domingo, 21 de julho de 2019

A ARTE DE FRITAR HAMBÚRGER





Não se comenta outra coisa  depois que Eduardo Bolsonaro, deputado carioca,  apontou como um de seus atributos para ser embaixador do Brasil, nos USA , o fato de um dia ter fritado hambúrguer por lá. “Eu fritei hambúrguer, portanto mereço  a honraria”.
Ora, tal fala não era para  ter merecido contestação da mídia.  As pessoas precisam entender que,  em pleno século 21, as credenciais para ser um embaixador mudaram muito por conta  do processo evolutivo. Ao criticarem o presidente, esquecem, por exemplo, de que o hambúrguer fritado pelo rapaz  pode ter sido saboroso, com um sabor americanizado pouco comum por aqui.  Afinal de contas, não é todo dia que um pai come um hambúrguer fritado pelo próprio filho e, mais ainda, que este seja digno de ser comido.
Essa profusão de contestações tornou urgente para os estrategistas do Planalto, o anúncio dos novos pré-requisitos  a serem exigidos para alguém que se pretenda ser embaixadora partir de agora . A saber:

1.Que saiba fritar Hambúrguer.

Ao contrário do que dizem os contestadores, fritar hambúrguer,  é sim, um pré-requisito essencial para um futuro embaixador dos USA. Responda depressa Que é mais importante para a vida prática de um embaixador em terra de gringo? Saber fritar um hambúrguer ou conhecer a Teoria da Relatividade? Ora, deixemos de ser hipócritas. Certos conhecimentos  deixaram de ser fundamentais para o exercício profissional de um embaixador na  vida moderna.
 Embaixadores, como se sabe,  têm vida noturna  intensa, já que  frequentemente saem para baladas e participam de surubas chiques . (Ocultas,  é claro). Vai que numa dessas demandas  terminem a noite num local imprevisto, doidos de fome. Quem salvará a situação fritando um hambúrguer?

2.Que saiba falar inglês elementar,  e que tenha morado nos  USA.

Longe de imposições curriculares arcaicas um  embaixador   de hoje não   precisa possuir  proficiência em inglês, capaz de traduzir, por exemplo,  o Ulisses, de James Joyce. Ao contrario, só carece, de uma vivência norte-americana  que o torne capaz de ter apreendido um inglês gestual,  minimamente suficiente para ser entendido por todo tipo de gente que frequenta as embaixadas.  
3.Que seja amigo de família do presidente dos USA.
O que se passa a exigir de um futuro embaixador é que tenha tido contato com os familiares do presidente americano,  relativizando-se  o grau de amizade. Não precisa ter sido amigo de  infância, jogado futebol,  ou compartilhado punhetas com o rapaz no mesmo banheiro. Basta que tenha gritado um dia  “ Oi, my friend!”  para o filho do presidente americano,  mesmo que este não  tenha escutado.

4.Que seja filho do presidente do Brasil.

Este último predicado, sim,  é fundamental e sine qua non. Afinal, não existe até hoje a mais remota  possibilidade de alguém fazer um curso para ser filho de presidente e diplomar-se nisso .
Há de se reconhecer o esforço realizado para ser filho de um presidente, especialmente no caso brasileiro (Aguentar Bolsonaro, há  de se convir, não é tarefa fácil para qualquer infância que se preze) 
Enfim,  esse quarto item é um ofício que se aprende por dedicação própria  não nos bancos de uma escola, mas nos bancos comuns dos idos da juventude . Geralmente  para pegar a mesada. 

José Ewerton Neto é autor de O ABC  bem humorado e São Luis  e cronista semanal do jornal O estado do Maranhão 






