sábado, 24 de maio de 2014

CALCINHAS ( O QUE HÁ POR TRÁS )



Artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado.


A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CALCINHA ( II )

            Segue, abaixo, a prometida segunda parte de A verdadeira história da calcinha, aqui publicada duas semanas atrás. Lembremos que essa primeira parte trata dessa genial invenção humana,  desde os primórdios até a chegada do século XIX:

            1.Ao longo do século XIX novos tipos de tecido foram criados, com  formas cada vez menores e ousadas buscando gradativamente a combinação  entre sensualidade e conforto, mas essas transformações só vieram pra valer mesmo a partir da metade do século passado quando uma série de conquistas de liberdade de expressão e corpo começaram  a ganhar espaço a partir dos Estados Unidos. Se no século XIX as mulheres usavam ceroulas que iam até abaixo dos joelhos, o surgimento da lycra e do náilon possibilitou uma série de inovações, o  que permitiu chegar até a um curioso modelo nos anos 90: uma calcinha com bumbum falso, com um enchimento de espuma de nylon de vários tamanhos e modelagens. Adivinhem de onde veio a ideia?


                                              



            Acertaram os que votaram no país do mundo mais especializado  em bumbum (e infelizmente no que sai dele) : o Brasil,  que até então ainda não ganhara oficialmente a copa - do bumbum - mas já caminhava para isso.

            2. A primeira guerra mundial provocou uma revolução no comportamento feminino já que as mulheres passaram a ocupar funções de maior importância na sociedade e de maior liberdade de movimentos. Ou seja, enquanto os maridos se comprimiam nas trincheiras protegendo-se do inimigo suas mulheres espaçavam-se em busca dos ‘amigos’ e haja calcinha querendo ser menor e mais aderente ao corpo. Os seios também adquiriam vontade própria e pediam praticidade e... Olhares. Assim, a partir de 1914 o sutiã foi devidamente reconhecido na América industrial quando foi patenteado pela  socialite nova-iorquina Mary Phelps Jacob. A primeira peça fabricada por ela era feita com dois lenços, um pedaço de fita cor-de-rosa e um pouco de cordão, fazendo com que, diante da incrível novidade, os pedidos proliferassem. Logo a seguir, a fábrica de roupas femininas Warner Brothers Corset Company, comprou a patente mostrando que as patentes pulavam de mão em mão tão depressa quanto os seios.
            Era o inicio da industrialização da lingerie. A partir daí as calcinhas da época passaram a inovar até chegar a um acessório  sensual muito usado na década de 20, a charmosa cinta-liga, imediatamente chamada (do ponto de vista masculino) de sinta-a-liga. O cinema e as casas de espetáculo cuidaram de espalhar, pelo imaginário masculino, o modelo das dançarinas de Charleston que exibiam suas cintas-ligas por baixo das saias de franjas, enquanto se sacudiam ao som frenético de jazz-bands.


                                               




            Veio a recessão e a indústria americana tratou de encontrar uma alternativa mais resistente e barata, quando em 1938 a Du Pont criou o nylon, mudando de vez a história da lingerie. Adeus rendas e bordados! Mas não foi só a matéria-prima que mudou, as mulheres também. A feminilidade passou a ser explorada pela mídia e os anos 50 podem ser considerados fundamentais para a revolução das calcinhas, exibidas no cinema. (Se hoje tem marmanjo que se baba diante do que contêm as calcinhas de Valeska Popozuda ou de Gisele Bundchen imagine o que seriam capazes de fazer, anos atrás, diante das calcinhas de  Sofia Loren ou Marylin Monroe!). Era de fazer qualquer adolescente, futuro cronista ou não, não arredar o pé do cinema para assistir Boccaccio 70 com a mulher mais linda e sensual de todos os tempos (Sofia). Independente do cinema, não raras vezes sempre se dava um jeito para que a peça pudesse ser vista mesmo por debaixo de tantas saias e anáguas. Nos colégios, a cor da calcinha da professora (quando valia a pena) estava mais na ponta da língua dos alunos do que quem descobriu o Brasil. Até chegar aos anos 70.



                                          




            3. No fim da década de 60, o movimento feminista por igualdade de direitos ganhou as ruas. Acabara-se definitivamente a ditadura do recato e do erotismo e o padrão da geração “paz e amor” enaltecia os seios pequenos. As mais radicais até queimavam os sutiãs em público numa demonstração de liberdade. Aliás, bons tempos esses em que para se protestar queimavam-se  sutiãs ao invés de ônibus!

