sábado, 25 de fevereiro de 2012

CARNAVALESCAS ( OU NEM TANTO )

artigo publicado na seção Hoje é dia de...
jornal O Estado do Maranhão, hoje, sábado



CARNAVALESCAS (OU NEM TANTO)

                                                                                              José Ewerton  Neto



                        A vida é absurda, dizia Clarice Lispector. Sendo assim, o carnaval (com toda a sua porralouquice gostosa) não é absurdo, absurda é a vida. Neste caso, como classificar o critério usado pelos jurados das escolas de samba para escolher as vitoriosas? Bizarro? Confuso? De outro planeta? Surpreendente?
                        Nada. Nenhuma palavra na língua portuguesa seria capaz de exprimir a sutileza intelectual, e a precisão científica de um jurado, que é capaz de dar uma nota de 9,25 para uma escola e 9,5 para outra. Como será que ele consegue ser tão preciso? Teria olhos capazes de olhar por cima, por baixo, e pelos lados? Disporia de uma sensibilidade artística tão apurada capaz de ser aferida em centésimos? Seria uma mistura de Oswald de Souza, o matemático, Joãozinho Trinta, o carnavalesco, Gilberto Freire, o sociólogo e Selminha, a porta-bandeira?
                        Tanta bizarria  degenerou, mais uma vez em confusão A recente invasão de um sujeito no local da apuração das escolas de samba de São Paulo para arrebatar as notas dos jurados e jogá-las no lixo dá muito bem a dimensão do grotesco dessas apurações que, na realidade, pretendem julgar o impossível de ser julgado, devido a extrema subjetividade do que se avalia. Parecidas por definição, e estruturalmente tolhidas  em suas nuances coreográficas  pelo ritmo cadenciado do samba-enredo e sua lenta evolução,  o desfile de uma escola de samba quase sempre se torna repetitivo e cansativo  ao invés de  opulento e sedutor, carecendo, por isso, de socorrer-se de centésimos matemáticos para doar-se alguma credibilidade competitiva.
                        A precisão infinita desses jurados, capazes de se locomoverem nos centésimos da coitada da matemática me faz ocorrer uma sugestão: que sejam convidados a se juntarem aos cientistas que arduamente procuram, há dois anos em vão, o bóson de Higgs, (a partícula de Deus).
                        Com a ajuda deles, quem sabe...


                        2..Deu neste jornal: “Apesar do tempo festivo, a maioria dos turistas preferiu conhecer as belezas arquitetônicas e naturais da capital e de outros municípios do estado a participar das folias do Momo(...) A médica Maria Timbó, por exemplo, disse : Há dez anos quando aqui estive, fiquei encantada com a beleza dos casarões, mas agora muitos deles estão mal conservados. É preciso um pouco mais de cuidado para que a cidade fique mais bonita.”
                        Portanto, ao invés do que os administradores desta cidade pensam, não é só um carnaval movido a  incentivos o que atrai os turistas, porém, mais que isso, as belezas peculiares  da cidade. Afinal, parece que os turistas não vêm conhecer São Luis por causa do carnaval, mas, vice-versa, aproveitam o  Carnaval para conhecer a cidade. Que bom seria se eles percebessem que nossa capital deveria proporcionar aos visitantes, de forma cada vez mais atrativa, seus recursos naturais intrínsecos. Os mesmos que - conforme palavras dos turistas - padecem da penúria de incentivos, que não faltam, contudo, ao carnaval.



                        3. E, por falar em matemática, alguém se deu ao trabalho de calcular a quantidade de silicone que passa no sambódromo em dias de carnaval. Não é difícil: 2 mil mulheres por escola, vezes 300 ml em média... vezes dois peitos = 16,8 toneladas de silicone – sem contar os homens. O que leva a um cada vez mais insinuante problema de aferição: como julgar a perfeição dessas quase dezessete toneladas?
                        Eis mais uma sugestão para explorar a capacidade desses jurados de escola de samba: introduzir a qualidade do silicone implantado como mais um quesito a ser analisado como nota.
                        Obs. Só não valeria avaliar o silicone de peruas fogosas, useiras e vezeiras do Carnaval, como Suzana Vieira. Senão seríamos forçados a vê-los recorrer mais uma vez aos decimais, só que, desta vez, negativos. Ou centesimais?                                                                                                                                                                                                                    ewerton.neto@hotmail.com


                        

sábado, 18 de fevereiro de 2012

AS MARCHINHAS DE SEMPRE E PARA SEMPRE


artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal O Estado do Maranhão, hoje, sábado


Passa ano sai ano ressurge o velho debate carnaval tradicional x carnaval atual cujo ápice é a disputa marchinhas carnavalescas x  música baiana. Sem saudosismo,  as marchinhas dão de dez a zero,  até mesmo porque,  além de melodia, têm letras que eternizam uma época bem mais que a mera excitação momentânea dos trios elétricos, causada pelo som ensurdecedor e convidativo ( vá lá ), necessariamente  movido a álcool e -  talvez -,  alegria.  
            São tão eternas essas marchinhas expressando sentimentos universais e atemporais que ao invés de terem ficado datadas  expressam , com pequenas adaptações a vida atual. Como é fácil comprovar:
           
            1. “Pode me faltar tudo na vida, arroz feijão e pão Pode me faltar manteiga  e tudo mais não faz falta não. Pode me faltar o amor Há, há, há, há!Isto até acho graça Só não quero que me falte A danada da cachaça.”
            Essa marcha celebrava a cachaça como instrumento de escapismo. E se antecipa aos conselhos de auto-ajuda de hoje com uma pérola  da sabedoria:  “Pode me faltar amor! E isso até acho graça.” A tecnologia, contudo, descobriu matérias primas mais eficazes  – e mais nocivas - como estimuladoras da fuga da realidade. Bastaria então, na letra, substituir cachaça por televisão.

            2. “Solteira eu não quero, casada traz complicação. A viúva tem saudades, a desquitada é a minha solução”.
            As opções parecem ultrapassadas diante das centenas de alternativas surgidas em termos de sexo e relacionamento. Mas a mensagem de busca, por uma solução, continua perene.

