sábado, 9 de junho de 2012

O NAMORADO IDEAL



artigo publicado hoje, sábado, na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal O estado do Maranhão

                          Próximo ao Dia dos Namorados e, principalmente, no entorno do dia em que Vênus ( o planeta que simboliza a feminilidade)  ficou entre o Sol e a Terra, num evento que só acontece quatro vezes a cada 243 anos, eis, de presente para todas, um Guia do Namorado Ideal. Quem sabe, enviado por Vênus:

                        1. O namorado ideal nos dias de hoje nem precisa ter ideal, porque assim seria querer exigir demais do rapaz (como eles se consideram desde que tenham menos de cinqüenta anos)
                        Precisa ter cabeça, tronco e membros, como todo ser humano, mas cuja prioridade não seja necessariamente nessa ordem. (Vá lá que, por causa dessa maldita cabeça, o sujeito pense: isso dará uma dor de cabeça danada para uma eventual parceira). É fácil chegar a essa conclusão: se pensar o sujeito poderá gostar de ler, se gostar de ler, gostará  de refletir, se gostar de refletir chegará a vez de questionar e assim por diante. O que, possivelmente, impedirá que a parceira se dedique às atividades que mais gosta na vida: ver novela de tevê,  torcer para o BBBrasil, ver show de forró, ir para shopping bater pernas ou postar asneiras no facebook, etc. Já pensou que tragédia? Enfim, um namorado que tenha cabeça, definitivamente, não faz a cabeça delas.
                        Quanto a tronco e membros, a  coisa soa um pouquinho diferente. O membro pode até não estar na medida certa (cada uma tem o seu tamanho ideal) mas tem o dever de funcionar, pelo menos uma vez por semana, para poder ser capaz de lhe gerar um bebê. Isso é muito importante para a mulher atual. Ela precisa de um pequenino ser saído de suas entranhas para poder exibir para as amigas como se fosse um boneco ou um ursinho de pelúcia especial que fala, e, principalmente, para que os avós possam cuidar deles.  Quanto  ao tronco do sujeito, que tal ser avantajado como o de um orangotango? Isso adianta para nada na vida real mas  dá um  certo Ibope  quando é preciso empurrar os outros para garantir um lugar na fila do show de forró, ou quando for preciso intimidar o flanelinha que insiste em cobrar dez.  
                        Afora isso... Pensando bem, para felicidade geral da Nação Namorados não existem grandes exigências, hoje, para um companheiro ideal. Não precisa ser romântico, apaixonado, dedicado, sequer cavalheiro – que diabo é isso? - ,  muito menos fiel. “A fidelidade é tão cansativa quanto chata”, garante a maioria delas. O grande inconveniente dessa característica, outrora tão decantada por elas mesmas, é que a recíproca teria que ser verdadeira. Ora, existe coisa mais aterrorizante do que um namorado que fique pegando no pé da parceira, exigindo que ela seja só sua?

                                                                        

                        Sequer precisa ser elegante. Elegância para quê? Um sujeito pode ter mal-hálito, roncar, suar, bufar, rosnar pornografias, berrar mais alto que a parafernália de som do próprio carro, que isso é irrelevante para uma namorada moderna. A elegância de um  homem, como todas sabem, não está na mente e na postura do sujeito, mas um pouco mais distante: no bolso, no carro, ou onde esses dois se encontram, que é na conta bancária do dito cujo. Afinal de contas, o dinheiro compra tudo até amor verdadeiro, como dizia Nelson Rodrigues ou na pior das hipóteses, crédito de celular para colocar as mensagens de amor de mentirinha, que elas precisam enviar para fingir que amam. 
                        Dito isso, fiquem tranqüilas nesse dia, garotas! Se você já tem um, por pior que este lhe pareça, fique certa de que já está perto de um namorado ideal. E se você não tem, que tal desistir da idéia, a tempo,  ou, se fizer muita questão, investir no primeiro calhorda que aparecer? Afinal de contas, como respondeu a atriz norte-americana, quando indagada  porque  nunca quis se casar: “ Porque tenho três animais em minha casa que fazem tudo o que um homem poderia fazer e muito melhor: Um papagaio que só fala palavrão, um cão que vive rosnando, e um gato que só chega em casa de madrugada.”  
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domingo, 3 de junho de 2012

O RETRATO FALADO


O RETRATO FALADO (DAS EXPRESSÕES MARANHENSES)

artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo.
jornal O estado do Maranhão, ontem, sábado





Uma foto de primeira página percorreu as primeiras páginas de todos os jornais desta capital: o retrato falado do assassino do saudoso jornalista Décio Sá. Numa época em que tanta gente, cujas palavras jorram de suas bocas como “cachoeiras” , de repente, fazem uso do direito de permanecer em silêncio (vide CPI) , não é de estranhar que um retrato tenha demorado tanto a ‘falar’.                        O curioso é que o retrato é daqueles que dão a impressão de que a gente  conhece o sujeito de algum lugar. Tenho uma amiga que insinuou que caso o dito cujo usasse cabelo mohicano seria a cara do Neymar. Já uma outra foi mais longe e disse que namorou  com o cara. Ainda bem – disse ela -  que me arrependi, a tempo. Eu lhe perguntei: “Tem certeza?” Ele respondeu: “Claro que não, mas se nem a polícia tem...”
                        Já que os retratos falados estão na moda , nada como apresentar a terceira versão de mais um retrato falado das expressões mais comuns desta cidade. Ou seja,  se não for exatamente assim, é só fazer de conta que é.

