quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A HISTÓRIA DAS CALCINHAS








Artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão.


A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CALCINHA ( II )

            Segue, abaixo, a prometida segunda parte de A verdadeira história da calcinha, aqui publicada duas semanas atrás. Lembremos que essa primeira parte trata dessa genial invenção humana,  desde os primórdios até a chegada do século XIX:

            1.Ao longo do século XIX novos tipos de tecido foram criados, com  formas cada vez menores e ousadas buscando gradativamente a combinação  entre sensualidade e conforto, mas essas transformações só vieram pra valer mesmo a partir da metade do século passado quando uma série de conquistas de liberdade de expressão e corpo começaram  a ganhar espaço a partir dos Estados Unidos. Se no século XIX as mulheres usavam ceroulas que iam até abaixo dos joelhos, o surgimento da lycra e do náilon possibilitou uma série de inovações, o  que permitiu chegar até a um curioso modelo nos anos 90: uma calcinha com bumbum falso, com um enchimento de espuma de nylon de vários tamanhos e modelagens. Adivinhem de onde veio a ideia?


                                              



            Acertaram os que votaram no país do mundo mais especializado  em bumbum (e infelizmente no que sai dele) : o Brasil,  que até então ainda não ganhara oficialmente a copa - do bumbum - mas já caminhava para isso.

            2. A primeira guerra mundial provocou uma revolução no comportamento feminino já que as mulheres passaram a ocupar funções de maior importância na sociedade e de maior liberdade de movimentos. Ou seja, enquanto os maridos se comprimiam nas trincheiras protegendo-se do inimigo suas mulheres espaçavam-se em busca dos ‘amigos’ e haja calcinha querendo ser menor e mais aderente ao corpo. Os seios também adquiriam vontade própria e pediam praticidade e... Olhares. Assim, a partir de 1914 o sutiã foi devidamente reconhecido na América industrial quando foi patenteado pela  socialite nova-iorquina Mary Phelps Jacob. A primeira peça fabricada por ela era feita com dois lenços, um pedaço de fita cor-de-rosa e um pouco de cordão, fazendo com que, diante da incrível novidade, os pedidos proliferassem. Logo a seguir, a fábrica de roupas femininas Warner Brothers Corset Company, comprou a patente mostrando que as patentes pulavam de mão em mão tão depressa quanto os seios.
            Era o inicio da industrialização da lingerie. A partir daí as calcinhas da época passaram a inovar até chegar a um acessório  sensual muito usado na década de 20, a charmosa cinta-liga, imediatamente chamada (do ponto de vista masculino) de sinta-a-liga. O cinema e as casas de espetáculo cuidaram de espalhar, pelo imaginário masculino, o modelo das dançarinas de Charleston que exibiam suas cintas-ligas por baixo das saias de franjas, enquanto se sacudiam ao som frenético de jazz-bands.


                                               




            Veio a recessão e a indústria americana tratou de encontrar uma alternativa mais resistente e barata, quando em 1938 a Du Pont criou o nylon, mudando de vez a história da lingerie. Adeus rendas e bordados! Mas não foi só a matéria-prima que mudou, as mulheres também. A feminilidade passou a ser explorada pela mídia e os anos 50 podem ser considerados fundamentais para a revolução das calcinhas, exibidas no cinema. (Se hoje tem marmanjo que se baba diante do que contêm as calcinhas de Valeska Popozuda ou de Gisele Bundchen imagine o que seriam capazes de fazer, anos atrás, diante das calcinhas de  Sofia Loren ou Marylin Monroe!). Era de fazer qualquer adolescente, futuro cronista ou não, não arredar o pé do cinema para assistir Boccaccio 70 com a mulher mais linda e sensual de todos os tempos (Sofia). Independente do cinema, não raras vezes sempre se dava um jeito para que a peça pudesse ser vista mesmo por debaixo de tantas saias e anáguas. Nos colégios, a cor da calcinha da professora (quando valia a pena) estava mais na ponta da língua dos alunos do que quem descobriu o Brasil. Até chegar aos anos 70.