            3. “Ei, você aí! Me dá um dinheiro aí! Me dá um dinheiro aí!Não vai dar? Não vai dar não?Você vai ver a grande confusão que eu vou fazer bebendo até cair. Me  dá me dá me dá, ô!Me dá um dinheiro aí!”
            A letra da marcha referia-se a mendigos. Hoje continua atual - já que tanto pedem dinheiro os pobres como os ricos - se prestando até para hino da equipe do ministério  de Dilma.  Como todo mundo sabe já caíram mais de seis, bebendo ou não, querendo mais dinheiro e fazendo confusão.

            4. “Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar Dá a chupeta, dá a chupeta, dá a chupeta pro bebê não chorar. Dorme filhinho do meu coração,  pega a mamadeira e vem entrar pro meu cordão Eu tenho uma irmã que se chama Ana de piscar o olho já ficou sem a pestana (...)Eu tenho uma irmã que é fenomenal Ela é da bossa e o marido é um boçal”
            Não parece o nosso vice-presidente Michel Temer, brandindo  um cartão de crédito na mão  diante da esposa-gata, trinta anos mais nova e pedindo uma chupetinha?  E ela, respondendo no mesmo tom, dizendo, para  provoca-lo, que tem uma irmã fenomenal. Só que o nome da mana, ao invés de Ana é Michelle. Quanto ao boçal...  Bem.  

            5. “O teu cabelo não nega mulata porque és mulata na cor Mas como a cor não pega mulata eu quero o teu amor.  Tens um sabor bem do Brasil, tens a alma cor de anil! Mulata mulatinha meu amor, fui nomeado teu tenente interventor”
            Bastaria substituir o teu cabelo não nega por  “tua chapinha não nega” Quanto ao sabor bem do Brasil e a alma cor de anil, que ninguém se preocupe com isso pois ninguém jamais entenderá ( Teria o sabor bem do Brasil a ver com grana na mão?).  


                                                                


            6. “Ó abre alas que eu quero passar Ó abre alas que eu quero passar Eu sou da lira não posso negar Eu sou da lira não posso negar Ó abre alas que eu quero passar Ó abre alas que eu quero passar Rosa de ouro é que vai ganhar.”
            Existe hino mais apropriado para as mil e uma  paradas GLS existentes por esse Brasil afora? Certo, ninguém fora do Maranhão sabe que eu sou da lira pode perfeitamente ser “travestido” para eu sou qua... É só divulgar.

            7. “Se você fosse sincera Ô ô ô ô Aurora Veja só que bom que era Ô ô ô ô Aurora
Um lindo apartamento com porteiro e elevador e ar refrigerado para os dias de calor. Madame antes do nome você teria agora Ô ô ô ô Aurora!”
            Todo mundo sabe que esta letra refere-se à mágoa de alguém que doou tanta coisa a uma mulher e levou chifres. Ou seja, nada mudou. Pensando bem, para os dias atuais, talvez se devesse acrescentar ao porteiro - e ao elevador - um negão como personal trainner.

            8. “Eu só me caso com mulher rica, amor de  rica sempre fica. A rica quando morre deixa sempre um milhão, rádio, geladeira. Deixa até televisão.”
            Toda mulher rica  e perua ( e quanto mais rica mais perua ) continua adorando um gigolô. A única diferença é que atualmente elas,  ao invés de darem uma televisão para o “namorado”, o põem para trabalhar na televisão. Não é mesmo, Suzana Vieira?

            9. “Tava jogando sinuca uma nega maluca me apareceu. Vinha com um filho no colo e dizia pro povo que o filho era meu, não senhor! Tome que o filho é seu, não senhor. Pegue o que Deus lhe deu, não senhor!”
            Atualíssima. Mais dia menos dia o desavisado “paisão” Joel Santana, técnico  do Flamengo estará cantando esta marchinha para a presidente Patrícia Amorim, ou vice-versa. . O filho sem pai, alguém duvida que  será o  Ronaldinho Gaúcho?.

            10. “ Oh, jardineira por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu.”
            Essa sim, para se modernizar ficaria muito melhor assim:
            “Oh, trepadeira por que estás  tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? Foi o coroa que quebrava o teu galho deu dois suspiros, depois morreu!
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com
           




domingo, 12 de fevereiro de 2012

A LENDA DE ANA JANSEN E SUA CARRUAGEM



artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo, jornal
o Estado do Maranhão, ontem, sábado


1. A lenda de Ana Jansen e sua carruagem é a mais famosa de São Luis, por motivos não muito bem entendidos. Freud não explica e São José de Ribamar muito menos. Aliás, se Ana Jansen soubesse que um dia iria virar lenda, vaidosa e ousada como era, teria sido lenda antes de ter vivido para poder gozar dessas horas de fama que não estão ao alcance de qualquer imortal que se preze. Como se sabe, as candidatas à celebridade de hoje vivem exibindo suas grandes e pequenas vergonhas em rede nacional ao vivo, por dois míseros segundinhos de fama.
            O fato é que Ana Jansen , que não era lá essas coisas de boniteza, se perpetuou bem mais do que se tivesse escrito um romance, por exemplo. Isso, embora já não desse dinheiro, na época, dava muito prestígio - pelo menos o suficiente para fazer companhia, no futuro, à estátua de algum pilantra transformado pela História em herói, no corredor soturno de algum museu.  

