sábado, 8 de setembro de 2012

SE SÃO LUIS...




Se São Luiz fosse uma mulher 
ainda assim  seria uma ilha.  Vá lá, o poeta disse que nenhum ser humano é uma ilha, mas São Luis teria de ilha o que somente certas mulheres têm: o comportamento reservado e especial, a pose paradisíaca, a aura oceânica cercando-a por todos os lados como  se dela pudesse jorrar, de repente...uma fantasia amorosa. Já repararam na reverência que salta aos olhos de quem observa uma mulher-ilha se aproximar?
                        Sendo ilha (o que nem de longe significaria que fosse orgulhosa ou inacessível) teria forçosamente também os braços longos, que avançam em direção ao resto do mundo. Pois é, suas pontes seriam seus braços e que braços! Acordam abraçando o alvorecer como a uma criança, seguindo depois para o quotidiano  e o que vier.
                        Sua cabeça - e com certeza São Luis não seria uma dessas mulheres espevitadas e sem cabeça – teria tudo para ser a mesma do poeta Gonçalves Dias, pequenina lá do alto em sua praça, contemplando o mar e a poesia.
                        Seu coração, quer queiram quer não, teria de estar no centro. Como todo mundo sabe, existe uma turma de administradores arvorados a  seus donos, que tudo fazem para remover seu coração dali. Ora, mais que insensíveis são, sem dúvida, péssimos cirurgiões, pois o coração de uma cidade, como o de uma mulher-ilha, é ‘intransplantável’. Alguns anos atrás, a cidade foi atendida em uma cirurgia que lhe reabilitou o coração, numa operação muito propriamente chamada Reviver. Ultimamente, alguns de seus administradores tem tido a iniciativa de revitalizar certas ‘artérias’ que inflamam seu coração. Demoraram a aprender que não há porque maltratar o coração de uma mulher que precisa, ao contrário, ser tratado com muito carinho. Pode-se dizer que esse coração, apesar de tantos maus-tratos acumulados ao longo de sua vida, resistiu à passagem dos séculos  e resistirá à dos milênios.   
                  Seus olhos, claro, não se parecem nem um pouco com os semáforos e as barreiras eletrônicas que ficam espiando qualquer distração do cidadão, para calcar-lhes uma multa. (Isso se chama extorsão). Muito ao contrário, seus olhos são vigias noturnos de sua tranqüilidade: movem-se como os vaga-lumes, e dia claro, já estão nos raios de sol que descendo  do céu clareiam a vida da cidade e sua paisagem.
               Seus ouvidos continuam imunes a todas as perturbações que a velhice, se é que podemos falar assim, lhe impõe. Aprenderam a ouvir de tudo: forró, reggae, trovões nas tempestades, foguetes no Reveillon etc., mas nada lhe causa mais incômodo do que propaganda de político. É impressionante como estes, que dela se propõem a cuidar,  sejam os primeiros a não terem dó dos seus ouvidos.  Imperturbável, ela sequer se protege com fone de ouvido, espera pacientemente pelo som da maresia batendo nos arrecifes quando chega a madrugada e pronto, está disposta para um novo dia. Além de bela: heróica e elegante.
            Quanto a seus pés, prefere andar descalça. Isso para não tropeçar nos buracos que seus administradores lhe impõem. Um buraco ali, outro ali, ela se fere acolá, mas jamais perde a elegância. Para isso  tem as pernas grossas de tanto subir as ladeiras  que a levam do centro à Praia Grande, seu roteiro preferido.

                                                                          

            Por fim, sua boca. Ah, sua boca, que não se parece nem um pouco com a de Angelina Jolie, ou de Carolina Dickman, e nem precisa! Parece-se isto sim com a da mulata faceira e sensual do grande escritor maranhense, e que se alimenta, além de beijos, de um bom  arroz de cuxá e peixe frito, no intervalo de um caranguejo e outro. Só não me pergunte onde, para não despertar ciúmes de donos de restaurantes. Aliás, essa mulher não é chegada a restaurantes pseudo-chiques do Calhau e adjacências. Já foi encontrada para os lados do Quebra-Pote, na Raposa, no Araçagi ou em qualquer lugar onde a poesia se misture com a comida. Já não se disse que o vinho é o prato intelectual da comida? Pois é, São Luis é o prato intelectual de qualquer restaurante da ilha, e, como o vinho, quanto mais velha melhor e mais saborosa para todo aquele que tenha o mínimo de refinamento cultural.
            Alguém a encontrou por aí? Por favor, dêem-lhe os parabéns por mim, e não se esqueçam de dizer-lhe que, mesmo quatrocentona, continua cada vez mais jovem e mais bela!