                                                                




1. Radiola. Equipamento de som  de grande porte e potência sonora, utilizado por empresas especializadas em apresentações de reggae.
            Equivalente maranhense do trio elétrico baiano, quando para o reggae. Registre-se que o Bumba-Boi, o ritmo típico maranhense por excelência, ainda não evoluiu para Bumboiola (Bumba mais radiola). Mas, pelo andar da carruagem, plumas e paetês, e “garotões saradões” esse dia não está longe. Bumboiola =  Bumba, radiola e mais alguma coisa ).

2. Quizilha. Arrelia provocada pelo atrito de objetos como isopor, o riscar do giz no quadro-negro, etc.
            Poeticamente falando, não deixa de ser uma quizilha divina o riscar de um relâmpago, no firmamento, visto da ponte Bandeira Tribuzzi anunciando a chuva.

3. Rabo-de-arraia Manobra executada com a bicicleta, em que se aciona apenas o freio dianteiro, provocando uma derrapagem brusca e intencional, de forma parecida com o que se faz nos automóveis, e tem o nome de cavalo-de-pau.    Normalmente, faz rabo-de-arraia quem não tem apego ao próprio rabo. Já quem faz cavalo de pau, não passa de um cavalo, mesmo.

4. Rau- Cabelo pixaim ( geralmente diz-se com o gesto de mão fechada).
            Difícil encontrar hoje em dia, já que perdeu a batalha contra a chapinha. Mas o cabelo, que é bom, foi para o Ralo. Ou seja, o rau foi para o ralo.

5. Reinar. Ímpetos de cometer alguma coisa, geralmente uma imprudência.
            Tudo teria começado com os que reinavam por aqui nos tempos do império e mandavam e desmandavam. Hoje ficou para os que  pensam que mandam, e que não são poucos, a julgar pelo que se vê no trânsito. Imprudência é com eles mesmos, certo, meu Rei?

6. Remanchear. ( corruptela de remanchar), delongar, retardar, atrasar.
            A expressão teria se iniciado quando alguém, de propósito, manchava um documento com o  interesse de atrasar  um processo. Um exemplo atual de  remancheamento: O Mensalão.

7. Rola-Bosta Bezouro que transforma fezes  em pequenas esferas  e as empurra para suas tocas.
            Ou seja, os rola-bostas da rede Globo  se inspiraram nesse tipo de besouro para  criar o BBBrasil

8. Sabão, prática de homossexualismo entre as mulheres.
            No começo, por aqui só havia dois tipos: sabão em pó e sabão em barra. Evidentemente, eles se sofisticaram, se diversificaram e evoluíram para sabão com pó (com cocaína) e sabão com barra ( na academia de ginástica)

9.Sambacu brincadeira de mau gosto que consiste em uma pessoa segurar a outra pelas pernas enquanto a outra o faz pelos braços, sacudindo-o com violência e deixando-lhe arrastar os fundilhos no chão.
            Nem precisa explicar quem samba.

10. Seco (a) – Estar seco, Desejar alguma coisa.
            Partiu de um fundo irônico. Como todo mundo sabe  quando elas desejam ficam, ao invés, molhadinhas.

11. Sendeira – Mulher abandonada pelo marido.
            A expressão teria nascido de uma corruptela da expressão ‘sem eira, nem beira’, porque é assim que a mulher ficava nessa situação. Hoje, como todo mundo sabe, quando a mulher se separa do marido fica com o amante e ainda fica com o dinheiro.

12. Sigrosa. Masturbação masculina
            Teria se originado de  uma junção das palavras silêncio com gloriosa, da época em que para executar isso era necessário recolhimento e silêncio. Nos tempos atuais o barulho não atrapalha. Ao contrário,  virou opção de relaxamento (preparando-se para o que vem depois) nos desfiles de trios elétricos. Com o som nas alturas e debaixo dos abadares.
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domingo, 27 de maio de 2012

O PAÍS DA CORRUPÇÃO ( ATÉ TIRA-TEIMA)


artigo publicado sábado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal O estado do Maranhão




Todo ser humano é potencialmente um corrupto. Certamente, se já pudessem manipular grana, alguns dos milhões de espermatozóides preteridos na corrida para o óvulo, em busca da vida, comprariam de bom grado a vaga que lhes permitiriam  não morrer em seguida.
            Terá sido sempre assim, na luta pela sobrevivência, sendo a vida, como os cientistas sabem, a grande “obsessão” de qualquer organismo celular. Corromper-se para sobreviver é apenas mais um imperativo da condição humana, entendo-se como corrupção, neste caso, qualquer ação que, tirando proveito de uma situação ou do ambiente, permita a preservação da existência. “O gene é egoísta”, como diz o cientista Richard Dawkins em um de seus livros.

           
            2. Instintivo sim, porém não concebível; explicável, mas não justificável. Se todos os instintos animalescos que sentimos não pudessem ser debelados não teríamos chegado ao estágio atual de civilização, onde seres convivem sob um conjunto de normas selecionadas para compor uma sociedade razoavelmente ética.
            A inteligência humana foi capaz de elaborar códigos de conduta, cujo benefício em termos da melhoria nas relações humanas se  sedimentaram , ao longo dos anos, naquilo que chamamos consciência, de forma tal que o uso de artifícios condenáveis como a corrupção, embora instintivo, deveria repercutir como abominável em pleno século XXI . Ou seja, seres incapazes de controlar a própria cobiça, deveriam causar muito mais repugnância que lagartos, ratos,  baratas e cascavéis
            No entanto, não é o que se vê no cotidiano desse país em que vivemos. Nada mais sintomático de uma sociedade complacente que a ausência de revolta diante do que foi exibido esta semana, na Tevê, durante a atual CPI . Nesta, Carlinhos Cachoeira, acusado de corrupção sob um vendaval de provas contundentes, negava-se a responder a qualquer pergunta fazendo de seu silêncio uma ato de deboche a toda uma nação. E quem estava lá para  defendê-lo como advogado, fazendo-lhe parceria nessa ostentação de achincalhe ? O Sr.  Tomás Bastos, ex-ministro da República.
            Repito! Um ex-ministro da república não tem pejo em manifestar solidariedade a um corrupto. Seria cômico se não fosse trágico; desprezível, se não fosse asqueroso.