                                          




            3. No fim da década de 60, o movimento feminista por igualdade de direitos ganhou as ruas. Acabara-se definitivamente a ditadura do recato e do erotismo e o padrão da geração “paz e amor” enaltecia os seios pequenos. As mais radicais até queimavam os sutiãs em público numa demonstração de liberdade. Aliás, bons tempos esses em que para se protestar queimavam-se  sutiãs ao invés de ônibus!

            O comprimento das saias subia pelas coxas das mulheres mais depressa do que o dedão do Ricardão até se transformarem em mini, pelas mãos da estilista Mary Quant, Subia, subia, enquanto inúmeras variações de peças íntimas surgiam e se consolidavam. Transparências, rendas, tecidos mais finos, tangas – não havia mais limites para a moda e a imaginação das estilistas, até que as mulheres resolveram dar um basta nesse sobe-mas-nunca-chega quando, depois de abolir os sutiãs, dispensaram de vez as calcinhas, aparentemente buscando... conforto. Uma imensa geração afirmava já em 1980 que nada usavam por baixo da camiseta ou de seus jeans.



                                           




            4.O desprezo às calcinhas, felizmente, durou pouco.  As mulheres não demoraram a perceber que tanto a calcinha quanto o sutiã eram fundamentais para manter os seios e a sensualidade e logo concluíram que radicalizaram demais ao investir contra as duas peças como sinônimo da opressão. Hoje, a lingerie atual possui duas vertentes, uma mais elaborada adotada para ser vista e feita em tons variados, dos clássicos preto e branco ao rosa, verde água ao azul-claro. A outra, predominando o branco e o preto, é essencialmente básica, com modelos sem costura, feita em tecidos elásticos que não retêm a umidade e são, sobretudo,  “respirantes”.



                               




            Ou seja, independente de qual seja a vertente da fabricação o essencial na busca da perfeição é que o único elemento a ficar sem respiração continue a ser, cada vez mais,  o homem.
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sábado, 5 de dezembro de 2015

CLUBE DAS CHIFRADORAS DO MARANHÃO




MAIS 7 MIL BOIS SAEM DE SÃO LUIS, VIA
PORTO DO ITAQUI, RUMO A VENEZUELA
.
SEMANA PASSADA JÁ FORAM 15 mil.





                                              





Frases mais ouvidas no

CLUBE DAS CHIFRADORAS  DE SÃO LUIS


1."“Uma pena que o resto chifrudos que permaneceram na ilha não sejam enviados para a China”.


2." Pelo visto vão acabar com o nosso clube. Pelo andar da carruagem não vai ficar um na ilha."


resposta da colega:





                                                





"Duvido!".


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

NAURO MACHADO, POETA





artigo publicado hoje, quinta-feira no jornal
o Estado do Maranhão

NAURO POETA, POETA  NAURO
Jose Ewerton Neto, autor de O Oficio de matar  suicidas

                Morto Nauro Machado, as declarações em louvor à sua memória não se demoraram em exaltações à sua  obra poética, pois esta, já consolidada e sabida, disso não precisava. Com notável frequência aqui e ali, se preferiu destacar alguns aspectos singulares de sua trajetória de vida, como escritor e, principalmente, como personagem de si mesmo, com toda a refulgente abrangência que, no seu caso, isso lhe propiciou.  
            De todas as excepcionais virtudes de seu talento múltiplo (era também ensaísta e cronista) nenhuma terá se estratificado mais no horizonte da imortalidade do que a de ter sido um poeta na verdadeira acepção da palavra (perdoem-me o clichê ) como hoje em dia já não há. Um autodidata que desde cedo, na juventude, incorporou e escolheu como objetivo maior de sua vida a dedicação ao exercício da poesia em sua totalidade e sem concessões. “A danação divina”,  “a maldição benfazeja”, “ o veneno da tristeza na alegria ou vice-versa”, enfim todas essas imposições que fazem parte do labor cotidiano de quem dedica sua vida a tanger os píncaros da glória, sabendo-se no entanto, torturantemente preso ás amarras de sua sina: essa dedicação solitária do escritor a um ofício que é duro, mas como dura! , como ele muito bem soube destacar em versos  de quem vivia  e sabia do que estava falando.
            E que poucas vezes teve sua tradução artística expressa de forma tão escancarada e sublime como no filme Infernos, de Frederico Machado, seu filho,  quando este conseguiu, com raro talento,  captar todo esse formidável compromisso de um artista (seu pai) para com sua vocação.




