sábado, 25 de abril de 2015

MONARQUIA. A ÚLTIMA SALVAÇÃO




Artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão, hoje sábado

Uma das propostas já  aceitas pelo  governo Dilma para diminuir o nível de corrupção do país é a reforma política. “Balela!” irritou-se um amigo meu, quando comentávamos em grupo sobre isso: “se cadeia não resolve, nada resolverá”. Ato contínuo,  citou a recente aprovação pela presidente do aumento do fundo de contribuição para Partidos Políticos, de 300 para 900 milhões. NOVECENTOS MILHÕES? É estarrecedor, mas é  isso mesmo: depois de Mensalão, Petrolão, Eletrolão, etc. eles ainda estão achando pouco trezentos milhões. Dá pra acreditar?
            É por isso que, mais dia menos dia, é fácil chegar à conclusão de que se não há mesmo solução para a roubalheira, o melhor é a volta da monarquia. 




                                            






Como? Na monarquia também não se rouba? Claro, mas a diferença é sutil: se é para a roubalheira não ter fim, pelo menos que sejamos roubados por um rei. Se  é para não haver governo, que seja um rei a não governar; se é para nada olhar, que o cego seja um rei; se é para falar besteira, que fale um rei. Enfim, Rei é rei, se teve a sorte de ter nascido rei, deve ter  também todos os direitos do mundo, inclusive o de roubar. A conta será  paga pelo povo do mesmo jeito mas, pelo menos, não haverá o sentimento de culpa por se ter escolhido ladrões. O culpado por um rei ser ruim, afinal de contas,  são os genes que herdou, não quem votou nele. Dá pra sentir a diferença?
            E se ainda faltarem razões,  o brasileiro sempre demonstrou ser um povo carente de reis, tanto é assim que chama todo mundo carinhosamente de ‘meu rei’ da Bahia pra baixo. Ou,  como se demonstra a seguir:  

            1.Rei.O país tem tanta carência deles que está cheio de reis inventados.  Já temos Rei Momo, Rei do futebol (Pelé); 


                                                    



Rei da música (Roberto Carlos),  Rei da Soja; Rei do Gado; Rainha dos baixinhos, (Xuxa); e Rainha das popozudas. Nossa carência de monarcas fez aparecer até o Monarco, da Portela. Que tal um de verdade?

            2.Coroa. Se o país  está cheio de reis  e de rainhas,  por outro lado coroa é o que não falta. Basta dar uma espiada nas colunas sociais dos jornais de domingo. É coroa pra todo lado, embora, com um pequeno defeito: estão todas enferrujadas.

            3.Atitudes. Nossos governantes nunca foram reis de verdade, mas pensam e agem como tais. Como todo mundo sabe, sempre se comportaram  como se tivessem um rei na barriga.

            4.Sangue azul. Os poderosos do Brasil, se não têm o sangue azul, como desejado, estão pelo menos a  meio termo. Isso porque, com certeza,  vermelho, (como o de todo mundo),  não é. Se tivessem o sangue vermelho viveriam corando de vergonha diante da enxurrada de roubos que fazem de conta que não percebem.  Ou seja, a sem-vergonhice, no Brasil, está mais para cinquenta tons de cinza do que de vermelho.


            5.O bobo da corte. Como não poderia faltar, até o bobo-da-corte  já existe há muito tempo e nem estamos falando do bobo-da-corte global, Pedro Bial. 



                                                





Quem duvida de que o povo continuaria  exercendo – e bem – esse papel?

                                                                       ewerton.neto@hotmail.com
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sábado, 18 de abril de 2015

O CÉREBRO - DOS CÉLEBRES




artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado

As celebridades que amamos podem tudo. Até nos ensinar a viver com suas frases igualmente célebres (?) saídas dos seus cérebros prenhes de sucesso. Frases célebres? Claro, desde que tenhamos um pouco de paciência, afinal de contas, para venerá-los o que nunca faltou foi paciência.