                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com
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sábado, 1 de setembro de 2012

JULIANA PAES GABRIELA X SONIA BRAGA GABRIELA




artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão



Juliana Paes x Sonia Braga. Se todo brasileiro gosta de novela   político parece gostar mais ainda. Repórteres do CQC foram entrevistar políticos em Brasília para investigar se eles se interessam mais por novela ou pelo Brasil. Alguém duvida da resposta? Do Brasil não querem saber, mas da Avenida Brasil...Todos sabiam da última de Carminha e  de quantos chifres tinha o Tufão etc., mas nenhum deles sabia citar os nomes dos  réus do processo do Mensalão.
                        - Zé Dirceu? Esse não era um jogador que jogava no Cruzeiro, no tempo de Tostão?
                        - Não, esse era outro Dirceu. O Dirceu Lopes
                        - Ah, sim, o Zé Dirceu... Acho que agora me lembro. Era o barbeiro preferido do Lula, não? O que ele fez ou deixou de fazer?
                        Alguns poucos se lembravam, vagamente, de quem era Zé Dirceu.
                        O que é muito compreensível. Por que um político (de verdade) se interessaria pelo julgamento do mensalão se ele já sabe, mais que ninguém, do resultado? Nas novelas, pelo menos, dá para se torcer por um final: previsível, mas ainda assim, um final. Já os julgamentos de políticos, como todos sabem,  tornaram-se  novelas de péssimo gosto: encenação,  atores pífios, e direção de reality show de segunda categoria esmeram-se para que as acusações se diluam no cotidiano do cidadão brasileiro, rumo à absolvição previamente anunciada. Cadeia, se houver, vai ser só para um passeio de fim de semana.

                        2. Mas a disputa ‘anunciada’ acima era entre Juliana Paes e Sonia Braga, e não Mensalão x Novelas. Nesta, há mais gente do que se pensa; motoristas de táxi, estudantes, donas de casa, papagaios e ursinhos de pelúcia empenhados em dar a sua sincera opinião. Afinal de contas, ser Gabriela não é para qualquer uma.
                        Como o ser humano é, por natureza, saudosista ( todo nascimento de alguém é um ato de nostalgia em que o bebê já nasce chorando de saudade da barriga da mãe ) Sonia Braga parece estar levando uma pequena vantagem. É que Juliana não consegue disfarçar, apesar da exuberância e sensualidade, que  já adentrou naquela faixa, de vinte e cinco aos trinta, que  são os ‘dez’ anos que mais custam a passar para uma mulher.  Se quiséssemos nos aprofundar, no entanto, o mais lógico seria que chegássemos a um empate técnico. Senão vejamos.
                        1. Beleza. Neste quesito eu, por exemplo, acho que sou mais a Sonia, embora  Juliana não seja – nem de longe! - de se jogar fora. Quer dizer, eu mesmo não sei. Quem sabe eu seja mais a Sonia por dentro (embora nunca vá saber, infelizmente), enquanto a Juliana é melhor por fora. Aliás, as duas se parecem tanto que Jorge Amado, hoje no céu, deve estar arrependido de não ter feito Gabrielas gêmeas.Uma pro turco e outra para ele - que me perdoe a Zélia Gatai.

                                                                      

                        2. Altura. Parece que Juliana é mais alta, mas será que isso é mesmo uma vantagem? Se é melhor para  trepar no telhado, como Gabriela gosta, deve ser bem pior para subir em árvores ou para dançar no meio da rua como ela também gosta. Igualmente, deve ser bem pior para dar uma escapada sem ser vista como ela gosta mais ainda.  

                                                                 

                        3. Sensualidade. Acredito que neste quesito Juliana ganhe por alguns milionésimos de diferença, não é mesmo? Provavelmente, a diferença deva estar está nos olhos de Juliana Paes “de ressaca parecendo uma epilepsia do mar” como disse de Capitu seu autor Machado de Assis. O escritor carioca falou isso se referindo a Capitu, mas deve tê-lo feito pensando também em Gabriela, de Jorge, o que evidencia, sem dúvida, um adúlterio intelectual, mas perfeitamente compreensível dado o que suas heroínas eram.
                        4. Gabrielismo. Qualidade de ser Gabriela. Já li o livro há tanto tempo que já não sei perfeitamente o que significa ‘ser Gabriela’, mas acho que deve ser uma coisa assim, meio baiana, do tipo “fingir tão completamente, que chega a fingir que é inocente  do desejo que faz os  homens sentirem”. Nessa história de Gabrielismo talvez facilite, (recorrendo mais uma vez a Machado) se dissermos  que Gabrielismo é aquilo que uma Capitu seria se tivesse nascido na Bahia, ao invés de no Rio.         
                        Portanto, é difícil evitar o empate embora  muita gente ache que não há como Sonia não ter sido mais Gabriela do que a Juliana está sendo, até mesmo porque, na época de Sonia ainda não havia sido inventado o Viagra. Ora, não era qualquer uma que seria capaz de fazer aqueles embolorados coronéis  transarem tanto num capítulo só. Era preciso ser muito Gabriela para isso!
                        Enfim, empate técnico, que há de soar para as duas como o título daquele filmezinho tão antigo:
                        “Matemática zero, amor dez.”                                                                                                                                                     ewerton.neto@hotmail.com                                                                      http://www.joseewertonneto.blogspot.com

sábado, 25 de agosto de 2012

O BRASIL VAI CHEGAR LÁ




artigo publicado hoje, sábado, na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal O estado do Maranhão


