sábado, 3 de outubro de 2020

O PARAÍSO CHEGA ÀS ESCOLAS

 


artigo publicado no jornal O estado do Maranhão


“ Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de Biblioteca.” Jorge Luis Borges  

 

A cena se passa em uma escola simples, do subúrbio. No intervalo das aulas, eis que,  saindo de suas salas,  os estudantes deparam com uma novidade: uma vasta e sinuosa estrutura de madeira, dotada de compartimentos interligados, ganha corpo pela primeira vez,  no interior dos muros da escola .

Ao  se aproximarem ainda mais ,  os atônitos alunos se defrontam com algo que conhecem bem:  livros e mais livros  organizados em prateleiras. Como se fossem estantes, várias estantes. Melhor ainda, como se fosse uma Biblioteca. Uma elegante, original, e simpática Biblioteca. Extasiados, os estudantes se interrogam entre si diante daquela visita, para eles  somente possível existir  no mundo da fantasia .

Uma aluna não se contêm, e se dirige  ao senhor que aparenta ser o responsável por aquela visita surpreendente e mágica.

- Moço, como é bonita essa espécie de Biblioteca! Como se chama? Por quanto tempo ficará aqui, conosco?

            Com um fraterno sorriso ele responde.

- Para sempre mocinha. Seu nome é GIROTECA,  e permanecerá em sua escola para sempre. Trata-se de um presente, concebido por nossa equipe para estudantes e professores, e que lhes foi doado pelo Prefeito da sua cidade, que apoiou esse projeto juntamente com seus auxiliares administrativos. Parabéns!

A aluna, extasiada corre para transmitir a novidade. Aos abraços, os professores também compartilham da festa.

2.  A GIROTECA.

Giroteca foi o nome dado a um projeto concebido pelos dois  parceiros  do empreendimento Kléber Castro  e Milton Lira, e nasceu da convivência de ambos com o ambiente dos  livros, de onde extraíram inspiração para a  criatividade e a ousadia com que lutaram pela sua realização.  O referido  projeto tem utilidade e praticidades imediatas para qualquer um que ponha os olhos na arquitetura da maquete inicial do projeto, tornando-se, a partir desse deslumbramento inicial, quase  um dever adotá-lo,  pelos   executivos da área de Educação. Por isso, o Projeto foi imediatamente validado entre outras 20 tecnologias modernas pelo Ministério da Educação, através da Portaria 12, de abril de 2019, sendo a única do Norte e Nordeste.

Seu baixo custo, 70 % menor que os tradicionais, aliada à facilidade de  adaptação a imóveis já construídos, torna possível cumprir o disposto pelo Ministério de Educação que determina como obrigatória a todas as Escolas deste país a disponibilização de  uma Biblioteca .

A essa praticidade se aliam muitos outros atrativos. São 1700 livros em quatro módulos, providos ainda de data-show, e-books, áudio-livros,   mapas e literatura inclusiva. Um relevante aspecto  destaca o referido projeto em termos do apoio à cultura maranhense em especial, contemplando a produção local (cada vez mais exuberante e nada devedora do restante do país)  com 25 % de seu acervo, o que significa,  reverberar um dom que doou à cidade o seu mais caro título,  de Atenas Brasileira, permitindo, ao mesmo tempo, confirmar esse título e incentivar o surgimento de novos escritores para  perpetuação dessa honrosa marca. A cidade e seus habitantes estão, sem dúvida,  de parabéns!  

Obs. A cena inicial que inspirou esse texto não foi uma ficção autoral, mas um fato absolutamente real, presente na primeira Escola contemplada com ‘essa espécie de ...Paraíso’ , como disse J.L.Borges.


José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas 





segunda-feira, 24 de agosto de 2020

OS DIAMANTES NÃO SÃO ETERNOS

 



DIAMANTES NÃO SÃO ETERNOS

 

Todo ser humano almeja a eternidade e comporta-se como se isso fosse possível. Na vida pós-moderna (especialmente após a virada do século) a cultura da ilusão e do apelo ao imediatismo procura excluir a morte da realidade cotidiana mediante a ocultaçãode sua presença  e do que ela representa.

Assim, tudo aquilo que a morte carreia é, propositadamente,tratado com distanciamento e indiferença, e isso se manifesta de variadas formas: No desprezo cada vez maior à velhice ; Na exaltação exacerbada à beleza e a juventude ; Na condolência pelos assassinos (cruéis, mas vivos) ao invés de pelas vítimas (honestas, mas mortas) ; Na falta de afeto pelos doentes terminais, confinados e entubados nos quartos dos hospitais, em vezde no convívio de seus familiares.

Esse comportamento é constatável no artificialismo a que tendem os funerais nas regiões urbanas, onde predomina o distanciamento afetivo, expresso nas conversas em paralelo e expressões de riso e até de alegria, diferentes da solidariedade espontânea que somente ainda se vê nos rincões mais afastados.