1.Oprah Winfrey: “ Nos tornamos aquilo em que acreditamos”
            Vá lá, pode até ser, algumas vezes. Muita gente, no entanto, quando quer obsessivamente se tornar aquilo em que acredita, acaba se transformando rapidamente naquilo em que ninguém acredita ( caso de Dilma Roussef)

2.Jane Fonda: “Nunca é tarde para mudar de vida, nunca é tarde para ser feliz.”
            Mais ou menos. No final das contas, um belo dia todo mundo vai mudar de vida queira ou não queira. Quanto a ser mais  feliz,  isso é relativo.”

3.Dolly Parton: “Se vir alguém sem um sorriso ,dê o seu.”


                                                   



            OK, boa ideia para ajudar um carente. Mas não há generosidade alguma nisso porque sorriso não custa caro. E, Já que estamos falando de boca, generosidade pra valer seria deparar com alguém  sem dente e doar o seu, mas poucas celebridades fazem isso.

4.John Lennon: “A vida acontece quando se está ocupado fazendo outros planos”
            E deixa de acontecer quando um psicopata faz outros planos pra você... (Infelizmente, no teu caso, John).

5.Ellen Degeneres: “Descubra quem você é e seja essa pessoa. A sua alma foi colocada no mundo para ser isso. Então viva essa verdade e todo resto virá.”
            O problema é que para descobrir quem você é, precisa de um mínimo de informação. E seja quem for capaz de lhe dar essa informação, forçosamente terá de ser outro ser humano que também não sabe quem  é.”

6.Woody Allen: “Oitenta por cento do sucesso consiste em saber se mostrar”
            Verdade. E é  por isso que tem tanta celebridade nua.

7.Mary Angelou (escritora): “As pessoas esquecerão o que disseram. Esquecerão o que fizeram. Mas as pessoas nunca esquecerão de como  fizeram”.
            Hum, hum. Os corruptos brasileiros esquecem o que dizem, o que fizeram e esquecem até de sentir vergonha de como fizeram.”

8.Lance Armstrong; “A dor é temporária. Pode durar uma hora, um dia, um ano, mas, com certeza, vai diminuir, e outra coisa melhor tomará o seu lugar. Mas, se eu desistir, a dor durará para sempre”



                                                





            Bonito, mas de onde você tirou isso, Lance? Parece até que andou tentando convencer sua parceira a fazer sexo anal?

9.Cate Blanchett: “Se sabe que vai falhar, falhe gloriosamente!”
            Muita calma com isso, Cate! Senão logo vai haver um monte de marmanjos, felizes da vida por causa dessa frase. Quer dizer que se a broxada for gloriosa, tudo bem?”




                                              



 

10. Gary Player: “Quanto mais duro o trabalho, mais sorte eu tenho.”
            Não é verdade. Pergunte para as masturbadoras profissionais dos hospitais da China.

11.Elvis Presley: “A imagem  é uma coisa e o ser humano, outra. Vamos colocar a coisa assim.”
            Na realidade, depende do cantor ser bom, como o autor da frase. 



                                                






Se for cantor de música sertaneja universitária, a imagem é uma coisa!, o ser humano outra e o som coisa muito pior.”

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sábado, 11 de abril de 2015

MURIÇOCAS DE VOLTA - (MURIÇOCOLOGIA)




artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo,jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado

A MURIÇOCOLOGIA

Definição: MURIÇOCOLOGIA é a ciência que estuda as muriçocas e suas interações com o elemento humano. Ou seja, ao invés  de estudar a origem, as características do espécimen em si, seu habitat etc. , objeto de outro ramo de ciência, o estudo da Muriçocologia se direciona, sobretudo,  à interpretação da realidade do ponto de vista da reação humana a elas e vice-versa.   
            A muriçoca é comumente chamada de praga ou mosquito, além de outras variações. Pode ser chamada também de:  peste!,  ou desgraça!,  no auge da dor consequente da picada.






A ciência escolheu nomeá-la Muriçoca, por considerar este termo, mais apropriado à sua natureza provocadora, irreverente, cruel, suicida, sádica, vingativa, tragicômica, torturadora  etc., como parece ser próprio de um inseto que até antes de atacar, canta.
            Eis um breve resumo de aspectos fundamentais do aprendizado:

            POSTULADO ZERO DA MURIÇOCOLOGIA

            “Atrás de uma muriçoca vem sempre outra”.
            Corolário 1: “E depois dessa outra, mais outra, enfim centenas de muriçocas surgem  do inferno,  apenas raia sanguínea e fresca a madrugada”.