                                                    






 Ali estão o poeta andarilho, os livros que amava,  a febril intensidade de sua vocação, a pulsação de seus versos em sua voz, o desapego  às formalidades e às convenções quando em busca de sua liberdade poética,  e a fotografia da incorporação das ruas e luzes da cidade como personagem dessa sua cruzada de forma tal que, em contrapartida acabou se tornando, ele mesmo,  personagem de sua cidade, como destacaram alguns.  Nauro Machado foi magnificamente feito ator de si mesmo nesse   curta metragem tão premiado, evocando em seu roteiro, mesmo sem citação,  os famosos versos de Fernando Pessoa : “O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.” Quem o sucederá?
            Conversávamos, eu e alguns amigos escritores,  sobre essa impossibilidade. Uma plêiade de notáveis poetas continua, graças a Deus, a ritmar a pulsação do coração poético da ilha de forma que, quer queiram quer não, quer insistam em desfigura-la ou não,  esta jamais se dissociará de seu destino de ser a Atenas Brasileira . No entanto,  o formato de alguém transformado em sinônimo da poesia  a ser apontado nas ruas por mendigos, desvalidos, boêmios, intelectuais, ou simplesmente fantasmas do cotidiano, que apontavam a Nauro Machado como se aponta a alguém de quem se percebe a aura de uma significância impalpável , já não existirá mais.



                                                        


                                



            Pois os tempos modernos são plenos de velocidade, instabilidade, fragmentação e disputa pela sobrevivência e de espaço nas ruas e nas redes sociais. A poesia continuará jorrando  nos intervalos dessa azáfama, mas não se espera que se aproprie e se concentre  em determinados indivíduos  motivados a fazer mais que de suas vidas poesia (como fez Rimbaud, por exemplo,  em certa fase de sua existência)  da poesia suas vidas. Como fez Nauro Machado, poeta.
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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A FILA ANDA





Artigo publicado hoje, quinta, no jornal
o Estado do Maranhão


Tudo começou quando o pequeno Abel, o filho de Adão e Eva, aproximou-se dos pais para ver aquilo que os dois estavam fazendo. Claro, os dois estavam tão concentrados (ou enlevados, ou seduzidos, ou distraídos) que não atentaram para a curiosidade do menino e, pronto, estava formada a primeira fila humana da qual se tem notícia.




                                              





            De lá para cá as filas tomaram conta de tudo – e de todos. Uma revista científica, este mês, lamenta que em pleno século XXI os homens não tenham inventado para organizarem-se algo melhor do que filas, o que não é de estranhar. Até hoje os humanos ainda não inventaram um equipamento de proteção contra a chuva melhor do que o guarda-chuva ou algo para puxar saco de alguém melhor do que reuniões que, no final das contas, não passam de filas de babacas,  em torno de uma mesa e  um chefe. O certo é que, por costume ou sei lá o quê, de tanto conviverem com as filas, os homens adotaram cada vez mais as mesmas. Brasileiros, em especial.

