sábado, 13 de agosto de 2011

O PAI, O FILHO E O PRESENTE

artigo publicado hoje, sábado, no jornal
O estado do Maranhão, caderno Alternativo, seção
Hoje é dia de...


Nesta época, indefectivelmente,  aparecem na imprensa as mesmas manjadas listas de sugestões de presentes para os pais compostas de gravatas, computadores, camisas de time, etc. Haja criatividade para sair da rotina!
                   Esquecem que um bom presente depende fundamentalmente do pai em questão. Ora, embora tenham algumas características levemente semelhantes, como sexo, careca e barriga de cerveja, na verdade,  um pai nunca é igual ao outro, embora todos tenham uma notável identidade quando se trata de xingar  o motorista vizinho, no trânsito.
                   Para simplificar a questão e ajudar na escolha, poderíamos dividir o pai em três tipos.
                   O pai antigo (ou melhor, às antigas)   é aquele que ama tanto os filhos que não hesita em tê-los cada vez mais, de preferência com várias mães. Esquece da maioria deles com freqüência de forma que, lembra-lo disso, mesmo que seja  com um presente, não é exatamente aquilo que ele gostaria de receber. O pai moderno, por sua vez, gosta tanto de filhos que seu maior sonho é tornar-se um deles, fumando a mesma maconha, dançando o mesmo forró e batendo o mesmo carro.  Daí que não convêm, justamente nesse dia, xingá-lo de pai, sendo preferível, convida-lo para tomar umas e outras  chamando-o daquilo que ele já está acostumado: mano, cara, ou doidão.  
                   Já o pai ultra  moderno é aquele plenamente consciente do seu papel de mãe e dona-de-casa. Dotado de uma dose exagerada de amor paterno é capaz de fazer tudo pelos filhos, de preferência se estes não forem seus.
                   Suas possíveis reações.

                   1. Livros. Pode ficar certo de que o pai às antigas, pelo menos, fingirá que gosta. Você jamais o verá lendo uma única página do dito cujo,  seja de Paulo Coelho ou de Hemingway, mas, ele, certamente, ficará envaidecido com a lembrança. Gostaria de poder dizer-lhe,  na lata,  que teria preferido uma revista Playboy com a Malu Mader (que ele nunca conseguiu encontrar) mas tem plena consciência de que o entendimento perfeito entre pai e filho fica implícito na enorme lista de devedês pornôs compartilhados, de Gretchen a Rita Cadilaque.    
                   O pai moderno, mais pragmático,  lhe chamará de idiota se você cair na besteira de lhe trazer um  Chico Buarque ( com razão, aliás) . E berrará, para todo mundo ouvir,  que o único livro que leu - e gostou, foi o de Bruna Surfistinha. Claro que isso estará longe de abalar a formidável relação que vocês têm, já que chamar o outro de idiota é o tratamento preferido entre ambos.
                   Quanto ao pai ultra-moderno talvez preferisse O Diário de um banana, pensando que é sua autobiografia.

                   2. Musicais. Para agradar musicalmente um pai às antigas, um Nelson Gonçalves ou um Altemar Dutra serão muito bem recebidos. Mas você fará melhor se o convidar para inaugurá-los na Zona, em companhia de algumas “amigas”. O pai moderno, por sua vez,  ficará sensível à um Rolling Stone, ou a um Beatles mas, desconfiado de uma  potencial indireta,  correrá para o espelho a fim de checar se não sumiram definitivamente seus cinco e meio últimos fios de cabelo,  que preserva com precioso carinho há quinze anos.
                   Quanto ao ultra-moderno nem caia na besteira de lhe trazer uma Amy Whinehouse . Julgando-se o homem mais antenado da face da terra, portanto o mais alegre e otimista, considera  Amy muito triste e só vibra  de alegria quando ouve Ivete Sangalo ou Shakira. Pensando bem, é bom deixar esse negócio de musica de lado e dar-lhe um abadá do Marafolia. Seus olhos brilharão de alegria.   

                   3. Restaurante. Jamais gaste seu dinheiro oferecendo um almoço numa churrascaria para um pai às antigas. Ele não gosta de celebrações em família, justamente por não saber, exatamente, qual é a sua. Um pai moderno poderá gostar disso, em parte, desde que a sobremesa seja boa, entendendo-se como isso uma boa rodada de cocaína.  Quanto ao pai ultra-moderno, ele será capaz de aceitar  o convite com uma condição: desde que esteja presente o melhor amigo da família: o Souza. Que é colega de trabalho de sua querida esposa e que, por coincidência, desconfia que seja o verdadeiro pai do seu filho.  

                   Bem, embora esses tipos representem as espécies  fundamentais e mais corriqueiras de pai, entre elas ainda existe uma minoria de tipos: discretos, reservados, silenciosos  e que não fazem questão  de solenidades, confraternizações, e muito menos de alardear o amor de pai.   Para estes, quem sabe,  o filho  seja  o melhor presente?

                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

terça-feira, 9 de agosto de 2011

SANLUIZENSES

artigo publicado no jornal O estado do Maranhão, seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, sábado passado


Rumo aos quatrocentos anos, a bordo da estação Sanluizana, algumas reflexões vadias, mas nem tanto.  

                   1. Pronto! Acabaram de descobrir a solução para os buracos de rua, o trânsito congestionado e os semáforos que não funcionam: mais dez vereadores para a câmara municipal. Segundo informações, a custo, em breve,  de um milhão e meio de reais. Portanto, em matéria de idéias para resolver os problemas estruturais e crônicos de uma população tão carente, nada como as soluções geniais dos legisladores maranhenses. No âmbito estadual quando a coisa está ruim, criam-se municípios. Na capital, quando a coisa está pior, criam-se vereadores.

                   2. Deu na imprensa que a atual secretária do IPHAM está alertando sobre o iminente risco, para São Luis, de perda do título  de Patrimônio Cultural da Humanidade, caso não sejam feitas reformas urgentes no patrimônio arquitetônico da cidade. (Imagine se essa comissão de analistas soubesse que  os escritores da cidade têm de entrar na justiça para receber os prêmios que lhes são concedidos pelos órgãos oficiais da cidade, por ocasião dos concursos literários! E que seus advogados ainda têm a coragem de recorrer,  quando os juizes dão ganho de causa aos artistas em primeira instância.)  