                                                                      

            3. Semana passada, durante o jogo de futebol Vasco da Gama x Coríntians, o juiz anulou um gol do time carioca, alegando impedimento e causando revolta nos jogadores prejudicados.. De pronto, a rede Globo de televisão exibiu em cadeia nacional  o Tira-Teima do lance ( dispositivo que se propõe a eliminar as dúvidas existentes ). Surpreendentemente - para quem estava assistindo à partida-, o Tira-Teima confirmou a atitude do juiz, validando a decisão do árbitro.
            Acontece que, mais tarde, o Canal Fox reproduziu o mesmo lance, congelando-o um a dois segundos antes do vídeo exibido pela Globo– portanto, de forma mais precisa, e chegando à conclusão oposta: o atacante estava legitimamente em condições de fazer o gol e o time carioca foi prejudicado pela interpretação do árbitro.
            Ou seja, a Rede Globo foi, no mínimo, tendenciosa. Como todo mundo sabe, a todo-poderosa emissora de televisão privilegia os times de máxima torcida - nos quais investe mais dinheiro, o que permite chegar-se a uma conclusão: O Tira-Teima da rede, tido até então como a última palavra em termos de análise dos lances de futebol, não passa de um mecanismo capaz de ser viciado pelos interesses da emissora.
            Triste país em que até os Tira-Teimas são corrompidos!

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quinta-feira, 24 de maio de 2012

O FIM DO MUNDO ( OU PIOR)




Tem gente que morre de medo do fim do mundo. Tive  um colega de faculdade que dizia que o fim de todo mundo, coletivamente, com data e hora marcada,  até que não seria tão ruim assim: “o pior é ter de ir desacompanhado, sempre”.  Baseado no que se vê, todo dia por aí, acrescento  que o pior mesmo vai ser agüentar o que nos espera. Escolha a catástrofe:

1.                 Daqui a 30 anos, os atuais 200 EX-BBB`s se transformarão em mais de cinco mil. Haverá um na tevê, outro no ministério da  cultura, uma na capa de sua revista pornô e outro candidato a presidente da República. A profissão de Ex Big-Brother, será  reconhecida e disputadíssima. As escolas se especializarão na profissão, sendo uma das matérias mais importantes do currículo a de “como tornar-se uma prostituta, fazendo de conta que é atriz ”.  Livros de Bruna Surfistinha serão  adotados como complemento curricular.

2.                  Daqui a 30 anos todas as MINORIAS terão direito a cotas especiais , menos os heterossexuais, que estarão aguardando uma mudança na constituição para serem reconhecidos como tais. Haverá cotas nas universidades para pretos, índios, gordos, tatuados, carecas e sararás. Se você chamar alguém de gordo  irá para a cadeia. (Mas se você colocar em sua carteira de identidade que é escritor terá de pedir perdão em público).
                  
3.                 Daqui a 30 anos o PT continuará no poder. ZÉ DIRCEU, herói da luta contra a ditadura, será pranteado como herói nacional, depois de morto. Será decretado luto oficial por três anos e o dia de sua morte passará a ser feriado nacional.
                  
4.                Daqui a 30 anos, RONALDO, o fenômeno, será considerado o maior jogador de futebol que já houve no Brasil - maior ainda do que Pelé. A imprensa e os torcedores falarão com saudade de 2002,  último ano em que o Brasil ganhou uma Copa do Mundo, e recordarão , com tristeza, do ano em que o Brasil perdeu a copa em pleno Maracanã. Mas não estarão se referindo ao “maracanazzo” de 1950, quando perdemos para o Uruguai, mas ao de 2014, quando perdemos, em pleno Maracanã, para a Argentina.


5.                 Daqui a 30 anos haverá mais CARRO do que gente. Pessoas sairão para comprar uma pizza e só voltarão meses depois, devido a engarrafamentos.  Alguns nunca mais voltarão. A grande maioria população brasileira será nômade porque viverá no próprio carro. O divertimento preferido dessa imensa população em trânsito, ao invés de contar os buracos,  como se faz hoje  São Luis,  será o de contar acidentes e cadáveres de motociclistas nas estradas.

                                     

6.                 Daqui a 30 anos IVETE SANGALO será considerada a maior cantora do passado e o axé será considerado internacionalmente o ritmo nacional por excelência.  Sambas, só serão executados em missa . O ritmo predominante nas paradas será uma mistura de axé-forró-música-sertaneja –buzina-de-carro e latido-de cachorra-no-cio. Luan Santana será recebido pelo presidente da República para ser agraciado com uma medalha de honra ao mérito pelo tanto que fez pela música popular brasileira e Fiuk Jr. filho de Fiuk e neto de Fábio Junior,  comporá uma canção em homenagem ao Brasil, inspirada na Aquarela do Brasil.
                  