            Brasileiro adora uma fila! Vive  reclamando , mas adora. Senão, como explicar que se sujeitem a permanecer horas e horas numa fila de loteria, sabendo de antemão que suas chances de ganhar são tão intensamente miseráveis quanto grandiosas são suas chances de estar fazendo papel de idiota para um Governo que lhe explora? Brasileiro gosta tanto de fila, que de algum tempo para cá passou a responder a quem lhe pergunta como vai usando a expressão “A fila anda!”, querendo dar a entender que as coisas estão mudando para melhor.

            Vai gostar de fila assim, na fila do inferno!, 




                                                    






disse-me  um dia  um matemático amigo meu , que , a essas alturas , deve estar enfileirado numa fila de psicopatas. Foi ele que, outro dia, para confirmar a sua teoria da predileção do brasileiro por filas, postou-se em pleno sol de meio dia, no meio da praça Deodoro, olhando fixamente para o sol, com os óculos escuros. Imediatamente, acercou-se alguém para perguntar o que ele estava observando. “Uma fila de sombras querendo entrar no sol”, respondeu, adiantando que aquele seu lugar era o único propício para observar isso.  Quando seus olhos se cansaram, afinal, olhando desta vez para trás, o que viu lhe confirmou a pesquisa: havia mais de cem pessoas querendo desfrutar da mesma informação. Quando se afastou, desnecessário dizer da expressão de agradecimento e vitória daquele que ocupou o seu lugar.

            “O brasileiro só se sente bem se estiver numa fila”, completa. E estas bem que proliferam ao gosto do freguês: fila para deixar criança em colégio; fila de guardador de carro para guardar seu carro; fila de jogo de futebol, fila de bolsa família e fila do ENEM. Evoluíram, aprimoraram-se e tornaram-se pós-modernas. Entre as mais recentes; de filas  de motos nos estacionamentos a filas de motoqueiros estendidos no asfalto;  De filas de bois despachados do Porto do Itaqui a filas de chifrudos que permaneceram na ilha, etc. etc

            Finalizando a sua robusta pesquisa o estudioso amigo meu conseguiu destacar as 3 leis fundamentais da ‘sua’ Teoria das Filas:

            1.A única fila em que pobre chega na frente é de espermatozoide. (Mas ao chegar, já entra na fila dos arrependidos.)




                                                 





            2.O direito das filas geralmente obedece a lei domais forte. Ou do mais rico, ou da mais boazuda.

            3.Nenhum ser humano se livrará da fila. Nem que seja a do seu enterro.
            Até mesmo porque, aí mesmo é que  a fila anda.




                                                





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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

QUE SERÁ DO BRASIL, SEM A PLAYBOY?





Desta vez é definitivo: A  Playboy brasileira deixará de circular. Preocupada com mais essa má notícia Dilma Roussef chamou seus ministros para enfileirar lhes a seguinte lista de preocupações:

            1.Como ficará a situação das milhares de EX_BBBs do sexo feminino que ficarão desempregados?




                                               





            2.Como ficarão os fornecedores de botox, demais preenchimentos, peelings, tratamentos estéticos, etc. etc. agora que as peruas encarquilhadas da Globo ( tipo Maitê Proença, Claudia Raia, Suzana Vieira etc. não mais precisarão desses produtos para posar para a Play?




                                                





            3.Como serão evacuados agora os mananciais de esperma de coroas e criancinhas, masculinas que através de punhetas davam vazão às suas fantasias e tinham por onde jorrar? Que acontecerá agora?
( Teme-se por um potencial  aumento de casos de estupro em todo o país).


4. Quando poderá ser vista, afinal, Sandy nua como um dia pudemos ver Lidia Brondi? Não
só de bolsa-família vive a ilusão do homem - e da mulher - brasileira.


                                          


                                    
                       



            A presidenta exigiu providências para salvar o Brasil. Caso não seja atendida, ameaça posar nua em qualquer edição pirata da revista Playboy, mesmo de origem paraguaia.