 Igualmente, os valores trazidos pela consciência da finitude da vida ficam relegados, cada vez mais, a segundo plano: a humildade, a honestidade, a maturidade e a reflexão  são interpretados como sendo incompatíveis com a agressividade necessária para competir no mundo atual e são desestimuladas pelos livros de autoajuda e pelas palestras de empreendedorismo que proliferam nos ambientes sociais.

Naatual Pandemia, esse comportamento, ao invés de interrompido ou, pelo menos,amenizado pela iminência da morte, ganhou tons mais concretos de efetivação como se a Pandemia o referendasse. As pequenas regras de solidariedade ao ente terminal, como a contrição, a reserva, o luto e a oração foram substituídos por um ‘salve-se quem puder’ muito adequado a quem já dispensaria os esforços de demonstração de pesar durante as exéquias de alguém.

Nada de estranhar que na Europa empresas hajam se especializado em prestar um ‘serviço de eternização’, digamos assim, transformando as cinzas dos mortos em diamantes. A procura desse serviço virou uma mania para quem pode pagar. Claro que a homenagem assim prestadatem valor afetivo, mas cedo reverbera uma verdade que a empobrece, pois induz à reflexão de que o dinheiro podendo comprar tudo, ao não conseguir vender a eternidade,  tenta, pelo menos, permutar seu símbolo. No fundo, não passa de um“Compra-se memória”, quemesmo quando visto pelo lado do negócio, tem um  custo-benefício do tamanho de um engodo. O dinheiro é gasto à toa, porque as mesmas cinzas conservadas em depósito mais humilde, se referenciadas com ternura teriam valor equivalente ou maior.

“Os diamantes são eternos” é um filme antigo de James Bond. Vá lá que isso seja verdade, porém,um ser humano, que em vida é  constituído de corpo e memória,  pode até transformar os restos de seu corpo em diamante, mas nunca em memória. Ao contrário esta terá de ser efetivadadurante a sua vivência como única chance de eternizar-se, findo o corpo.

A evolução tecnológica pode muita coisa, mas jamais conseguirá dourar a memória do que alguém fez ou do que construiu em prol dos homens e da sociedade. O que, por ser accessível ao mais humilde dos homens, é o seu maior diamante,e o único capaz de eternizar-se.


sexta-feira, 14 de agosto de 2020

WALDEMIRO VIANA E MILSON COUTINHO

 







Estava dia 4, pela  manhã, no  velório do confrade  Waldemiro Viana para me despedir de corpo presente, em oração e afeto,  do amigo escritor que partia em definitivo, quando recebi outra triste notícia, o também confrade e amigo MIlson Coutinho acabara de falecer.

Num ambiente de Pandemia onde  os cuidados protetivos não são suficientes para servir de escudo contra o extravasamento da sensação de impotência e fragilidade humana, imagine a repetição dessa pungente sensação com novo impacto de melancolia e saudade. Permaneci no centro da cidade até chegar o momento de repetir, mais tarde,  a mesma jornada de despedida, desta vez rumo à Academia Maranhense de Letras onde  Milson Coutinho, outro amigo e confrade,  estava sendo velado.

WALDEMIRO VIANA.

As qualidades pessoais de Waldemiro Viana de companheirismo, afabilidade e alegria já foram tão decantadas por confrades, amigos e parentes nas redes sociais, blogs e jornais  que não cabe aqui repeti-las. A essas acresço ainda mais uma: a ironia.  Waldemiro Viana era um formidável irônico do bem. Aquele tipo de ironia desconcertante no trato das pessoas que faz  desanuviar semblantes carregados e emoldurar as faces compenetradas de sorrisos e gargalhadas, mesmo nas ocasiões mais solenes, permitindo que todos escapem brevemente da seriedade protocolar.

Essa ironia, dom de poucos, Waldemiro Viana carreou para seus romances  explicando-se assim a sedução que sua escrita exercia nos espíritos mais propensos à liberdade - e não apenas de sua livre interpretação no trato ficcional dos personagens e dos fatos. Assim, até nas situações mais angustiantes de A Tara e a Toga, um romance policial  de ficção histórica baseado no icônico e rumoroso caso do Desembargador Pontes Visgueiro, Waldemiro adicionava a sua verve peculiar, que permitiu aos leitores, mesmo no momentos cruciais da história , rir das desgraças humanas. Em outro livro A vez da caça (atenção para a curiosa escolha dos títulos segundo essa tônica),  idem quando nas situações mais inusitadas e imprevistas, o cinismo e a falta de escrúpulos desses anti-heróis fazia com que torcêssemos por eles,  como amigos a quem se perdoa o cinismo em nome de  espírito aventureiro, como tantos leitores torceram por Tom Jones, do escritor inglês Henry Fielding, à reboque de uma narrativa, como as de Waldemiro,  eivadas de deliciosa ironia.

 MILSON COUTINHO

Milson Coutinho também era da estirpe dos que fazem amizades sinceras e perenes com muita facilidade, a par dos cargos de comando que exerceu, onde nem sempre é possível agradar a gregos e troianos.