7.                 Daqui a 30 anos a COCAÍNA que hoje é transportada em ovos de páscoa e ursinhos de pelúcia, será consumida livremente  e enfeitará os bolos confeitados,  nas festinhas de aniversário de criança. Os pais e os meninos, devidamente eufóricos e excitados, cantarão Parabéns a Você,  não para o aniversariante , mas para a cocaína.
                  
8.                 Daqui a 30 anos,  para poder pagar o SEMANÃO ( evolução aperfeiçoada do mensalão )  e o salário dos deputados ( que terão  reajustes anuais de 400% acima da inflação, legitimados por lei)  as multas e os impostos que hoje são abusivos, serão extorsivos. Será criado o imposto sobre o ar que se respira e quem espirrar em público pagará multa pelo excesso de ar utilizado.

9.                 Daqui a 30 anos, a BALA PERDIDA será considerada  o mais popular anestésico nacional de efeito imediato. Finalmente oficializada, continuará fazendo parte do kit bolsa-família, distribuída  gratuitamente à população  e incentivada pelo governo.

                   Quem tem medo do fim do mundo? 

sábado, 12 de maio de 2012

A CENA MAIS BELA

artigo publicado na seção Hoje é dia de...
O estado do Maranhão, hoje, sábado



                                                                                



            Todo brasileiro, mais cedo ou mais tarde, dá uma de entendedor de futebol ou de cinema. Por isso, peço que me perdoem a ousadia de tentar selecionar a mais  bela cena dos filmes que já assisti sem ser crítico de arte ou especialista no assunto.
            Já vi cenas antológicas em cinema, algumas muito conhecidas e compartilhadas com o deslumbramento da maioria, outras, nem tanto, por isso julgo que seja necessário explicar antes de tudo o que, para mim, seria uma bela cena.
            Uma bela cena, certamente, não seria motivada pela paisagem ( porque aí seria fotografia); uma bela frase ( porque aí seria poesia) uma bela mulher ( porque aí seria vida), nem mesmo a junção dessas motivações, porque aí seria apenas o belo, simplesmente. Uma bela cena, sempre difícil de definir, seria aquela que transcendesse a percepção de beleza propriamente dita e que nos remetesse, através da emoção, à sensação de que existe um intraduzível algo mais, um sentimento que extravasasse o aprisionamento aos limites da condição humana para tanger algo de mais além e sublime. 
            A meu ver nenhuma memorável cena de filme, sempre mencionadas pelos críticos e admiradores (a corrida de bigas do filme Bem-Hur, a despedida do E.T. no filme do mesmo nome, etc. etc.) supera em tocante representatividade  a cena fundamental – para mim – passada  no excelente filme do diretor polonês Roman Polanski “ O Bebê de Rosemary” vivida pela atriz Mia Farrow. Tento resumir:


                                                                   

            “A mãe, grávida, tenta livrar seu filho da terrível sina que reservaram para ele: tornar-se a reencarnação do próprio Satanás. De início, a revelação surge como uma pequena suspeita que, aos poucos, vai se avolumando numa seqüência aterrorizante. Ela se descobre vítima de uma conspiração em que estão envolvidas justamente as pessoas em quem ela mais confia e que poderiam ajudá-la. Seus vizinhos, seus amigos, seu médico e, por fim, seu próprio marido e pai da criança. Aniquilada e enfraquecida pela progressão da gravidez, ela se vê cada vez mais impotente para confrontar a dolorosa confirmação da suspeita que a atordoa. Ao final, enfraquecida, tomba no meio da rua e entra em trabalho de parto. Ao despertar, escuta o som do grito de uma criança em meio à noite de trevas. Percebe que é a voz de seu filho, seu primeiro filho. Trôpega e esperançosa caminha até o berço. Com dificuldade dele se acerca até que, quando levanta o véu que o cobre , sofre um impacto. Lá não está uma criança, mas uma horripilante figura: um monstro, uma mistura de lobo e gato; o Satanás. Não pode evitar um gesto de horror enquanto contempla a figura hedionda que se agita e chora no berço clamando pelo seu aconchego de mãe. Apesar de tudo, é seu filho, então, inconsciente e débil, mas seguindo seu impulso toma a decisão. Vence o sentimento de repulsa, segura o pequeno monstro como a qualquer bebê frágil e o  embala. Canta uma canção de ninar que perdura por muito tempo depois em nossos ouvidos como um emblema da vitória da mãe, do sentimento de mãe contra todo o horror que possa existir no destino humano e nos mistérios entre o céu e a terra.”        
            Nesta véspera do Dia das Mães, ao recordar esta cena, recorro ao  talento do cineasta Roman Polanski para homenagear o amor materno: o único capaz de transcender a tudo: desde o mal que existe dentro e fora de nós mesmos, até o silêncio pungente - de ausência - que perdura no coração daqueles que já não as têm.    