            O comprimento das saias subia pelas coxas das mulheres mais depressa do que o dedão do Ricardão até se transformarem em mini, pelas mãos da estilista Mary Quant, Subia, subia, enquanto inúmeras variações de peças íntimas surgiam e se consolidavam. Transparências, rendas, tecidos mais finos, tangas – não havia mais limites para a moda e a imaginação das estilistas, até que as mulheres resolveram dar um basta nesse sobe-mas-nunca-chega quando, depois de abolir os sutiãs, dispensaram de vez as calcinhas, aparentemente buscando... conforto. Uma imensa geração afirmava já em 1980 que nada usavam por baixo da camiseta ou de seus jeans.



                                           




            4.O desprezo às calcinhas, felizmente, durou pouco.  As mulheres não demoraram a perceber que tanto a calcinha quanto o sutiã eram fundamentais para manter os seios e a sensualidade e logo concluíram que radicalizaram demais ao investir contra as duas peças como sinônimo da opressão. Hoje, a lingerie atual possui duas vertentes, uma mais elaborada adotada para ser vista e feita em tons variados, dos clássicos preto e branco ao rosa, verde água ao azul-claro. A outra, predominando o branco e o preto, é essencialmente básica, com modelos sem costura, feita em tecidos elásticos que não retêm a umidade e são, sobretudo,  “respirantes”.



                               




            Ou seja, independente de qual seja a vertente da fabricação o essencial na busca da perfeição é que o único elemento a ficar sem respiração continue a ser, cada vez mais,  o homem.
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

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sábado, 17 de maio de 2014

JOSÉ CHAGAS, UM DOS MAIORES



artigo publicado na seção hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado

Poucos são os escritores que, com igual talento, alternam poesia e humor naquilo que escrevem. Não me refiro ao poema satírico, cujas manifestações talentosas  acontecem vez por outra, no Brasil, desde Gregório de Matos, passando,  hoje, pelo dom de  Luís Augusto Cassas, por exemplo, entre outros etc. Refiro-me, porém, à  alternância  segundo o gênero adotado. Grandes escritores de humor atuais são  Luís Fernando Veríssimo, Millor Fernandes ( morto há dois anos),  Mário Prata etc. , mas não me consta que algum deles tenha produzido algo relevante em termos de poesia.

            Pois, José Chagas, poeta e escritor, paraibano de nascença e maranhense por opção, falecido esta semana foi um desses raros exemplos da prática dessa dualidade. O que me causa, a propósito, o impulso incoercível de uma insinuação, quiçá provocativa, aos especialistas da literatura: não seria esse humor, nunca escrachado e sempre sutil desses escritores também uma forma de poesia? Vá lá, o uso de uma metáfora de superfície sarcástica que causa o riso ao denunciar as mazelas do cotidiano, mas que não  consegue disfarçar o âmago sentimental e extremamente generoso desses raros artistas. A revolta contra os absurdos da sociedade e de seus personagens, no caso,  diluída no riso provocado,  tendo como  origem a solidariedade humana nessa intenção  de denunciar o absurdo. No seu caso, executado por alguém incapaz de clamar se excedendo no óbvio,  como estaria ao alcance de  qualquer um, menos especial.  

            Diria, contudo,  que essas são questões para serem resolvidas por especialistas e que, por questionáveis   no rigor da teoria literária, não cabem no bojo desta intenção de singela homenagem a um dos maiores poetas brasileiros de século e  a quem me coube, um dia, cerca de três anos atrás,  substituir nas páginas deste jornal. Fui chamado então por Ribamar Correia  devido à  impossibilidade do mestre escritor causada pela doença, quando, segundo ele mesmo me disse quando fui procura-lo a seguir, a velhice o tornava incapaz de concatenar as ideias com a exigência que o texto requeria, embora me parecesse ainda bastante lúcido para isso. Foi  quando despontou mais uma vez, porque já a conhecia,  a sua notável e singular generosidade de que falei acima: disse-me  o poeta palavras de incentivo e estímulo do mesmo teor das que escrevera, a meu pedido,   na orelha de minha novela  A Ânsia do Prazer, e da mesma natureza daquela que fez com que eu reenviasse para novos concursos o livro de poesias Cidade Aritmética que acabou sendo premiado em 1996. Na primeira ocasião em 1993, quando ficou em segundo lugar com o nome de Entre Números e Pássaros, ele fizera parte do júri  e, posteriormente, fez questão de elogiar o conteúdo do livro praticamente intimando-me  a continuar a obra, o que me impediu de desistir de tentar publicá-lo,  quando já havia decidido me dedicar somente à  ficção.