sábado, 29 de junho de 2019

NEYMAR E NAGILA, CONTO DE FADAS



texto publicado na coluna do autor, às quintas , no jornal O estado do Maranhão



Como deve agir,  hoje em dia, uma moça bonita,  mas pobre, para casar com um príncipe? Antigamente bastava virar personagem de um conto de fadas,  mas tudo muda. O buraco (literalmente) é mais em baixo e muitas não resistem à tentação de apelar justamente para ele.
A Cinderela atual tem nome bonito, corpo bonito,  e nasceu em São Paulo. Pobre, nunca chegou a ser uma gata borralheira, no máximo chegou a  gata, como a tratavam  os rapazes suburbanos que a assediavam. Penou para sobreviver,  mas nunca arredou do sonho típico  das Cinderelas. As de antigamente, como se sabe, recorriam às fadas ou às bruxarias para acessar seus príncipes, as de hoje recorrem às redes sociais. Foi o  que fez nossa  Cinderela versão 2019.
Ela sabe que é fácil encontra-los dando sopa por aí, nos facebooks da vida. Hoje eles já não enfrentam dragões e  bruxas.  Pra quê? Muito mais fácil é correr atrás de uma bola, virar craque e ganhar muita grana. O poder que  os príncipes possuíam, que as casadoiras almejavam, e que vinha da beleza, da coroa e do sangue azul hoje vem dos euros que recebem. Grana, muita grana.
Pois foi com um príncipe desses que a cinderela 2019 sonhou. Ao invés de vestidos bonitos, como se exigiam das futuras princesas, os príncipes de hoje preferem que as candidatas dispensem as roupas. Quanto menos pano para cobrir, melhor! Ao invés de bilhetes, mensagens obscenas; ao invés de promessas de amor, vídeos de strip-tease.
Nossa  Cinderela mandou ver  e foi tão exuberante em sua  performance que o príncipe, sucumbindo aos seus encantos, mandou busca-la do outro lado do Atlântico . Claro, carruagens e corcéis são coisas do passado, príncipes de hoje preferem jatos transatlânticos para transportar suas escolhidas.
E foi só a partir desse ponto que o conto de fada virou  conto enfadado. A cinderela bem que fez a sua parte tentando salvar a lua de mel a que tinha o direito, vindo de tão longe. Queria a festa da meia-noite durando por toda a eternidade, mas não tardou  a descobrir que  o melhor não era reservado para ela. O príncipe, mais veloz que o jato que a trouxe, só queria mesmo uma rapidinha.
Só então a Cinderela se tocou, vendo seu sonho desmoronar e disse: “ Peraí, Príncipe ! Vai me deixar sozinha aqui neste hotel . Cadê nossa lua de mel ?” O príncipe , generoso como seus ‘parças ‘ insinuam,  deve ter se achado  dono de toda filantropia do mundo quando respondeu: “ A lua você olha pela janela Cinderela, já o mel eu mando trazer de Uber. Pode ficar tranquila” .
Não restava outra saída para Cinderela senão iniciar uma sessão de tapas com segundas e terceiras intenções. Vendo  que o príncipe,  mesmo com toda fama de cai cai,  era duro na queda  Cinderela subiu o tom da vingança: “  Você não passa de um príncipe  encantado de segunda! Nem pra me comer direito serve, garanto que o lobo mau comeu o chapeuzinho vermelho melhor do que você. Vou gritar e mentir pra todo mundo que você me estuprou.”
O resto,  a imprensa toda divulgou,  confirmando que é desse jeito que os contos de fada modernos terminam . Na delegacia. Não deve ser  por falta de príncipes, nem de cinderelas. Talvez, porque já não se fazem mais contos de fada como antigamente.

* qualquer semelhança com personagens ou fatos terá sido por mera coincidência

José Ewerton Neto é autor de O ofício de matar suicidas






domingo, 23 de junho de 2019

DICIONÁRIO DO LINGUAJAR MARANHENSE



O ABC BEM HUMORADO DE SÃO LUIS CHEGA À SUA SEGUNDA EDIÇÃO
ASSUNTANDO SOBRE O LINGUAJAR MARANHENSE, LENDAS, BUMBA BOI,
FOLCLORE EM GERAL, SAMPAIO CORREIA E ASSUNTOS GERAIS DO COTIDIANO
DA ILHA





domingo, 16 de junho de 2019

AS GRANDES BATALHAS FILÓSOFICAS



Artigo publicado no jornal O estado do Maranhão




Filosóficas (ou nem tanto):

1.ESQUERDA X DIREITA.




Você já viu sua mão esquerda brigar com a direita? Claro que não, ambas têm o mesmo fim que é o de agirem sob o comando de seu cérebro.
Pois sobre a guerra esquerda x direita, chega-se, cada dia mais, à conclusão, de que esta não passa de uma ficção a serviço de uma ação preconcebida, em conformidade com a obsessão que todo cérebro humano tem pelo poder. Lembram-se do Telecatch, uma pantomima  a meio caminho entre briga e teatro, nos anos 70?  Só por alguns segundos dá a impressão de que estão brigando de verdade.  
Ambas as ideologias dizem que defendem os fracos e oprimidos. Uma, a esquerda, diz que isso se efetiva pela melhor distribuição de renda, a outra diz que melhores resultados são obtidos quando se alcança  maior riqueza geral. Dá no mesmo, mas os debates continuam porque o palavreado inútil excita a plateia, enquanto os  contendores fazem de conta que se engalfinham no ringue .
E representam tão bem que acabam acreditando na mentira que propagam, contaminando a plateia, que se empolga e sai na  tapa também. Depois que o juiz proclama a vitória, temporária, de um dos oponentes, não há ideologia que  permaneça,  toda boa intenção cessa. “É tudo farinha do mesmo saco”, como diz o caboclo, ambos só querem mesmo é se fartarem  das benesses do poder.
Quem perde a batalha? Nenhuma das partes, pois sempre aparece uma fatia de consolação ao derrotado, só a corrupção muda de endereço. Isso acontece até o próximo round, de 5 em 5 anos, nos países democráticos.  Quem perde? Ora, os perdedores são os de sempre: o povo,  com sua multidão de miseráveis.