                   3. E a ilha de São Luis, ao invés de apenas água, agora está cercada de pirataria por todos os lados. Segundo as manchetes dos jornais  40% da frota de táxis circulando na capital é pirata.  Outro dia, parei meu carro no centro e quase tomei um susto quando pessoas que eu nunca tinha visto mais gordas desejavam entrar no meu carro. Demorei a perceber que não se tratava de uma invasão de sem-terra, ou, melhor, de sem-carros,  mas de pessoas disputando uma condução , simplesmente achando, por hábito, que todo carro que parasse naquele local era um táxi-pirata. Expliquei-lhes que por enquanto não, mas ia começar a pensar seriamente na hipótese se as coisas piorarem. (Parece que, por aqui, para ganhar mais uns trocadinhos bastam um carro velho, gasolina e cara-de-pau.)   

                   4. E a excelente idéia de fazer da recuperação do antigo prédio do  edifício BEM o início da revitalização do centro da cidade, parou no décimo andar . Parou por quê? Por que parou?
                   No rumo contrário das decisões burocráticas oficiais que tomaram a triste decisão de fugiram do centro, foi muito reconfortante saber, na ocasião,  que o governo da capital optara pelo caminho acima, consciente de que essa debandada causava um grande mal à cidade. Só que o outrora majestoso edifício agora permanece parado no ar, escorado no passado como um pássaro ferido que tenta se levantar e não consegue. E pior, sem os belos murais de Antonio Almeida. Quer dizer então que o sacrifício da arte do saudoso e genial Antonio Almeida foi em vão?

                   5. Nada mais provinciana que a obsessão da “gente bonita” da capital (como dizem os colunistas) com a divulgação de suas viagens ao exterior. Esquecidos de que, com o fortalecimento do real, a globalização, e o cosmopolitismo das empresas, todo mundo hoje viaja para o exterior assim que lhe dá na telha ou quando sua empresa manda, os “bonitinhos” assim que põem o pé fora do Brasil, tratam logo de enviar para a imprensa fotos e textos, narrando suas aventuras pelo exterior como se fossem  desbravadores tardios e tivessem estado, ao invés de nas ruas de Paris ou Nova Iorque,  dentro de um foguete interplanetário, passeando em outro planeta. .
                   Tão jeca quanto essa é  a mania sanluizense, muito difundida  na imprensa, de - quando se pretende alguma melhoria na cidade - pleiteá-la em nome do turismo ou do turista. Ora, não é o cidadão sanluizense menor que o turista, nem deveria ser menos merecedor da atenção das autoridades por ter nascido aqui. O ambiente em que vive  (aeroporto, rodoviária, praias etc) deve ser melhorado, principalmente por causa dele, por seus direitos fundamentais como cidadão e não apenas por causa de quem chega aqui uma vez e vai embora.  Ou será que, por  ter sido tão maltratado ao longo dos anos, o conceito pessoal do cidadão sanluizense se degradou,  a ponto de se considerar em vão solicitar melhorias em seu nome?

                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

domingo, 31 de julho de 2011

FUTEBOL ABSURDÍSSIMO

texto publicado no jornal O estado do Maranhão,
sábado, seção Hoje é dia de...caderno Alternativo


O que é mais absurdo, quatro atacantes de uma seleção brasileira desperdiçarem todos os quatro pênaltis chutados numa decisão ou os governantes  estarem construindo,  para o Coríntians, um estádio de futebol, a custo de novecentos milhões? Ou a arrogância de Ricardo Teixeira e dos atuais técnicos de nosso futebol?
                   Vamos por partes.
                                     
1.       Em matéria de arrogância nada é mais sintomático que a última frase de Felipão, o boquirroto treinador, proclamando-se o único responsável pelas vitórias e derrotas de seu time, o Palmeiras. Como se ele fizesse gols - como Kleber, ou defendesse bolas - como Marcos.
                   Ora, se alguém quiser saber qual foi o técnico de futebol que conquistou mais títulos no futebol brasileiro quem saberia dizê-lo, de pronto? Apressadamente, a grande maioria dos torcedores se lembraria de Telê, Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho, etc. sem chegarem, nem de perto, a tangenciar a verdade. Pois respondo eu: o técnico que mais títulos ganhou  no futebol brasileiro chamava-se Lula.
                   “Quem? Lula? O cronista deve está confundindo alhos com bugalhos!”, deve estar pensando o leitor.  Nem alhos nem bugalhos. O técnico Lula, hoje completamente esquecido, foi o técnico  do Santos nos tempos áureos de Pelé, Coutinho e Pepe e ganhou tudo e mais que tudo. Venceu num tempo em que quem ganhava o jogo era o jogador de futebol e não o técnico,  e sua grande virtude - o que não era pouco  - se resumia àquela  da definição de Romário: “Bom técnico é aquele que não atrapalha.”
                   Virtude essa que nem passa pela cabeça dos atuais técnicos de futebol  cuja arrogância aumenta na mesma proporção em que são tratados como semideuses e ganham rios de dinheiro. Prepotentes como Mano Meneses, asquerosos como Luxemburgo, ou estúpidos  como Dunga, a arrogância dos mesmos só tem explicação como arma pessoal de defesa, para que os iludidos torcedores jamais  desconfiem da verdade óbvia que há por trás da supervalorização dos seus trabalhos.
                   Nenhum deles jamais ganhou sozinho jogo algum, nenhum deles tem valia para um time a ponto de prescindir dos craques. Tão auto-suficientes e enganadores são que, quando chegam a um time, quando contratados, a primeira coisa que pedem é a urgente contratação de bons jogadores. Se são contrariados,  fazem como  Muricy Ramalho que abandonou o Fluminense como um rato fujão e se mandou para o Santos, a fim de fazer história às custas de um  elenco de craques como Neymar, Ganso, Elano etc. Está se dando bem.