            Eis como talvez tenha chegado, neste ponto do texto,  meio que atabalhoadamente, ao vértice do triângulo que pretendia  evocar: Poesia, Humor e Generosidade, no seu caso, em doses elevadas pelo talento. Generosidade esta  já tão destacada pelos que deram depoimento  na sua despedida mas que nunca é demais lembrar, dado que essa simbiose entre caráter e gênio, entre homem e sua obra, nem sempre é pródiga  e, nos dias que seguem (de vaidade e exaltação a si mesmo),  infelizmente tornou-se  cada vez mais rara.  Essa simbiose que o fez cantar São Luís como um de seus melhores filhos e tornar indissolúveis os laços de amor que estabeleceu com a cidade e seu povo, ao exaltá-la  em versos eternos. 

            Versos dos quais uma de seus mais bem acabados frutos O PÁSSARO SEM VÔO, entre tantos, foi escolhido por José Neumanne (amigo colunista de o Estado de São Paulo,  paraibano , escritor e também poeta ) para fazer parte de sua antologia Os cem melhores poetas brasileiras do século , quando me enviou um exemplar e comentou: “ Veja  só, na página 240  o que ocorre quando  o talento poético de um  paraibano se une ao de um  maranhense, em uma só pessoa” ) Ei-lo, para quem ainda não conhece:



                                                       




            “O pássaro sem voo,  solto na sala,
            ficou sendo um brinquedo de criança.
            Que lhe importa a manhã?
            Por que   saudá-la se a cantiga desperta
            a mão que o alcança?
            De que lhe vale o canto? O canto é apenas
            alegria de estranhos.
            Não é tudo. O canto é inútil como são as penas.
            O pássaro sem voo,  cantando, é mudo”.

                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com

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sábado, 10 de maio de 2014

A SELEÇÃO DE FELIPÃO: UM POR UM



artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado

A convocação de jogadores para a seleção brasileira que vai disputar a Copa, já se sabe, é mais debatida nesta terra do que chifre de marido de mulher gostosa na casa do vizinho. Para quem não  sabe, eis as razões de cada um:
            1.Julio Cesar, goleiro. Está jogando num time da terceira divisão do Canadá e, segundo Felipão, foi convocado porque com o frio que faz por lá, aprendeu a ficar mais ‘frio’ nas saídas do gol. A outra versão é que foi para agradar Galvão Bueno. A escolha é sua, leitor.

            2.Jefferson, goleiro. É o melhor dos três, mas, coitado, não joga, o que só se explica por ser mais  uma vítima do racismo velado do Brasil. Por não ser branco, estará condenado ao banco. 
  
            3.Vítor, goleiro. Defende o Galo. O problema  é que o galo que ele defende já não canta faz um bom tempo.



                                                     





            4.Daniel Alves, lateral direito. Espera-se que na Copa jogue tão bem quanto faz propaganda de banana.

            5.Máicom. Lateral direito. Não parece com Lothar, o amigão do Fantasma, nas  antigas histórias em quadrinhos? Talvez por isso, costuma  sumir e aparecer quando menos se espera. Como um fantasma.

            6.Marcelo. Lateral-esquerdo. Já foi apontado, anos atrás, por Maradona como o melhor jogador em atividade na Espanha. Hoje virou reserva de um português chamado Coentrão. Mudou Maradona ou mudou Marcelo?

            7.Maxwell, lateral esquerdo. Quem é ele mesmo?

            8.Tiago Silva, zagueiro. Andou brigando com Ibrahimovic do Paris St. Germain,  onde joga, por causa de Lucas, outro brasileiro do time. Se brigar pela bola com o mesmo entusiasmo...

            9.David Luís, zagueiro. O cabelo é uma mistura do penteado de  Elba Ramalho com o do ex-jogador colombiano Valderrama. Espera-se que seu futebol não seja influenciado pela mistura.

            10.Dante, zagueiro. A única semelhança que tem com o homônimo mais famoso e poeta de A Divina Comédia  é que de vez em quando também pratica comédias, embora não tão divinas assim . Quando pega  uns dribles de Cristiano Ronaldo, por exemplo.  

            11.Henrique, zagueiro. A única explicação para ter sido convocado e não Miranda ( dez vezes melhor) é que ele faz parte da ‘família’ Felipão.  Família íntima, chê! Um jornalista escreveu que adoraria gostar da sua mulher o tanto que Felipão gosta de Henrique.

            12.Paulinho, meio-campo. Era o melhorzinho daquele time do Coríntians que ganhou um título mundial com um time bem treinado, mas  meia-boca. Faz um tempão que vive na reserva  do Tottenham , mas não abre nem meia boca para reclamar.

