“...E na rede ainda balança seu
último gol.”
Enquanto a bola da grande
Copa rolava em três países, enquanto a Espanha caminhava para mais um título, o
New YorK Times publicava uma reportagem sobre Garrincha (quem lembra? Quem das
novas gerações sabe quem foi?), o demônio-
gênio das pernas tortas, olvidado e apagado em seu próprio país de origem,
o Brasil, curiosamente, o país que um dia foi chamado de o País do Futebol
Um Personagem
chapliniano, anti-atlético, desprovido de beleza física ou inteligência
especial, a quem somente a genialidade seria capaz de sacá-lo do lodo da
história para convertê-lo em mito, no panteão de guerreiros e ídolos cultuados
por uma nação.
Desses tipos e
personas que parecem saídos da ficção, mas que vieram da dura realidade dos
desesperançados das favelas e periferias. Personagens que, não fosse pelo
futebol, estariam condenados ao esquecimento e ao abandono, mas a quem Deus, um
dia, parece ter depositado na testa dos mesmos uma estrela dizendo: “Vai
estrela, brilha no caminho desses gauches da vida, e os torna dribladores do
destino”.
E deu-lhes a paixão
por uma bola de futebol para exercitar justamente isso: o drible. Ao iniciar
sua carreira, no Botafogo, Garrincha foi visto de longe por Nílton Santos, a Enciclopédia do Futebol merecendo dele o
comentário irônico: “A coisa tá feia por aqui. Até aleijado aparece para jogar
futebol!” Mas o aleijado tinha paixão, de fato, pelo drible e ao colocar a bola
pelo vão das pernas do Enciclopédia começou a escrever a sua história e 4 anos
depois carregou o time do Brasil e toda uma nação, em 1962, na ausência do
outro gênio, Pelé, contundido, para conquistar uma taça que hoje em dia não se
vislumbra em nossas melhores ilusões.
“Sua ilusão
entra em campo no estádio vazio, e ainda na rede balança seu último gol”. O som
da antiga balada composta em homenagem a Garrincha, interpretada por Moacir
Franco, ressoa insistente em meus ouvidos. Talvez porque devesse ser executada
agora, ao invés das canções de Madonna no final de uma Copa onde o Brasil, de
fato, não esteve, como um réquiem por mais um fracasso do futebol brasileiro —
que um dia teve Garrincha e Pelé e hoje tem as patacoadas de Ancelotti e sua
trupe de pseudo- craques.
Obs. Música Balada
no. 7 Moacir Franco em homenagem a Garrincha
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