2.CIÊNCIA X RELIGIÃO.



Quando nos referimos a essa guerra, estamos tratando dos fanáticos, aqueles que vociferam um contra o outro, tanto religiosos empedernidos, como os cientistas obcecados. Ou seja, da parte religiosa, os que se predispõem contra a razão,  da parte da ciência os que se põem contra a liberdade e o direito de cada um acreditar naquilo que deseja e crê. Não participam dessa briga os religiosos e cientistas que  preferem conviver em paz, e que se unem para descobrir  a origem e o significado da vida,  e a melhor forma de usufruí-la.
E a luta começa. Uma (a Ciência) diz que o mundo surgiu do acaso. Outra (a Religião) diz que o mundo surgiu por interferência divina, enfim, a partir de uma força superior a que se nomeou assim. Ora, se chamarmos o acaso/nada (que os cientistas consideram capaz de originar o universo)  do mesmo agente/força superior (a quem os religiosos, conscientes disso ou não,  chamam de Deus )  essa turma está brigando por que e para quê ,  se, no fundo, estão dizendo a mesma coisa?
A verdade é que, assim como existem religiosos que se aproveitam da boa fé de gente ingênua para se apropriar de seus bens, também existem  cientistas que vociferam contra o conteúdo religioso apenas para vender livros e ficarem famosos, tornando-se assim especialistas em fanatismo mais  do que aqueles a quem condenam (Richard Dawkins e sua turma). Por que não agem como cientistas de respeito como Francis Collins e Marcelo Gleiser, que convivem com a religião sem traumas e acusações?
Essa luta termina empatada, pela intolerância das partes. Se existir o  diabo, e ele for o juiz,  há de proclamar a ambos vencedores.

José Ewerton Neto é autor de O ofício de matar suicidas 



sábado, 8 de junho de 2019

PRÊMIO CAMÕES. À beira de um ataque de nervos



artigo publicado no jornal O estado do Maranhão









Muita gente que não conhecia o Prêmio Camões passou a falar do mesmo depois que o compositor e cantor Chico Buarque de Holanda arrebatou a honraria. Se a intenção foi essa o propósito foi atingido.
Porém, se o propósito foi difundir e referenciar a Literatura como a arte das artes, ao mesmo tempo estimulando o exercício da escrita e a epifania do compromisso de um artista com sua sina escolhida, o resultado passou ao largo.
As respostas abaixo talvez digam mais do que qualquer debate:

1.Existe paralelo entre o Prêmio Nobel e o Prêmio Camões na base do Bob Dylan esteve para o Nobel  assim como Chico está para o Camões?
 Talvez sim, se o propósito foi o de potencializar  uma visão ‘modernosa’ que estabelece um letrista de música popular como possuidor  de equivalente aura poética à daquele que escreve direcionando-se aos livros. É bom lembrar que o poeta ‘de livros’ concorre em posição desvantajosa, já que o letrista de música se socorre da visibilidade e dos aplausos de uma plateia acostumada a reverenciá-lo.   
Quanto aos premiados há uma sutil diferença. Bob Dylan jamais se pretendeu escritor, tendo sido sacado de seu ambiente musical a contragosto, esquivando-se de se posicionar diante de uma distinção que não almejou. Tanto assim que enviou para representa-lo na premiação, a cantora e letrista de música, Patti Smith, esta sim uma grande escritora vencedora do National Book Award com o livro So garotos ( Li e recomendo) . Como se, através de  uma indireta aos jurados  o cantor se penitenciasse com um constrangedor mea culpa por ter recebido a distinção.
Chico, ao contrário, ‘cavou’  seu ingresso no mundo literário, rodeando-se de orientadores já instalados como o escritor Rubem Fonseca e associando-se a editoras capazes de catapulta-lo ao panteão dos best sellers. Vendeu muito, como era de se esperar, e  ganhou prêmios como o Jabuti cercado de controvérsias quanto a lisura da votação,  sem jamais se constranger com isso ou com os  epítetos desabonadores de gente insuspeita como a escritora irlandesa Edna Ó Brien. Enfim, Chico  jamais obteve de um crítico internacional de peso um louvor descompromissado à sua obra literária.