            2. Admitindo que ela tenha sido mortal um dia, tudo começou quando ela nasceu  em São Luiz, em 1787. Nessa sociedade de então, provinciana e carente, ela começou a treinar para virar lenda quando enviuvou duas vezes. Nessa época, é bom lembrar, não havia divórcio fácil, nem desquite ou amizade colorida, as mulheres se casavam para sempre e a única forma da mulher conseguir casar duas vezes era matando o marido, o que, aparentemente, não aconteceu.  Melhor acreditar que os maridos, sabendo que ela estava predestinada a virar lenda, facilitaram-lhe o trabalho, inclusive deixando muito dinheiro para ela.
            Ora, o fato de ter se livrado de dois maridos da forma mais segura que existe, que é o desaparecimento destes sem assassinato, faz desconfiar de que muita coisa da qual se falava a seu respeito como, por exemplo, a de que era cruel com seus escravos, não passava de inveja de mulher fofoqueira, desejosa de ter tido a mesma sorte. Inclusive, a história que se conta por aí, de que ela caminhava sobre uma trilha de escravos para não sujar os sapatos franceses quando seguia para seu sítio – que crueldade tem isso? Muito prefeito de interior faz igual ou pior hoje em dia, comprando carros importados com o dinheiro público, e pisoteando, da mesma forma, carentes e futuros cadáveres, e nem por isso deixam de ser admirados e reeleitos.
            O certo é que Ana Jansen incomodava muita gente: era pobre e ficou rica, era feia e teve homem como quis e,  além disso, entrou na política. Criou desafetos às pencas  até que morreu para bem de todos e felicidade geral da nação ludovicense, mais ou menos em paz, em 1869.  


            3. Se esse é um resumo das peripécias de Ana Jansen quando viva imagine o que ela não fez depois de morta!
            Toda quinta-feira ela pegava uma  carruagem , saía do cemitério e ia rever suas diversas casas residenciais. (Tem-se de admitir que a vida no cemitério é meio enfadonha para quem trepava quando e onde queria. O estoque de pretendentes era desanimador, e ainda por cima, não havia viagra).  Era justo que tivesse saudades e quisesse escapar daquela monotonia.  
            Intrépida como sempre, lá ia ela com um batalhão de decapitados dirigindo a carruagem e fazendo um barulho dos infernos. Decapitados? Claro, embora o povo com isso se espantasse, era natural que - depois de lidar, em vida, com certo tipo de gente - ela passasse a confiar, agora, em seres humanos sem cabeça, inclusive o cavalo que puxava a carruagem. O que prova que, ao contrário do que se dizia, era a favor da igualdade social e não via diferença, por exemplo, entre cavalos e seres humanos. Quanto ao barulho, isso só causava estranheza porque ainda não havia trios elétricos e carros de som, cujo barulho, como se sabe, é muito mais ensurdecedor e infernal.

            4. E, foi assim que, de passeio em passeio, eternizou-se a lenda de Ana Jansen e sua carruagem que, no entanto, foi gradativamente caindo de moda e deixando a sensação de déjà vu, substituída que foi pelos desfiles carnavalescos das escolas de samba, repletos de decapitados vivos e cavalos com cabeça, entre demônios sarados e diabas completamente nuas. 
            Hoje, quando ela sai para desfilar em com sua carruagem pelas ruas do centro de São Luis, ninguém se dá ao trabalho de espiá-la (preferem o forró do Arlindo, o reggae da Toca da Praia ou a Bandida). Descansando em sua sepultura, nos intervalos dos desfiles de sexta, ela pensa: “A indiferença desse pessoal não me atinge! Nenhum deles vai virar  lenda!”

                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com    
  

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O A-B-C BEM-HUMORADO DE SÃO LUIS (3)



E, continuando a disposição de enfatizar as mais curiosas expressões típicas do Maranhão, de forma bem-humorada, como homenagem aos quatrocentos anos desta cidade eis sua versão terceira. Sempre na carona dos livros sobre esse assunto de José Neres e Lindalva Barros, J.R.Martins, Marcelo Torres, de Brasília, e dos leitores que me escrevem e sugerem.

                       
            Homalhada. Lésbica. O termo teria evoluído como uma corruptela da palavra humilhada, pois houve um tempo, nem tão distante assim, em que se reconheciam  apenas dois sexos e os demais eram humilhados, ao contrário de hoje.  

            Janambura. Dos tempos da... Referia-se a alguma coisa para lá de antiga, tipo bondes, honestidade e vendedor de quebra-queixo. Janambura é um tempo em que, por aqui,  motorista era chamado de chofer, e em que moto só  enchia o saco quando ganhava do Sampaio Correia.  

            Jereba, urubu de cabeça vermelha. Sendo urubu – o símbolo do Flamengo  e, mais ainda, tendo a cabeça vermelha, é possivelmente,  o mais flamenguista de todos os bichos, precisando, com urgência, tornar-se conhecido nacionalmente. Aliás, Jereba não se parece mesmo com o Wagner Love  vertendo copiosas lágrimas  por amor ao mengão, enquanto embolsa quinhentas mil pilhas por mês?




            Junteiro. Aquele(a)  que tem as pernas juntas. Garrincha o mais genial de todos os junteiros morreu pobre porque juntava as próprias pernas  -e separava a das mulheres -, dizem, muito melhor do que juntava dinheiro

            Ladrão. Aquele que executa alguma tarefa com habilidade fora do comum. Ou seja, o Maranhão é a única terra em que ser ladrão é uma virtude e ser taxado disso um elogio. Donde se conclui que os políticos ladrões, que por aqui se reelegem, são admirados primeiro porque roubam e, segundo, porque executam essa tarefa com invejável perfeição.

            Lamparina-de-forró. Pessoa freqüentadora de forró e outras festas. Refere-se a pessoas do sexo feminino, e a chama da lamparina faz alusão a um fogo que demora a  apagar. Nos tempos modernos o termo deveria ter evoluído de lamparina de forró para curto-circuito de forró já que o fogo das forrozeiras atuais, além de ser difícil de apagar pode ser ligado, a todo instante, na tomada. Com três pinos, de preferência.  

            Lascar. Sair-se bem em exames escolares ou em outras provas seletivas. Ou seja, para se entender melhor:  quem se lasca tira zero,  quem lasca tira dez. O que tem tudo a ver, já que as provas do ENEM são “de lascar” e o conhecimento dos alunos  da idade da pedra lascada. 

            Lapinguachada. Vergastada, chicotada. Os especialistas chegaram à conclusão de que não adianta pesquisar a origem porque nunca vai ser descoberto se o termo tem a ver  com as piadas sobre gaúchos que insinuam que muitos  deles  gostam  de levar uma lapingauchada

            Lazeira. Coisa muito ruim. Desgraça! Segundo pesquisadores foi uma simplificação da expressão “descendo ladeira abaixo” Uma coisa é certa: só muita ladeira abaixo ou “lazeira” para explicar como se chegou de Atenas Brasileira  a Jamaica Brasileira.