            Diante de sua disposição Eduardo Cunha já está pensando em iniciar imediatamente  o processo de impeachment da presidenta, mesmo correndo o risco de perder o mandato. 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A BELEZA DAS PALAVRAS





Artigo publicado hoje, quinta-feira, no jornal
o Estado do Maranhão


A “Palavra do ano” de 2015 não foi uma palavra, mas um emoji ( uma imagem pictográfica que simboliza um rosto chorando de alegria). 


                                                 



O que sugere que chegamos a uma época em que a beleza de uma palavra não esteja mais no seu significado, ou sonoridade, mas na sua imagem.
            E qual seria a palavra mais bela da língua portuguesa? Provavelmente não foi escolhida ainda, mas da língua inglesa sim, e isso aconteceu há uns oito anos atrás. 42000 pessoas de diferentes países escolheram a palavra mother (mãe), como a mais bela. Mas será que é definitiva a escolha? Seria realmente mother a palavra mais bela?
            Refletindo sobre as palavras que a secundaram em termos de preferência estas foram, pela ordem: Pasion (paixão); Smile ( sorriso); Love ( amor); Eternity (eternidade); Fantastic ( fantástico); Freedom ( liberdade)...etc. Dá para perceber que seus equivalentes em português seriam apreciados igualmente e que muitas dessas palavras estariam também entre as escolhidas se o objeto fosse nossa língua. Particularmente, lembro que fui possuído de singular empatia – que dura até hoje – pela palavra freedom  quando a vi, pela primeira vez, na adolescência, num poema de Shelley e nem sabia o que significava. (É possível que visse na sonoridade da palavra récem-descoberta a capacidade de traduzir melhor a dimensão de um sentimento tanto mais amplo quanto mais capaz de renovar-se...)                                            



Mas aí é que  está, uma palavra deve ser considerada bela a partir de sua sonoridade ou pelo que representa? Considere-se que certas palavras, em qualquer idioma, têm uma sonoridade poética e musical que independem do seu significado, como, por  exemplo butterfly , do inglês. Não precisa ser artista para intuir que seu equivalente em português, borboleta, não soa com o mesmo poder de fogo. Daí que poderíamos chegar a uma fórmula pretensiosa e definitiva quanto a isso. Palavra bela = seu significado + sua sonoridade.

            Empunhando esse conceito ficaria mais fácil encontrar a tal palavra. Pelo significado, por certo, chegaríamos às palavras óbvias, acima citadas: Amor, Paixão,  Infinito.  Já, pela sonoridade, Vendaval, Melancolia, Delírio etc. não tão óbvias assim, porque exigem para ser apreciadas que nos dissociemos daquilo que representam.  Existe palavra mais bonita e contraditória que Lúcifer, com sua sonoridade poética e sedutora e, no entanto, significando o domínio do mal, ou o próprio diabo? Fosse Lúcifer o nome de um anjo do bem, muitas das namoradinhas brasileiras suspirariam por galãs de novelas com esse nome.
            Escutei em algum lugar, mais de uma vez, que a palavra saudade seria a palavra mais bela da língua portuguesa. Nenhum outro idioma a possui num único termo, com a mesma carga de sentimento, intraduzível. De fato, a palavra saudade certamente satisfaria a fórmula acima, tanto em significado como em sonoridade, porém, ainda assim, hesitaria em especular que  seja a mais bela. A palavra mais bela talvez devesse ser aquela que, potencializada pelos sentimentos intraduzíveis da esperança e da crença na superação humana, individual e coletiva,  fosse incapaz de ser contida num símbolo – poderia ser até mesmo uma palavra não dita, ou ainda, aquela que reverbere melhor pelo não-dito que pelo dito.



                                                      





            Quem duvida de que, nestes dias trágicos de tentativas de sufocação da beleza e da vida pelo horror, em Paris,  uma das palavras mais belas do idioma francês, FRATERNITÉ ( fraternidade) ressoe ainda mais bela?