2.Faz sentido ser alguém merecedor de um prêmio em Literatura apenas pelo mérito como poeta musical , considerando que seu talento  romanesco  é de raso para mediano?
Esse tipo de questão é irrespondível, mesmo que a premiação  seja pelo conjunto da obra. Mas, o que seria mesmo  esse conjunto da obra? Seria a soma das incursões medianas em várias artes contrapondo-a a envergadura literária inconteste de um concorrente?
Ora, mesmo sendo Chico um notável compositor e letrista a admiração incondicional que lhe é devida, peca por açodamento quando, por exemplo, se compara seu talento musical à genialidade impulsiva e espontânea de um Noel Rosa, morto aos 27 anos, cujas letras irônicas e mordazes são retratos impagáveis do cotidiano e das emoções humanas. Algumas letras de Chico Buarque, por vezes soam datadas e artificiais especialmente as que tentam soar um posicionamento ideológico pré-anunciado.
O que fica da peneira dos fatos é que, de repente, para dissabor da literatura, os prêmios literários ficaram neuróticos, quase à beira de um ataque de nervos, ávidos  por quinze segundos de fama, como é típico da sociedade atual .
Enfim, já não se fazem prêmios literários para divulgar um escritor, mas escolhem-se os premiados  para divulgarem o prêmio.
                                                                       ewerton.neto@hotmail.com 



José Ewerton Neto é autor de O ofício de matar suicidas 





domingo, 26 de maio de 2019

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO PUXA-SAQUISMO





Quando Deus resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança sem utilidade prática futura para ele, deu margem a que, muitos séculos  depois, poucas dúvidas restem de que fez isso apenas porque lhe faltava um puxa-saco.
Sim porque se a solidão tem suas vantagens,  tem  também seu lado ruim como sentenciou Montagne: “A solidão  traz coisas boas. O problema é que você precisa de alguém do lado para dizer isso”. Pois imagine a situação de Deus, o todo poderoso, sem ter do lado um mísero alguém,  para lhe enaltecer possuindo tanta grandeza.
Sim, porque as estrelas são maravilhosas e poéticas, mas não falam. Mesmo podendo ler o pensamento de tudo, isso não era tudo. Faltava a Deus a bajulação pura e simples,  transmitida através da fala.
2.Foi então que Deus criou o homem, ordenando a ele : “Amarás o senhor teu Deus acima de todas as coisas com todas as forças de tua alma”.
Acontece que a coisa (o ser humano) não se saiu tão bem quanto ele esperava. Ao invés de puxarem o saco de Deus, Adão e sua mulher Eva, preferiram bajularem-se entre si, permitindo, inclusive, o surgimento de outro elemento bajulador, no caso, uma serpente malévola. Esta insinuou a Eva que puxar o saco de Adão (literalmente) lhe daria mais prazer do que bajular a Deus, despertando-os para o sexo e o pecado.
Irritado, Deus os expulsou do paraíso: “Vão puxar o saco de vocês mesmos no inferno, não aqui!” E, assim, o inferno se instalou para os homens, inclusive na forma do puxa-saquismo, prática na qual a humanidade veio a atingir a perfeição.

2. Isso aconteceu no antigo Egito. 







Haja puxa-saquismo!,  em uma civilização que durou mais de 3 mil anos. A postura por lá era ‘Não existe defeito, então nada carece consertar’. Conformismo? Não, puxa-saquismo, porque a cadeia de direitos e deveres era baseada numa escada sem mobilidade social, onde a bajulação assumia um aspecto tão formal e rígido quanto a hierarquia de onde se originava.
No topo estava o Rei-Deus, o Faraó, e abaixo dele, o vizir, os dignitários reais e os governadores oriundos da nobreza, e depois o resto. A bajulação era impessoal e monumental. As pirâmides, os mais grandiosos túmulos que o mundo jamais viu são tributos à insaciabilidade da satisfação humana. Os reis do Antigo Egito não eram servos dos deuses, mas deuses eles próprios. Em 1500 a.c um servidor público egípcio escreveu a respeito do rei. “Ele é um Deus por quem todos vivemos, o pai e a mãe de todos os homens, único em sua condição sem igual”.
Tente superar essa bajulação!

3. Um elogio assim era tudo o que Deus queria para si quando fez os homens. Atingido, no Egito, o clímax do puxa-saquismo,   de lá para cá foi só aperfeiçoamento. O que são os livros de autoajuda, hoje,  mais do que uma exaltação da bajulação a  si mesmo?
Isso traz a certeza de que, em breve, quando a civilização humana virar pó, sobrará como característica mais marcante  do gênero humano o puxa-saquismo. E nos confins do Universo, onde toda memória do Mundo estiver concentrada, quando alguém clicar no verbete Terra surgirá a informação: “Existiu nesse minúsculo planetinha uma espécie que, criada à imagem e semelhança de Deus para o exaltarem, preferiram inventar a si mesmos como deuses, para bajularem-se entre si”.
Não podia ter dado certo.