Como todo mundo sabe, apesar do oba-oba, foi muito pífia a participação brasileira em mais uma olimpíada. Ficamos pra lá do vigésimo lugar no cômputo das medalhas conquistadas, a maioria nos esportes com bola. Ou seja, sem bola o brasileiro não ganhou quase nada, o que, aliás, está muito coerente com a vocação nacional de almejar sempre ‘ganhar uma bolada sem fazer nada’, como comprova a infinidade de candidatos picaretas que, saídos sabe-se lá de onde, percorrem as ruas da cidade atrás de votos nesta época de eleição.
                        Isso sem considerar mais um bronze ganho pelo Brasil.  A nossa atleta-presidente Dilma Roussef ganhou o título de terceira mulher mais poderosa do mundo segundo a revista Forbes , perdendo apenas para Hillary Clinton, dos USA, e Ângela Merkel, da Alemanha.
                        Para que ela se torne mais poderosa ainda e na próxima possa levar o ouro, sugerimos algumas ligeiras modificações nas modalidades olímpicas. Quem sabe assim o Brasil chegue lá.  

1.      Salto com Vara. Bastaria passar de salto ‘com’ vara para salto ‘na’ vara. Como as brasileiras sempre se gabaram de serem  boas nisso, o ouro logo estaria em nossas mãos. Basta lembrar que, além do elevado potencial, temos atletas consagradas, como as peruas da tevê brasileira. Para estas, como todo mundo sabe, basta botar um gigolô jovem na frente que viram campeãs, também, em salto triplo.
2.                 Revezamento 4x100. Temos bem mais que quatro especialistas em revezamento em busca de cem, mas alguns são mais perfeitos. Se não estiverem presos até lá (o que ninguém acredita) Delúbio Soares, Marcos Valério, José Dirceu e José Genoíno, terão a vasta experiência em mensalões  para garantir que se darão bem. Lembrando que o cem, no caso, é de milhares de dólares.
3.                 Tiro ao não-Alvo. Popularmente  chamado de  bala perdida é um dos esportes mais praticados no Brasil e tende a ser difundido ainda mais. Em nenhum outro lugar do mundo existem atletas tão talentosos em ‘acertar’ uma bala perdida como no Brasil. No Rio de Janeiro, sede da próxima olimpíada, então, nem se fala.!


                                                


4.                 Taekwondo. Traduzido do japonês ao pé-da-letra o Trazqueeudou é um esporte muito praticado em todo o território nacional pelas mulheres,  depois de intensamente divulgado pelas redes de televisão a partir de programas educativos como novelas e BBBrasil. Um detalhe nos enche de esperança em encontrar uma super-atleta: em nenhum outro lugar, mesmo nas antigas zonas de prostituição, o Traz-que-eu-dou é praticado tão bem como no Big Brother Brasil.
5.                 Corrida com Barreira. No Brasil, qualquer rua que se preze, de dois em dois quilômetros tem uma barreira eletrônica, o que torna qualquer brasileiro, minimamente considerado motorista de um veículo, um  especialista nesse esporte.
6.                 Natação, 200 m borboleta. Bastaria que fosse adaptado para natação 200m com muriçoca. Assim, se tornariam especialistas todos os brasileiros das populações nordestinas ribeirinhas dos rios, no final do ano. Se nosso comitê olímpico pretendesse descobrir um grande atleta era só esperar pela época das chuvas.  
7.                 Arremesso de disco. Bastaria que nos permitissem  escolher o disco. Qualquer disco de forró ou de música sertaneja entregue a um atleta com ouvido um pouco mais apurado já seria o suficiente para nos dar a vitória no arremessamento.

                        E assim por diante, mas se houverem restrições do COI para as adaptações acima citadas, que tal lutar para introduzir novas modalidades, desta vez  inspiradas nos políticos maranhenses em época de eleição? .