            Obs. (O corolário acima é de autoria de Chico Mosquito, o primeiro estudioso da matéria, e seu enunciado foi uma adaptação consciente do poema As Pombas. É que ele estava lendo justamente o poema de Raimundo Correia, quando levou a primeira picada e não mais conseguiu  pensar em outra coisa,  enquanto durou o massacre. )




                                         

                                                





            LEIS DA MURIÇOCOLOGIA

            1.”A muriçoca tem predileção especial pelo seu tipo de sangue, seja ele qual for”.
            Isso significa que se você estiver em algum lugar ( num churrasco ao luar, por exemplo),  rodeado de vários colegas cujos tipos de sangue variam de a a z  o sangue que ela escolherá será precisamente o seu, por razões que a ciência até hoje  não conseguiu  explicar.

            2.”A muriçoca não se assusta com tamanho,  nem cara feia”.
            É isso aí. Apesar do seu tamanho minúsculo, uma muriçoca bebe com igual sofreguidão tanto o sangue de um pinto, como o de um elefante. O que faz dissipar em definitivo as dúvidas  quanto à coragem da espécie.

            3.”Toda muriçoca é camicase”.
            Por definição toda muriçoca é camicase, ou  seja, suicida-se com imenso prazer, desde que esteja sugando, no instante final, sangue humano. Com isso, a Muriçocologia conseguiu esclarecer o traço mais notável de sua personalidade: ‘A maior glória de uma muriçoca é morrer chupando o sangue de um’.

            4.”Uma muriçoca não se mede pelo tamanho”.
            Isso seria  impossível. Não dá para observá-la direito durante o ataque, já que a vítima estará mais preocupada com a picada.  Se conseguir, num golpe de sorte, atingi-la,  sua visão não será verdadeira: mais da metade do volume do corpo da muriçoca, agora, é constituída do sangue da vítima.

Quanto as armas usadas para enfrenta-la:

            1.O berro. Na pré-história os homens usavam esse recurso para tentar espantá-las, mas isso  só as deliciavam. Segundo Darwin elas o adaptaram tão bem que deu no seu canto agudo de guerra, hoje.

            2.Tapas para abatê-las. Sempre saiu mais caro aos homens que às muriçocas. Já houve muita gente cega de um olho ou com o dente quebrado por causa disso.




                                                





            3.Fogo e fumaça. Era usado pelos índios com relativo sucesso. Embriagados pela fumaça conseguiam dormir, mas  acordavam se coçando pelo resto do dia até outra jornada. Não deixava de ser uma espécie de transfusão de sangue aborígene.

            4. Inseticidas. Ainda de acordo com Darwin as muriçocas se saíram vitoriosas, como sempre, adaptando-se rapidamente ao cheiro. Hoje há muito mais humanos do que muriçocas mortos em consequência do uso  de inseticidas.

            Encerrando o resumo por falta por absoluta falta de espaço é imperioso lembrar desta preciosa revelação da MURIÇOCOLOGIA em relação ao futuro:




                                            






 “Ao final dos tempos, muito depois que  a raça humana se extinguir ainda sobreviverão os ratos, as baratas e as muriçocas”. Como as baratas são cascudas, coitados dos ratos!
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com
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domingo, 5 de abril de 2015

A VERDADE SOBRE TUDO



artigo publicado na sessão Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, ontem, sábado

A VERDADEIRA HISTÓRIA DE TUDO 

Tudo começou, segundo os cientistas, alguns atossegundos depois do nada. Para quem não sabe, um atossegundo é um bilionésimo de um bilionésimo de segundo, medida que os cientistas usam para mensurar os eventos mais efêmeros da natureza. É, como se pode imaginar, um espaço de tempo inimaginável - de tão curto, tanto assim que, na realidade humana, só tem equivalente na rapidez de pensamento com que um corrupto brasileiro decide por  a mão no dinheiro da Petrobras.
            Tão rápida foi a mudança, treze e meio bilhões de anos atrás,  que  Tudo ficou com dúvidas (não resolvidas até hoje), se ele é tudo realmente, ou se ainda é o mesmo nada. Como era de se esperar o coitado, por não ter tido infância, conviveu,  desde o início, com dúvidas existenciais que perduram até hoje.