2.                 Na outra face do absurdo nada é mais impensável, insensato e inconseqüente do que a decisão tomada pela Prefeitura de São Paulo e do Governo Federal de , através do BNDES, doarem um estádio de futebol ao Coríntians,  sob a desculpa de moldar-se às imposições da FIFA. O argumento, tão débil, que não resiste à mera evocação de um estádio já pronto, o Morumbi, faz acreditar que no manuseio de “nosso” dinheiro  (não se esqueça de que você é que pagará por cada tijolo desse estádio )  a desfaçatez dos mandatários se socorre da apatia de um povo  que não percebe que, mais uma vez, estará sendo extorquido por oportunistas, ao som do oba-oba de uma Copa do Mundo.
                   Mais absurda que  a própria construção do estádio,  é a decisão de cede-lo a uma entidade privada. É o caso de se perguntar: se querem dar um estádio ao Coríntians, por que não ao Flamengo, ao Atlético Mineiro, ao  Boa da série B ou ao Asas de Arapiraca? Que diferenciação é essa? Fica claro que o que move os autores da façanha não é o compromisso com um projeto nacional e patriótico, mas  o de angariar votos entre os corintianos – caso de Gilberto Kassab – e, por tabela ( só Deus sabe o que está por trás disso...) renderem-se às estripulias ladinas já denunciadas pala imprensa,  de dois artífices em jogadas escusas: Andrés Sanchez o presidente do Coríntians e seu amigo de fé Ricardo Teixeira , o arrogante que (citado várias vezes  pela imprensa internacional como corrupto) se julga o dono do futebol brasileiro.
                   Em crônica recente da revista Veja dois especialistas britânicos desfazem o mito de que os gastos exorbitantes da promoção de uma Copa, terão contrapartida no retorno financeiro trazido pelos turistas.  Longe disso. Segundo eles o retorno de uma promoção de uma Copa do Mundo deixa como único respaldo a felicidade de um povo durante a realização da mesma. Felicidade? Ora, que restará de felicidade se o Brasil, por ironia do destino, perder a Copa?
                   Felicidade por felicidade (falsa ou não)  ela já existe todo ano, durante o Carnaval. Só que, desta vez, os elefantes brancos nos quais se transformarão os estádios de futebol, infelizmente, não serão apenas meros carros alegóricos percorrendo as avenidas.

                                                                                                                                                                                   ewerton.neto@hotmail.com

domingo, 24 de julho de 2011

O TELE-VIGENTE

Artigo publicado no jornal O estado do Maranhão,
caderno Alternativo, seção Hoje é dia de...

                                     ewerton.neto@hotmail.com





                            Descobriu-se no último recenseamento que uma nova raça denominada TELEVIGENTE é a maioria incontestável da população brasileira. Nem branca, nem preta, nem parda, nem mulata. Ao invés de cor de olhos, pele, ou outro atributo físico, uma única característica basta para diferenciá-la: não pode desgrudar da televisão ou da Internet.  Segundo temem os cientistas (ver entrevista na Veja) a memória dessa raça já exibe sintomas de incapacidade para atividades que exijam concentração e leitura: o que esperar deles para o futuro? 
                            Já que, pelo menos fisicamente é igual a todos, o televigente teria sentimentos? O que come, o que enxerga? Consegue perceber  a luz ao redor, o que pensa  a respeito do futuro, do sentido da vida? Essas perguntas são cruciais para os cientistas,
 Foi fácil entrevistar um deles, já que estão em todo lugar.
Nas churrascarias engolindo um pedaço de picanha ( pouco preocupados em sentir o sabor da carne, evidentemente) enquanto grudam os olhos na novela. Ou, ultimamente,  nos banheiros,  sentados no vaso, olhos na tela, tentando ler alguma asneira do twitter de algum ex-BBB, com um notebook no colo.
-         Como é seu nome?
-         Nome?
-         Seu nome... Você deve ter um nome.
                            -    Acho que é Maria. Maria-vai-com-as-outras, ou melhor Maria-vai-com o que-a- tevê-diz. Ou o facebook, ou o twitter.
-         Tem família?
                            - Devo ter. Se bem que às vezes confundo. De vez em quando passam algumas sombras pela casa a me chamarem de pai, irmão, filho, qualquer coisa dessas; outras vezes chega alguém em forma de esposa, que me pede dinheiro para comprar pão, de manhã cedo. Mas tem a Norma, o Beto, a Eunice. São personagens de novela, eu sei, mas eu passo tanto tempo com eles e pensando neles que acho que essa é a minha verdadeira família.
                            - Tem preferências musicais?
-         Depende.
-         Depende do quê?
-                    Depende da programação da tevê, depende do que a comunidade do facebook sugere. Se eles me disserem que hoje é dia do Gaviões [do forró]  eu gosto, se for dia da Calcinha [preta]  eu gosto, se me disserem que é dia do Luan Santana, ainda que o rapaz seja insuportável, mesmo assim eu gosto. Deu prá entender? Meu gosto varia conforme o humor – dos outros.  Isso tem uma vantagem, eu não preciso matar minha cabeça para ter gosto pessoal.
-          Por falar em gosto musical, por acaso já ouviu falar em clássicos?
                            - Como assim? Vasco e Flamengo? Ou Brasil e Paraguai? Ah, acho que claro que sim, estava com raiva daquela seleçãozinha, mas o Galvão Bueno e o Casagrande falaram que o Brasil jogou até bem, então mudei de idéia. Também nunca entendi porque o Coríntians vai ganhar um estádio, de graça, com o nosso dinheiro, mas já que jamais ouvi alguém da  tevê reclamar disso, achei melhor deixar pra lá. 
-         Você pensa?
-                    Acho que sim, um segundo ou dois por dia, que é o tempo que se leva para ligar a televisão, ou para passar de um canal para o outro, mas nem eu mesmo sei se isso é pensamento ou esquecimento. De qualquer forma, não sinto falta.
-         Livros?
-                    Aprecio muito, principalmente os de maior volume Servem para apoiar o lap-top antes de eu cochilar no terraço.
-         Gosta do seu país?
-                     Suponho que este seja o Brasil não? Deve ser  o que está do lado de fora da janela, na rua. É meio chato, mas ultimamente, tenho uma televisão em cada canto da casa, isso facilita suportá-lo.
-         E a vida?
-         Vida?
-         É aquilo que acontece vez por outra, enquanto você...
-         Não acredito nisso. Deve ser mentira, coisa de lunático. Não deve existir. Em que botão se liga? Vida teria de ser no mínimo colorida, com as cores da minha, digital de 44 polegadas.
-                    Você podia olhar de vez em quando para o mundo ao redor.
-                    Já tentei e desisti. Tudo é feio e triste. Parece um filme ruim em preto e branco.
-         E Deus?
-                    Se não existe vida fora da televisão, como pode existir Deus?. Para mim Deus é uma espécie de Galvão Bueno, Caco Barcelos, Pedro Bial, Suzana Vieira, ex-BBBs... tudo junto
-         Tem certeza?
-                    Absoluta. Se existisse Deus e consequentemente vida fora da televisão o Jornal Nacional já teria anunciado. Em edição extraordinária.