        
                                               ewerton.neto@hotmail.com
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sábado, 5 de maio de 2012

ENTRE O PROVINCIANISMO E O CAOS


artigo publicado, hoje, sábado,
na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo, jornal O Estado do Maranhão


400 anos, mais de um milhão de habitantes. Com essa idade e essa população já era tempo de a cidade almejar ser incluída na categoria metrópole. O que lhe falta? Recursos  tem para isso: tamanho, beleza natural, recursos financeiros. Mas, ao que tudo indica, lhe custa desgarrar-se do espírito de província associado ao caos urbano, que reina em toda metrópole que não se cuida.
            Teria uma coisa a ver com outra: essa incapacidade de superar o caos anunciado pelo crescimento e que se manifesta na desordem do trânsito e na falta de segurança, cada vez maior? O dilema ser ou não ser metrópole, eis a questão, no caso sanluizense, parece esbarrar além da carência histórica de bons planejadores em sua administração, nas atitudes comezinhas de sua sociedade, transparentes até nos aspectos mais vulgares do cotidiano. Vejamos algumas dessas manifestações:

1.                 Existe algo mais provinciano do que a mania, tão corriqueira em nossa  sociedade dita “vip”,  de, depois de acomodarem seus traseiros em aviões de rota internacional – muitas vezes na classe econômica –, assim que chegam por aqui, correrem  para as colunas sociais dos jornais a fim de colocarem suas fotos em locais e praças manjadíssimas dos Estados Unidos e da Europa – América Latina também serve - como se tivessem aterrissado  num planeta distante,  de outra galáxia?
            O mais grotesco nessa história é o sorriso orgulhoso e embevecido dessas pessoas, crentes de que estão realizando um grande feito quando, em metrópoles de fato, isso há muito tempo deixou de ser notícia, de tão banal que é. (Como todos sabem, em tempos de globalização qualquer trabalhador de empresa multinacional  viaja cinco a dez vezes por ano ao exterior, sem que as páginas dos jornais se abarrotem de fotos de suas empreitadas).
            Houve tempo em que se  considerava chique, por aqui, viajar para o Rio de Janeiro.  Ridicularizava-se, então,  a maneira de falar puxando pelo s,  imitando os cariocas, que era empregada pelos nossos exibicionistas assim que  voltavam de lá. Tudo leva a crer que serão necessários mais 400 anos para que os daqui possam aprender que fariam  muito melhor se registrassem, para deleite de si mesmos e de sua futura memória,  as belezas naturais maranhenses: as dunas de Barreirinhas, as praias dos Lençóis e do Saçoitá etc.,  que, inclusive, fazem  o deslumbramento de estrangeiros, cuja finalidade turística principal é se divertir e não se exibir.  


                                                                         

2.                 Outra mania tacanha da terrinha é a badalação em torno de um grande local/acontecimento que, obrigatoriamente, tem de estar repleto de gente. Quando acontece de a mídia privilegiar um  local desses, para lá corre todo mundo, como uma horda que não tem o que fazer nem o que pensar. (Sobra até para inauguração de shopping-center!). Lá estarão por dias e dias  as mesmas pessoas, os mesmos rostos, a mesma disposição em torno de uma badalação cada vez mais insípida até que o falso prazer se esvaece por excesso e inanição. O evento é logo substituído por outro, depois outro, sempre um só. A medida de sucesso empregada, ao contrário da  performance de um eventual artista; do ambiente agradável ou da paisagem desfrutada é sempre a “o volume de gente que estava presente”. Tal coisa, típica de cidadezinha, jamais acontece numa verdadeira metrópole quando existe diversidade de opções e multiplicidade de critérios, personalidades e avaliações.

3.                   Outro vício incapaz de desgarrar-se de uma cidade em seus opulentos quatrocentos anos é a de se taxar, com extrema facilidade, personalidades variadas em diferentes atividades como “ Os melhores da cidade”. Assim é que fulano de tal é o melhor cantor de São Luis, Beltrano é o melhor fotógrafo, cicrana  tem o melhor salão de beleza, e outra o melhor vinho . No ramo de medicina então a coisa chega a ser tragicômica. Doutor X é o melhor cardiologista, doutor Y é o melhor ginecologista e a  Doutora Z a melhor “colocadora de botox” da ilha. O pior é que eles mesmos acabam acreditando nisso e haja preço exorbitante na fuça do paciente!
                        Outro dia fui estacionar  o carro no centro da cidade e um guardador de carro se apresentou: “Sou Boca de Chuveiro, o melhor guardador de carro da cidade, portanto...” e apresentou-me um simulacro de tíquete de estacionamento,  arrancado de um pedaço velho de caixa de papelão. Sem permitir que desconfiasse que eu duvidasse de si, por segurança, o cumprimentei: “Meus parabéns”, e puxei as três pilas que me exigia. De adiantamento. 

sábado, 28 de abril de 2012

O QUE FALTA SABER SOBRE SEXO

artigo publicado na seção Hoje é dia de...
caderno Alternativo, jornal O Estado do Maranhão, hoje, sábado



Será que depois do BBBrasil e das novelas da tevê existe algo a respeito de sexo que alguém no Brasil ainda não saiba? Pelo sim pelo não, reproduzimos, com comentário, algumas das 369 curiosidades (mais de uma para cada dia do ano) que o argentino Aníbal Litvin escreveu  no livro Curiosidades sobre Sexo achando que estava trazendo alguma novidade.

1.      Fumar pode encurtar o pênis quase um centímetro.
            Ou seja, quando o sujeito fuma cigarro , está fumando o próprio pênis também. A diferença é que, do cigarro sabe-se que vira fumaça e cinza, enquanto que, quanto ao pênis, o argentino se esqueceu de dizer para onde é que vai mesmo esse um cm. de piroca.

2.                 A anta é o animal com o maior pênis em relação ao corpo. Ela pode medir, em média, 2 m, ao passo que seu membro pode atingir 1, 5 m.
            Com óbvias exceções relativas às antas brasileiras; Luci-anta Gimenez ( como é chamada por Zé Simão), por exemplo. Todo mundo depois ficou sabendo que seu pênis mais famoso não era lá  essas coisas. Pelo menos, foi isso que Keith Richard contou, em sua autobiografia, a respeito da anatomia de Mick Jagger - o ex de Luciana,  o que causou depois a maior confusão.