                                                                            

1.                 Segurar pau de bandeira. Nenhuma modalidade esportiva em qualquer época foi tão rica na exibição de até onde pode chegar a resistência humana. Basta observar o batalhão de mulheres que atlética – e heroicamente se dispõem a segurar pau de bandeira de propaganda política em cima das pontes para constatar que aqui se mede: paciência, perseverança, resistência ao sol, ao suor, á fome, ao baixo salário e ao vento poluído, mais que suficientes para reconhecer que essa modalidade original,  mais rica até que o decatlo, tem tudo para  ser introduzido como um esporte olímpico por excelência, a ser vencido pelas abnegadas brasileiras.                     
                        Como diria o escritor: “As nordestinas são, antes de tudo, fortes!”                                                                                        ewerton.neto@hotmail.com
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domingo, 19 de agosto de 2012

JUVENTUDE?



artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o estado do Maranhão, ontem,
sábado




“Esse é juventude” foi um dos slogans que ficou na minha memória, dos tantos que vi por aí de candidatos apregoando a sua juventude como atributo para conseguir o voto do eleitor. Ao lado do slogan, a foto do sujeito, aparentemente jovem, adicionada certamente - para consumo visual do público - dos efeitos rejuvenescedores das técnicas do photoshop.
                        Esses reclames se repetem à exaustão; ou no som torturante dos carros ou nas fotos coladas nas chaparias dos veículos, feito nuvens de muriçocas - dessas que passaram a infestar nossas casas, estimuladas pelo calor do verão.  “ Juventude e experiência”, “Juventude e competência”, “ Jovem e trabalhador” , “Juventude a seu serviço” etc. etc. A diferença, para pior, é que aos mosquitos se pode espantar com inseticida, enquanto que não há arma capaz de nos proteger desse ‘ataque avassalador de juventude’. O que provocou, dias atrás, o comentário mordaz de um conhecido, motorista de táxi: “Pelo visto, desta vez não teremos uma câmara de vereadores, mas uma creche”.
                        Donde se conclui que, pelo visto,  o simples fato de alguém ser jovem,  de repente, passou a credenciá-lo para ser votado, quando ao que se sabe o que deveria credencia-lo seriam suas realizações ou suas idéias. Alguma  explicação para isso? Qual a razão para a ostentação obsessiva de uma fase comum da existência, como se isso fosse um atributo?  Talvez a explicação passe   pela cultura atual de busca desenfreada da ‘eterna juventude’ , valorizada pela mídia com fins consumistas (conforme denunciado pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky , nas páginas da revista Isto É desta semana)  ou talvez a explicação seja muito mais simplista: a parvoíce de um eleitorado bronco que se reflete no seu ato de votar em alguém  apenas porque este exibe um retratinho de adolescente, de sorriso abobalhado. O que faz recordar, muito a propósito a frase do escritor russo: “Até a mais radiante juventude,quando num balcão de negócios, transforma-se rapidamente em troco vagabundo e envelhecido.”
                        Esses candidatos e seus potenciais  eleitores,  parecem saber muito pouco de juventude. Quem sabe, consigam aprender um pouco mais:

                              

" A juventude é uma conquista da maturidade.” Jean Cocteau

" Existe muita gente que confunde curtir a juventude
com  juventude curta "


" A liberdade é uma ilusão da juventude.
A juventude é uma liberdade da  ilusão."


" A juventude é aquela fase maravilhosa da vida
que você só vive em plenitude, depois que
descobre que ela passou."


" A juventude é uma festa para a qual todos
são convidados, mas poucos entram, porque
termina cedo demais para os jovens
e começa tarde demais para os velhos".


"Hoje em dia não existe  mais juventude. A maioria passa diretamente
de criança precoce para adulto retardado"


"A juventude não é um  período de tempo, uma estação,
uma época para pessoas de pouca idade, mas um encontro, independente da idade, de alguém com seu próprio deslumbramento".

                                                           ewerton.neto@hotmail.com                                                                                                    http://www.joseewertonneto.blogspot.com

sábado, 11 de agosto de 2012

O MELHOR PRESENTE PARA UM PAI



artigo publicado hoje, sábado, na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal O estado do Maranhão



A equipe de reportagem entrevistou algumas pessoas procurando saber qual o presente que os filhos estavam comprando para seus pais e o que lhes dariam, se pudessem.

            1. Pablo, 17, mora na Cidade Operária. Comprou-lhe uma gravata. Daria, se pudesse, uma periguete para ele parar de encher o saco da sua namoradinha de 15 anos, Keyla, que ele apelidou de Calú, dizendo-lhe piadinhas sem graça, e querendo se insinuar. (Calú – epa!, Keyla – vive ameaçando lhe deixar porque já não agüenta mais).   


            2. Marlon, 12 anos, mora na Cohab. Comprou-lhe uma camisa do Flamengo. Daria se pudesse o time inteiro do Flamengo, inclusive o Cáceres – que está chegando do Paraguai e um Cárcere (este do goleiro Bruno) para que o   pai, que se embebeda toda vez que o time perde, não ameace mais lhe expulsar de casa por não querer estudar. 

                                                                             

            . 3. Franco Júnior, 14 anos, mora no Felipinho. Comprou-lhe um depósito portátil de uísque. Daria se pudesse um alambique completo para ele parar de mexer no seu notebook, toda vez que está bêbado. O que acontece a cada dois dias.     