domingo, 17 de julho de 2011

O BE-A-BÁ DE BRASÍLIA E...

Artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal O estado do Maranhão


Fala-se muito em Brasília – e de Brasília – mas poucos a conhecem, de fato. Marcelo Torres, que é baiano, jornalista e radicado em Brasília irmão do consagrado escritor Antonio Torres, fez uma obra bem-humorada para suprir, um tanto, esse desconhecimento. Trata-se de o Be-a-bá de Brasília, da Thesaurus Editora, dicionário de coisas e palavras da capital federal.
            Foi pegando carona nesse livro,  com que me presenteou gentilmente, que começou  a história desta crônica que, espero, os estmulem a se deliciarem com  o livro.  Vamos ao Be-a-Bá de lá:  
BOLOLÔ. Confusão. Ex. “A reunião foi um bololô.” ( Portanto, lá em Brasília quando tudo não acaba em pizza, acaba em bolo-lô)
BOM DIA! Saudação muito pouco usada. De dez pessoas que entram num ônibus seis não dão bom dia. Dizem que o brasiliense espia pelo buraco da fechadura para não ter que dar bom dia ao vizinho. (O costume  deve ter começado com os poderosos. Como dar bom dia a um sujeito, cujas “virtudes” se conhece na intimidade?)  
BOROGODÓ. Atrativo masculino equivalente ao tchan baiano. É algo que deixa atraente um homem, quando não tem beleza física. (Alguém  duvida do que seja o  borogodó ? Borogodó em Brasília ou em qualquer lugar,  é aquilo que não faz ser bonito nem bom de cama, mas dá para pagar uma boa pensão alimentícia.)
BRASILITE. Hábito, mania ou jeito típico de Brasília. Inclui tantas reações positivas como negativas. (O primeiro cara que sofreu com isso foi JK. Tinha brasilite aguda precoce).
CADA UM NA SUA QUADRA. Em Brasília é cada um na sua quadra - ou entrequadra, ou superquadra.  (Já quem mora na periferia, para compensar que não morar em quadra,  é  en-quadrado. Pela polícia).
CAIXÃO. Ônibus. (No Maranhão o equivalente é buzu, mas o termo brasiliense é muito mais verdadeiro. Como se sabe, a única diferença entre um bom buzu e um caixão de defunto é que, no primeiro, a morte é coletiva).
BRASLONGE. Refere-se à Brasilândia, a cidade-satélite mais distante. (Não confundir com Brasíliadelonge, local onde trabalham muitos deputados e senadores que, embora lotados em Brasília dão expediente no Rio e São Paulo).
CAFUBIRA. Pessoa muito feia. (A mesma coisa que os colunistas puxa-sacos da capital - referindo-se a políticos buxudões e peruas encarquilhadas, chamam de “gente bonita” nas colunas sociais dos jornais)
COBRECHEQUE. Forma irreverente do   brasiliense   chamar o nome do seu fundador Kubitschek. (Talvez, porque este tenha deixado, por conta da fundação de Brasília, a nação por muito tempo com cheques a descoberto) .
COMIDAS TÍPICAS. Aos sábados, em Brasília come-se churrasco no clube; domingo acarajé na Torre de TV; segunda-feira farofa de ovo no restaurante do trabalho; terça,  pastel de cana na Rodoviária; quarta,  pão de queijo em todo lugar; quinta, arroz de pequi e sexta-feira, feijoada onde quer que você vá. (Ou seja, o único prato verdadeiramente típico dos poderosos de Brasília  é Povo à moda da Casa [não confundir com polvo] )
CONGRESSO NACIONAL. É o cartão postal, o retrato maior da cidade. Apesar da beleza estética, o Palácio do Congresso Nacional carrega simbologia negativa em razão do acúmulo dos escândalos. Uma das referências mais negativas circula há anos, na Internet: “Se gradear vira jardim zoológico; se murar vira presídio; se botar lona, vira circo. Se colocar luz vermelha vira puteiro; e se der descarga ninguém sobra.”
C.P.F  .  Na linguagem brasiliense dos corruptos ativos e passivos significa Comissão Por Fora, ou seja, propina, suborno, corrupção, ao contrário do C.P.F. usual.  (Outra diferença é que o C.P.F comum só tem oito números enquanto os de lá tem zeros que não acabam mais. É de se esperar que para o C.P.F. dessa turma [ como o do filho do ex-ministro dos Transportes que multiplicou o patrimônio de sua empresa de sessenta mil reais para sessenta milhões em dois anos] três letras seja muito pouco, precise do alfabeto inteiro).
JUSCELINOMYS CANDANGO. Rato típico de Brasília, descoberto na época da construção. O descobridor foi um biólogo mineiro que deparou no cerrado com um animal da família Cricetidae e, em homenagem a JK, assim o batizou. ( Bons tempos aqueles em que os únicos ratos que infestavam a cidade eram do tipo Juscelinomys Candango e não, como agora, ratazanas do tipo Alfredonomys Nascimento ou Robertonomys Arruda)  
JABURU. Nome do palácio onde moram o vice, Michel Temer e a vice-primeira-dama. (Obviamente, a bela Marcela Temer, vice-presidente,  deve ter sido bem recompensada pela sua coragem de nada Temer: mora num Jaburu e casou com um)
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

terça-feira, 12 de julho de 2011

SE VOCÊ QUER MAIS FAÇA MAIS

artigo publicado na Seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, Jornal O estado do Maranhão, sábado