José Ewerton Neto é autor de O oficio de matar suicidas
                                                           ewerton.neto@hotmail.com 




segunda-feira, 13 de maio de 2019

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO CHEIRO



artigo publicado no jornal O estado do Maranhão




“O homem é o  único animal que não gosta do próprio cheiro”, dizia Millor Fernandes, assim resumindo  a solitária diferença que nos distingue dos demais animais. Sim, porque o cérebro maior e mais inteligente que possuímos não nos distingue tanto assim, já que no resto somos quase iguais.  A ciência mostra que o nível genômico da espécie humana atinge a extraordinária semelhança de 95 a 99 % ao dos chimpanzés.
Resta especular se essa diferença não foi construída pelos humanos apenas como forma de se destacarem dos outros animais. Mais ou menos como se, a partir de determinado momento de sua curta trajetória geológica, os homens resolvessem se perfumar como uma forma de dizer a si mesmos: “Tá vendo? Somos, de fato, superiores aos outros animais, tanto assim que não fedemos como eles.”
A história comprova essa tese, já que somente de pouco tempo para cá, os homens passaram a rejeitar o próprio cheiro. Basta ver como procediam nossos tataravôs em seus ambientes, mesmo os supostamente mais refinados.  
Por exemplo, a higiene do palácio de Versalhes no século 17 era de “lascar” para os padrões de hoje. O corpo inteiro das pessoas só era lavado uma vez por ano e para se limpar bastava lavar as mãos e o rosto.  Nessa ocasião a família inteira se banhava no mesmo barril e com a mesma água. A urina era despejada pelas janelas, a limpeza íntima era feita com sabugos de milho ou com as próprias mãos, as necessidades eram feitas em qualquer lugar indo parar nos corredores e jardins. Um decreto de 1715 dizia que as fezes deveriam ser retiradas dos corredores uma vez por semana.
Na Roma Antiga os banheiros públicos eram frequentados sem distinção de sexo. Nesses espaços não havia preocupação em oferecer material para higiene íntima. As pessoas se viravam com o que estivesse à mão, como água, grama e até areia. E – pasmem! -  era nessas latrinas coletivas, instaladas em grandes barricadas de pedra,  que se promoviam debates , banquetes, e encontros cívicos.







Por aí se vê que o fedor não incomodava tanto quanto hoje. E que a porcaria que saia pela parte de baixo era menos inofensiva do que a que  hoje sai, pela boca,  dos que se reúnem em ambientes palacianos para tomar   grandes decisões administrativas.
Quanto aos outros animais, estes  continuam ‘cagando  e andando’ para o próprio cheiro, o que não significa dizer que sejam menos limpos. A barata, por exemplo, tida como um animal fétido e repulsivo tem o seu exterior extremamente limpo, mais higiênico que o rosto de muita coroa habituê de coluna social, entupido de creme, loção e botox.
A sujeira das baratas, é bom saber, restringe-se ao seu interior, mais exatamente ao seu sistema digestivo. É lá que ficam os vírus e as bactérias que são expelidos em seu cocô e podem causar infecções. Portanto, se tiver coragem, caro leitor(a),  pode aplicar  um beijo na couraça de uma barata,  que isso não lhe trará problema algum.
Tudo indica que a anunciada substituição dos homens pelas máquinas, prevista para breve, apresentará pelo menos uma vantagem evolutiva. Estas jamais terão nojo do  próprio cheiro.


José Ewerton Neto é autor de O ofício de matar suicidas


Este e outros livros do autor serão comentados  no primeiro encontro do Clube de Leitura da AMEI, shopping São Luis, dia 18, sábado às 10 h

segunda-feira, 6 de maio de 2019

O JORNAL E EU




Artigo comemorativo aos 60 anos do jornal O estado do Maranhão e publicado no caderno especial do dia 1 de maio de 2019 

Alvorece. Um mendigo estirado na calçada e encostado ao batente de uma loja  permanece indiferente aos transeuntes que passam. Até que, num gesto brusco,  levanta a cabeça, sacode os ombros e se senta. Em seguida, passa as mãos nos cabelos desgrenhados, enquanto se liberta dos andrajos que o cobrem. Toma de uma velha mochila ao seu lado e procura algo em seu interior. Desiste e mete, freneticamente, as mãos no bolso. Agora sim, parece ter achado o que procura.