3.                 No Líbano, um homem pode ter relações sexuais com animais desde que sejam fêmeas. Relações sexuais com machos podem ser punidas com a morte.
Isso é que se chama discriminação sexual inter-racial às avessas.   Quer dizer que só o homem é que vai para a morte? E o jumento, que aceitou, de bom grado, a coisa?

4.                 Devido a liberação de endorfinas, o orgasmo feminino é um poderoso analgésico, motivo pelo qual dor de cabeça é um pretexto ruim para não fazer sexo.
Os homens de há muito desconfiavam de que isso não passasse de uma desculpa. Uma prova é que quando não é com o marido, ou o namorado, elas nem se importam com a dor de cabeça que vem depois.

5.      Quase 58 % das pessoas costumam dizer grosserias durante o sexo.
Humano, demasiadamente humano, diria o filósofo! E, pela mesma razão,  mais de 99,9 % gostam dessas grosserias.

6. A palavra clitóris deriva do grego e significa chavinha.
Muito justo! Sinal de que, desde esse tempo, já eram muito poucos os homens que sabiam o segredo da tal chavinha.


                                                      

7.      Durante a ejaculação o sêmen atinge a velocidade de 45 Km/h
Embora não tenha sido registrada ainda nenhuma multa por causa disso é bom evitar fazer essas coisas dentro do carro. O limite das barreiras eletrônicas é de  40 Km/h e estas não costumam ser bem aferidas.

8.                 As primeiras ereções dos homens ocorrem no último trimestre da gestação, quando ainda são fetos.
Portanto, se algum parceiro seu, amiga, se gaba de que no segundo mês já conseguia , tire para fora que esse cara não é confiável.  

9.                       No momento de máxima excitação o clitóris dobra de tamanho e o ponto G pode chegar ao tamanho de uma amêndoa..
            Isso não é nada. Nessas ocasiões a conta do motel também fica do tamanho de uma jamanta e o prazo de pagamento ( para a mulher ) pode chegar a 9 meses.

                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com


sábado, 21 de abril de 2012

O SANTOS F.C. ( DOS SANTOS CENTENÁRIOS E CAMPEÕES)



artigo publicado hoje, sábado, na sessão Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal O estado do Maranhão


Imagine um time de futebol pelo qual não torcemos, mas admiramos. Mas que, ao fim, vamos acabar torcendo porque admiramos cada vez mais. Um time cujos jogadores joguem um futebol tão espetacular que o torne maior do que as paixões regionais ou clubísticas.
                        Que não se apressem os leitores em imaginar que poderíamos estar falando do Barcelona atual, de Messi, Xavi, Iniesta etc. Bote mais excelência nisso e estamos tratando  do Santos F.C., esse time de futebol que acaba de comemorar cem anos de existência e que teve um dia em suas fileiras um garoto de dezesseis anos chamado Edson Arantes do Nascimento (êpa, Pelé!) a comandá-lo nessa aventura incomparável, de evoluir  de time pequeno, do interior e sem torcida, para transformar-se, em poucos anos, no melhor time do mundo, durante toda uma década.    
                        Não pensem, porém, que o Santos foi o melhor porque ganhava títulos quando, ao invés, ganhava títulos porque era o melhor. (Uma coisa nem sempre tem a ver com a outra e como faz diferença!). As estatísticas da imprensa, que mostram resultados de ocasião para tentar equivaler, por exemplo, o São Paulo F.C. de três títulos mundiais, ao Santos de Pelé, Coutinho, Pepe, etc. cometem uma atrocidade. O Santos só não ganhou mais títulos internacionais, como a Libertadores da América, porque, simplesmente, não quis. Abandonou a competição, e nisso foi seguido pelos demais times brasileiros, quando tentaram lhe impor jogos contra os desqualificados  Emelecs e Cobreloas da vida. (Na época, os ardilosos cartolas sul-americanos aumentaram o número de competidores da Taça, incluindo o vice-campeão, para que todos pudessem ver Pelé jogar de graça). Tanto não precisou disso que o Santos foi homenageado pela FIFA, em 2001 como o melhor time das Américas do século XX.
                        Livre para exibir a arte de Pelé e cia. onde houvesse espetáculo o Santos, dava-se ao luxo de suspender guerras, como aconteceu  entre duas nações africanas. Eis mais dois exemplos breves, para se ter uma idéia da magnitude de um time de soberana aceitação universal.
1.                 Após ter sido expulso durante um jogo, na Bolívia, Pelé foi intimado a voltar a campo pelo próprio juiz que lhe pedia alvoroçadas desculpas, já que se via na iminência de  fugir sob escolta policial, porque a torcida, revoltada, ameaçava invadir o estádio.   
2.           No interior paulista, depois de dar três lençóis seguidos em adversários distintos Pelé chutou a bola a gol e esta, caprichosamente, não entrou. O juiz validou o gol e quando os zagueiros correram para cima dele, este, candidamente  respondeu: “Pra mim foi gol e acabou.” Ninguém reclamou .