            Leprelé. Alguém sem valor, desprezível. Muita gente diz que  Pelé como jogador foi genial, mas como pessoa não passa de um Leprelé. Mais gente ainda diz que a Lei Pelé, que ele inventou, está mais para Leprelé do que para LeiPelé.

            Lombra. Ginga, malandragem, vigarice. Muitos homens ainda acreditam  que as mulheres ficam fascinadas com um cara cheio de lombras, mas a verdade é que entre um homem sem grana e outro com lombras,  ela fica com o que tem lombras porque, assim, tem mais chances de garantir os dois.   

            Madame. Donas de cabarés, pensões e prostíbulos. Na realidade, são peruas cuja elegância, charme e inteligência se assemelha  e rivaliza com as que aparecem nas colunas sociais dos jornais da cidade sob o suposto de “gente bonita”

            Lortégane. Ânus. Eis descoberta, no linguajar maranhense, a versão popular mais erudita possível para algo tão popular.

            Mãe-do-corpo – Útero. Ao contrário, porém,  do que se poderia pensar baseado na lei da Relatividade dos Pensamentos e das Coisas o do homem não se chama Pai-do-corpo. Sabe como é... Hoje ninguém sabe quem é o pai.

            Lustro. Surra. Dizem que as vítimas apanhavam tanto que as lágrimas os lustravam. Que crueldade! Hoje quando os humildes não brotam lágrimas, os governos providenciam chuva e lama. Que se não “lustram” a crueldade, a ilustram muito bem.  

            Mal-enjambrado. Mal-vestido, desleixado. Os ricos mal-enjambrados desta terra são tão perfeitos que agora deram para enfiar botox no rosto para melhor aparecerem nas fotos dos jornais. O esforço foi recompensado! Seus rostos ficaram mais mal-enjambrados do que suas vestes.

            Mamanhar. Pedinchar insistentemente com os olhos. Na realidade, nesta terra, a “mamanha” começou com os olhos, depois foi para a mão direita, a esquerda, as duas e, finalmente, todos os órgãos do corpo humano. Todos mamanham por aqui, de flanelinhas a políticos pedindo verbas e cargos. Ou seja, ninguém duvida que a expressão mais certa seria Maramãnhar. 

            Mão-de-Nenêm. Pessoa avarenta, mesquinha, mão-de-vaca.  Segundo os especialistas  a grande diferença do sujeito Mão-de-nenêm para o Mão-de-vaca é que o Mão-de-Nenêm  age assim para  guardar a grana para a mãe do neném, o outro para a  vaca. 

            Livro. Parte folhosa do estômago dos ruminantes. No caso do boi, usado no preparo de mocotó e dobradinha. Dizem que os universitários maranhenses ( que são os que menos lêem no Brasil) lêem bem mais esse tipo de livro do que os outros - de papel.

                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com

             








sábado, 28 de janeiro de 2012

ABAIXO O REI MOMO SARADO


VIVA O REI MOMO GORDO!




Não começou tão bem assim o carnaval quatrocentão. Primeiro, uma letra estrambótica  no samba-enredo da escola de samba carioca que homenageará a cidade.  Em segundo lugar, suas irmãs daqui que, para não ficarem atrás, sequer fizeram menção, nas letras de seus sambas, aos notáveis da “Atenas Brasileira” (escritores que deveriam ser, para sempre, o nosso maior motivo de orgulho). Por fim, a eleição de um Rei Momo sarado para ser o “rei” desse carnaval.
            Pois é, um Rei Momo sarado! Ao invés de um Rei Momo parecido com o que deveria ser a cidade em sua festa maior, aparentando opulência, riqueza, fartura,  alegria,suor e banhas  um rei  de físico minguado e grotesco a se confundir facilmente com qualquer saradão  do BBBrasil.
            Desde quando se descobriu, por aqui, tanta vocação por novidades bobas e tanta implicância com os gordos? Por que essa discriminação instalando-se em uma brincadeira onde deveria haver lugar para todos e onde seria razoável que houvesse sempre oportunidade para que os obesos pudessem reinar como nunca em outra ocasião? (Segundo soube os tradicionais pleiteantes a Rei Momo desistiram de concorrer em desagravo à última edição em que foram submetidos ao vexame de terem sido desprezados). Enfim, mais uma vez o carnaval da ilha se rende ao que de pior foi inventado em Salvador, do axé às patacoadas de Ivete Sangalo.
            Se ainda faltarem razões, eis algumas pelas quais me solidarizo definitivamente com os Gordos ( Momos ou não).

1.                 Em defesa de minorias. Alguém já viu um Rei Momo fora do carnaval? Onde será que moram, comem,  se divertem? Se  sobrevivem fora do período carnavalesco, ninguém sabe, ninguém vê.   Tudo indica que existe uma minoria de seres humanos que nasceram para serem Reis Momos e apenas isso. O resto do tempo ficam hibernando e, no carnaval,  aproveitam a única chance que têm para se consagrarem, nem que seja para que possam dizer ao mundo: existimos, e fazemos parte da mais notável das minorias: a minoria grande.

2Pela felicidade. Gordo é sinal de alegria. Não existe  gordo triste, porque se gordo  ficar triste, morre . Gordo é alegre por obrigação e aprende isso todo dia. Além disso, convenhamos, a verdadeira alegria precisa ser gorda, pois de alegria magra já tem gente penando o ano inteiro, seja atrás de banda de forró, seja torcendo à beira de um ataque de nervos pelo seu time de futebol, seja pulando em carreata de político, num processo de penúria que não tem bolsa-família que resolva.