            4. Surama, 18, mora no Anjo da Guarda. Comprou-lhe  um ursinho de pelúcia cor-de-rosa. Daria, se pudesse, ao pai que é cabeleireiro uma assinatura do Jornal do Anjo da Guarda, para ele aprender como vai ‘sair na foto’ se continuar a dar em cima do namorado de sua colega, Sharlene, que é traficante perigoso e não gosta, nem um pouco, desse assédio.  

            5. Técio, 11, mora no São Francisco. Comprou-lhe um time de botão. Se ele não perceber a indireta daria se pudesse um time de futebol de marmanjos para ele tomar conta e parar de se meter a técnico do time de futebol júnior do bairro, onde joga e que se chama Demolidores F.C.  Isso quando não entende de querer jogar na ponta-esquerda




            6. Vadinho, 18 anos, mora no Centro. Comprou-lhe um cedê pirata da Jovem Guarda. Daria se pudesse um baita som de carro para que ele passasse a escutar muito longe de casa esse tal de Márcio Greyck, que ninguém agüenta mais ouvir dentro de casa quando ele está ‘consertando’ alguma coisa, todo sábado pela manhã. .

            7. Baron, 20 anos. Mora no Jardim América. Comprou-lhe um relógio paraguaio. Daria se pudesse, uma casa em Jacaré dos Homens nas Alagoas, ou na Conchinchina, para que ele fosse embora de vez e os deixassem (ele, sua mãe e o amante dela) em paz para sempre.  Com a casa, naturalmente.

            8. Maicom, 9 anos, mora no São Francisco. Comprou-lhe uma agenda. Daria se pudesse uma coleção de revistas Playboy para que ele não fique fuçando suas revistinhas de  sacanagem que o professor de matemática  do colégio onde estuda, lhe empresta,  de vê em quando.

            9. Cristana, 18 anos, mora no Calhau. Comprou-lhe uma garrafa de vinho tinto (adquirido por sua mãe). Daria se pudesse, uma adega de vinhos importados se ele prometesse nunca mais lhe abraçar com seu insuportável mau hálito de álcool quando quer se exibir para os amigos. Pois sabe muito bem que ele não conhece vinho algum e gosta mesmo é de emborcar, disfarçadamente, uma boa caninha do engenho.

                                                                                                                                                                                                         ewerton.neto@hotmail.com
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domingo, 5 de agosto de 2012

UM A-B-C BEM HUMORADO





O A-B-C BEM HUMORADO DE SÃO LUÍS (4)



                                                                                             
           
            Para que ficar mal-humorado com as musiquinhas de propaganda política que começaram a infernizar nossos ouvidos a partir de Agosto? Com certeza, essas não entraram A-Gosto e a coisa vai piorar ainda mais com o horário eleitoral gratuito.
            Para compensar segue, em sua quarta edição, o A-B-C BEM HUMORADO DE SÃO LUÍS, sempre na “cola” dos livros sobre expressões idiomáticas maranhenses de J.R.Martins e José Neres.                                   
                       


            1.Vender Toicinho – Expressão usada quando parte da combinação ou anágua aparecia debaixo da saia. Ficou definitivamente fora de moda depois que o toicinho “hoje mais conhecido como cofrinho” passou a surgir, ao vivo, ao invés de por baixo da anágua, por cima das calças de cós baixo das maranhenses espevitadas.

            2.Vender cocada – Acompanhar casal de namorados, segurar velas. A evolução dos costumes está fazendo com que gradativamente a expressão esteja mudando para vender coca. (Há muito tempo que deixou de ser entediante  acompanhar casais de mauricinhos e patricinhas depois das baladas : nada como um pouco de coca...ína para a suruba ser completa!)

            3.Um cu de boi – Confusão generalizada; algo muito difícil de entender. Tudo teria começado quando era muito comum, após o chifre, a confusão. Se já havia o boi e o chifre só faltava a confusão, ou melhor , o cu  do boi.  

                                                                        

            4.Tomar gosto – Dirigir-se a alguém desrespeitosamente. As meninas de hoje já não ligam muito para isso. Quando alguém toma gosto, elas gostam tanto que até sugerem o sabor: “Quer de cupuaçu ou de murici?”

            5.Tirar o pé do lodo - Subir na vida, lograr êxito em alguma coisa. Como comprovam os fatos para os lados do Congresso Nacional, por lá, tira-se o pé do lodo  mas a cachoeira fica.




            6.Só quer ser. Diz-se da pessoa que quer ser mais que as outras. Versão popular maranhense do dilema existencial britânico,  ‘ser ou não ser’ de Shakespeare. À exceção dos corruptos e agiotas da terra que mandam matar e roubam mas não querem ser o que são, por aqui, todo mundo que só quer ser,  não é.

            7.Tirar do cu com gancho – Conseguir algo com muita dificuldade. Parece que hoje em dia a coisa já não está tão difícil assim, de forma que a versão vice-versa da expressão anda mais realista.  