            13.Fernandinho, meio-campo e  Luis Gustavo, idem. Felipão adora jogadores assim, sem identidade e brilho especial, sendo bastante que baixem o sarrafo, de vez em quando, até na alma do juiz, se for possível.   




                                                       
                                                 



            13.Hernanes, armador. É bom de bola e pode decidir jogos com chutes potentes  à la Rivelino. Mas possui um grave defeito para Felipão,  Comissão Técnica, e críticos esportivos do Sul do país, etc.  É nordestino.

            14.Ramires. Tem inteligência futebolística suficiente para não entender o que se passa na cabeça de Felipão, o que é sua maior virtude.

            15.Oscar, armador. É um Oscar que já ganhou, antes da Copa, o Oscar da dissimulação: inventou que estava contundido para se preparar para a Copa. Para os patrioteiros de plantão, é um filho da pátria. Para Zé Mourinho, técnico do Chelsea, onde joga, um  filho da p...

            16.William, armador (ou seria  ponta de lança?) Tem aquela cara que parece com alguém que você já viu em algum lugar: desde  motoboy passando por pagodeiro e flanelinha, a, até mesmo,  jogador de futebol. Ou seja, às vezes o cara lembra até ele mesmo.

            17.Bernard, atacante. Felipão já disse que o menino tem alegria nas pernas. É da ‘sagrada’ família Felipão, com alguns genes um pouco diferentes. Felipão, como se sabe, o que tem muito é alegria nos bolsos.




                                                          





            18.Neymar, atacante. Vem sendo preparado para carregar o resto do time nas costas e mais o Felipão, o Parreira, o Murtosa, o José Maria Marin, a Dilma, etc. Haja peso no lombo do craque! Preocupados com isso já foi montado  o PLANO  B ( B de Bruna Marquesine). Qualquer vacilo do craque, a garota estará pronta, a peso de ouro,  para entrar em ação e aliviar a pressão do rapaz. Vale ou não vale mais ouro do que o da taça?  

            19.Hulk, atacante. Caso Neymar não dê certo, só mesmo um super-herói para salvar a Pátria e lá está ele: O Incrível Hulk, tão bem-dotado fisicamente, segundo a rede Globo, que muitas mulheres não perceberão os gols do atleta, mais atentas que estarão ao desempenho do seu bumbum.   




                                                 





            20.Fred, centro avante. Mulherengo, costuma jogar um dia sim outro não, dependendo se seu dia de farra é o dia sim ou não. Felipão já disse que só permitirá sexo na concentração se não houver malabarismos. Será que vai ficar espiando? Tem cara mesmo de que goza com o malabarismo dos outros.

            21. Jô, centro avante. Felipão queria Diego Costa, mas o gajo, que não é besta, mandou a família Felipão às favas.  Em seu lugar entra Jô para en-JÔ-ar de perder gol.

            PARREIRA, auxiliar técnico. Mundialmente famoso por ser um técnico retranqueiro, mantêm também a boca retrancada o tempo todo e faz disso a melhor profissão do mundo.  Toda vez que sua boca murcha verga mais um cm para baixo ganha quilômetros de dinheiro. ( obs. Há quem diga, no entanto,  que a melhor profissão do mundo não é a dele, mas de Murtosa, outro auxiliar de Felipão que ninguém sabe o que faz, mas é especialista em assar churrascos para o chefe).                                                             ewerton.neto@hotmail.com


sábado, 3 de maio de 2014

CALCINHAS PARA DAR VENDER E SABER






artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado


Impressionante como a humanidade não dá a algumas de suas valiosas descobertas o valor que elas merecem. Um grande exemplo, é a calcinha. Os homens, nelas enxergam apenas o que elas sugerem, enquanto as mulheres, as veem, na maioria das vezes,  apenas como mais um adorno. Ah, se lembrassem  do tanto que tiveram de penar para chegar a elas!:

            1.A pré-história. No começo, a calcinha não foi pensada com as finalidades de estética e sedução. Sua pré-história é imprecisa, para se chegar ao ponto de partida é preciso recorrer a limitadas informações históricas. O registro mais remoto que existe é um baixo-relevo sumeriano exposto no Museu do Louvre com a representação de duas mulheres, uma das quais  usava uma espécie de tanga a lhe envolver os quadris, sendo tais peças do ano 3 mil a.c. Outro registro , também do mesmo período,  apareceu na Babilônia, cujo modelo era parecido. Infelizmente, seu sucesso ficou restrito aos olhares locais, cujos homens devem ter se ‘babado’  tanto com o espetáculo  que passaram a se chamar baba!-lônios. (deve ter sido essa a verdadeira origem do nome, não?)



