a fase adulta. Reli muitas vezes o Novo Testamento e vi que não carecia mais de livros de formação auxiliar. Uma só frase de Jesus Cristo no Sermão da Montanha   vale por todos os livros de autoajuda que hoje abarrotam as livrarias.

8.PERGUNTE AO PÓ, de John Fante.

Estive por desistir da leitura, após suas primeiras páginas, mas, graças a Deus!, persisti . Tinha razão o bom, irreverente e irrefutável Charles Bukóvski quando se referiu ao autor na apresentação do livro:  “ Afinal, um homem que não tem medo da emoção! ” 

9.LOLITA, de Vladimir Nabokov

Pode um sexagenário escrever um livro de mais de duzentas páginas sobre sua paixão por uma garota de 12 anos? Pode e deve, se estiver escrevendo uma obra-prima e se chamar Vladimir Nabokov. Sim porque as insinuações de pedofilia caem por terra diante da maestria do autor ao jamais confundir as coisas, transformando a sua admiração, ocasionalmente erótica e apaixonada, em êxtase poético e literário passando ao largo da pornografia deletéria.  

10.A ARQUITETURA DO UNIVERSO, de Robert Jastrow.

O que somos, de onde viemos, para onde vamos? Nenhum livro seria capaz de responder definitivamente essas questões essenciais, mas este livro do físico e astrônomo Robert Jastrow chegou muito perto oferecendo, de forma didática, o melhor do conhecimento científico a alguém que queira ser iniciado nesse confronto de ideias. Como nenhuma aventura é tão fascinante quanto a busca do ser humano pelo seu significado diante do   Universo esse foi um dos melhores livros de aventura que já li.  


 

sábado, 21 de março de 2026

AS PALAVRAS QUE NOS FALTAM



“ ... porque se fôssemos ilungas...coitados deles!”  

 

Quantas palavras existem na língua portuguesa? Infinitas, porém, por maior que seja um dicionário que caiba todas elas, será insuficiente.

Sim, porque traduzir o universo de tudo o que se diz ou se escreve não é para qualquer livro, mesmo gigantesco. Principalmente, sabendo-se que há um outro universo de palavras que não foram ditas ainda, nem escritas e, em alguns casos, sequer pensadas.

Foi por isso que anos atrás a editora Conrad lançou o oportuno livro Tingo, o incrível dicionário das palavras que a gente não tem.

Vejamos um breve exemplo de algumas que nos fazem falta. Muita falta.

 

1.Scrotarsi (italiano)

Significa ir embora de algum lugar por não suportar a presença de alguém.

Quantas vezes vamos embora de um lugar e não temos uma palavra única para explicar o porquê. De repente sumimos, e se alguém nos perguntar a razão falta a palavra.

Como seria mais simples se tivéssemos à mão a palavra Scrotarzi! Do jeito que as coisas estão — neste país tão abarrotado de gente escrota — essa expressão pouparia até carta de suicídio: Bastaria dizer:  Scrotei-me! E ponto final.

2.Cazar (espanhol)

A palavra quer dizer chutar o adversário em vez de chutar a bola.

Enquanto a palavra que temos (casar) está ficando cada dia mais fora de moda, a palavra parecida (cazar) do idioma Espanhol, está ficando cada vez mais comum. Na seleção brasileira, outrora reduto de craques, o que mais existe são jogadores botineiros mais preocupados em chutar o adversário do que a bola. São cazadores profissionais, ganham rios de dinheiro com isso, vivem cercados de mulheres por causa da grana, e fingem que são casadores, ao invés de cazadores.

3.Ilunga (em tishilumba)

Ilunga é quem perdoa uma ofensa, tolera uma segunda, mas jamais a terceira.

A bem da verdade, no nosso Brasil não dá para ser Ilunga. Desde que nascemos somos condenados a perdoar a primeira, a segunda, a terceira... e assim indefinidamente. Aprende-se isso no trânsito, nas escolas, no trabalho, até ficarmos catedráticos em perdoar. Brasileiro, profissão: Perdoador. No Brasil se perdoa tudo: de chifre a político, de amigos a inimigos passando por marginais, juízes de futebol e VAR.

Estamos tão acostumados a perdoar que perdoamos antecipadamente a porrada que vai cair    no nosso lombo, depois. Como, aliás, repetimos todo dia na nossa demonstração de fé (O Padre Nosso) que rezamos todos os dias: ...” Assim como nós perdoamos aos nossos devedores. ”

Dessa forma, nossa sina até o final dos tempos vai ser sempre perdoar sucessivas vezes porque se fôssemos ilungas...coitados deles!  


 

terça-feira, 17 de março de 2026

PONTO G COM IA




PONTO G COM IA


                “No início desse século falava-se muito mais no ponto G

 

No início desse século falava-se muito mais no ponto G. Lembro que em um programa de televisão, de humor, dois repórteres entrevistavam as mulheres que passavam no centro de São Paulo   perguntando se conheciam o tal   ponto.   A maioria não sabia mas houve uma que não se fez de rogada:

— Não sei moço, não sou de São Paulo sou de Belo Horizonte, e mal conheço os pontos de ônibus daqui.

Se repetissem a reportagem hoje tenho a impressão de que o resultado da enquete seria semelhante: muito desconhecimento e, até mesmo, indiferença. A verdade é que ou todo mundo aprendeu onde fica ou sumiu de vez — porque nunca foi assim tão fácil de achar.  Tem gente até que acha que ele nunca existiu. 

Ponto G à parte, o sexo vai indo muito bem, obrigado, até que uma reportagem bombou   na Internet sugerindo que a IA vai ajudar, em breve, a identificar onde ele está, o que, aliás, já era de esperar.

Podemos imaginar os diálogos em uma agência matrimonial fornecedora de parceiros em um futuro não tão distante assim.

—Que tipo de marido você prefere?

— Um que saiba encontrar o meu Ponto G, claro. Até agora ninguém achou.

— Não se preocupe com esse detalhe. Escolha o parceiro que cuidamos do resto. Temos equipamentos capazes de auxiliar o mais neófito dos sujeitos.

— Como???

— Posso lhe adiantar que possuímos drones microscópicos, dotados de IA, perfeitos para ajudar os casais aqui contratados na busca e identificação do dito cujo.

— E tem garantia?

— Perfeito! Não tem erro. O drone microscópico fornecerá uma visão interna do ângulo mais favorável da penetração direto para o celular ou tevê, ou filme. Se ainda assim a mulher se mostrar insatisfeita poderemos fornecer um de nossos profissionais para ajudar o seu parceiro — caso ele concorde, naturalmente.

— Custa muito caro esse equipamento?

— Não se preocupe com isso. Vocês poderão pagar por anos a fio, como temos certeza de que sua relação vai durar.

— Posso levar um agora?

— Certamente, mas não prefere escolher o marido antes?

— Não, mudei de ideia. Agora não vou precisar mais dele.