sábado, 1 de agosto de 2015

AS ULTIMAS PALAVRAS ( NOS ÚLTIMOS MOMENTOS)




Artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado


As últimas palavras nos últimos momentos de um ser humano dizem mais da personalidade do indivíduo que seus epitáfios. Os epitáfios são concebidos na plenitude da vida, quando é possível iludir-se de que se é capaz de fazer pose com os desígnios da morte.
         Já as palavras ditas no ultimo momento, são ditas no paroxismo do desvanecimento de nossas ilusões, onde não há mais espaços para artifícios ou malabarismos com palavras, no duro exercício da confrontação final consigo mesmo. É como se,  na primeira situação, a pessoa  efetivasse uma parceria com a morte, que se permite ser colocada como atriz coadjuvante na vida,  para que se obtenha o efeito desejado na frase. Mas,  na segunda, já não há espaço nem tempo para isso;  a vida do ser humano, ou o que resta dela, é que passa a ser a atriz coadjuvante da morte.

         “Droga...Não ouse pedir a Deus que me ajude!”  foram as ultimas palavras de Joan Crawford, ditas a uma empregada, que rezava por ela. 

                                        



Desnecessário lembrar o quanto a atriz colocava  de vaidade em cada segundo de sua vida, sem distinção do último. “Dia após dia me apaixonei por livros”, disse Ray Bradbury, ele um eterno apaixonado por livros,  que escreveu Zen a arte da escrita, no qual expôs, em muitas palavras tudo o que resumiria no fim.  Já Barry White, o cantor, apenas repetia “Me deixa em paz, estou ótimo”, como se fosse o refrão de uma de suas canções, que cantava tão bem.
         “Senhor, ajude minha pobre alma”, disse Edgar Allan Poe, o genial escritor e poeta que via  aves de mau agouro na sua derrocada, não passando de lenda a versão de que teria dito, ao invés, “Nunca mais”, exatamente como no poema, quando lhe perguntaram pelos amigos. Desse jeito, teria sido mais  poético, mas lembremos, estamos falando de últimos momentos, não de epitáfios.
         “Ele não vai se importar nem um pouco com isso”, foram as ultimas palavras de Abraham Lincoln, presidente dos USA, apertando a mão de sua mulher Mary, e referindo-se à sua preocupação com o fato de que um amigo os estivesse observando. Nem de longe ele desconfiaria  de que viesse  a morrer em seguida, de um tiro. Nestas ocasiões, em que não há suspeita da morte introduzindo-se nos segundos que instalam a interrupção súbita  do futuro de alguém, o que é dito não segue a lógica da personalidade afetada pelo abismo próximo, mas do vulgar e do cotidiano transbordando por todos os poros, como se houvesse um excesso de vida  a contrastar com a vizinhança do trágico
         Elas podem ser ainda agônicas como as de Virgínia Wolf em sua derradeira depressão antes do suicídio.  “Tenho certeza de que enlouqueci de novo, não vou passar novamente por essa experiência terrível!”;  de lancinante entrega “Jesus, eu te amo; Jesus, eu te amo”, como as de Madre Teresa; saudosas como as de Martin Luther King “Por favor, toquem ‘Take my hand, precious lord’. Toquem bem bonito!” De sábia lamentação “ O dinheiro não compra a vida” de Bob Marley; ou de tardio êxtase semiconsciente “Ok, não vou!” de Elvis Presley confirmando à sua namorada que desta vez não ia dormir no banheiro, após a overdose.
         Já as últimas palavras de Hugo Chávez: “Não quero morrer. Por  favor,  não me deixe morrer”, de subserviente e súplice desespero ditas ao chefe da guarda venezuelana não chocam pelo inusitado ( já que são próprias de qualquer ser humano em seu ancestral pavor diante da morte e do desconhecido), mas, sim, impactam pelo contraste diante de sua costumeira arrogância no trato com os cidadãos venezuelanos e suas instituições
         Ao se expor dessa forma diante daquela que nos iguala a todos,  Chavez sequer conseguiu, como farsante que foi, exercer seu talento histriônico e se sair com mais uma de suas bravatas. 


                                                      


Ficou do tamanho que todos são e sua frase, que não chega a ser de covardia (não há covardia, nem heroísmo diante da indesejada das gentes), mas de submissão e pavor diante do incognoscível,  deveria servir de lição para todos aqueles que espezinham o próximo, seu vizinho ou o povo, com a arrogância oriunda de um poder  que, por definição, e´ fortuito e breve, principalmente quando é obtido, como no caso de políticos e empresários brasileiros corruptos, pelo dinheiro  rapinado através da usurpação e da presunção de impunidade.

                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

                                               http://www.joseewertonneto.blogspot.com

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