                                                       




            Algumas centenas  de anos depois , 1700 a 1400 acc.  já eram as mulheres da ilha de Creta que se preocupavam em usar pedaços de tecido para realçar suas formas. Mas as ‘calcinhas’ não tinham tanto a função de excitar os homens,  como acontecia com a parte superior. As cretenses deixavam o busto nu valorizado pela blusa aberta no vestido comprido e com mangas o que ajudava a  erguê-los numa espécie de modelo precursor do espartilho. Alguma gostosona do funk de hoje sabe o que é um espartilho? Tudo bem, eu também não sei, mas não vá confundir jamais o ‘espartilho inventado pelas cretenses’, com qualquer alusão à luxúria ‘inventada por espertalhonas cretinas’.
            A partir daí,  a Copa do Mundo para chegar  à calcinha desenvolveu-se, nos quatro cantos do mundo resumidamente  assim:
            As Egípcias, só cobriam os seios, embora suas túnicas fossem bastante justas e o colo fosse enaltecido por um vistoso colar. Para as gregas e romanas, a região genital também preocupava menos que as mamas. As popozudas  da época usavam túnicas que embora deixassem os seios a descoberto permitiam que suas formas fossem denotadas no meio de pregas e drapeados, em tecidos transparentes. Na China e Japão não existem registros detalhados sobre o que acontecia por baixo dos grossos quimonos (o que explica, em parte,   os olhos apertados e perscrutadores dos japonas  pelo  esforço que deviam fazer para tentar descobrir).  



                                                    
                                                          




Já as mulheres de Atenas, estas pareciam, pelo menos, mais asseadas, Elas tomavam banho nas fontes da cidade e depois cobriam o púbis com um triângulo de tecido, preso por fios amarrados nos quadris. Foi daí que surgiu, a inspiração de Chico Buarque que, sempre higiênico, resolveu lhes dar uma força, um tanto tardiamente,  ao compor os versos:  “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”.
            Tanto esforço evolutivo fez com que se chegasse por volta do  ano 40 acc., em Roma, aos primeiros registros do que pudesse ser um modelo de calcinha. As mulheres gostavam de usar pedaços de pano em algodão, linho ou lã que eram amarrados ao corpo, como fraldas. Faixas de tecido também eram amarrados na altura dos seios, constituindo os primeiros antecessores do sutiã que eram chamados de strophium ou mamilare ( ou atrofia- mamilos, como queiram).




                                                        





            Toda essa inventividade, porém,  acabou sendo em vão porque  esquecidos por séculos, acabaram  sendo condenados pela inquisição medieval. Por mais de mil anos a intimidade da mulher foi tratada como um tabu, mantida isolada do próprio marido e sujeita a constrangimentos e reclusões forçadas em períodos de menstruação. As camisolas longas, de manga comprida e tecido grosso, tinham a intenção de esconder ao máximo o corpo feminino. Do início da idade média até o século XII com o avanço do cristianismo pela Europa, as roupas ganharam mais panos. Ou seja,  os homens faziam as leis, se matavam, viajavam, queimavam mulheres adúlteras como se fossem bruxas,  saqueavam e, quando queriam se distrair,  trepavam; esquecidos de, ao menos,  um breve olhar de atenção para o conforto do órgão feminino que lhes dava tanto prazer.  Pelo contrário, em troca do orgasmo atingido só sabiam era lhes enfiar panos e mais panos.  Essa profusão de panos, inventada pelos doutores da igreja para “tapar as portas do inferno”  acabou se tornando  um inferno real para elas até se chegar ao calção.



                                                           





            Mas aí já é outra história. Por falta de espaço nesta crônica, não percam o próximo episódio sábado que vem: do calção à calcinha.
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

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sábado, 26 de abril de 2014

SÃO LUIS AVANÇA: DE BURACOS A TÚNEIS



Artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado


Houve tempo, nem tão remoto assim, em que nesta cidade reclamava-se pra valer dos buracos nas ruas. Ou porque as pessoas se acostumaram (afinal de contas, viemos de um buraco e para lá iremos), ou porque se viu que não ia adiantar ou,  ainda,  porque se deixou que a evolução natural das coisas se procedesse, eis que, agora, São Luiz tornou-se a cidade dos túneis. Como diria Darwin nada como uma evoluçãozinha para dar seguimento à vida e à sobrevivência.