Literariamente Milson Coutinho enveredou por um gênero de elaboração árdua e complexa,  que é o da Pesquisa Histórica,  tornando-se  na AML e na intelectualidade maranhense um dos expoentes dessa corrente dedicada a esse trabalho de reavivar, documentalmente ou com alguma liberdade de interpretação, memórias e fatos que precisam ser  preservados.

Isso exige dedicação, agudeza e desprendimento e, sobretudo, generosidade, pois é um presente concebido, principalmente, para as gerações posteriores, ocorrendo muitas vezes que estas sim é que reconhecerão mais largamente o presente que lhes foi doado. Fico imaginando que ao autor dessa epopeia fundamental para os maranhenses A revolta de Bequimão só faltou brindar-nos, com aquela que seria outra obra preciosa: a sua autobiografia, sobre a sua trajetória tão rica e tão aplaudida por  todos. 


José Ewerton Neto é membro da Academia Maranhense de Letras e autor do livro  O entrevistador de lendas




quarta-feira, 29 de julho de 2020

O BRASIL QUANDO A PANDEMIA ACABAR




De volta para o futuro. É assim que nos sentiremos quando a vacina chegar,  anunciando o fim da pandemia.
Mas, como será esse futuro? Dá para imaginar?

1. O Pico da Pandemia até agora não foi visto. Nada, porém,  de apavoramentos! Fique tranquilo, leitor, ouso sugerir que,  até o fim do ano, “eles” darão  um jeito de anunciar sua descoberta.  
Sim, porque estaremos chegando ao fim do ano  e, algo me diz que por volta de Novembro,  no mais tardar, ele surgirá . Um milagre?
Sim, um milagre chamado Reveillon.
Pode-se imaginar, no planeta Terra, um ano sem réveillon? Pode até não ter ano, mas Réveillon tem que ter. Para felicidade geral, pela  certeza de que estamos vivos ainda, uma vacina terá de surgir sabe-se lá de onde. Com morcego ou sem morcego, com cientista ou sem cientista, com OMS ou sem OMS. E o  Pico terá de ser  anunciado lá pelos idos de Novembro.  

2.Depois do Pico virá a  Vacina,  sendo fácil prever o que acontecerá,  no Brasil, esse dia.
Galvão Bueno sairá de seu isolamento, (que nos fez tanto bem)  para voltar a gritar. Só que,  ao invés de berrar gooooooool do Flamengo gritará Vaaaaciiiinaaaaaaaaaaaa!!!,   em  programa da Globo.
O presidente Bolsonaro, convencido pelos militares  decretará  luto oficial de 5 dias em homenagem ás vítimas do Covide (sua ideia inicial  era meio dia,   apenas ).
Será aprovada a mudança de nome do estádio do Maracanã para estádio Sérgio Mandetta (ideia de um deputado carioca aprovada a toque de caixa) O primeiro bebê a nascer depois da Vacina receberá o nome de Vacina, se for mulher, e Enfermeiro, se for homem  O vídeo  do nascimento será transmitido pela Globo e repostado por milhões de seguidores na net.
Em seguida, serão iniciados os preparativos para o próximo Carnaval, com aceleração máxima e cobertura do trabalho 24 h por dia. Os temas de todas as escolas de samba,  versarão sobre a Pandemia com diferentes abordagens. A Turma da Mangueira, por exemplo,  terá uma ala da OMS, outra de médicos e, lá em cima, como um Deus egípcio, a figura de Tedros Adhanon em pessoa. (Adhanon, relutante a princípio , acabará aceitando o convite para desfilar na passarela do samba).
A Império Serrano, terá  tema e samba enredo com o título : 20 a 19. A explicação: contra o Covide 19, esperança 20. O vírus será representado em carro alegórico por uma espécie de maxixe gigante, rodeado de travestis,  vestido de diabos, representando as forças do mal.  

3. Decretos governamentais estabelecerão que as máscaras serão distribuídas gratuitamente, aos pares, com camisinhas. Um empresário pernambucano terá a feliz ideia de fabricar uma engenhosa Máscara/ Camisinha com dupla finalidade. Luciano Hulk, um dos entusiastas da ideia, apresentará  a máscara em seu programa e dirá que ficou perfeita para o seu imenso nariz.
Os bailes de máscara serão liberados, todos se divertirão pra valer! João Dória aparecerá vestido de Batman, o morcego do bem, no bloco da Preta  Gil.  Infelizmente, porém, um  gigantesco Covide-19 despencará  de cima de um carro alegórico e cairá na cabeça de duas folionas. Uma delas, vítima recente do Covid, ao se recuperar do impacto, no hospital,   bombará na net com esta frase: “É mais fácil escapar de um Covid de verdade do que de um Covid feito por gente.”  

Quem viver verá!