                                                                        

            8.Quero ser pira de cachorro. Expressão cada vez mais em desuso e que era empregada antigamente para reforçar a verdade de certas afirmações. Dizem que, literalmente,  hoje tem cachorrinho de  madame que está passando muito melhor do que funcionário público maranhense, após a transferência  do Hospital do Ipem para a cidade Operária. Vale mais a pena ser pira de cachorro.

            9.Pedir pepeú – Pedir clemência. Teria evoluído como uma corruptela da expressão pedir papel. Diarréia sem papel (higiênico ou qualquer outro)  é fogo!

            10.Necas de pitibiriba. Negativo, sem nada, absolutamente não. Difícil descobrir de onde teria surgido inspiração para tal expressão, onde se conseguiu extrair o máximo universal da negatividade do nada. Exemplo prático: “Descobriram a Partícula de Deus? Necas de pitiriba” E estamos conversados...                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com
                                               http:///www.joseewertonneto@blogspot.com

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

QUASE





UMA INTRODUÇÃO À TEORIA DO QUASE                                                                          

                       
                                   Esta semana, na SBPC, o cientista israelense  Daniel Schetman apresentou o estudo pelo qual recebeu o Prêmio Nobel de Química de 2011: a descoberta dos quase-cristais , que revolucionou o conceito dos químicos sobre os materiais sólidos. Ele disse: “ Ao longo da vida utilizamos uma série de produtos e objetos que têm os quase-cristais como base de sua matéria e nem percebemos isso”. Ou seja, sendo otimistas, somos quase e nem percebemos. O que, um pouco menos, significa: “Quase somos e nada mais.”
                                   Quando dias atrás, a descoberta da partícula de Deus, ou o bóson de Higgs sacudiu a comunidade científica no mundo inteiro, quem duvida de que estávamos simplesmente diante de uma quase-descoberta? De algo que apenas insinua e que não se resolverá nunca porque sempre haverá  algo mais a ser descoberto? O que só faz ganhar corpo cada vez mais A Teoria do Quase...  
                       
                                   Porque em tudo que existe na vida existe um quase, e esse quase – nunca reconhecido-  é a lei maior do universo, a única verdade que existe e que jamais surgirá em sua plenitude porque...existe o quase. O que, afinal de contas, apenas comprova a teoria.
                        O quase está por trás de qualquer gesto: de qualquer atitude, de qualquer pensamento. Tudo na vida é quase. Quase sonhamos, quase  prosseguimos, quase que a minha amiga ganhou no show do milhão, quase que a Xuxa era bonita, quase que meu amigo me conseguia um grande emprego, quase que a boazuda da farmácia me deu bola, 
quase que somos felizes, quase que está começando mais uma teoria estapafúrdia etc.etc.  Mentira? “Não existe caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho.” já dizia o especialista Dalai Lama. Portanto, a felicidade e tudo que se almeja e deseja na vida é um quase e quem propaga isso como fácil é um bobo ou um impostor. Quando supomos que  atingimos a felicidade ela acaba e é isso que justifica a vida: o quase possui-la, nunca em definitivo. Ainda bem que existe o quase, pois é o que dá sentido à vida. A rigor, a bem da verdade, deveríamos ser mais contundentes em sempre responder de acordo com a verdade.
-                                                                    Qual é o seu nome?
-                                                                    Quase João da Silva.
-                                                                    Como???
-                     Quase , porque nunca haverá um João da Silva completo, se existem tantos por aí ,  se vou morrer um dia e se ninguém sabe quem eu sou e o que eu quero, além de meu relógio e o barbeiro da esquina.
                        E aí por diante. Um casal jamais deveria dizer sim a seu par. Ao invés, na hora de declarar seu amor deveria dizer quase sim porque é apenas isso que pode prometer: uma quase dedicação, uma quase renúncia, um quase amor, pois se existe uma série de sofrimentos investidos no amor, em nome de sua própria identidade ninguém pode ser capaz de um amor total e absoluto.
                        Einstein já havia quase provado isso com a sua Teoria da Relatividade que deveria se chamar teoria do quase. Ora, se como disse ele o tempo e o espaço são relativos,   - e tudo que se considera sólido são apenas ‘quases’ -  que dirá da vida que nada mais é do que espaço, tempo e luz? Não precisaria ser físico para chegar à mesma conclusão, provoca a teoria. Se o ser humano passa 1/3 do seu tempo dormindo e, portanto, quase-morto, tem na melhor das hipóteses, por definição uma quase vida. Alguém dirá que se a vida é um quase, a morte, ao contrário é total,  absoluta...mas, quem garante? Ainda que não acreditemos na vida após, ninguém pode garantir nada, nesse caso, nunca seremos mortos, mas quase-mortos.
                        Pensando bem, de total mesmo na vida, só a idéia de idiota que os políticos têm de seus eleitores. Se  eles acreditam que podem aporrinhar o dia inteiro os ouvidos de todo mundo com músicas estúpidas, carreatas e passeatas,  e ainda assim, estes serão capazes de votar nos mais aporrinhadores, isso não seria  coisa para quase-idiota, mas para idiota total. Quase-loucos, defende  a Teoria.  