            Cidade dos túneis?,  certamente  alguém há de estar estranhando. Calma,  os túneis não estão, por enquanto, na cidade toda, porém, mais precisamente, nas cadeias e, mais precisamente ainda, em Pedrinhas. É lá que dia sim, dia não, brota um túnel (hoje de madrugada, conforme noticiou a imprensa, mais um). É tanto túnel surgindo praquele lado que dá a impressão de que os túneis  quando descobertos, de fato não são tapados, mas reaproveitados, afinal de contas, porque desperdiçar tantas horas de trabalho e suor? O que nos faz desconfiar que deva existir por lá uma galeria subterrânea de fazer inveja aos metrôs de quaisquer megalópoles.



                                                        




            Mas, qual seria o grande mistério que faz gerar vocação tão irrefreável dos nossos  prisioneiros para furar túneis? Por acaso estariam se inspirando, neste ano da Copa, no Fuleco, nosso símbolo, que é um Tatu? Um amigo meu, psicólogo e criminalista, deu-se ao luxo de – na falta de outras – sugerir algumas potenciais razões.

            1.A leitura preferida na cadeia é  o Conde de Monte Cristo.
            O Conde de Monte Cristo, todos sabem,  é aquele romance de Alexandre Dumas em que um prisioneiro passa anos e anos cavando um túnel para escapar da prisão,  e que dá vontade no leitor de também passar anos e anos lendo, de tão delicioso. Alto lá, sei que muitos leitores já estarão criticando a ideia do meu amigo baseando-se num argumento óbvio: “Lendo livros? Que absurdo, se hoje não se leem livros em Universidades que dirá na cadeia...” no que estão absolutamente certos. Em defesa do meu amigo lembro, porém,  que esse mesmo romance já gerou mais de cinquenta filmes. Ora, quem garante que um filme desses não teria entrado num celular, desses que costumam entrar nas vaginas das mulheres para que possam, depois, entrar nas cadeias? Presos, todos  sabem, adoram um celular e um filmezinho inspirador!



                                                          





            2.Tudo faz parte de uma estratégia global de planejamento.

            De repente, pode ser algo minuciosamente planejado pelos tecnocratas encastelados na administração deste país, à procura do que fazer, nos intervalos entre uma e outra supervalorização de contratos ( à la Petrobras) . A ideia é simples. De buraco a túnel e de túnel a buraco. Como a cidade já é plena de buracos, porque não aproveitar essa imensa rede, já construída naturalmente, para interliga-las depois aos túneis construídos nas prisões? Já pensou que formidável galeria subterrânea  levando o cidadão de  um canto a outro da cidade com o que existe de mais moderno em termos de mobilidade urbana? E o que  é melhor: construído com mão-de-obra especializada!
                                                        


                                                       




            3.Passa-Tempo (ou passa-estresse) .
            Como enfrentar a monotonia das cadeias? Como distrair os apenados para que não pensem o tempo todo em coisa ruim? Como evitar que, para combaterem o estresse, brinquem de torturar o vizinho de cela?
            Essa alternativa, que poderia perfeitamente ter sido sugerida por uma dessas Organizações de Direitos Humanos ( dessas que costumam  ter pena dos assassinos , mas não de suas vítimas) está de acordo com os mais elogiáveis propósitos  de solidariedade humana . Como aliviar essa imensa população  da pressão de fazer nada o dia inteiro? Ora, a resposta é simples: furando túneis! Basta uma enxada, tempo, e de preferência, uma orientaçãozinha do guarda mais próximo.









            Finalizando, lembro que a essas hipóteses,  talvez um tanto bizarras levantadas pelo meu amigo, podem  se acrescentar muitas outras, lembrando, porém,   que se tais hipóteses soam bizarras é porque precisam explicar bizarrice ainda maior.

            Quanto a porque nunca  se vê alguém reclamar dos túneis como antes se reclamava dos buracos, a explicação é trivial: Porque não dá tempo: morre-se antes, assassinado por alguém,  que acabou de sair dos túneis.
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

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sábado, 19 de abril de 2014

ROUBADO É MAIS GOSTOSO NO BRASIL?



Artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado

Será que em algum outro país do mundo a frase  do goleiro Felipe, do Flamengo, “ Roubado é mais gostoso” pode soar - e repercutir - tão apropriada  e verdadeira ? Baseando-nos  no que se vê por  aí em matéria de impunidade,   o ‘roubado’ tem tudo para ser mais gostoso por aqui  e o goleiro do Flamengo, Felipe, cujo time sagrou-se campeão às custas de uma erro , tão absurdo o próprio goleiro chama de roubo, tem toda razão, em se permitir  essa frase,  sabendo-se que esse tipo de gozo parece fazer  parte das aspirações de uma grande multidão do Brasil atual,  que não se peja em sair na boa,  obtendo qualquer tipo de vantagem  às custas seja lá do que for.