José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas, 2a edição nas livrarias de São Luis  


sábado, 18 de julho de 2020

O.M.S ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO SUSTO.




artigo publicado no jornal O estado do Maranhão


DO JEITO QUE AS MÃES RALHAVAM


Observem como as recomendações repetitivas e monocórdias da OMS ( que um amigo jornalista chama de Organização Mundial do Susto) se parecem com as falas de nossas mães, avós, tetravós,  não só nos seus  objetivos de nos antecipar proteção  como também no mesmo jeito das suas cantilenas imemoriais.
São os conselhos óbvios, elementares e necessários, como se estivessem ralhando com a gente, de nossas mães.  Mas, no caso da Pandemia, ausentes de uma solução,  que nunca se  esperaria  de uma intuitiva mãe - ansiosa por proteger suas crias, mas, obviamente, de uma organização Global dotada de vultosos recursos financeiros  e de inteligências científicas escolhidas a dedo para que , pelo menos em tese, fossem capazes de trazer soluções menos triviais do que apenas exortações de fuga e recolhimento.
Na prática,  repetem-se tanto as notícias pavorosas todo dia,  que nosso amigo acabou associando a OMS a uma agência disseminadora de pavor. Sei que alguém pode contrapor, com justa razão: “Como falar de notícias boas, se a realidade é tão cruel?” Sem dúvida, temos  de concordar com isso, mas com o passar do tempo e a ausência total de soluções é fácil intuir que deve haver algo deletério  nos alicerces dessa instituição para que, visivelmente,  exiba tanta  incapacidade de conduzir e orientar  soluções que façam frente  a epidemias desse porte.
Era de se esperar  estudos técnicos conclusivos sobre, por exemplo:  influência do clima;  remédios promissores ou nocivos;  perspectivas de curto e médio prazo etc. Mas o que sobressai são líderes atarantados que agem como vítimas, incapazes de se pronunciarem adequadamente sobre o manancial de dados colhidos, resumindo-se a lamentar os fatos e apontar os dedos como se fizessem parte, realmente, de  uma organização assustada e sem rumo.
E, assim, repetem as nossas mães sem serem dotados, sequer, do afeto e da empatia que ela  possuem. Basta comparar suas falas para vermos as semelhanças. A OMS, como mãe. O homem do povo, como o filho que responde.  

1.”Lá em casa, a gente conversa”.
Certo  mamãe OMS. Mas, primeiro preciso, pelo menos, ter uma casa.

2.”Você não faz mais que sua obrigação ao se proteger”.
Com certeza, mamãe OMS. Mas se minha obrigação é a de me proteger, a da senhora deveria ser a de estar propondo soluções, que já vão tarde. Ou não?

3.”Repete isso que você falou”.
Quem repete todo dia a mesma cantilena “Vá pra casa”, é a senhora. Quando  vai dizer  algo diferente ?

4.”Quantas vezes terei que falar?”
Não sei, mamãe OMS. Só espero que não seja por toda a eternidade, como a senhora parece agourar. Rezo que seja antes de morrermos todos.

5.”Se você não guardar suas porcarias, vou jogar no lixo”.
O que aprendi mamãe OMS, é que nós, seres humanos,  não passamos de grandes porcarias, frágeis e indefesas diante de um minúsculo vírus. Quanto a jogar-nos no lixo, a verdade é que essa pandemia já nos jogou lá dentro há muito tempo.

6.”Se eu for aí e achar, esfrego em sua cara”.
A senhora está falando da máscara, mamãe OMS? Fique certa de que ela está em minha  cara há tanto tempo que não sei mais como era antes.


josé Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas 


Primeira novela de ficção científica sobre lendas maranhenses. Ação, aventura, e, de quebra, conhecimento! Agora em segunda edição. 

sábado, 11 de julho de 2020

MARTA ROCHA ( A BELEZA MORRE)





A beleza vive. A beleza morre. A beleza que morreu desta vez chamava-se Marta Rocha.
Lembro-me de quando eu tinha uns cinco anos de idade, em Guimarães, onde minha família residida. Na ocasião meu avô, José Ribamar Ewerton, me fez decorar uma fala de sua autoria. Satisfeito com meu rápido aprendizado, mandava me chamar onde eu estivesse para que a repetisse para os amigos, quando acontecia de se reunirem num armazém defronte à minha casa.  Ele me estimulava: - Vamos lá, rapaz, mostra para essa turma que você já sabe dizer o nome completo. Compenetrado, eu repetia tintim por tintim o pequeno discurso que ele havia me ensinado e falava: “Meu nome é José Ribamar Ewerton Neto, sou moço garoto da miss Brasil, Maria José Cardoso, minha querida noiva”. Eles gargalhavam, encenavam me cumprimentar como a um adulto e diziam: “Zé Ewerton, esse moço tem futuro, e já começa pela Miss Brasil.”