                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com
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sábado, 21 de julho de 2012

BARBEARIA DE SHOPPING



artigo publicado hoje na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal O Estado do Maranhão




Careca, eis aí um nome feio. Porém, mais feio do que o nome é o que representa. Cada  vez mais procurava imaginar a sensação, iminente, dos que a possuem em plenitude: um deserto na cabeça, a vizinhança dos astros, strip-tease do coco, placa luminosa, saudação aos pássaros? Não, nenhuma razão para aceitar, passivamente, a derrota.
            Decidido, atravessei aquela porta sofisticada demais para os meus costumes. ( Eu, que só cortava cabelo com o Marivaldo, dono de botequim e que corta cabelo em pé, entre uma cachaça e outra,  cobrando de três a cinco reais - a depender de quanto o Moto Clube perde a noite passada). Fui atraído pelo cartaz, enquanto caminhava pelos corredores do Shopping : Raul`s Unissex , know-how francês, método revolucionário de criar ondas. “Será algum feiticeiro  do mar?”, perguntei-me.  
            Adentrei o ambiente como um caubói do antigo faroeste adentrava o saloom: como um bom Charles Bronson, ou melhor, como Yul Brinner - de 7 homens e um destino - por razões óbvias.  Só que a ausência do chapéu me dava uma sensação de desamparo. Adiante de mim o barbeiro, ou  melhor o cabeleireiro, ou melhor,  o coiffeur,  segurava uma arma: o pente.
            Tentei ser o mais másculo possível porque o que via ali me deixava atordoado. Eram homens, mulheres ou nem uma coisa nem outra? De qualquer forma, falei:
            - Quero cortar o cabelo -  da mesma forma como diria, “ Quero cortar o pescoço”
            - Cortar o cabelo? – perguntou o meu ‘salvador’, com a voz tão fina que não parecia ter saído dele, mas do fio do secador que segurava. A atenção do público se voltava para mim, talvez pretendendo adivinhar que cabelo eu ia cortar.
            - Aqui não corta cabelo de homem?
            - U-N-I-S-S-E-X – Respondeu o  cabeleireiro, separando tanto as sílabas que o que ele disse não pareceu significar um sexo, mas milhares. - Deseja fazer unha também?
            - Não, acho que já nasceram feitas, por favor!
            - Hum, já entendi. Kátia! Leve o senhor para lavar a cabeça - ordenou aquele que eu supus que fosse Raul.
            Notei que ele não falou cabelos, mas cabeça. Lembrei com pesar do Alfredão, da barbearia de minha infância quando os meus cabelos eram fartos e eu não precisava passar por isso: havia uma mistura de mijo com Glostora e retratos de Xuxa e Luiza Brunet nuas, pregadas na parede, ao redor do espelho.  


                                                                     



            - Você quer frisado, taqueado, escovinha, com topete, à la Neymar, para trás, para o lado, para cima ou para baixo?
            Não, não era um profissional, era um mágico.  
            - Como?!
            - Alguma forma preferida de corte? – Notei um pingo em seu sorriso e percebi que esse pingo estava mais para ser de ironia do que de shampoo..
            - Bem, eu prefiro mesmo aquele que fica em cima da cabeça -  assenti sem muita convicção.
            Fechei os olhos para não ver. Que angústia!Os dedos dele dançavam um carnaval frenético na minha cabeça. A maldita sensação de a minha cabeça ser um pandeiro, era fácil suportar. O que não dava para agüentar eram as técnicas francesas de Raul. Um vento quente aquecia minha nuca constantemente. Pensei que fosse o secador até quando lembrei de que secador não tem mal-hálito.
            Hora e meia de eternidade depois de tanto sofrimento ( cuja duração só entendi como uma forma de justificar a partida sem regresso do meu último cinqüentinha)  o resultado:
            - Mas... – e eu olhei de um lado para o outro aturdido – Cadê?
            - Cadê o quê? – indagou o cabeleireiro
            - Meus cabelos! – gritei com todas as forças do meu pulmão
             Raul, impassível, parecia não entender a extensão do meu problema.
            - Você quer dizer, seus tufos de cabelo? Ora, não seja ridículo. Fiz a única coisa possível diante de sua carência de pelos cranianos: uma careca decente. Se não estiver satisfeito compre uma peruca e caso não tenha dinheiro use um guarda-chuva ou um boné. Na sua situação qualquer coisa serve. 
            Foi um bom conselho que sigo à risca. Integrado à minha careca mais rápido do que imaginava o guarda-chuva, ou o boné me livram da sensação de nudez em cima da minha cabeça que me apavora.
            Ah, ia me esquecendo: voltei ao Marivaldo. Não, não para cortar cabelo. Para falar sobre o custo de vida – e a economia de não ter cabelos.
                                                                       ewerton.neto@hotmail.com                       

sábado, 14 de julho de 2012

13,7 BILHÕES DE ANOS DEPOIS


artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo
jornal o Estado do Maranhão, hoje , sábado