                                                            


                Para dar apoio à fala de Felipe, há uma multidão de exemplos acumulados nas páginas semanais de qualquer revista. O roubo deve ter sabor  gostoso desde para corruptos tipo mensaleiros, que depois de julgados e condenados driblam a cadeia e ganham doações  em dinheiro como se fossem vítimas,  a até  para ladinos que se encastelam em empresas públicas  para superfaturar contratos e abocanhar seus quinhões, como se anuncia no caso da Petrobrás. Se lembrarmos, em matéria de êxtase diante do alheio surripiado,   de figuras do passado recente como Carlos Cachoeira  ou da atualidade como André Vargas tem-se a impressão de que não apenas tiveram prazer com o ato praticado. A figura de André Vargas se deliciando na carona do jatinho de um ladrão contumaz não esboça um gozo simplesmente, mas vai muito mais longe: o sujeito parece estar  tendo um orgasmo.  Ora, diante disso, a frase do goleiro flamenguista é, ao contrário do que muita gente critica, verdadeira, mesmo  extemporânea. Se Felipe candidamente dá entrevista se deliciando em tirar proveito de um roubo praticado (segundo ele)  é porque não está sozinho.  Tem muito mais gente por aí gozando com toda espécie de falcatrua. E bote gente nisso!.



                                                     



                Uma  pena é que a frase permita que se instaure a suspeita ( não só por esse episódio como em vários  outros,  e não só no futebol carioca) de que a corrupção tenha chegado ao futebol. Logo o futebol. Houve tempo em que esse esporte funcionou como uma válvula de escape para a  população sofrida e honesta, que estava longe de usufruir, ou até de perceber  a corrupção endêmica grassando em torno de muitos de seus mandatários. Talvez por essa época (de apogeu do nosso futebol) se roubasse menos no entorno dos governos porque então se achava que cometer crimes não fosse tão gostoso assim. Havia também, talvez,  uma educação que quando apreendida privilegiava os sentimentos morais e éticos. O espetáculo do futebol,  mais pobre financeiramente então, permanecia um tanto distante, ou pelo menos à margem do ambiente da corrupção  - “dinheiro atrai a corrupção como mel atrai formiga , já dizia a sabedoria popular” – monstro esse cujos tentáculos não iam até a periferia dos sentimentos populares. Talvez por isso nossos estádios vivessem  lotados,  e o Brasil fosse o país do futebol. Hoje, estádios vazios, a arte futebolística longe dos gramados brasileiros e, dos lares  em frente à tevê,  a atenção voltada para outros palcos do exterior onde se pratica um futebol mais digno de ser visto,  o que temia-se era que a corrupção houvesse chegado também ao futebol mas disso não se duvida mais  desde a promoção escandalosa  de elefantes brancos com a desculpa da Copa, para enriquecer empreiteiros e cartolas oportunistas de ocasião.



                                               
   



                Se a frase dita pelo goleiro foi  recriminada de pronto na imprensa e nas redes sociais  ( sinal que ainda existe gente honesta neste país e ele próprio  se desculpou)  é cruel ressaltar, contudo, que o que foi dito, em particularidade,  por um profissional  do esporte está longe de representar a faceta mais abominável da frase. Muito pior é admitir que ela  espelhe em algum grau a degradação moral de toda uma sociedade, quiçá complacente com tudo o que se obtenha por métodos escusos , desde que tenha  proveito próprio. No caso, o goleiro é menos culpado e pode ter sido vítima de uma frase impensada que tenha apenas  expressado ,de forma inconsciente,   a nudez moral de que está revestido o ambiente que o cerca.    Esse é o perigo maior que não está na frase do goleiro, porém,  visível muito mais nas arquibancadas construídas com o dinheiro do povo para enriquecer espertalhões
                Que fanáticos torcedores, sejam flamenguistas, vascaínos, palmeirenses e corintianos  se digladiem e sejam capazes de gozar com o surgimento dos aspectos mais deletérios de uma competição antes restrita aos gramados, é até compreensível. O difícil de aceitar é que profissionais culturalmente mais preparados do que jogadores  de futebol entrem nessa de ter orgasmos com o ganho obtido de forma indevida.  Se “Roubado é  mais gostoso” foi apenas uma frase infeliz de um profissional brincalhão e inconsequente,  que a sociedade reflita porém no seu significado  para estanca-la na fronteira das rivalidades futebolísticas. Que não se transforme em objetivo de vida e em norma de conduta de nosso povo. Pelo futuro de nossas crianças.