                               





Mais tarde tomei consciência, através do que via nas fotos de revistas como O Cruzeiro,  de que Maria José Cardoso “ a minha noiva” , era sim, muito bonita e , além disso, havia ganho o concurso de Miss Brasil em 1956. Mas  a beleza, a beleza de fato, não era ela, mas Marta Rocha,  que fora miss Brasil antes dela e cujos dons de formosura capitalizaram o entusiasmo  dos anos vindouros a ponto de seu nome se tornar  um sinônimo de beleza. Quando se dizia que fulana era Marta Rocha, as moças se engrandeciam muito mais do que se alguém dissesse que eram formosas.  
Confesso que para meu gosto pessoal ainda embrionário, Marta Rocha era, sim, bonita, mas não abarcava toda a  gama de suscetibilidades estéticas trazidas, a seguir, por certas atrizes como Sofia Loren , de quem me tornei ardoroso fã tão logo nos mudamos para a capital e vim a conhecer o cinema. Era fatal que Marta, como ideário de beleza, fosse sobrepujada por aquelas, cujas imagens se movimentando nas telas dos cinemas incorporavam uma dose adicional de erotismo, sedução, e amor platônico, que uma fotografia solitária era incapaz de sugerir. Dessa forma, Marta Rocha nunca foi páreo para a italiana, que me fazia sair de casa célere em direção aos seus filmes, assistidos muitas vezes à custa de burlar a idade mínima exigida.  
Em paralelo, mesmo envelhecendo, Marta Rocha continuou por muito tempo como símbolo da plenitude da beleza brasileira. Afinal era possuidora da eterna beleza, como disse a seu respeito,  Vera Fisher, outra bela,  em entrevista à rede Globo no dia de sua definitiva ida.
Ao conceber o título desta crônica em homenagem a essa mulher que obteve, como nenhuma outra, no Brasil, o máximo que pode ser  concedido à  transitoriedade da beleza física, talvez haja me inspirado no título do romance do japonês, premio Nobel, Yasunari Kawabata  intitulado Beleza e Tristeza,  no qual o narrador ao mesmo tempo em que se rende ao esplendor da beleza, traduz-lhe  a precariedade diante da derrocada humana
Como disse Stendhal  “A beleza é apenas a promessa da felicidade”.  Infelizmente, é ceifada pela morte também, sendo, no entanto,  suficiente para ter sido capaz de sobrepuja-la que, exuberantemente, nos traga, como agora,   toda  essa conjugação  de apogeu, melancolia e saudade.


José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas 



Segunda edição já nas livrarias. 
As mais belas lendas maranhenses. Ação, aventura, e informação
em uma novela de ficção científica para jovens e adultos. 

quarta-feira, 8 de julho de 2020

VENTOS CONTAMINADOS SE TORNAM VIOLENTOS







REFLEXÕES DA QUARENTENA 


645 é o pensador politicamente incorreto da Pandemia
Tão direto como a Matemática
tão simples como um número 

e chama a OMS de Organização Mundial do Susto  



quinta-feira, 2 de julho de 2020

COMO SER SÁBIO NA PANDEMIA



artigo publicado no jornal O estado do Maranhão


A Pandemia não modifica as pessoas, apenas mostra o que elas são.   Não precisa ser nenhum sábio, basta ser apenas um observador para concluir isso. Sim, porque é justamente nas situações extremas que os seres humanos mostram suas verdadeiras faces, com máscaras ou sem máscaras.
Os exemplos são muitos, bastaria lembrar mais da metade dos respiradores comprados que jamais chegaram aos doentes, ou, então, os milhares de brasileiros que se apropriaram da ajuda de custo destinada aos carentes.   Neste caso, a Pandemia não aprimorou a dose de canalhice dessa corja, apenas a exibiu.
Mas a frase original não é essa, mas sim “O poder não modifica as pessoas apenas mostra o que elas são”,  o que me faz pensar na grande variedade de frases sábias, adaptadas, ao que se vê na Pandemia:

1.Ser ou não ser, eis a questão. Mas se você não resolveu essa questão antes da Pandemia é melhor deixar pra lá, porque em uma Pandemia se vive muito pouco para ser alguma coisa, e depois que ela acabar, se acabar,  a questão passará a ser sobreviver. Ser ou não ser será artigo de luxo. 

2.Na Pandemia brasileira a sabedoria de Jesus Cristo se transforma sob o ponto de vista dos políticos: “Dai a César  o  que  é de César, a Deus que  é de Deus e aos Corruptos o dinheiro desviado da Saúde”.

3.Em uma quarentena as aparências enganam,  como sempre, mas as máscaras conseguem esconder a feiura com mais precisão e vantagem (porque sai mais barato) do que o Botox .

4.A pressa sempre foi inimiga da perfeição, mas o Pico da Pandemia não precisava exagerar na seu passo de tartaruga.

5.Em uma Pandemia, o brasileiro, usa o ditado do jeito que lhe convêm : “Cada macaco no seu galho, cada Gafanhoto no Uruguai e cada Covid 19  numa piscina de álcool Gel.”

6.De médico e de louco todos temos um pouco mas, na Pandemia, a parte médica diminui menos que a de loucura aumenta.

7.Na Pandemia a sabedoria ressoa com mais precisão ainda quando falada desta forma: “Dize-me com que Covid 19 andas , que eu te direi quem eras”.

8. Mente vazia, como todos sabem, sempre foi a oficina do Diabo. Na Pandemia as mentes se transformaram em oficinas de fabricar lives. O que, praticamente, dá no mesmo. 

9.Para bom entendedor meia palavra basta. Mas na Pandemia metade da metade de um espirro basta para espantar todo mundo.