                                              






            È fácil imaginar o quanto essa crise de identidade o perturbou, tanto mais que ele nunca dispôs de um analista para se socorrer. Certo, ninguém jamais o xingou de nada, o que já é alguma coisa, mas quem lhe definiu pra valer? Afinal de contas, que diabos  significa esse tudo que dizem que ele é? O pior de tudo é que nunca teve sequer a quem culpar ou se queixar. Essa sua aflição levou uma penca de anos (bote bilhões nisso), até que surgiu Deus.

            2.Sim, porque só quando os humanos começaram a pensar e a descobrir Deus é que a carga amenizou pro seu lado. Sim, porque agora Deus é que era tudo e só então Tudo passou a descansar, no que poderíamos chamar de juventude. A juventude, todos sabem, é a maior de todas as liberdades e, enquanto todos aceitavam Deus, pode-se dizer que Tudo foi livre.   Sim, porque Deus passou a tomar conta da Terra, onde moram os homens, lugar que sempre lhe deu trabalho, com essas questões cruciais de ter de se explicar e simplificar filosoficamente as coisas. “Graças a Deus” ele falou consigo mesmo “que Deus apareceu e tomou conta de tudo”
            O Tudo passou então a fazer de tudo para Deus ser a referência maior do Universo talvez até esperando que um dia, compadecido de sua sorte, Deus lhe explicasse que diabos era esse tal de infinito com quem tanto o confundiam. Seriam gêmeos, teria problemas de identidade, como ele? Onde moraria?  Ou será que era apenas uma espécie de apelido tardio para si mesmo que os homens, sempre os homens, metidos a querer saber mais do que devem e podem lhe enfiava?


                                                    




            E foi assim que os religiosos e os filósofos se aquietaram e pararam de lhe encher o  saco durante muitos anos  com Tudo permanecendo, espertamente, à sombra de Deus.

            3.Toda alegria dura pouco, até a de Tudo. A coisa começou a complicar novamente quando a partir do início do século passado os homens começaram a querer saber tudo e a duvidar de tudo. Agora já não se satisfaziam mais com Deus e, feito atarantados, começaram a inventar teorias e teorias a seu respeito inclusive uma tal Teoria de Tudo, que até virou filme. Resumindo o que disseram: que Tudo não teve pai, muito menos mãe e que nasceu de um big-bang; que Tudo está se expandindo e não se espreguiçando ( como ele até há pouco pensava);  que Tudo  nunca  vai acabar,  ou então, a entropia vai virar lixo e tudo vai se comprimir de novo, como se Tudo fosse feito de elástico concentrado. Ou seja, está de volta a terrível sensação de que não passa mesmo de uma grande embromação.
            Tudo queria se suicidar, mas nem isso pode.  Queria acabar com tudo, mas não tem esse direito. Cem trilhões de anos, esse é o tempo que, segundo os cálculos humanos,  Tudo vai ter que esperar. Já pensou?




                                               







            Da próxima vez que pintar um buraco-negro do tamanho do universo concentrado para alguém se meter com esse negócio de existência, Tudo vai deixar outro espermatozoide chegar na sua frente para virar Tudo.
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

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sábado, 28 de março de 2015

A CAIXA-PRETA DE VERDADE




Artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado

Caixa-Preta. Taí uma coisa que eu gostaria de entender melhor. Basta cair um avião para que todos saiam atrás desse equipamento, tão perdido em algum lugar do planeta quanto os passageiros do avião. A diferença é que os passageiros são seres humanos e a caixa-preta... Bem, a caixa-preta é aquilo que nunca dizem exatamente o que é embora seja tratada como se fosse mais importante do que   qualquer infeliz que estava a bordo.
            E tudo isso para que se continue a dizer que o avião é o meio de transporte mais seguro do mundo, que é imune a falhas comuns, ou que na sua concepção e no seu aprimoramento a engenharia humana alcançou as raias da quase perfeição divina. “Bem, de fato, morreram alguns seres humanos”, dizem os donos das empresas de aviação “mas ainda resta a caixa-preta, só depois do que ela mostrar, poderemos nos pronunciar a respeito”. Mais ou menos como se a caixa-preta, de repente, fosse capaz de ressuscitar os mortos ou pudesse amenizar o desconforto dos seus parentes.