3. Pelo símbolo e fantasia. Existe todo um simbolismo por trás da figura do Rei Momo gordo,  jamais encontrável num rei momo magro ou, pior ainda, sarado. A própria palavra, Momo, em si já é gorda. Momesco mais ainda. É por causa disso que, durante o carnaval, é tão explícita a idéia de volume que os homens se fantasiam de fofão enquanto as mulheres deixam para inchar (a barriga) logo depois do carnaval.
            Isso torna claro que, se houvesse mesmo o tal espírito carnavalesco e entendendo-se como tal a oportunidade de felicidade igual para todos, os mentores do carnaval sanluizense deveriam, de imediato,  compensar de alguma forma o que fizeram com os Reis Momos gordos. Fica lançada, então, a idéia:
                        QUE SE SUBSTITUAM AS RAINHAS DAS BATERIAS, TÃO SARADAS, PELAS GORDINHAS.
                        Nunca é  tarde para se fazer justiça e estamos conversados!                                                                                        ewerton.neto@hotmail.com                       

sábado, 21 de janeiro de 2012

ZÉ MANÉS TAMBÉM ESTUPRAM

artigo publicado na seção Hoje é dia de...
jornal O estado do Maranhão, hoje, sábado








1. Inicio esta crônica com uma frase de Pedro Bial, o apresentador da Globo que desistiu  de ser um razoável repórter para ser o bobo-da-corte do programa mais execrável da tevê brasileira: o BBBrasil .Ele mesmo confirmou isso quando disse: “ Eu não assisto porque não gosto de me ver. Mas para domar o formato tive de me despir da condição de jornalista para ser um Zé Mane, junto com os outros.” Ora, se Pedro Bial teve que se tornar um Zé Mané para participar do programa , os Zé Manés que assistem a tal programa passaram a ser o quê?”
                                   Que bom se fosse apenas estúpidos, idiotas, imbecis ou tudo que vem logo abaixo de Zé Mané ( com o perdão do genial Mané Garrincha que não merecia ter seu nome de craque enlameado por alcunha tão depreciativa). O buraco é mais embaixo, pois semana passada um Zé Mané do programa estuprou outra Zé  Mané, em plena seqüência do show, segundo consta após uma balada patrocinada pela Casa. Pensando bem, o termo Zé Mané chega a ser até inofensivo diante da realidade dos fatos, eis que, no caso, esconde impulsos sexuais animalescos incapazes de serem reprimidos racionalmente -  e que são tratados pela emissora de tevê e pelos que os  assistem como se fosse um espetáculo tão lúdico quanto uma festinha de aniversário de crianças. Portanto, ao invés de serem simplesmente Zé Manés, os participantes do programa  e os que se deliciam com isso , não passam de potenciais  estupradores.
                                   Sim, porque tão estuprador quanto o executante é aquele que sente prazer  com isso. Estupro, a rigor,  não se refere apenas ao coito arrancado sem o consentimento da vítima como também à corrupção do conceito da dignidade humana, do nível cultural e da ética nas relações com o público. Como já disse alguém “ Nada existe de mais sórdido na aventura do ser humano sobre a Terra  que o espetáculo ao vivo da degradação de sua individualidade (o que alguém pode possuir de mais puro ) em troca de um punhado de dinheiro.”    
                                   Ao fim, de quem é a culpa pela exibição de estupradores exibicionistas ao vivo? Mais gente do que se pensa - inclusive aqueles em quem votamos e que nos representam -, mas a direção da tevê pode sempre alegar que está entregando um programa ao nível dos idiotas que o assistem.  Pois o que pode pretender de melhor um Zé Mané do que ter a pureza de suas crianças  estupradas diante de uma câmera de tevê?  

                                   2. A respeito da cônica de sábado passado  “AS CINCO MARAVILHAS DE SÃO LUIS” (que não estão fora do contexto da crônica de hoje  já que algumas dessas maravilhas citadas também foram “estupradas”) reproduzo, por oportuno, a seguir,  a mensagem  que me foi enviada por uma das personalidades mais gloriosas da cultura maranhense contemporânea, o poeta Nauro Machado, não por coincidência, o nome de um dos logradouros “maravilhosos” desta cidade quatrocentona.  





Caro escritor Ewerton



                   Parabéns pela sua crônica de hoje [sábado passado], a não desmerecer daquelas do nosso grande poeta José Chagas, a quem você substitui no jornal. Faltou apenas, para o meu gosto, falar um pouco mais da maravilha -  escolhida entre as seis da nossa capital - que é hoje a praça do nosso poeta imortal, que usou de uma celebrada licença poética para cantar os sabiás  que, como sabemos, não cantam nas palmeiras. Essa praça. e você deve saber disso, já que é também um andarilho contumaz da nossa velha cidade, está dominada hoje pelos depedradores do seu patrimônio há não muito recuperado e sem que as autoridades não tomem nenhuma providência para coibir esse hediondo crime contra os nossos foros de capital cultural. Será mesmo? Eles arrebentam tudo com os seus patinetes ( é esse o nome?), afrontando ou mesmo insultando, quando lhes fiz ver que aquilo não era o local para esse "divertimento” entre aspas, o velho poeta que lá estava passeando com as duas netas antes de ir à missa das seis na Igreja dos Remédios.
                   E quanto às outras "maravilhas", algumas delas abandonadas totalmente pelo poder público? Você deve lembrar-se do que quiseram fazer com o Convento das Mercês, não? Eu o conheci em ruínas, quando lá passava pelas madrugadas em companhia do poeta José Maria. Hoje é um dos mais belos e válidos patrimônios do nosso patrimônio, e que, há não muito, pretenderam destruir por obra e graça daquela  inveja que parece ser  o traço maior de parte dos nossos políticos, entregues  à incúria e ao descaso dos que  deveriam amá-la, mostrando esse amor em obras e fatos. O Cine Praia Grande resiste galhardamente, apresentando o que de melhor  é realizado no cinema mundial. Espero que não muito breve, algum amigo meu, embora por mim desconhecido, arranque o meu depedrado busto da praça que injustamente leva o meu nome, atirando-o despedaçado do alto da amurada da Beira-Mar. Um abraço com respeito e admiração do seu
 