                                                                                                                                                                                                                                                                                                     ewerton.neto@hotmail.com
                                                                                             


            O pessoal só pensa nisso! – foi o que pensei quando li pela primeira vez a frase “Se você quer mais faça mais!”, apontando para mim, num out-door. Ainda mais que Logo depois se seguiu outra: “Se eu fosse você eu faria”, ostentando, no fundo, a figura de uma simpática anciã. “Coitadinha”, pensei  “sente falta, mas já não tem idade para isso”. O que me levou, depois, a ponderar: por que razão tanta obsessão dessa gente com o sexo dos outros?
            Enganei-me, porém. Foi o que logo descobri  ao deparar com mais de vinte cartazes espalhados pela cidade. Tratava-se não de sexo, mas – pasmem! - de cursos de aperfeiçoamento. Como explicar, então, a origem de tão peremptórias frases? Seria, talvez,  mais uma fórmula sub-reptícia,  dessas costumeiramente usadas pelos especialistas da comunicação para chamar a atenção. Será?  Vá lá, mas bote  sub-reptícia nisso, pois nada consta que , exclusive o sexo, haja outra coisa que quando você quer mais tem de fazer mais. Ou não? Suponhamos, por exemplo, que eu, como todo mundo,  quisesse que os corruptos sumissem deste país. Isso quer dizer que eu deveria sumir também? Ou que deveria – já que o negócio é fazer – sair matando-os uma a um ?
            Definitivamente, nem sempre dá para entender tanta sabedoria moderna, refletida nos out-doors.  Eis algumas dessas pérolas filosóficas   colhidas ao longo das avenidas.
            “ Quem fica parado vira paisagem.”
Antigamente,  a sabedoria popular dizia  que quem ficava parado era poste. Portanto, se agora  o sujeito adquiriu o dom de transformar-se em paisagem, pelo simples fato de permanecer parado,  é sinal de que a coisa melhorou, e  muito. Vai ver que é essa a verdadeira intenção dos comunicadores:  induzir as pessoas a ficarem paradas na doce ilusão de que se transformarão numa bela paisagem. Já pensou que ganho de qualidade se ao invés de se mexerem tanto, virassem paisagens as bocas de Lula ou de Galvão Bueno?
            “ Namorar é fazer um pacto com a felicidade.”
Belo, belo! Fazer um pacto com a felicidade... Como soa bonito! Mas, como funcionaria isso? A única coisa que me vem a mente é que o potencial contratante teria de fazer  um acordo com a felicidade mais ou menos do tipo: “ Felicidade, se você não me aporrinhar muito com essa tua chatice de  aparecer fora de hora,  eu fico com  minha namorada ainda por muito tempo, caso contrário, eu...procuro outra, certo?”
            “ Morar bem é ficar a dois passo de tudo.”
Isso mesmo, “de tudo” entendeu bem? De tudo. Da vizinha cujo cachorro adora fazer cocô no seu pé, do flamenguista que no andar de cima faz um chororô em ritmo de pagode toda vez que seu time perde, do vigia  que dá em cima de sua mulher e, até mesmo...Da morte. Afinal de contas, quem quiser morrer é só se atirar da varanda  do apartamento que tiver comprado. Obviamente,   a apenas dois passos... “do paraíso”.
            “ O colégio que tem o seu DNA”
            Que diabos o meu DNA foi parar num colégio chamado Santa Teresa?( Se inda fosse  nos braços da santa, vá lá)
Certo, o meu DNA pode não valer tanta coisa assim , mas deu um trabalhão danado para um certo espermatozóide que teve de disputar corrida com outros 280 milhões de concorrentes , tudo isso para gerar um DNA capaz de modelar um sujeito com um mínimo de orgulho por poder reconhecer, mesmo tardiamente,  esforço tão insano quanto breve desse heróico primeiro amigo.  Sendo de verdade o que estão anunciando, pelo amor de Deus faça com que me devolvam o meu DNA, minha Santa Teresa!

sábado, 2 de julho de 2011

RUMOS DA PEDINTOLOGIA

Artigo publicado hoje, sábado no Jornal
O estado do Maranhão, seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo

José Ewerton Neto

                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com




                        Por muito tempo ser pedinte nunca foi profissão e, muito menos, a Pedintologia uma ciência. Mas, nestes tempos de pós-modernidade, profissões de todo tipo estão surgindo a cada instante, as mais curiosas e indecifráveis. Semana passada, a revista Veja anunciou mais de vinte, entre as quais as de cirurgião robótico e gerente de doenças crônicas (?).  Nada de surpreender que, segundo os jornais, o poder público de São Luis haja instituído, oficialmente,  a profissão de pedinte.
                   Imediatamente, os estudiosos e pesquisadores iniciaram o embrião do que se constitui a PEDINTOLOGIA. As bases dessa nova ciência se baseiam em um principio fundamental chamado, princípio de João Encostado ( ex-guardador de carro e hoje guardador da chave de sua própria Hilux, comprada à vista).
                   “ No Brasil para alguém se dar bem ou bem precisa roubar ou bem pedir.”
                   Como esse postulado nunca foi contestado na comunidade científica, logo surgiu o corolário.
                   “Todo brasileiro honesto que, por princípio, não sabe pedir ou roubar é completamente inviável neste país.”
                   Para não nos estendermos mais numa ciência tão extensa quanto complexa, eis um breve resumo das páginas iniciais do documento histórico.