                        Lenda? Folclore? Parece que sim, mas a culpa não é da realidade, por não ter conseguido se impor, mas do sobrenatural por tê-la ultrapassado em existência. E da predestinação também, talvez.  Como explicar que a epopéia vitoriosa do time não tenha cessado de vez, após a “ressaca” da era Pelé, quando o time passou a comer o pão que o diabo amassou,  apanhando de todo mundo? Por um longo período esteve em vias de ser obscurecido pela sombra de antigo time pequeno, recrudescendo  com toda fúria.   
                                    Só mesmo essa predestinação explica porque o time praiano jamais adotou, mesmo nesses momentos mais sombrios, o futebol defensivo e de resultados, o futebol de brutamontes que,  egresso do Rio Grande do Sul, passou a fazer a cabeça de técnicos, comentaristas, jogadores e torcedores,  e se  espalhou feito praga por esse Brasil afora. E foi assim, devido a essa predestinação, que o time superou  o estio de vitórias e aos poucos renasceu: primeiro com  Pita e  Juari, depois Giovani, mais tarde Robinho e Diego e agora Neymar e Ganso. Que time brasileiro hoje pode se dar ao luxo de dispor em seu elenco de jogadores de talento tão excepcional, egressos da própria escolinha, que, no caso do Santos, parece guardar uma aliança entre o destino e o craque?
                        E o que mais for dito, a respeito dessa sina, pouco será acrescentado. Maior glória que ganhar campeonatos é não se render à apatia geral de talento que reina no futebol brasileiro, onde times submissos a técnicos cujo objetivo é ganhar a qualquer custo, encobrem a mediocridade de suas equipes sob o falso emblema de grupo de “garra”. Graças a Deus parece que isso jamais acontecerá com esse time. Está no DNA. 
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

sábado, 14 de abril de 2012

LENDAS MARANHENSES AO ARROZ DE CUXÁ E PITADINHAS DE HUMOR


artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo
jornal O estado do Maranhão, hoje, sábado



A bordo do quarto centenário e relembrando as lendas de São Luis,   ao arroz de cuxá e com uma pitadinha de humor.

                        Lenda do Palácio das Lágrimas

                        O Palácio das Lágrimas fica entre as ruas do Sol e a Rua da Paz. Mais precisamente na rua  São João, esquina com a Rua da Paz. Aparentemente, num prédio situado entre a Paz e o Sol não haveria  motivo para lágrimas. Nem mesmo  por ter sido, durante algum tempo, Faculdade de  Odontologia,  já que os futuros dentistas, apenas estudavam,  não arrancavam os dentes das crianças nesse local.     
            A questão parece ter começado quando dois irmãos portugueses  para cá vieram “Fazer a “América”, como se dizia. Como era de se esperar de dois portugas , estes entenderam  que fazer a Ame-rica implicava um contrato em que cada um faria metade do nome América: um a  parte Ame, outro a parte Rica. Um enriqueceu bastante, já o outro ( com esse negócio de ame) empobreceu cada vez mais, até o dia em que  resolveu esquecer, de vez,  contrato e conselho de mãe e passou à prática tratando de matar o irmão.  
                        Ora, o rico era amasiado com uma escrava negra com quem tinha vários filhos, mas nenhum era legitimado por lei. Isso facilitou as coisas para o assassino que, tomando conta da fortuna, passou a tratar a ex-amásia e os sobrinhos como escravos.
                        Não deu certo. Tão logo cresceu e soube da história o sobrinho mais velho jogou o tio homicida de cima do sobrado. Foi condenado à forca e  diante da morte iminente saiu-se com esta: “ Palácio que viste tantas lágrimas derramadas , ficarás para sempre com o nome de Palácio das Lágrimas!”
                        A razão pela qual o vingador resolveu amaldiçoar uma construção de alvenaria que nada tinha a ver com a bestialidade dos que lá  residiram ninguém até hoje soube explicar. Aliás, ao que se saiba a única maldição que pegou até hoje em São Luis foi praga de sampaino contra o Moto Clube, que virou time de quinta categoria e hoje apanha até do Sabiá  - que nem sequer é o de Gonçalves Dias. .

                                                                      
                                                                            

                        Lenda de João de Una.

                        João era um capitão de navio que vivia com uma única mulher, o que era muito esquisito para um capitão, nessa época, tanto é assim que era chamado João de Una, ou  seja,  de uma só. Não bebia, não ia pra farra, não comia as piranhas de cada  porto, só queria saber de navegar.
                        Até que um dia não voltou mais. Ninguém entendeu, mas todos disseram para consolar a esposa que de uma coisa ela podia ficar certa: não era coisa de mulher. O mistério permanecia cada vez mais crucial (ninguém tinha mais dúvidas do naufrágio em alto mar) até que descobriram, um belo dia, o  navio de João da Una, ao longe, no meio do oceano. Assim, flutuando sobre as ondas, candidamente, sem rumo e sem disposição alguma de querer voltar. Teria João de Una se suicidado?.
                        Nem precisa  dizer que todos os pescadores e marinheiros de São Luis, saíram em seus navios, botes,  barcos, bóias, botos e tubarões, atrás de onde avistavam o navio, agora com estranhas luzes, que acendiam e apagavam. Os que conseguiram chegar mais perto vislumbravam João da Una, mas toda vez que se aproximavam de sua imagem, este dava um jeito de sumir, estranhamente. Tantas e tantas foram as investidas que todos chegaram à uma única conclusão: João havia sido seduzido por uma divindade marítima e cada vez que uma das luzes acendia era mais um filho  que sua adorada feiticeira dava à luz.
                        Mistério e lenda comprovados só  restava dar a notícia à sua ex-esposa que, afinal de contas, não tinha porque ficar se martirizando eternamente. Afinal de contas, ele não a abandonara por causa de outra,  mas fora enfeitiçado por uma divindade marítima
                        A conversa não colou. Divindade ou não havia uma fêmea no meio, o que a levou a bradar, prestes a morrer:
                        “Ora, se era para ser traída por uma zinha qualquer  não precisava pegar uma piranha de navio, bastava ir na Rua 28. Ele é um safado mesmo, e nunca foi João de Uma porra nenhuma, mas de várias. Vai gostar de piranha assim, no meio do oceano!”
                                                                                  joseewertonneto@blogspot.com