Nauro Machado

                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

sábado, 14 de janeiro de 2012

AS CINCO MARAVILHAS DE SÃO LUIS












Mas, não eram sete? Sei disso, caro leitor e sou capaz de enumerá-las a partir de uma votação que contou com a participação de seis mil pessoas em todo o Brasil: a Rua Portugal, o Convento das Mercês, a Igreja da Sé, o teatro Artur Azevedo, o Palácio dos Leões, a Praça Gonçalves Dias e a Azulejaria.
                        Acontece que existe mais, muito mais:

‘                      1. O Espigão-Matador. Quem já visitou sabe que o espetáculo é paradisíaco, quando começa o pôr-do-sol. Recomendam-se, no entanto, alguns cuidados para que se possa usufruir de tanta beleza. Em primeiro lugar que se levante bem o pescoço, porque a Ponta dÀreia , que já foi uma praia, é tão cercada de prédios por todos os lados que nem sempre se distingue o sol. Em segundo lugar que, após espiar o crepúsculo, deve-se, por precaução, sair correndo. Não do pôr-do-sol, claro, que não está nem aí para admiradores, mas do próprio espigão que costuma se irritar  com a quantidade de gente que transita por cima dele, tanto é assim que já matou dois.
                        Com métodos imprevisíveis de ataque que tanto pode ser uma pedra gigante rolando pela ribanceira, como um escorregão no fundo do mar, lembremos que, propositadamente, as autoridades não pensam em colocar proteção alguma o que  torna o espigão-matador, para sempre, um dos mais emocionantes espetáculos da cidade.

2. O Mercado Central. No passado já foi chamado de Mercado Grande mas, na verdade, não chega a tanto, eis que as frutas e verduras, por falta de espaço, se espalham pelas calçadas, cisternas e - com notável freqüência -, nos sapatos e bolsos de quem por lá circula. Compondo uma magnífica manifestação de diversidade   racial socializada já que o açaí escuro reside com o arroz branco no mesmo depósito de legumes, o Mercado Central de São Luis é o testemunho universal de que a limpeza pública não é essencial para a convivência pacífica entre ratos, tomates e beringelas. Razão porque goza da preferência  e admiração dos turistas que por lá passeiam – e sempre voltam - encantados com a proliferação dos produtos típicos da região, entre eles, periguetes, gigolôs, guardadores de carros e,  se você der sopa, de seu dinheiro. Encante-se!


3. O Enterro do Bacanga. Obra-prima do planejamento e da engenharia maranhense, o Enterro (Aterro?) do Bacanga com seu interminável avanço de terra e barro pelo mar adentro, deve ter sido concebido como uma obra de arte capaz de dar inveja às pirâmides do Egito, no deserto.  Onde havia barcos, fez-se barro, onde havia barcos, fez-se o Forró do Arlindo. Ao invés da previsão nordestina que dizia  “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”por aqui deu-se que o mar virou deserto e o deserto virou sertão, se lembrarmos das noites musicais enluaradas que se prolongam pelas madrugadas, sob o som eclético de reggae, forró e brega, ou de todos ao mesmo tempo. Enfim, um  espetáculo de harmonia perfeita entre paisagem e som de altíssima qualidade.jamais visto em qualquer outro lugar do mundo . Vez por outra, alguém morre, gemendo sob a ação de uma peixeira. É um fundo musical perfeito! 

4.  O Edifício Bem-Mal. Imponente, majestoso, o edifício do antigo Banco do Estado do Maranhão, também chamado edifício BEM, já não está tão bem assim. Mas continua destacando-se aos olhos dos turistas pelo seu simbolismo já que o principal “charme” arquitetônico desse edifício é a eterna indecisão que se transmite às suas vigas de concreto, comovendo quem o observa. De que se trata? Para onde vai? O que vão fazer com ele? Está querendo subir ou descer? Se alargar ou sumir?
Conscientes de que justamente essa é  a sua principal atração as autoridades pretendem, pelo visto, deixa-lo eternamente assim, fazendo do prédio uma espécie de Torre de Pisa.  Provavelmente, pretendem que no próximo aniversário secular da cidade, ele lá esteja, do mesmo jeito, soberbamente indeciso, mostrando para o resto do mundo como se cria e se conserva um monumento  turístico.

5. A Praia da Pontinha de Areia. São Luis  já possuía a Praia Grande, a primeira praia do mundo que não é praia. Hoje, por obra e graça da especulação imobiliária desenfreada sob a complacência  das autoridades, criou-se uma atração turística singularíssima: a quase praia. Melhor dizendo, a Pontinha de Areia, aquela que já foi uma praia e hoje se resume a um pequeno amontoado de grãos de areia, cercado de prédios horrorosos por todos os lados, inclusive na própria região de praia. 
Como o povo desta cidade é masoquista e deve ter assistido com prazer ao assassinato da sua ex-praia preferida, resta aos turistas (sempre tão privilegiados e decantados pelos órgãos  oficiais ) ficarem encantados com esse privilégio  inusitado e singular: terem uma praizinha particular no quintal de seus apartamentos de férias, onde podem depositar também, tranquilamente, o escoamento de seus dejetos. 
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

sábado, 7 de janeiro de 2012

REPÚBLICA DOS BONDES - E DOS BECOS

artigo publicado hoje no jornal O estado do Maranhão,
seção Hoje é dia de...



 1. Mude seu passado e seja mais feliz, diz a reportagem de capa da revista Super Interessante deste mês. Dito assim parece fácil, não é? Já que não passamos de memórias ambulantes (o presente não dura mais que três   segundos que é o tempo que se leva para que todas as informações saiam da consciência e sejam arquivadas na memória do cérebro), bastaria “limpar” o cérebro das memórias incômodas para que passássemos a ser felizes. Ou seja, como a atriz sueca já havia dito:  “Felicidade é saúde e péssima memória”.
                        A grande dificuldade começa, no entanto, em não se saber exatamente o que excluir da memória. Sim, porque existem tristezas e incômodos  que nos engrandecem e sem as quais a nossa vida perderia o sentido. Complexo, não é? Basta lembrar que quando dizemos para todo mundo ouvir, com transbordante prazer, diante de algumas fotos do passado, “como eu era feliz esse tempo!”, isso não significa que estávamos, de fato, tão felizes essa época. Muitas das vezes o sorriso da foto, na verdade, escondia um recôndito de desgosto ou melancolia.
                         Neste 400º aniversário de São Luis de algo tenho certeza, relativamente às tantas coisas que vale a pena evocar da metade de século em que passamos juntos: a primeira são seus bondes e outra, seus becos. Mais precisamente, duas repúblicas: a dos becos e a dos bondes. Sim, porque como cantou Marina – na bela balada de rock nacional  “Fullgas” – tratando do que é possível fazer a partir de um sentimento: “E a gente faz um país”. Ora, se a partir de  um sentimento fazem-se países, melhor  ainda se podem fazer repúblicas.  