1.                 Tudo começou quando o “futuro profissional” apareceu pedindo dinheiro, como qualquer mendigo, com a diferença de que fingia estar guardando carros. (Aliás, pedir dinheiro é a única coisa que ele faz, até hoje). Os veículos não eram tantos, de forma que ninguém duvidava de que se tratava de mendicância pura. Lembre-se que, nessa época,  o “futuro profissional”  agradecia pelo que recebia , não exigia nem xingava, a altos brados, como hoje.  
                   Durante muito tempo, a relação do benfeitor para com o pedinte, era na base da incredulidade e desconfiança, por não conceber que um sujeito novo, e com saúde, não procurasse aprender um ofício digno, para ganhar seu dinheiro trabalhando de verdade. O certo é que, com o dinheiro fácil e o progressivo aumento do número de carros os  flanelinhas proliferaram mais do que botox em rosto de perua, ou de remédio para emagrecer em farmácia de rico.
Foi então que os políticos  resolveram entrar na história, sempre de olho nos milhares de votos dos pedintes, baseado no postulado de Zé da Vaga ( ex- guardador de carro e futuro  candidato a vereador ) :
“Mais vale um  voto na mão,  que dois ociosos trabalhando” postulado cujo complemento científico é concludente: “ Desde que seja outro quem pague.”

2.                 E foi assim que pedinte virou profissão e a iniciativa maranhense veio coroar uma combinação salutar para as duas partes.  Os governantes insinuam praticar um reparo social, os guardadores fingem que trabalham, e os contribuintes pagam a conta. O papel de bobo fica para o cidadão, tendo que aceitar um serviço, supostamente de segurança, que em qualquer outro lugar do mundo é exercido pela polícia - já que, para isso, o cidadão  paga tanto imposto.
                   O futuro da profissão já ultrapassou as expectativas de outras profissões mais desprezadas hoje em dia  como professores, pedreiros, marceneiros , encanadores etc já que as vantagens, para as partes envolvidas ( os “novos profissionais” e os administradores ) , são óbvias.  Eis algumas:
                   2.1. Vencimento. O pobre do  contribuinte é que  paga
2.2 Farda de trabalho. Não precisa, basta uma flanela suja.
2.3 Estudo. Aprende-se rapidamente. Uma das lições: “mulher paga mais caro, porque morre de medo”.
2.4 Escola. Não precisa bancos de escola, aprende-se nos bancos das praças.
2.5 Contrato de trabalho. De preferência, vocal: “Se você não me der mais de um realzinho, eu furo o pneu do teu carro!”. Com variações.

3.                 Quanto ao futuro da PEDINTOLOGIA ninguém tem dúvidas de que muitos estudos surgirão para abarcar toda a gama de implicações dessa nova realidade que surge. Como se sabe, neste país hoje todos pedem alguma coisa: corrupto pede voto e depois um habeas-corpus; prostituta pede para ir pro BBB e depois para trabalhar na Globo; gay pede para casar; perua pede um gigolô; periguete pede um velho rico  e criança pede para o pai não encher o saco.  As conseqüências são múltiplas, afinal de contas, o segundo princípio fundamental da Pedintologia tem base religiosa: “Pedir é melhor que roubar”. Cujo corolário, ainda do sábio Zé da Vaga acima citado, é profundo e definitivo.
                   “... Mas num país em que se rouba mais ainda do que se pede, todo pedido é quase roubo.”
                    

terça-feira, 28 de junho de 2011

SÓ MAIS UMA SAIDEIRA

artigo publicado no jornal

O estado do Maranhão, Seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo







Todo bêbado, aparentemente, sabe o que é uma saideira. Pelo menos, enquanto ainda está tomando a primeira delas. É óbvio que depois desta vem uma outra, mais outra, enfim dezenas... Apenas raia sanguínea e fresca a madrugada, como diria o poeta.
Nesses tempos de São João de poucos arraiais e muitos cornos; de poucos bois vivos, mas de muito boi morto (no espeto), a preço turístico, é mister tomar uma saideira, quando mais não seja até para prolongar a ilusão de que ainda se vê o mesmo São João de outrora.
Mas, o que é mesmo a saideira? Nada como recorrer às grandes definições científicas.

Definição Matemática: “A SAIDEIRA é a dízima periódica da Beberologia”

Química: “ A SAIDEIRA é o único líquido com teor de álcool – ainda - superior ao do bêbado.”

Biológica: “ A SAIDEIRA é a única tentativa evolutiva bem-sucedida do homem eternizar-se ( em cima de um copo). Enquanto não chega ao cemitério: sua saideira definitiva.”

Psicológica: “ A SAIDEIRA começa sendo a tentativa de satisfazer o ego, e termina sendo a tentativa desesperada de descobrir onde ele se meteu.”

Zoológica; “ A SAIDEIRA foi a maneira mais fácil que os homens encontraram para suas mulheres descobrirem o animal que se esconde dentro de cada um.”

Literária: “A SAIDEIRA é um combate, que os fracos abate, aos fortes, aos bravos, só pode exaltar”, de um bêbado recitando Gonçalves Dias, ou de G. Dias, bêbado.

Religiosa: “É um ato derradeiro de fé e esperança em encontrar um caminho de salvação, que não seja o de casa.”

Histórica: “É a declaração de Independência que, parecida com a do Brasil, começa com um fico (na mesa de bar) e termina com um saio (de casa).”

Médica: “É a diarréia do álcool, antecedendo a do alcoólatra.”

Estatística: “É um evento cuja probabilidade de se repetir é diretamente proporcional à promessa de nunca mais acontecer.”

Geográfica: “É uma ilha de copos e garrafas, cercada de idiotas por todos os lados.”

Econômica: “É a única inflação que não é paga a juros econômicos, nem reais, mas incalculáveis: JURO QUE NÃO BEBO MAIS.










segunda-feira, 20 de junho de 2011

O FIM DO ARRAIAL DO RENASCENÇA E...

artigo publicado na sessão Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, O estado do maranhão, sábado


O Arraial, que acabou, foi o do Renascença e, seu fim, não deixa de turvar a alegria pela chegada dos festejos de São João em São Luis. Mas, comecemos pelos E...