13,7 bilhões de anos atrás a temperatura desse troço aqui ( estamos falando do Universo em que vivemos) era de lascar. Bote bilhões de graus nisso! O único bebê capaz de nascer numa fornalha  dessas  era mesmo o Universo, ainda assim porque era filho único do seu pai que, por via das dúvidas, vamos chamar de Deus. E que era mesmo um pai caloroso – e bote calor nisso!
                        Parece que o bebê – como todo filho único – era cheio de manias. A primeira brincadeira que esse bebê complicado teve foi  um  tal de big-bang. Como todos sabem tem bebê que brinca de bola, outros brincam de boneca, outros de berrar para aporrinhar os pais.. Pois Universo entendeu de brincar de big-bang tão logo deu seu primeiro berro. E que ninguém ouviu - felizmente para os tímpanos.
                        Certo de que seu pai, Deus, lhe faria todas  as suas vontades Universo cedo enjoou de brincar de big-bang (numa fração de segundos) e, irado porque não tinha mais outro brinquedo à sua disposição, logo começou a estufar de raiva. Voluntarioso e sem motivo algum - ou por isso mesmo - Universo continuou a estufar e se expandir,  a estufar e se expandir. Quando nasceu era menos do que  uma bolinha pequenina,  mas no instante seguinte já tinha inchado mais do que corintiano quando ganha uma taça internacional. Hoje Universo já tem praticamente 13,7 bilhões de anos-luz, só de barriga.

                                                                               
                                                                      

                        2. Entender uma criança difícil assim como Universo requer um pouco de paciência. Um bom psiquiatra logo diria que o bebê nasceu estressado por ser único e sozinho. Além do mais, seu pai parece que nunca se importou muito com ele e, desde o começo, deixou-o por conta das forças do universo o que, convenhamos, é muita coisa para uma criança: ficar por conta de si, desde o começo. Sem contar que Universo é órfão de mãe e nunca teve um irmãozinho. Embora muita gente espalhe por aí  que existem universos paralelos o coitado do Universo nunca viu um mais gordo.  
                        Ora, some-se a tudo isso o fato de até hoje Universo não saber se é criança, jovem, coroa ou idoso, embora tenha certeza de  que nunca será vovô. (Que bom seria se ele um dia fosse parar numa fila de anciões da loteria, pelo menos teria certeza de alguma coisa!) O tempo nada significa para ele, assim como a  eternidade e a morte: ele sequer tem a bendita  (ou maldita?)  certeza de que vai morrer um dia. A verdade é que embora não seja um pai desnaturado Deus deixou esse filho abandonado por aí, e Universo continua bufando e inchando nem ele mesmo sabe por que, como se tivesse culpa por ter nascido, perdido na sua própria imensidão sem fim.


                                                               

                        3. Essas considerações  servem para explicar porque um belo dia, Universo, farto de tanta grandiosidade, pediu  a seu pai, que o permitisse inventar  um minúsculo ser lá para os lados de um minúsculo planetinha de uma galáxia mais vagabunda ainda. Deus o atendeu, meio a contragosto...  E não é que a tal criaturinha começou a viver e a pensar?
                        Pois bem, semana passada, 13,7 bilhões de anos  depois, Universo acordou cutucado por uma dúvida. Andaram lhe dizendo que justamente naquele planetinha haviam  descoberto que a transformação da energia inicial em matéria  – dele, do Universo -  havia passado por um tal de bóson de Higgs, a quem chamaram partícula de Deus.
                         “Já estão querendo mexer com  minha biografia”  pensou Universo e lá se foi se queixar a seu pai.
                        - Pai, já  estão falando de minha infância.
                        -  Quem?
                        - Os seres humanos.
                        - Seres humanos? Quem são?
                        - Aquelas criaturinhas que você me deu para brincar e que vivem  naquele  planetinha chamado Terra.
                        - Não lembro,  meu filho.
                        - Aqueles que tiveram um dia o desplante de dizer que eram à sua imagem e semelhança. Será verdade o que eles estão dizendo agora?
                        - O que desta vez?
                        - Que descobriram sua partícula e que agora sabem quase tudo a meu respeito. Pai, eu nunca soube de onde vim o que eu sou nem para onde vou. Como é que eles...?
                        -   O que é isso agora, Universo meu?
                        - Pai,  não quero ter a minha infância devassada por seres assim. Queria que você me autorizasse a destruí-los.
                        - Ora, para que se preocupar com criaturinhas tão pequenas? Não perca seu tempo Universo, deixe-os para lá. Eles mesmos se  matarão.
                                               ewerton.neto@hotmail.com                                                                                              http://www.joseewertonneto.blogspot.com