                        2. Dias atrás recebi pela Internet uma preciosa coletânea de fotos dos bondes que trilharam as ruas de São  Luis. Em cada foto, excepcionalmente nítida, pude rever-me em cada um deles. Lá estava eu junto àquelas pessoas, passageiros que nunca conheci, tantos já mortos, mas que eu não percebia como estranhos, mas como pessoas que faziam parte de um mundo íntimo, reconhecível para sempre. Cada vez que eu passava de uma foto para outra, contemplando aqueles bondes indo e voltando pela Rua do Sol, Rua Grande, Praça Gonçalves Dias etc. a criança que eu fui se dirigia a um dos estribos do bonde ( e tratava de “driblar” o cobrador como era comum entre os meninos  para garantir a grana do refrigerante). O menino então, a cada foto, tomava um daqueles bondes e partia... Para onde?
                        Agora sei que a criança pegava aquele bonde para chegar até aqui - esse algum lugar na república dos sentimentos, no futuro, através dos trilhos da memória que não sucumbirão jamais à essa estranha névoa do espaço onde o tempo não existe.  
                       

                        3. A segunda dessas lembranças, é a  república dos becos. Não somente os becos das esquinas dessa São Luis que, oprimidos pela modernização da cidade, juntavam-se,  aos bondes para fazer soar  um último grito de agonia, não contra o progresso, mas contra a potencial perda de nossos valores culturais. Era certamente isso, mas, também, principalmente, esses becos da alma de todo sanluizense de então, especialmente da juventude, estupefatos diante do ignoto: seus apelos luzidios, no embalo da juventude perdida, seus anseios diante da perspectiva da fragmentação dos ideais estratificados há tanto tempo.
                        Essa república dos becos, agônica, requeria um tradutor e, por sorte,  o encontrou no jovem poeta  Luis Augusto Cassas, que, num instante de ousadia e talento descreveu toda essa palpitação em versos como estes:
                        “É via preferencial, construída com cuidado para bloquear o pecado ( risco de contaminar o céu). Por isso caros amigos, em todo o percurso da estrada, anjos arcanjos, serafins e querubins montam guarda.”
                        Hoje passados trinta anos , a República dos Becos – e dos bondes – já não carece de um anjo da guarda que a traduza e a proteja do olvido, pois encontrou-o  em Cassas. Para nós outros, leitores ou não, quando, súbito, nos deparamos com a eternidade seja no livro República dos Becos ou nas fotos do melhor do que se passou em nossas vidas,  constatamos que, de fato,  como anunciou a reportagem de capa da revista, isso se chama felicidade.
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com
                       
                        

sábado, 31 de dezembro de 2011

AS BELAS MENSAGENS DE FIM DE ANO



artigo publicado na seção Hoje é dia de...
caderno Alternativo, jornal O estado do Maranhão


E, agora que virou moda interceptar mensagens particulares através do CNJ, Internet, Polícia Federal, etc. eis uma pequena mostra do que está disponível na rede como saudações do Ano Novo.  Algumas sobrenaturais, outras nem tanto:

                        1. De Lula para Zé Dirceu:
                        “Querido Zé. Que no próximo ano possamos dividir nossas alegrias tanto quanto no passado. Que Deus – e a Justiça –  continuem nos garantindo toda tranqüilidade possível,  mas, por favor, não me deseje em dobro tudo quanto eu lhe desejar , sem contrato assinado. Sabe como é, né Zé? Vai que surja um novo mensalão...”

                        2. Do presidente do Santos para Pelé.
                        “Queridíssimo Pelé.  Em nome da comunidade praiana quero desejar-lhe um ano repleto de alegrias e felicidade do tamanho dos gols que você fez, mas de boca calada, não é Pelé? Jamais repita, por exemplo, que Neymar é melhor do que o Messi, principalmente antes de um jogo contra o Barcelona. É só o que te pedimos em troca de tudo quanto você já fez pelo nosso Peixe.”

                        3. De Suzana Vieira para Sandro ( seu namorado).
                        “Bebêzinho da Vovózinha! Que no ano que vem você continue gostando cada vez mais de muita grana para poder agüentar essa sua perua até o fim. Controle-se, e jamais faça como o outro gigolô, que preferiu morrer acreditando que é mais fácil se suicidar do que esperar pelo meu fim. Falta pouco. Beijos da sua já eterna Suzana.” 
                       
                        4. De Boninho para Pedro Bial ( apresentador do BBBrasil).
                        “Que a força continue sempre com você, parceiro. A força, como você sabe, é aquilo que faz com que seu sorriso consiga  ser ainda mais idiota do que o de qualquer participante do BBBrasil. Lembre-se de que se os telespectadores conseguem agüentar esse teu sorriso de bobalhão você também será capaz de agüentar essa turma por mais um ano. Beijão.”

                        5. De Dilma Roussef para seus ministros.
                        “Queridos! Muita paz e menos grana. (Quero dizer, grana roubada.) Que o próximo ano seja o mais inesquecível de todos os que passaremos juntos. Como Deus me ensinou a perdoar, garanto que ao fim do ano  comemorarei com os seis. Não os que já se foram, mas os que sobrarão.

                        6. De Fidel Castro para Hugo Chávez.
                        “Nós os ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos para implantarmos pela primeira vez  aqui no Inferno uma revolução comunista.  Abaixo o imperialismo ianque comandado pelo diabo, e viva 2012!”                         