                                                 






            O fato é que virou rotina, de alguns anos para cá, a queda de um Boeing em algum lugar ermo do planeta, a ponto de já nem nos surpreendermos quando o noticiário anuncia a queda de mais um. E, se não mais nos impressionamos com as mortes,  tampouco nos impressionamos com a voz monocórdia dos responsáveis, ou do presidente da república, com afetada consternação a tentar remediar a tragédia, sugerindo uma impossível solução:  “Ficamos tristes por todos, mas não chorem, estamos atrás da caixa-preta”.
            “Cadê a caixa-preta”, reproduzimos como papagaios. Cadê a caixa-preta, “repetem os repórteres” “Ainda resta a caixa-preta”, repetem também,  sem outra alternativa, até os parentes. E quando a caixa-preta surge - o que é raro hoje em dia-, pouco esclarece, pouco elucida como no caso recente do avião que caiu na França. É quando a coisa chega às raias do ininteligível, porque (acreditem!) tem mais de uma caixa-preta no meio.  Como dizem os investigadores: “Descobrimos uma caixa-preta, mas precisamos encontrar a outra. Continuamos a análise,  mas até o momento não temos a menor explicação É necessário confrontar os dados das duas caixas-pretas para saber o que aconteceu. Isso pode levar dias, semanas ou meses.” O que mostra  que a procura da caixa-preta seja uma , sejam duas, ou sejam oitocentas, ao final de contas, para nada serve. 




                                                      





 Na falta de solução palpável eis  o que parece a função principal da caixa-preta:  serve muito mais para que os donos das empresas ganhem tempo e que as autoridades iludam a plateia aparentando estarem em busca de uma solução. Não seria lógico esperar que, no estágio a que chegamos em tecnologia de comunicação, as informações pudessem transmitidas on-line para não depender da busca de caixas-pretas atiradas nas sombras?
            A empulhação, mesmo para leigos se torna evidente porque...Alguém sabe mesmo o que existe dentro de uma caixa-preta? E por que cargas d’água são chamadas desse jeito? Não seria por anteciparem em seu nome o negrume total, a ausência de clareza e solução, quando sombras e mais sombras aparecem no destino de inocentes?  
            A tal da caixa-preta parece ter sido fabricada sob encomenda  para nos distrairmos com a ilusão de que não há morte em nosso futuro, que isso não é irremediável quer queiramos ou não, quer aceitemos ou não, hajam caixas-pretas ou não. Por trás do nome sombrio e de sua ineficácia serve apenas para estimular a ideia orgulhosa de que atingimos um patamar de tecnologia superior capaz de afirmar o ser humano diante da imprevisibilidade e do inesperado.




                                                      





            No fundo é uma caixa-preta nos moldes da eterna pergunta nunca respondida pelos cientistas e jamais solucionável: “O que somos, de onde viemos, para onde vamos?” . Não seria mais fácil e menos hipócrita que as autoridades amparassem as vítimas de modo efetivo e, mesmo sendo ateus, se dessem as mãos e dissessem: “Que Deus tenha piedade de todos e de nossa imensa fragilidade diante do destino”?

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sábado, 21 de março de 2015

A ARTE DE BOTAR BANCA




artigo publicado hoje, na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado


Desde que retornei a São Luís, na década de oitenta, que sou freguês do Seu João, proprietário de uma simpática banca na Praça João Lisboa. Tudo começou quando lhe pedi para guardar alguns jornais do Rio e de São Paulo com seus cadernos de literatura, especialmente o Prosa e Verso do JB do dia de sábado, além das revistas semanais, jornais da ilha, etc. O tempo passou, o JB se foi, mas continuo freguês da banca e dos jornais de São Paulo, no sábado. Prefiro-os à Internet, porque aproveito para descobrir na banca alguma preciosidade de informação científica ou cultural, em revistas como Superinteressante, Galileu, Scientific American, História, etc. Pode-se dizer que em uma banca há sempre uma mini biblioteca disponível, de modo muito prático e relativamente  barato   
   .
            Aos poucos, descobri que ser dono de banca, como Seu João, não é para qualquer um. Embora exerçam uma atividade de divulgação cultural de retorno evidente para a população em termos de conhecimento e saber, o lucro dos proprietários é pequeno e o trabalho complicado.  A venda de revistas é consignada e a devolução das mesmas  sequencial e ininterrupta. Sendo assim, um dono de banca não pode tirar férias O produto de venda, no caso livros e revistas, é sujeito a deterioração, roubo, respingos de água etc. sem contar que não há contrapartida do poder público em termos de prover a segurança necessária para o exercício dessa atividade que é comercial, mas, sobretudo, cultural.  Por esse motivo as bancas da ilha tem sido constantemente arrombadas com prejuízos para os proprietários, sendo o ultimo caso, o mais notório, o de uma banca no Renascença que foi incendiada por marginais revoltados por simplesmente  não encontrarem o dinheiro fácil que desejavam, causando à sua dona, segundo consta,  um prejuízo de 70 mil reais.

            Por tudo isso, não se trata de exagero intuir que  ‘botar uma banca’ para funcionar e nela trabalhar é uma sina que, pródiga, embute uma espécie de  arte que deveria ser estimulada e conservada pelo poder público: a arte de lidar e abastecer a sociedade de um bem cultural.  



                                                   






            Domingo passado, ao procurar a referida banca para pegar o meu jornal fui surpreendido. Ela havia sido removida para detrás do abrigo da mesma praça, num local ermo e pouco frequentado. O dono bem que tentou me explicar, resignado, mas atônito. Sob o suposto de um projeto de  recuperação da Praça João Lisboa, haviam retirado sua banca como se fosse um monturo descartável. Sem dó nem piedade do conteúdo da mesma, lá estavam  livros e revistas amontoados  ao Deus dará, sabe-se lá até quando. Pelo que deduzi, nada a respeito de indenização do dono pelo prejuízo,  nada a respeito de qual será o seu destino, nada a respeito de como ficará sua situação, nada além de desprezo quase ostensivo a alguém que tendo se dedicado a vida inteira a exercer uma atividade comercial cultural em prol da comunidade, principia a vislumbrar o nada pela frente, como se estivesse sendo punido por algum malfeito, enfim, como se estivesse comercializando algum tipo de droga ao invés de livros e revistas.

            Claro que as justificativas aparecem a bojo de um projeto de melhoria e embelezamento das praças, patrocinado ao que me parece, pelo IPHAN. Nada contra, a administração pública precisa zelar pelo bem público, mas porque a má vontade para com bancas de revista, cujo objetivo também é o bem público? Não me consta que bancas tenham sido retiradas das grandes avenidas e praças das grandes metrópoles como São Paulo, Rio, ou até mais perto, Fortaleza com suas tradicionais bancas no entorno da Praça do Ferreira.





                                               






            Foi então que  veio à minha mente o termo “Botar Banca”, cujo uso era muito comum tempos atrás, para designar uma atitude de arrogância e imposição. O que leva à conclusão, inerente ao assunto,  de que existem dois tipos de arte, com a mesma expressão , referindo-se a finalidades distintas.  





                                                






A primeira, a arte já sugerida acima, do seu João: alguém que botando uma banca para funcionar e por ela zelando diariamente associa seu labor e dedicação à divulgação de arte e cultura, por isso mesmo se tornando um artista também. Por outro lado, outro tipo de banca imposta: aquela que é  oriunda da insensibilidade de alguns burocratas da administração pública que acham oportuno se desfazer dos empreendimentos  já sedimentados e antigos, mas que continuam necessários para o alcance do objetivo final ideal: no caso, vias públicas ordenadas e civilizadas, mas onde pessoas possam sempre ter acesso a um bem cultural.

            "Que esse segundo tipo de banca, não se sobreponha à primeira".
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sábado, 14 de março de 2015

MAIS BELA





Artigo publicado na seção Hoje é dia de... Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado




                Na década de setenta, os convidados do museu de cera de Madame Tussaud, em Londres, eram convidados a selecionar as mulheres mais belas dos ‘tempos modernos’, então. As escolhidas em 1970 foram pela ordem: Elizabeth Taylor; Sophia Loren; Raquel Welch; Brigite Bardot e Marilyn Monroe. Elizabeth Taylor, Sophia Loren e Marylin Monroe se repetiram em todas as listas anuais da década. Esse time, de fato,  era pra ninguém botar defeito.