...E o terrorista está solto.
Cesare Battisti é o nome dele. É italiano, bandido, assassino e terrorista. Deixou quatro filhos órfãos, um dos quais paralítico, depois de assistir à morte cruel do pai. Estivesse em seu país, onde os bandidos pagam por seus crimes, já teria ido para a cadeia, depois de submetido a julgamento.
“ Mas no Brasil é diferente!” devem ter lhe soltado a pérola. E ele correu para cá. Devem ter lhe dito, entre outras coisas, que este é um país de bandidos para bandidos, como disse um grande historiador.
Dito e feito. O “magnânimo” ex-presidente Lula, antes de sair do Palácio da Alvorada, não esqueceu de, no último ato de seu governo, libertar o assassino. “Para não dar trabalho a Dilma”, disse ele, preferindo dar trabalho “à Consciência Nacional” - se é que isso existe.
O Superior Tribunal referendou seu ato, indicando que eles – os que decidem - devem ter pensando à vista de ministros que enriquecem da noite para o dia, Mensalão e Satiagrahas: “Um a mais não vai fazer diferença!”

...E depois do trem-bala do Vasco, o trem- dos- Municípios.
Pois é, lá vem o trem dos municípios. Completamente descarrilado, com quase 150. ( Dizem que logo depois virá o trem dos Maranhão(s): Maranhão do Sul, do Norte, do Leste, do Centro-Oeste, de cima e de baixo).
Bons tempos aqueles, nos idos dos anos setenta, em que se dizia no semanário carioca o Pasquim que cada vinte e quatro maranhenses, dois livros e uma folha de papel equivaliam a uma Academia de Letras.
Agora é diferente. No Maranhão atual, cada rua com três casas, uma Frontier (do futuro prefeito) e um quebra-molas, equivale a um município.

...E da Pesca aos Tubarões.
A ministra Ideli Salvatti, que era do Ministério da Pesca, foi pescada para ser guardiã dos interesses políticos do Governo. A presidenta deve ter concluído que a amiga deve estar bem preparada para isso, se aprendeu a lidar com tubarões.
Já o outro, o das Relações Institucionais foi convidado a tomar uma canoa e escolher entre encalhar num gabinete obscuro ou se afogar no rio do Ostracismo.
O pior é que o coitado nem leva no nome a única grande virtude de Ideli: “Salva-tti a ti mesmo!”

...E o Arraial agonizou e morreu.
Ao invés da morte do boi a morte do arraial. Quando regressei a São Luis descobri que o bairro do Renascença além de muitas vantagens, tinha uma outra: um arraial particular e único.Todas as brincadeiras peculiares ao período de São João e mais um ambiente familiar e muito próprio para crianças se divertirem sem se atropelarem com as multidões de adultos, cujo propósito, está longe de ser apenas o de apenas se deleitarem com o espírito do São João; com o que ele pode propiciar à imaginação em matéria do lúdico e da fantasia.
Acabou. Foi substituído pelo gigantismo dos demais, pelo espetaculoso, pelo carnavalesco. Onde o bonito não são as danças, o espírito junino e as músicas da terra mas o strip-tease moças e de pseudo-dançarinos, eternos candidatos a BBBs , exibindo corpos sarados por trás de uma expressão mongolóide e uma dança canhestra. Ouvi falar que o arraial do Renascença, de porte médio, foi preterido pelas entidades oficiais em favor daqueles onde a grande atração não são os folguedos, mas as multidões se multiplicando, para gáudio de gente se amontoando sobre gente.
A morte de um arraial é a morte do boi sem um final feliz, quando anuncia o que está se tornando uma praga: mais um carnaval fora de época. Desta vez em Junho.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

PARA QUE SERVE UM NAMORADO

artigo publicado no jornal O Estado do Maranhão,
seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo, sábado



PARA QUE SERVE UM NAMORADO



ewerton.neto@hotmail.com




Quando perguntada sobre porque preferiu ficar solteira, uma famosa atriz norte-americana respondeu que a razão era muito simples: tinha três animais em casa que faziam tudo o que um homem faz e muito melhor: “um papagaio que só falava palavrão, um cachorro que só vivia latindo e um gato que só chegava em casa de madrugada”.
Ironias à parte, causa estranheza que, diante de suas mais recentes conquistas, as mulheres continuem tão carentes da ostentação de um namorado, e estabeleçam disputas veladas entre si, desfavoráveis para aquelas que não os possuem. Recente matéria neste jornal chega a ponto de sugerir conselhos para aquelas que estão solteiras como se ficar sozinha no Dia dos Namorados fosse um suplício pior do que o de namorar parceiros tão chatos e execráveis como Suzana Vieira - no caso deles, ou Dado Dolabela - no caso delas.
Ainda bem , para nós homens, que elas nunca se deram ao trabalho de perguntar para que serve, afinal de contas, um namorado?

1. Durante muito tempo, um namorado teve alguma utilidade para uma dama. A principal era como protetor, já que, nessa época, era essencial se juntar aos mais fortes. Afinal de contas, eram eles que, espertamente, ficavam com as armas. Crédulas, elas acreditavam até nas histórias de capa e espada – que eles mesmos inventavam – onde um valente e idealizado guerreiro era capaz de batalhar mundos e fundos por amor à sua donzela. (No fundo, eles podiam batalhar mundos, mas estavam mais preocupados era mesmo com o “fundo” delas).
Só depois da proteção vinham o sexo, o amor e a procriação. Lembremos que, nessa época, um namorado era a única alternativa possível já que não havia vibradores, concepção em laboratório e cenas de sexo explícito nas novelas e no BBBrasil. (Nem lesbianismo aplaudido, nem transexuais, nem drags, nem as mais de cinqüenta variações sexuais que hoje existem por aí). O único vibrador que elas conheciam, era o clitóris, mas nele não podiam mexer sob pena de apanhar dos próprios namorados que faziam questão de ignorar esse dispositivo tão natural ( Aliás, até hoje elas se queixam que não são tantos assim aqueles que o conhecem).
Assim, elas se diziam prontas para o amor embora não soubessem exatamente o que significava isso. O namorado, muito menos, mas todos faziam de conta que sim até que chegava o casamento quando a mulher, tão solidária quando sonhadora, tão romântica quanto dedicada, mas, principalmente, com medo de apanhar dizia para aquele que um dia foi seu namorado: “ Senhor, estou pronta para o amor, pode servir-se à vontade” O amor, portanto, durante séculos nunca passou disso e até hoje não se entende como ainda tenha tanta fama neste século. Deve ser por causa das músicas sertanejas.
O desenvolvimento tecnológico trouxe novas “luzes” para a relação amorosa e uma nova vantagem em ter namorado: alguém para trocar lâmpadas. Como todo mundo sabe as mulheres sempre foram inábeis para isso, já que em matéria de luz elas eram mais especialistas em dar à luz do que em acendê-las.. Além disso, por terem estatura mais baixa que os homens, não tinham acesso a lâmpadas, telhados e sótãos ( onde os maridos escondiam os presentinhos das amantes) etc . Hoje, mesmo essa vantagem acabou já que as mulheres cresceram e estão quase da mesma altura dos homens. Tanto subiram que já existe mulher até na presidência da república. Sem namorado, diga-se de passagem.