Meio desorientado, como se ainda estivesse sob o efeito do sono,  busca com o olhar localizar algo. A câmera que filma o episódio muda o foco para a paisagem ao redor e mostra, na esquina, uma banca de revistas, para onde, agora, ele se dirige a passos trôpegos. Entrega alguma coisa na ponta dos dedos para o dono da banca e retorna com algo. Esse algo, que põe debaixo do braço e acabou de comprar em troca de algumas moedas é um jornal.  
De novo no batente da loja, que ainda não abriu, senta-se. A câmera foca o rosto do mendigo, absorto, por trás do jornal. Seus instantes de leitura são registrados pela câmera, enquanto o mendigo permanece concentrado,  longe de sua vida difícil, enquanto a Terra e seu satélite giram, giram as pessoas e o mundo todo, inclusive aqueles que passam apressados diante dele,  quase a pisoteá-lo. Durante esses alguns minutos nada existe, para ele, além do que lê no jornal.  
Essa cena, registro da primeira preocupação de um mendigo em sua primeira ação do dia,  mais forte que a fome, mais forte que a pobreza, mais forte que a carência afetiva e social perpetuou-se em minha mente depois que a vi, na televisão. Não lembro exatamente quando e em que programa aconteceu, só recordo que se deu na Argentina. Talvez tenha sido uma cena fortuita, sequestrada do cotidiano e o objetivo nem tenha sido o de enfatizar a busca da leitura como primeira ação do dia.
Ao ser convidado para escrever sobre o aniversário de 60 anos do jornal o Estado do Maranhão, lembrei-me desta cena e a localizei como ponto de partida para a tradução dessa empatia que, como a do mendigo, se estabeleceu de mim para com os jornais a partir de certo momento da minha juventude. Já disse a amigos mais íntimos ou familiares que os melhores momentos de minha vida não foram viagens, idas a restaurantes, baladas ou  carnavais, mas os instantes em que, livre da azáfama do trabalho como engenheiro metalurgista, então no Rio, depois em Minas ou Salvador, adquiria o Jornal do Brasil, o Globo ou O estado de São Paulo, em dia de feriado e, sem preocupação com o tempo, pegava do jornal e isolado em algum canto de uma lanchonete ou bar , lia as notícias que me interessavam: de política, esporte, cinema e, em especial os cadernos de literatura para depois garatujar escritos sonhando com o dia em que poderia ser lido por alguém ou ler a mim mesmo nas páginas de um jornal.   
Sim, porque somente comparável à alegria de ler é a de se ver publicado, principalmente quando isso é inusitado, o que me aconteceu pela primeira vez em tempos mais remotos quando, estimulado pelo saudoso Erasmo Dias, enviei um poema intitulado A Chamada para as páginas do Jornal Pequeno. Imaginem essa alegria multiplicando-a pela esperança juvenil, esse sinal de operação/transformação que, mais na vida que na matemática,  tem a capacidade de acelerar os sonhos.
Soa redundante, então, enfatizar como sou grato a este periódico que me proporcionou a segunda parte desta realização há mais de 25 anos, primeiro como colaborador eventual e depois assíduo.  Por isso me considero também aniversariante. Neste memorável dia em que se comemora 60 anos deste jornal é certo, também, que teria dificuldade de traduzir a satisfação em fazer parte dos que aqui escrevem, caso não recorresse à imagem desse glorioso mendigo-leitor para evocar essa vibrante pulsão que transforma (ainda bem!)  todos nós - leitores e escritores de jornais e livros -  em mendigos das palavras que neles porfiam, tornando mais dadivosa e especial a rotina de nossas vidas.


José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis 



sexta-feira, 19 de abril de 2019

O BURACO NEGRO CHEGA AO BRASIL



Artigo publicado no jornal O estado do Maranhão


PENSO, LOGO  EXISTO, sentenciou o filósofo Descartes séculos atrás, pretendendo eliminar essa dúvida crucial da espécie humana. Apesar disso a dúvida permanece, tanto assim que, mesmo respirando, comendo ou guerreando entre si, o ser humano continua a duvidar da própria existência: “Será existência isso daí?” “Tem certeza mesmo de que não existe coisa melhor?”
O fato é que a ciência avançou muito depois de Descartes e, se não conseguiu provar a existência humana provou, há poucos dias, a existência do Buraco-Negro. “FUI FOTOGRAFADO, LOGO EXISTO”, poderia dizer agora um buraco-negro se tivesse as mesmas dúvidas existenciais dos seres humanos.
O  buraco-negro como se sabe são concentrações absurdíssimas de matéria que curvam o espaço-tempo e sugam tudo o que existe ao redor, inclusive  a própria luz. Com isso, é impossível saber o que existe em seu interior, colocando em polvorosa o nosso pobre conceito de existência. 
Como era de se esperar a divulgação repetida de uma façanha monumental como essa teria de ter consequências em nosso país:

            1.A turma ‘politicamente correta’ do Congresso já se pôs em estado de alerta. Uma comissão de parlamentares, tendo à frente Gleisi Hoffman com orientação do PT, vai propor que se mude a atual terminologia, pelo menos no Brasil, trocando o nome de Buraco Negro para Buraco de Qualquer Coisa. Acreditam que a denominação atual tem conotação racista.