 10.Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje. Mas na Pandemia é bom lembrar que Hoje é amanhã, Amanhã virou nunca e,  quanto ao futuro,  a OMS ainda está decidindo .

12.Jamais ponha a carroça adiante dos bois, mas na Quarentena o melhor a fazer é deixar o Covid adiante da máscara.

13.Roupa suja se lava em casa, mas na Pandemia prefira lavar a roupa suja antes de entrar em casa.

14.Um dia é da caça outra do caçador, mas se o Covide é o caçador e o ser humano a caça, faz mais de 12 semanas que todo dia é dia do caçador.

O pior é que, se depender da OMS e seus cientistas, o caçador continuará deitando e rolando e a vez da caça tão cedo não chegará.    


José Ewerton Neto é autor de A ÂNSIA DO PRAZER, romance , primeira edição 
premiada e esgotada, agora disponível para download na Amazon.com 


    

sábado, 27 de junho de 2020

A DEBANDADA DOS GAFANHOTOS







ENFIM, A  CAUSA DA DEBANDADA DOS GAFANHOTOS

645, o pensativo, é o filósofo politicamente
incorreto da periferia  



quarta-feira, 27 de maio de 2020

A ESTRÉIA DO 645






645 É O FILÓSOFO POLITICAMENTE INCORRETO DA QUARENTENA 

terça-feira, 21 de abril de 2020

A BOA QUARENTENA LITERÁRIA







VIEIRA NA ILHA DO  MARANHÃO, de Ronaldo Costa  Fernandes
Neste romance de ficção histórica, Ronaldo se afasta dos temas habituais,  em seus contos e romances,  para construir   uma homenagem à sua terra, o Maranhão – e que homenagem! Para tanto buscou um de nossos  personagens mais ricos  e emblemáticos, o padre Antonio Vieira.
Vieira, no romance, paira, por assim dizer, como um farol, iluminando a ocorrência dos fatos, mas  sem participação no desenlace dos mesmos. Mantendo-o equidistante de sua criação imaginativa,  Ronaldo edificou um significativo registro de uma época, da qual até os maranhenses mais letrados sabem pouco. Aos poucos,  o leitor vai percebendo que, com suas palavras, o autor traçou um denso painel em que suas  frases substituíram  registros documentais, desenhos e mapas de uma fase embrionária da nossa formação como povo .  É um romance cujo fascínio não está no mistério da trama, não linear e quase inexistente, mas na composição dos tipos: fortes, devassos, estúpidos e aventureiros, e na descrição dos eventos em torno dos mesmos, o que   nos transporta   para o passado como se estivéssemos – perdoem o clichê- viajando através do tempo.
Certamente fruto de árdua pesquisa, a abordagem literária  a meio caminho entre crônica dos acontecimentos  e romance , valoriza sobremaneira o resultado.  Uma obra enriquecedora  que deveria ser recomendada para  leitura em nossas faculdades , especialmente para os formandos em Letras ou História.

ANÔNIMOS, de Lindevania Martins
Os contos de Lindevania Martins possuem o dom de aberturas poderosas, sugestivas e originais. Leva-se algum tempo para constatar isso porque, extasiados, somos motivados a continuar  com progressivo  interesse,  já que o que vem pela frente não se desloca do mistério ou da inquietação prometida. Ao invés, nos conduzem a mais labirintos perfeitamente delineados, sem que se tope com bizarrias que, de algum tempo para cá, se tornaram um caminho fácil para escritores que, sem o mesmo talento, ficam emparedados,  no espaço curto de um conto,  descambando para  a conclusão  grotesca ou ineficaz.
Assim, em dilacerantes contos como a Língua ou Coisa sem nome, para citar apenas estes, Lindevânia Martins consolida a narrativa de seus contos em um todo monolítico, fazendo com que  o start-up impactante perdure até o final,  para deleite do leitor.

LITTERAE SEMPRE, De Alexandre Lago
Este segundo livro de Alexandre Lago sobre a mesma temática  , pode ser considerado , dada a linguagem accessível e dinâmica, tanto como livro de iniciação à boa literatura , como de aprimoramento,  para os mais versados .
Mesmo aquele que já tenha viajado literariamente por “ mares nunca antes navegados”  há de encontrar aqui  o tesouro da ilha que julgava perdida , e dotará  sua navegação ( a leitura é uma viagem ) com um  fértil manancial de obras sutilmente postas à disposição do leitor através de uma arquitetura de compartilhamento em que o autor concede, além do resumo da obra, sua abalizada opinião.
Mais um utilíssimo livro que deveria enriquecer o acervo de nossas escolas. Desta feita para estudantes do segundo e terceiro grau.


José Ewerton Neto é autor de O Entrevistador de Lendas , cuja segunda edição
já está na gráfica 



quarta-feira, 15 de abril de 2020

DE CARONA CONTRA O CORONA






De Carona no humor, contra o Corona::


1.Gretchen. A cantora Gretchen bombou nas redes sociais, após solidarizar-se  à campanha Fique em Casa.
Foi muito aplaudida.  Embora muitos não saibam,  apesar da avançada idade ela é uma das poucas pessoas do Brasil imune ao ataque do vírus. Especialistas entendem que o vírus jamais conseguiria atravessar a barreira de botox sobre a pele da cantora.  