                                                       





            Hoje em dia a coisa não parece ser tão fácil assim, por falta de unanimidade em torno. São tantas as belas e, como a cada quinze segundos surge uma mais bonita, a coisa não se estratifica: não há tempo para fazer da beleza uma personagem de si mesmas,  como fizeram as três citadas acima. A mais infeliz,  Marilyn, incorporou à sua beleza a aura trágica do suicídio.  Nesse mundo atual de belezas pulverizadas pela necessidade midiática de renovação sobra até mesmo para nossa Gisele Bundchen – aquela que nem no nome tem uma bunda completa, como assim exibe em seu título: Gisele  Bund-(a)-chen.

            E já que falamos de personagem, talvez seja um exercício  mais fácil tentar  descobrir a  mais bela personagem da literatura.

            Lembro, de saída, de Catarina Earnshaw de “O Morro dos ventos uivantes” Bela sim, desde criança , mas não sei se sua beleza meio ‘bucólica’ sobreviveria plenamente  longe dos ventos uivantes dos morros a açoitar seus cabelos. Parece-me que perdeu um tanto de seu charme selvagem depois que abandonou a charneca, e na minha imaginação já não era tão bela quando morreu nos braços do cigano que a amava desesperadamente  “O amor não é fogo cuja chama se apague com a morte”, ele disse. E quanto a Capitu, a célebre adúltera de Machado de Assis? Será que era bonita, de verdade? Claro que não era feia, mas nada indica que fosse dona de uma beleza mais que razoável, o suficiente apenas para provocar a insegurança do parceiro. Ora, parece óbvio que para botar chifres num sujeito autoindulgente como Bentinho, uma mulher sequer precisaria ser bonita.  E Ana Karenina?
            Devia ser bela sim, no padrão antigo, possivelmente um pouco gorda para a apreciação de hoje. Morreu debaixo de um trem,  e mulheres lindas de verdade não morrem debaixo de um trem. Já Madame Bovary,  acho até que era parecida com a russa não só na busca do adultério como redenção para a sensaboria da vida cotidiana. 



                                                  
                                                   





É provável que Ana Karenina fosse até mais bonita que Ema Bovary mas a dama criada por Flaubert tinha um  tom a mais de luxúria sempre a pique  de extravasar, o que a tornava mais desejável.
            E assim por diante, já que o espaço é curto,  até chegarmos à inevitável Iracema, de Jose de Alencar. Mas qual, um autor exagerado e romântico como José de Alencar certamente ampliava os dons naturais da índia quando falava  na ‘virgem dos lábios de mel eu tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna’. Dá pra acreditar nisso? Vai ver que a indiazinha era um tanto buchudinha e tinha dentes cariados, de pouco trato.
            Curiosamente, essas heroínas dos livros, mesmo à mercê de nossa imaginação prodigiosa e fértil, podem tornar-se mais belas e mais palpáveis quando associadas às atrizes que as representam. Lembro  de Lara,  do romance Doutor Jivago, corporificando-me uma beleza transcendental, ao mesmo tempo poética e selvagem, quando vi a representação de Julie Christie nesse filme. A cena em que Lara-Julie, pobremente vestida, atravessa o salão de aristocratas para dar um tiro no homem que a prostituiu, ofusca todo o resto e resplandece de sua beleza sensual e avassaladora. Ela teria tudo para ser a  heroína mais bela das versões cinematográficas da literatura se ...




                                                        






            Se não existisse Sophia Loren em Duas Mulheres, baseado em A Ciociara de Alberto Moravia, cujo livro já  havia lido quando vi o filme. Nele surgiu, para mim, a personagem mais bela da literatura por ter ficado associada em definitivo à beleza  dessa atriz, que interpretou a mãe de uma adolescente, na  tela. E Sofia Loren tinha, certamente, um rosto mais bonito do que qualquer imaginação seria capaz de criar.
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