                        7. De Ricardo Teixeira para Andrés Sanchez.
                        “Entre todos os presentes que posso te desejar para o próximo ano, fica claro que já não posso incluir mais um estádio de futebol. Então vai o de sempre: paz, amor, humildade, felicidade. Sei que isso não vai te servir prá muita coisa, mas...”  

                        8. De Júnior para Sandy.
                        “Para 2012, toda a  solidariedade do mundo. Irmãzinha, é em nome dessa solidariedade que pretendo anunciar,  no próximo ano, que também acho que é possível, sim, ter prazer com sexo anal. Que achas?”

                        9. De Dilma Roussef para Michel Temer.
                        “Que Deus nos ajude a enfrentar as  adversidades do próximo ano, e que você traga mais vezes, sua bela mulher. Claro que zelarei para  que não haja o que Temer quanto à exposição dela.
                        P.S. Soube, no entanto, que você está pretendendo lançar,  no próximo ano,  um livro de poesias. Nesse caso, sim,  Temeremos todos.”

                        10. De Zumbi para Lampião, o Rei do Cangaço.
                        “Querido,  que a eternidade seja toda nossa! Agora que já descobriram, na Terra, que nos escondíamos dentro de um armário, podemos soltar as frangas aqui mesmo no purgatório, não é mesmo fofura?”
                                               
                        11. De Deus para Guido Tonelli e Rolf Heuer ( Os dois pesquisadores estão, entre outros,  atrás do Bózon de Higgs, a partícula de Deus)
                        “Já que vocês não param com essa mania idiota de  idolatrar parcelas de tempo, que o ano de 2012 seja pleno de sucessos para todos, especialmente para vocês cientistas.
                        P.S. Só não entendo porque tanto interesse em encontrar a minha partícula se eu já não tenho o mínimo interesse em um dia voltar a encontrar essas míseras partículas que são vocês. Acho que já fiz o que pude, Salve e Salvem-se!”  
                                                                                 
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O A-B-C BEM-HUMORADO DE SÃO LUIS (3)



E, na sala da antevéspera dos 400 anos, nada como dar prosseguimento ao A-B-C bem humorado de São Luis, contando com a carona dos livros sobre expressões maranhenses já citados anteriormente nessa coluna: dos autores J.R.Martins, José Neres e Lindalva Barros (lançado, ontem, na Feira do Livro), e Marcelo Torres, de Brasília.  


            1.Entrunfado- Mal-humorado, ensimesmado. Ex. “Ser entrunfado virou a farda oficial dos guardas de trânsito da SEMTUR (que estiveram na feira do livro)”,  também conhecidos como multadores de trânsito.

            2.Esfarelado. Misturar desordenadamente as coisas Era muito empregado para depreciar cabelos femininos. Depois que proliferaram as greves e as chapinhas, ficou mais fácil botar ordem nos cabelos do que nos batalhões da PM.  

            3.Esgalgado. Faminto. Tem duas fases: antes e depois da bolsa-família. O governo Lula conseguiu o milagre de transformar  esgalgados em famintos.

            4.Esmalmado. Sem barriga. Teria se originado da expressão: “És mal amado!” Hoje está em desuso porque hoje quem não tem barriga nunca é mal amado. Muito pelo contrário. .

            5.Espernegado-   Iguaria à base de vinagreira, joão-gome e quiabo batidos. Não confundir com esperma negado, embora...

            6. Espetar. Faltar a aula, gazear. O termo maranhense se antecipou ao progresso. Os estudantes de hoje em dia “espetam” até quando estão em sala de aula. Com celulares, I phones, etc.

            7. Esquecido. Diz-se do órgão que sofre de paralisia. A partir dos sessenta, infelizmente, os homens sofrem interna e externamente de uma doença chamada esquecimento. É comum terem um órgão tão esquecido do próprio dono que   para  chamá-lo, precisem usar Viagra.

            8. Estalecido. Dente infeccionado. A cavalo dado não se olha os dentes. Portanto, para dentista dado, não se olham os estalecidos.

            9.Estrompar. Não confundir com estuprar, já que estomprar é ferir unicamente os dedos, de forma violenta. Algumas celebridades “cheias de dedo” da tevê  (que todo mundo sabe quais são), talvez preferissem ser estupradas.

           10. Estaqueado – Tipo de cabelo muito usado pelas mulheres. Como tudo que acostumava acontecer nas cabeças das mulheres também foi substituído pela chapinha.

            11. Estua. Penteado feminino com topete muito alto. Mais conhecido agora como cabelo de Neymar.

            12. Espora. Coisa de má qualidade. Pessoa ruim ( de mal-caráter). Para ilustrar bem a diferença do significado desta expressão para o da outra, espora – dos cavalos, serve esta: “Nenhum cavalo, por mais bravo que seja,  merece a espora que o fere, mas todo eleitor merece o espora, no qual escolheu votar. ” 

            13. Figóita. Mulher assanhada. Não é difícil de  se encontrar: “Toda figóita tem endereço certo: homem incerto”.

            14. Ferrolho. Marido extremamente fiel à esposa. Nada a ver com o ferrolho tradicional já que a expressão teria se originado do termo “Olho-de- Ferro, ou seja, “Um olho que não vê”. Isto porque ser ferrolho não significa, absolutamente,  que o vice-versa seja verdadeiro.

            15. Friagem. Qualiragem, frescura, viadagem. Com a proliferação do homossexualismo e a liberação dos costumes, a expressão encerra um aparente paradoxo: “Quanto mais aumenta o aquecimento global, mais aumenta a  friagem universal.”

            16. Gloriosa. Masturbação masculina. Para Woody Allen a maior glória de uma  gloriosa é a de “poder transar com a mulher que você quer”.

            17. Galinha- de- Parida. Galinha guisada, com pouco tempero e caldo esbranquiçado, acompanhada de pirão escaldado, que se destinava a alimentação das mulheres paridas, quando de resguardo. Para os homens muito afoitos, (e gulosos, em qualquer sentido)  é sempre bom lembrar que é preferível comer uma galinha-de-parida, do que comer – e depois casar, - com uma galinha parida.

                                                                       ewerton.neto@hotmail.com