2.Galvão Bueno. Eis que bombou na net uma pergunta de resposta complexa:  “A rede Globo vibra mais com notícias trágicas da pandemia ou com os gols  do Flamengo?
Resposta difícil. Alguém sugeriu que a  única forma de saber seria colocar Galvão Bueno para narrar os momentos mais trágicos,  gritando gol toda vez que acontecer uma nova tragédia .  Caso o grito de Galvão perdurar mais na pandemia, essa opção seria a verdadeira.

3.Sexo Virtual. O confinamento das pessoas aumentou o volume de serviços eróticos disponibilizados na Rede. O PornoHub, um dos maiores sites de conteúdo erótico, teve, por exemplo, um aumento de 6 % de procura.
Isso significa   que as escapadas do lar com a desculpa de que a rotina cansa, está definitivamente descartada doravante. A partir de agora, os parceiros terão  de convir que é melhor levar chifre de um Ricardão(ona)  virtual do que um real. E sem sair de casa. 

4. Outros Vírus. Alguns vírus, HN1, Dengue etc. estariam incomodados com o sucesso que o Corona está fazendo na mídia.
O HN1 teria travado com o mosquito da dengue o seguinte diálogo:
- Tá vendo o sucesso que esse cara tá fazendo na TV ? E nem precisou entrar no BBBrasil.

5.Dupla Sertaneja. Outra dúvida sobre os efeitos do Covid 19  bombou na Internet. A dúvida: Quando um dos membros de uma dupla musical sertaneja é contaminada  o parceiro também é?
Evidentemente que isso foi uma maldade. Mas disso surgiu uma ideia, esta sim,  benéfica para todo mundo.
“Que o vírus jamais faça mal a saúde deles, mas bem que podia deixar as suas canções de quarentena, ou melhor, de oitentena.”   

6.Ações em alta . As ações que mais subiram desde o início da pandemia foram: sites de streaming, empresas pesquisadoras de vacinas e aplicativos de vídeo conferência.
Especialistas afirmam que a ação que vai disparar assim que findar o período de quarentena, (Quando a Economia do país estará em pandarecos) será a ação  contra o bolso dos outros.

7. Baile de Máscara. De olho no futuro, já existem  empresários  se arregimentando para promover a volta dos bailes de máscaras,  que tanto fizeram sucesso nos primitivos carnavais.  
Aliás,  como a contaminação foi maior em São Paulo e no Rio onde o Carnaval e a promiscuidade correram  soltos,  governadores desses estados já estariam pensando em exigir que, para o próximo ano, o Carnaval volte a ser de máscaras, preservando o romantismo, a saúde da população e, principalmente,  escondendo melhor os bandidos.

8.O ministro Gilmar Mendes fiel ao seu mantra de soltador de bandido começou a libertar vários  condenados da lava jato sob o  argumento de que estes poderiam  ser contaminados.
Um internauta comentou: “Gilmar não perde tempo,  não respeita nem o vírus. Pega Carona até no  Corona,  se for para soltar bandido!”

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas 



sexta-feira, 10 de abril de 2020

A ARTE DE SER O PRIMEIRO






 “Os últimos serão os primeiros”  dizia Jesus Cristo contrariando a obsessão moderna de primazia em tudo que se refere a poder e visibilidade . Nestes tempos de Corona, a enxurrada de especialistas que aparece para ostentar  sapiência sem oferecer soluções,   batendo em uma tecla de prevenção  do tempo de nossos tataravôs, faz ver  que a ciência progrediu muito em certas direções relacionadas à tecnologia de  consumo e , relativamente,  pouco no que se refere à proteção à saúde dos indivíduos.
Nada como, nesses tempos sombrios, refletir sobre alguns primeiros  especiais.

                1.O primeiro mandamento no Velho Testamento é “ Não terás outros deuses diante de mim”. ( Exodo 20.3). No Novo Testamento  uma sutil  alteração foi feita por Jesus Cristo. “Amarás, pois,  o senhor teu Deus de todo coração, de todo teu entendimento, e de toda a tua força.

                Isso significa que até os mandamentos são adaptáveis,  segundo a visão daquele que tem o poder de alterá-los. Por exemplo, na política, o primeiro mandamento que regeu a administração dos governantes corruptos, associados à lava jato foi: “Só terei um Deus diante de mim, o dinheiro”.

Já o primeiro mandamento cabível a um bom governante nestes tempos de crise é “ Deixe a politicagem de lado”.

2.As primeiras cordas de violão clássico eram feitas de tripas de gato.
Isso explicaria  porque, de vez em quando,  ouvia-se um indescritível e fascinante acorde. Devia ser  o gato miando.

3.A primeira máquina construída para facilitar o trabalho das mulheres  foi a de costura.
Mas a única que lhes fez realmente vibrarem foi a última: o  vibrador.