            2.Sabedores de que os telescópios colocados à disposição dos cientistas alcançaram uma precisão equivalente à de captar imagens de uma moeda na superfície  da lua, alguns empresários e políticos - que não podem ouvir falar em moeda sem se assanhar -  proporão a instalação de um telescópio dessa envergadura na base de Alcântara com o objetivo  de descobrir ouro em qualquer parte dos confins do universo. Estão certos de que fora da Terra  a Lava-Jato não terá como aporrinhar.

            3. Religiosos de uma recém-inaugurada Igreja chegaram à conclusão de que nem as almas resistem à formidável sucção promovida pela atração gravitacional dos buracos-negros. Generosos, conceberam a ideia de desenvolver um Curso de Blindagem de Almas para que após a morte ninguém corra o risco de desaparecer, mesmo em espírito. Obs. As sessões de curso/reza poderão ser pagas com cartão de crédito.
            4. Nas redes sociais, tão logo surgiu a notícia do buraco negro fotografado,  grupos de internautas começaram a sugerir  que o ônibus interespacial que levará, em breve,  Justin Bibier e Leonardo di Caprio a uma viagem turística no espaço, estenda sua viagem por mais alguns milhões de quilômetros de anos-luz e passe perto do buraco-negro .
obs.  (Já tem gente no Brasil sugerindo que o ônibus leve também o Luan Santana).

                        5.Antecipando-se,  uma escola de samba carioca  anunciou como enredo para o próximo carnaval seu desfile com o tema: Brasileira Também é Boa de Buraco Negro, homenageando a cientista brasileira que fez parte da equipe de cientistas . A única preocupação, por enquanto, fica por conta do tamanho do fio dental que as bailarinas usarão, para não suscitar interpretações  maliciosas em relação ao tema.

                                                                       ewerton.neto@hotmail.com 

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis



sábado, 13 de abril de 2019

FEMINISMO, BULLYNG E OUTRAS PALAVRAS TRÁGICAS



artigo publicado no jornal O estado do Maranhão


“As palavras, como  se sabe , são seres vivos” dizia Vítor Hugo e, poderíamos acrescentar, “que agem, muitas vezes,  com inconformismo “.  Basta refletirmos sobre palavras que tomaram conta do palavreado   nacional de algum tempo para cá e que se revelaram, se não inócuas, denunciadoras da hipocrisia que lateja através delas.  Isso acontece quando se tenta, mediante o uso de palavras estrangeiras, ou ‘modernosas’, resolver problemas que só se resolvem com ação e não com mera substituição de  palavras .  
Tanto a palavra Bullyng, como Feminicídio e Empoderamento , só para citar essas três, depois que foram adotadas e disseminadas, parece terem atingido um efeito exatamente o contrário ao que se pretendia , ao serem alçadas a assunto do dia na mídia e repetidas à exaustão, nos discursos, teses e palestras. Sobre as mesmas repousa uma estatística trágica. Depois que foram adotadas os crimes monstruosos associados à semântica que através delas deveria coibir  o que deve ser evitado, se perpetuaram,
A palavra bullyng, por exemplo, importada da língua inglesa apontaria para uma influência devastadora se traçássemos um gráfico de correlação estatística entre a  implantação dessa palavra e o advento de tragédias que não existiam antes em território nacional. Jovens desestruturados, frágeis (para maltratar a si mesmos ) e covardes ( para atacar seus iguais indefesos) , passaram a usar a representação da palavra bullyng para justificar suas monstruosidades . O pior é que sobre essa monumental mentira afloraram as teses de educadores e especialistas, sempre prontos para vitimizar covardes e para justificar  crueldades.
De repente, o conceito de ‘bullyng’ que passou séculos associado a uma chateação obsessiva por parte de colegas, (e que no   popular era chamado aporrinhação)  virou objeto de discussões, debates, e, sobretudo comiseração daqueles que a sofrem, passando por tremeliques, histerias, e estresses de professores e pais sobrecarregando a mente em formação do jovem de um estado de vigília permanente.
 Idem com a palavra Feminicídio. 