                                                                                                                             ewerton.neto@hotmail.com                                                                                  http://www.joseewertonneto.blogspot.com

sábado, 12 de abril de 2014

CHATICE JÁ NÃO TEM CURA




artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão, hoje,
sábado


Esse mundo anda meio chato faz tempo. São chatos o imposto de renda, o patriotismo oportunista de Galvão Bueno e Felipão,  o aquecimento global, as manifestações e as barreiras eletrônicas. Oscar Wilde, o genial escritor inglês dizia que não existe pecado maior que o tédio, mas não gostaria de arrolar a chatice ao tédio. O tédio é parente da melancolia que por sua vez é filha da tristeza, a que se deve a maioria  das obras de arte .  Que o tédio fique em paz, desta vez.



                                                                  




Estamos falando da chatice mesmo, algo que a  sociedade moderna tornou imperativa, e cruel, porque se sobrepõe à liberdade, pelo menos,  de se pensar.   É  tão chato um vírus em seu computador como uma secretária eletrônica lhe atendendo. A felicidade obrigatória dos livros de autoajuda é tão chata quanto o strip-tease sentimental do facebook e a chatice de ser obrigado a votar é tão chata quanto  a corrupção que vem  depois. Mas a chatice só ganha contornos de algo avassalador quando o que já é chato em si mesmo evolui para tornar-se ainda mais chato. Como por  exemplo: durante muito se pensava que não podia existir algo tão chato quanto música sertaneja, mas logo surgiu a música sertaneja universitária o que  faz com que se tenha saudade da primeira – dá pra acreditar? Quando se pensava que não poderia haver alguém tão chato quanto Pedro Bial eis que o colocaram para dirigir o programa mais chato que alguém poderia inventar, o tal Big-Brother. Esse é, pois, o drama do século: a modernidade tornou-se especialista no poder de aprimorar a chatice.


                                     




                                   Donde vem a primeira tentativa de definir o que seja a chatice. Chatice seria  a tendência que têm as aporrinhações irremediáveis de se transformarem, naturalmente, em torturas. Mas, peraí...A isso não se deveria chamar, ao invés, chatice crônica? Sim, porque, por definição, chatice crônica deveria  ser uma coisa e chatice outra. E agora? Estamos vendo que o pior da chatice é justamente isso: não existem termos capazes de classificar exatamente o que seja ela.

                                   E não seriam todas as definições da chatice tão chatas porque necessariamente insuficientes?  Fernando Sabino o escritor mineiro tinha uma boa interpretação do que é ser enjoado quando dizia: “Chato é aquele que te rouba a solidão sem te fazer companhia.” Montagne, o filósofo, dizia que toda infelicidade do homem principia em não conseguir ficar sozinho em seu próprio quarto. Alguns dirão que Montagne era um chato. Claro que Montagne não era chato, muito menos o que fazia no quarto ( considerando que não havia revista Playboy nesse tempo, e nem pornografias via celulares).

                                   Outras definições surgem, de repente, nessa vã  tentativa de resumir o chato e a chatice em uma frase. Eis algumas delas:  
                     
1.“O chato é um fingidor. Finge tão completamente que consegue  tornar-se um chato ainda maior do que realmente é.”  Parodiando Fernando Pessoa.
                                    2.“A vida, às vezes parece chata, mas a outra opção é muito pior.”L.F.Veríssimo
                                   3. “Certos  escritores de autoajuda não são mais chatos não só porque o dia tem só vinte e quatro horas, mas porque o alfabeto só tem 23 letras”.                     
4. “Os chatos  parece que não morrem nunca. É fácil explicar: Deus
não os quer no céu,  nem o diabo no inferno.”
                                   5.“Somos um subproduto da chatice. Se a eternidade não fosse tão chata Deus não teria inventado o Big-Bang, por falta do que fazer.
                                   6. “A única vantagem de um sujeito ser escritor é que mesmo sendo um chato a vida inteira, pode se tornar, dependendo do que escreveu, um sujeito agradável depois dela”.
                                 7. “Nada a ver com a vida em si. O chato de se viver é que por mais que se tente fazer tudo certo as coisas acabam sempre irremediavelmente dando erradas. No final.”


                                                                  

                                       

                                   A considerar que, pelo menos uma das frases acima, seja merecedora de crédito  no árduo intuito de se chegar perto do que seja uma boa definição para o chato ou a chatice, já temos um bom começo para uma possível  Teoria Universal da Chatice. Se o leitor agüentou o cronista até aqui, de uma coisa pode ficar certo: a crônica até que não foi tão chata assim.  E, por favor, cuidado para não confundir chatice crônica com crônica chata. Obrigado!

                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com
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