4.O primeiro método que se tem notícia para evitar a gravidez das mulheres era um tanto rústico. As egípcias colocavam pedrinhas no útero que funcionavam como um verdadeiro DIU.

As mulheres, coitadas, recorriam ao que estivesse ao alcance. Quando não conseguiam afugentar os machões com pedradas, resolviam depois com pedrinhas.

5.Os chineses foram os inventores dos primeiros sorvetes. Estes tinham como ingredientes uma pasta de leite e arroz.
Ainda bem que não tinha pasta de carne de morcego na composição. Já pensou?

6.O primeiro carro a vapor que circulou no Brasil colidiu com uma árvore. Seu motorista era o poeta Olavo Bilac. Foi o primeiro acidente automobilístico do país.
Romário, se  vivo na época, talvez dissesse: “ Olavo Bilac dirigindo um automóvel é um poeta!”
Pelo menos isso serviu de inspiração a Olavo Bilac para criar uma célebre abertura lírica “Ora, direis , ouvir estrelas”, que ele teria adaptado  do original “ Ora, direis. Eu vi estrelas!”

8. A primeira criança russa vacinada contra a varíola recebeu o nome de Vacccinov.

Espera-se que a primeira criança vacinada no Brasil contra o Corona Vírus não receba o nome  de Cora Vacinona .

9.A primeira guerra mundial iniciou-se em 28 de junho de 1914 e terminou em 11 de novembro de 1918. A segunda  durou de 1939 a 1945.

A terceira começou há dois meses contra o Coronavìrus. A diferença é que as nações do planeta, desta vez,  não estão se digladiando entre si, mas  seguem juntas contra um único mas pavoroso inimigo comum.   Um  vírus.

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas 



segunda-feira, 6 de abril de 2020

SUA MAIOR ILUSÃO É VOCÊ MESMO





Sim, caro leitor,  você é uma ilusão. Nosso eu é uma ilusão, não passamos de ilusões. E nem estou me referindo à vida humana, essa de quem, com muito maior razão, se desconfiava “A vida de alguém é a soma de suas ilusões” já dizia Henry James.
Estou me referindo a esse Eu, que todo mundo pensa que é e que, agora, a ciência desmente como apenas um conceito, dissociado da realidade. Como diz o neurocientista Daniel Dennet em seu livro “A perigosa ideia de Darwin”.  Ele atesta, assim como outros especialistas, que a mente humana é apenas uma constante sucessão de ideias, lembranças, sucessões, projetos, sentimentos, disputa por atenção etc. que passa por nossa consciência, de forma não linear. Para ele a forma de dar sentido a esse turbilhão é dizer que há um Eu que está experimentando, ou no comando de seus pensamentos. Mas esse eu unificado é apenas um conceito, portanto, um impostor.  
Para ilustrar essa realidade pode-se imaginar o seguinte diálogo entre um homem e seu espelho, ao  perceber que, dentro da moldura, a imagem o encara fixamente, como se estivesse viva e fosse outro ser. O homem, intrigado, pergunta àquele que julgava ser apenas a  réplica de si mesmo.

- Quem é você?
- Eu sou você.
- Nada disso. Você é apenas a minha imagem. Eu sou eu.
- Não se iluda. Eu sou você.
- Idiota! Se você for eu, quem, afinal, eu sou?
- Uma ilusão. Somente isso e mais nada além  disso, meu caro.
- Ah, quer dizer então que eu como, bebo, respiro, transo, posso te mandar à puta que pariu agora mesmo e,  mesmo assim,  eu não sou eu. Enquanto que você, sem corpo e sem vida, por trás da lente de um espelho é a minha pessoa...
- Eu pelo menos sou sua imagem. Você  nem isso, simplesmente é uma fantasia criada por você mesmo.
- Essa é boa! Vejo que você pretende me tirar do sério. Quer dizer que sequer uma imagem eu consigo ser, ou ter?
- Claro! Basta pensar. Daqui a um segundo você já terá outra imagem. Eu poderei ser sempre sua imagem atualizada, basta vir até a mim. Já você, ao sair daqui, pensará  que sua imagem ainda será a mesma de agora, esquecido de que esta já foi envelhecida pela passagem de mais um segundo.  E, assim por diante, uma sucessão de rostos se deteriorando até morrer.
- Peraí. E meu pensamento?
- Seu pensamento é uma soma de sensações que você teve,  imitou dos outros ou lhe impuseram, portanto, nada exclusivo seu.
- E meu relógio? Meus pais? Meus genes? Minha carteira de identidade?
- Não são seus. Você os tem apenas provisoriamente.
- Nada existe então de meu? De minha pessoa?
- Nada, você é pó, e ao pó retornarás, lembra? Já eu não. Hoje sou você, amanhã posso ser outro, mais outro. Pelo menos sou uma imagem. Valho mais que você.
- Miserável! Vou te matar criatura, seja lá quem você for.
- Vamos lá, pegue uma pedra atire em minha direção e me quebre. E assim perderá a oportunidade de continuar vendo  a ilusão que você é. O resto é memória. Quando fica.



José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas, cuja segunda edição
estará em breve nas livrarias