A coisa chegou a tal ponto que, depois de implantada as monstruosidades começaram a acontecer com tal frequência que os comentários estupefatos viraram rotina. “Porque tanta brutalidade?“ “Será que não seria melhor continuar chamando esses  covardes de boçais ou monstros e não de feminicidas?” A alusão à impropriedade da palavra tem razão de ser: Feminicida, cuja pronúncia remete a suicida, sinaliza fragilidade e carência, o que soa por demais ameno para classificar as feras que cometem os crimes.
Claro, ninguém iria tão longe a ponto de inferir que o poder das palavras vai além do que significam, mesmo  quando embutem na sua utilização a hipocrisia do poder público e sua incapacidade de proteger nossas mulheres que clamam por solução. Assim como inventam leis e mais leis para falsearem a solução que não são capazes de oferecer,  a utilização de palavras novas, na prática,  apenas serve de enfeite para uma tomada de posição corretiva da qual  os poderes  mostram-se incapazes de executar.  
Pobres palavras! São seres vivos, decerto, mas, sabiamente,   não se prestam para dourar a hipocrisia expressa  na estupidez dos homens,  e na leniência dos que não agem para evitar a continuação de tantas aberrações e monstruosidades.

José Ewerton Neto é autor de O ofício de matar suicidas




                                                                                                                                                          ewerton.neto@hotmil.com

segunda-feira, 25 de março de 2019

A VERDADEIRA HISTÓRIA DOS CONTOS DE FADA





O ser humano não suporta a realidade, diz uma frase famosa.   Outra estabelece que um ser humano é apenas a soma de suas ilusões. 
Contos de fada? As histórias que nos ensinaram eternizaram-se em nosso imaginário justamente porque extraíram da realidade a dura verdade como se fosse uma inocente ilusão. Mas a realidade dos contos de fadas é muito mais crua do que se julga. Sim senhores, a coisa era feia, muito feia e contos de fada são cruéis, muito cruéis.







1.Canibalismo. O canibalismo é useiro e vezeiro nas histórias de contos de fada. Na época em que os contos de fada foram escritos esse hábito estava longe de ser extinto. O historiador Jay Rubinstein conta que nos séculos 12 e 11 havia feiras de carne humana na Inglaterra e na França – e há relatos de pais comendo seus bebês em momentos de extrema pobreza.
Portanto, as bruxas comedoras de criancinhas estão longe de ser uma licença poética de um autor de muita imaginação. Quando se diz que a bruxa esperava João e Maria para comê-los isso não era força de expressão nem maldade de bruxa. Sobrevivência apenas.
            Aliás, não faz muito tempo, na cordilheira dos Andes jovens universitários sobreviveram comendo seus próprios companheiros. Nossos ancestrais pré-históricos, por exemplo, adoravam carne humana. O hábito de comer pessoas era tão comum que há até marcas genéticas de mecanismos de defesa no nosso DNA, desenvolvidos para proteger contra doenças que surgem quando se come carne humana.

2.Madrastas Malvadas. Cinderela e Branca de Neve as tiveram etc. etc. Mas, se pensarmos bem, no contexto em que viviam  a  proteção aos de sua prole se confunde com a sobrevivência.  Entre o filho gerado pelo seu ventre e o filho de outra mulher quem você preferiria que morresse, ó mãe?
As fêmeas humanas, comparadas a outros animais, tiveram no passado extrema dificuldade para a concepção, pelo fato de possuírem um quadril relativamente pequeno em relação à sua cabeça. É difícil espremer uma cabeça tão grande por um quadrilzinho tão pequeno. Antes das cesáreas as taxas de mortalidade das mulheres na hora do parto eram altíssimas. Parir era tão perigoso que a expectativa de vida de uma mulher francesa no século 19 era de 26 anos.
Nessas condições, como na França do século XVII, 80 % dos homens se casavam mais de uma vez. Com os recursos naturais tão escassos, nada mais natural que as  madrastas privilegiassem os próprios filhos, tadinhas! 

3.Estupro e Feminicídio. Branca de Neve e a Bela Adormecida, caso vivessem hoje, talvez exigissem que os príncipes que as estupraram fossem presos. Você, leitora, já parou para imaginar se estivesse dormindo e um estranho começasse a beijar sua boca? E depois fosse obrigada a casar com esse... violador? A Bela Adormecida original foi  violada durante o sono e ficou grávida de dois gêmeos, o que provocou a ira da esposa do príncipe quando a Bela acordou e os gêmeos nasceram. Antecipando-se à vingança da esposa o príncipe a atirou na fogueira. Ou seja, além de estuprador o príncipe foi um Feminicida.  
.           Quer uma vida de contos de fadas ou prefere ficar com a nossa, caro  leitor? Eu prefiro a nossa. Pelo menos podemos ler um conto de fadas na fila do SUS. Quer dizer,  enquanto ainda não levamos um tiro na testa porque um psicopata se queixa de que sofreu bullyng. 
                                                                                                                                                                                                        José Ewerton Neto é autor de O Ofício de matar suicidas