                         

                        

domingo, 8 de abril de 2012

CHICO ANYSIO NÃO MATOU MILLOR





Que sacada humorística seria criada por Millor Fernandes, após ter sido sua morte ofuscada, em termos de repercussão na mídia, pela de Chico Anísio, ocorrida alguns dias antes? Alguma coisa do tipo: “Pô, Chico, você podia ter esperado um pouco mais, essa tua última piada foi tão engraçada que ninguém riu da minha!” O que, guardadas as devidas proporções seria bem próprio dele que dizia coisas do tipo: “A Academia Brasileira de Letras é composta de 39 membros e um morto rotativo”, ou “Não quero participar desse rodízio de mortos”, quando perguntado por que jamais se candidatou à Academia Brasileira de Letras.
            Millor, cujo nome nasceu de um  piada, pois devia se chamar Milton, deve ter acatado essa imposição do destino como uma premonição de que ele iria se tornar  o melhor humorista brasileiro, fazendo literatura das boas, numa época em que isso não existia popularmente. “Enfim, um escritor sem estilo!”, ele dizia , fazendo troça dos escritores fanfarrões que existem por aí e de si mesmo. Em nome desse humor, intelectualizado e sutil, porém, sempre próximo do cidadão comum, jamais abdicou de sua função de humorista para escrever “o grande romance” como é comum se cobrar de escritores geniais como ele. Pensando bem, quem escreveu O Livro vermelho dos pensamentos de Millor, cujo título é uma paródia ao livro dos pensamentos de Mao Tse Tung, não precisaria mesmo de um grande romance.
            A primeira vez em que deparei com alguma interligação dos talentos humorísticos de Chico Anísio e Millor Fernandes foi quando, na adolescência, li uma seção na revista Realidade, em que talentos e celebridades, falavam um do outro. Na época, Chico Buarque, jovem já consagrado depois do avassalador  sucesso de A Banda referia-se a Millor: “Millor é sério, mas Vão Gogô é engraçado”. (Vão Gogô era um pseudônimo que Millor usava, na época). Chico Anísio, por sua vez, falava de Chico Buarque, e introduzia sua música Quem te viu quem te vê como uma das três melhores de toda a MPB, além de Feitiço da Vila, de  Noel, e outra da qual não me recordo.
            Alem de terem sido humoristas geniais  e da quase coincidência na hora da morte, Millor e Chico Anísio guardavam muitos pontos em comum, mas algumas sutis diferenças, uma das quais se pode extrair da própria frase de Chico Buarque sobre Millor. O humor que se consegue extrair de pessoas com essa personalidade, séria, jamais poderia ser como o de Anísio, espontâneo, por vezes extravagante, mas, sim aquele  que nos permite sorrir das fraquezas humanas, nas entrelinhas do que se lê,  a reboque de alguns trocadilhos inesperados. Numa época em que todos os estudantes brasileiros liam Millor e o Pasquim, uma de suas mais comentadas tiradas ocorreu quando ocorreu o primeiro transplante de coração feito pelo médico Christian Bernard que causou sensação no mundo inteiro. Millor saiu-se com esta: “Blaiberg não foi o primeiro. Já havia  o Ricardo Coração de Leão.”
            O humor de Chico Anysio, igualmente genial, tendia pela própria natureza da construção teatral a ser  obrigatoriamente popularesco e imediato, embora traduzisse igual sutileza na construção dos personagens. Coincidiram ambos, porém, no declínio da última década. O humor de Chico Anysio, baseado na criação de personagens, tornou-se rapidamente arcaico, quando não foi mais capaz de se traduzir na criação de protótipos das novas  gerações, pós-internet.
                                                                       
            Millor, por sua vez, apesar de perfeitamente integrado, desde sempre,  às  exigências dessa nova comunicação,  que exigem textos rápidos, velocidade de pensamento e ironia concentrada ( Millor sempre foi um inovador e antecipou-se a escritores como Zé Simão cujo texto ainda é mais acelerado que o dele) , já não tinha a mesma verve, conseqüência, talvez , do envelhecimento. Seu ultimo estágio na revista Veja foi pouco penetrante na receptividade dos leitores e seu blog estava longe de ser um dos mais disputados entre os internautas quando comparados a outros sites de humor que hoje proliferam na rede.
            A morte de Chico Anysio “matou” a de Millor Fernandes? Qual deles ficará para a eternidade? Neste ponto, ouso acreditar que levará vantagem Millor :seu tipo de humor é mais durável por não se basear nas características individuais de personagens estratificados numa época , mas na crítica ao gênero humano como um todo, seus aforismos atravessarão mais facilmente a memória, montados que estão nesse único veículo capaz, talvez, de tanger a eternidade que  é a literatura.
            Porém, o mais certo é que ambos estejam se rindo dessa tal eternidade, em alguma mesa de bar, pros lados do infinito. Chico fazendo o professor Raimundo para os garçons e Millor rabiscando, mais uma vez, num caderno de anotações: “ Certos escritores se pretendem eternos e o máximo que conseguem ser é intermináveis.”
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com