2. Restou, ao fim, a única e derradeira vantagem: como objeto de ostentação. Um namorado hoje não passa disso, para a nova mulher, a Lady Gaga do século XXI: um adorno como qualquer outro, com a desvantagem comparativa em relação a uma fitinha do senhor do Bonfim – por exemplo - que da fitinha se espera um milagre, enquanto que, de um namorado, sabe-se de antemão que jamais vai sair nada. As poucas que se iludiram um dia acreditando que um namorado servia, também, para leva-las a show de forró já desistiram de acreditar nisso: quando elas conseguem suportar o show é difícil suportar o namorado, e vice-versa
Sem contar último e definitivo risco: o de que, contrariamente a todas as previsões, um dia ele possa se tornar um marido. Nada como um marido do lado, no futuro, para mostrar o quanto pode sair tão trágica essa história de contar vantagem, no dia dos namorados, por estar ao lado de um.

domingo, 5 de junho de 2011

A ULTIMA DO BOM PORTUGUES

Artigo publicado na seção Hoje é dia de...

O Estado do Maranhão, sábado

A ÚLTIMA DO BOM PORTUGUÊS

José Ewerton Neto

ewerton.neto@hotmail.com

Lembram daquela do português? A de que houve um dia um “melhor português do Brasil” e era, justamente, falado no Maranhão? Pois é, está virando piada. Primeiro, porque ninguém está nem aí para essa tal de tradição histórica de falar bem e, segundo, porque, como querem os gramáticos do Ministério da Educação, sequer se precisa mais falar um bom português.

Tudo já foi dito sobre essa discussão, portanto “lá vem a lua saindo, redonda como um botão, se ela virar coalhada nóis come”, como dizia o caboclo. Melhor negócio é sair atrás desse português que, a muito custo descobri, cansado, depauperado e, algo revoltado, em um cantinho qualquer da Praia Grande.

- Ainda estás em São Luis, bom português?

- Aos trancos e barrancos.

- Mais trancos ou mais barrancos?

- Tantos trancos que nem ligo mais para os barrancos. Por exemplo, o de você me chamar de bom português, quando fui, indiscutivelmente e durante muito tempo, o melhor português do Brasil.

- Oh, desculpe. Mas os trancos têm vindo da parte de quem?

- Ora, de quem deveria zelar por mim, dos órgãos oficiais, dos planos culturais, das escolas, dos próprios professores que se recusam a admitir que eu ainda existo, que fui parte do que se chamou Atenas Brasileira, enfim que ainda estou aqui.

- Você se queixa, então que a nova geração não o conhece?

- Não só não me conhece, como está completamente indiferente a mim. Em matéria de português eles prestam muito mais atenção ao português - pra lá de chato! - da tevê, que anda comendo uma atriz da outra, nas novelas e fora delas.

- Ouvi dizer que você está a ponto de desistir de tudo e ir embora.

- Ir embora? Como, se não tenho alternativa? Outrora, era bem recebido em toda parte. Toda vez que um maranhense visitava outro estado, as pessoas de lá diziam logo: “Já ouvi falar em tua terra. É lá que mora o melhor português do Brasil.” Hoje é mais fácil que perguntem: “ Maranhão? Não é a Jamaica Brasileira”?

- Isso sugere que não te adaptaste aos novos tempos.

- Recuso-me a isso. Se adaptar significa falar as besteiras que falam Faustão, Luciana Gimenez e o ex-presidente Lula, estou fora. O idioma deles eu não consigo entender. Aliás, dá para acreditar no que estão tentando fazer?

( Desde o início da entrevista evitava tocar no assunto para não entristece-lo, mas, agora, não havia outro jeito)

- Sei, existe uma turma de idiotas que está propondo que se ensine o português errado nas escolas.

- Ouvi falar disso, claro, mas essas coisas não me entristecem mais. Faz muito tempo que a televisão é a melhor cartilha do mundo para ensinar besteira e sacanagem para crianças e ninguém jamais se importou com isso. Estava falando de coisa muito pior.

- Pior?

- Sim, pior é o que estão tentando fazer no quarto centenário desta nossa cidade Segundo ouvi falar contrataram uma escola de samba do Rio e nela vai ter lugar (ala) para tudo: para bumba-boi, para tambor de crioula, para Alcione, para o Beco da Bosta e até para reggae, só não vai ter lugar para lembrarem de mim: aquele que foi durante muito tempo o melhor português do Brasil.

(Temi pelo pior, ao perceber sua tristeza. Evitei lembrar que ele, de fato, talvez já nem existisse, era quase uma sombra, apenas uma lembrança)

- Talvez reconsiderem isso, Melhor Português. Não fique assim, tenha esperança!

- Sei o que estás pensando, amigo, mas... Não se preocupe, não corro o menor risco de morrer na sua frente de depressão, infarto, ou apoplexia. Sinto-me resignado e calmo, embora sem vontade de viver e resistir. Eu não saberia continuar a viver num país em que as pessoas fazem questão de não serem mais burras, não só porque o dia tem apenas vinte e quatro horas, mas, agora também, porque o alfabeto só tem 23 letras.