                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com                                                    http://www.joseewertonneto.blogspot.com


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

CADÊ O SUICÍDIO?





artigo publicado hoje no jornal O estado do Maranhão








CADÊ O SUICÍDIO?


Jose Ewerton Neto, autor de O ABC bem humorado de São Luis


                                                           


 


            Quando alguém comete suicídio, pode-se dizer que essa pessoa deliberou consigo mesma para chegar a essa decisão e que houve alguma contraposição  dentro de sua mente, certo? Sim, porque a decisão de chegar ao ato final passou por debates, postergações, conluios,  entendimentos...etc. tudo a que têm direito dois Eus  -ou mais - em vias de tomar uma importante decisão ( e bote importante nisso!) a respeito de uma vida comum.


            Neste mundo atual, em que proliferam os Eus numa única persona (devidamente liberados pelos psicanalistas) não seria lícito supor que em qualquer decisão de alguém a respeito de si, como essa, tomem  parte pelos menos dois Eus significativos, um a favor e um contra, e que o mais forte acabe assassinando o mais fraco, ou vice-versa?


            Esta visão de dois Eus se engalfinhando até o limite fica muito clara quando se pensa no tipo de suicídio em que esteja envolvido o sentimento de culpa. É aquele decorrente da vergonha, da ignomínia e da mácula, quando evidentemente um Eu foi pego em ato ilícito cuja desonra não foi aceita pelo outro (ao qual poderíamos chamar de consciência). Ainda que os dois hajam cometido o opróbio de comum acordo, um deles, o Eu que tem o orgulho de sua dignidade, despertou tardiamente para o mal feito e cobriu-se de vergonha, preferindo morrer.  Assim é que, em última análise dá-se,  também no suicídio, o assassinato, a morte de alguém perpetrada por um Eu que, opondo-se ao outro, não admite vida se não puder exibi-la com honra.


            Esse tipo de suicídio, como se sabe,  é comum acontecer nos países de tradições morais rígidas, com valores éticos prezados por todos.  Com alguma frequência, no Japão, na Suécia, na Inglaterra ou Dinamarca, somos surpreendidos com a notícia de algum político que, tendo enriquecido ilicitamente, não suportou a vergonha de encarar a face acusadora da sociedade ou de sua própria consciência e preferiu penalizar-se, recorrendo à morte para limpar-se da indignidade cometida. Isso acontece em muitos países, dizíamos...


            Porém, nunca no Brasil.


            Ora,  por que é tão raro que isso aconteça por cá? Qual a explicação para isso?


            Conversávamos entre amigos, outro dia, sobre os recentes casos de corrupção, tão propalados, quando estranhamos  o fato de que, mesmo diante das evidências, a única demanda da consciência desses cidadãos envolvidos é no sentido da fuga à responsabilidade. Chega a ser tragicômico! Os elementos envolvidos compactuam com o ilícito com a mesma naturalidade com que comem, dormem e respiram. Continuar no poder é o único objetivo deles, jamais têm a coragem de confessar seus crimes e pedir perdão à sociedade pelo que fizeram.


            Capistrano de Abreu dizia a respeito da falta de vergonha que grassava  entre os brasileiros públicos, de sua época, que esta nação só carecia que houvesse - e se cumprissem -   duas leis primordiais:  1) Todo cidadão brasileiro é obrigado a ter vergonha 2) Revogam-se todas as disposições em contrário.


            Em face do que se vê nos tristes episódios do lava-jato, petrolão, etc. nos quais autoridades agarram-se  a seus cargos com unhas e dentes, mesmo confrontados a seus próprios desvios de conduta, surge mais uma interpretação para essa atrofia tão brasileira de caráter. Esses  indivíduos jamais recorrerão ao suicídio como os arrependidos de lá fora e,   tampouco, pedirão um dia perdão pelos seus pecados justamente porque todos os seus vários Eus, e não apenas um, são corruptos. Nasceram desprovidos de consciência e, consequentemente, de vergonha.


                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com


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sábado, 24 de outubro de 2015

AÇAÍ X JUSSARA OU SAMPAIO X PAISSANDU


ou SAMPAIO X PAYSSANDU?






artigo publicado quinta-feira no jornal o Estado do Maranhão



AÇAI X JUSSARA, quem ganha? Bem, pelo menos no Maranhão deveria dar jussara, pelo orgulho do nome maranhense. E, no entanto, alguns maranhenses com complexo de vira-lata preferem chamar a saborosa fruta  pelo nome ( importado do Pará) de açaí. São os mesmos que adoram morar em nome de prédio com nome inglês e se enfiar num capote, sob um  frio desgraçado, para,  tirando uma foto com pau de selfie , enfiar no instagram ou no facebook e pedir ao jornalista para colocar na coluna social do jornal.

            Sim, “tem gosto pra tudo nesse mundo e ainda sobra para ficar debaixo de um boi”, como dizia o caboclo e ainda sobra para esses maranhenses que adoram mostrar que estão no exterior, seja  lá em que condições a serem suportadas por um vira-lata.


                                          



 Eles acham muito mais saudável virar picolé do que chupar  um,  de jussara ( eu disse jussara)  sob o sol das maravilhosas praias de sua própria terra.
            Mas, meio “sem querer querendo” acabamos por falar na salutar competição entre maranhenses e paraenses e, nesse item deveria dar empate, afinal trata-se da mesma fruta, deliciosa, por sinal. Ou não? A daqui não seria mais gostosa, até mesmo porque seu nome é mais bonito e... mais feminino?
            Eles ganham na pontualidade da chuva, nós na do sol.  Eles ganham na umidade, nós no vento. Eles dizem que as mulheres daqui são quentes, nós dizemos que as de lá são acesas. Eles  têm a Banda Calypso, nós temos o Boi Barrica. Eles têm Fafá de  Belém , nós temos Chico – e Rogério -, do Maranhão. O povo de lá gosta de brega aforrozado, o daqui gosta de forró abregalhado. Eles têm Carimbó, nós temos o bumba-boi. Eles  têm Amado Batista, nós temos Alcione. Eles têm pato no tucupi, nós temos arroz de cuxá. Eles têm praias de água doce, nós temos de água salgada. 

                                              


Eles têm índios diversos, nós temos índios de versos - Gonçalves Dias não era índio?. (Por falar nisso, damos de dez a zero neles em literatura, com um time da  pesada: Aluízio Azevedo, Artur Azevedo, Raimundo Correa, Gonçalves Dias etc. etc.)  Dá até para mandar o Sousândrade de quebra – ele, que, no fim da vida, quebrava pedras. Eles têm o Círio de Nazaré, nós temos São José de Ribamar.

                                                 



 Eles são marajoaras,  nós somos Timbiras, Eles tem o Mercado de Ver-o-Peso, nós temos o Mercado Grande, onde não se vê o peso.
            E no futebol, quem ganha? Eles têm um time com nome de remo, o Clube do Remo, nós temos um com nome de moto, o Moto Clube.  Eles têm o Mangueirão, nós temos o Castelão. Eles deram Sócrates, nós demos Canhoteiro. Que, por sinal,  era muito melhor (leiam o livro: Canhoteiro, o Garrincha que não foi). Eles têm o Paissandu, nós temos o Sampaio Correa, um tem o pai no nome, o outro tem nome de pai. Um está na série B, o outro também. O Paissandu tem Pikachu nas pernas alheias, o Sampaio tem Pimentinha nos olhos dos outros. E vão se enfrentar sábado pelo Campeonato Brasileiro. 

                                            



Quem será mesmo o melhor, de verdade, sem tergiversações?
            Vai dar Sampaio. Deixemos de complexo de vira-lata e vamos lá, torcer pelo que é nosso!

                                                                       ewerton.neto@hotmail.com
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