sábado, 1 de dezembro de 2012

VÁ SE FODER!




Artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal O Estado do Maranhão



“ O pior palavrão vira pó e palha. Diante de um canalha.”

                Agora é científico. Estudo afirma que falar palavrões, ajuda resistir à dor física. Ou seja, um puta que o pariu!, um vá se f...!,ou um filho de uma égua!,  ao invés de serem obscenidades são, nada mais nada menos, que recursos postos pela evolução  à serviço do ser humano, para que este descarregue suas frustrações e sofra menos, inclusive fisicamente.
                Tal estudo foi desenvolvido pela Escola de Psicologia da Universidade de Keele, na Inglaterra e publicado pela revista especializada NeuroReport, ano passado concluindo que não há nada como um bom palavrão para amenizar a dor .
                Essa notícia é deveras alvissareira, principalmente por aqui, onde recentemente foi noticiado que nos hospitais falta remédio para socorrer os doentes.  Fico imaginando um sujeito,  morto de dor, chegando ao Socorrão e o médico de plantão,  já inteirado da nova descoberta, receitando.
                - Se não tem remédio, enfermeira, mande  ele xingar .
                - Xingar o quê?
                - Ora, mande  ele xingar qualquer coisa: Deus, o  mundo,  o juiz de futebol,  o mais alto que puder.
                O doente, claro, não se faz de rogado
                - Médico filho da puta! Enfermeira piranha! Hospital de merda!
                O  doutor,  impassível,  a tudo  fica escutando, calmamente.
                - Doutor, ele não para de xingar! – diz a auxiliar.
                - Deixe-o à vontade.  Quanto mais ele xingar, melhor.
                Finalmente, o doente cansa. O médico, com ar vitorioso, pergunta para a enfermeira. 
                - E agora, enfermeira, como está o nosso doente?
                - Ele diz que a dor aliviou.           
                - Eu não disse? Chame o próximo.


2. Os médicos terão de se especializar nisso cada vez mais. Aos poucos haverão de surgir  os  mais talentosos, ou seja,  aqueles capazes de receitar o palavrão mais apropriado para cada tipo de dor. Ao invés de Novalgina: sacana sem-vergonha!, ao invés de Buscopan:  cadela vagabunda!, ao invés de Atroveran: corno safado!.  O médico dos hospitais públicos, principalmente, terá de evoluir para ser um profissional  com  alta dose de psicologia para obter, sempre,  a melhor resposta para o sofrimento. Imagine a economia  que o Ministério de Saúde terá com isso! Imagine  a alegria dos corruptos com a sobra! 
 Um problema surgirá, no entanto. Como é fácil constatar, os xingamentos, com o tempo, tendem a se tornar inócuos, ou seja, com prazo de validade vencido.  Quem ainda se julga ofendido ao ser chamado de Sacana? Qual a mulher que reage negativamente, como antes, ao ser chamada de puta? (Esta semana, a idolatrada  Ivete Sangalo , proclamou, muito orgulhosa na revista Playboy  ,  que toda mulher tem que ser uma quenga). Qual o mandatário  que se ofende hoje ao ser chamado de corrupto canalha se, pouco tempo depois, o próprio povo o reelege? O problema com esse tipo de remédio é que, de repente, pode ser necessária  uma alta dosagem. Novos xingamentos precisariam ser inventados, mas, como?  
                                                       
                                                          
3.Pensando bem, acho que a solução poderá vir dos anti-palavrões.  Mas o que seria um anti-palavrão? Justamente, o que se convencionou se chamar – em tempos muito remotos - de virtudes. Deu para entender? O que ofende mais alguém hoje em dia: ser chamado de cafageste ou de humilde? De sacana ou de honesto? De corrupto ou de pobre? De santa ou de puta? (Basta entrar nas redes sociais virtuais para constatar a multidão  de meninas  de treze anos,  reclamando de bullyng nas escolas por terem  sido chamadas, pejorativamente,  de virgens). Ser um glorioso sacana, por sua vez,  é o auge da reputação que um homem respeitado pode desejar : seja ele um caminhoneiro ou um freqüentador das colunas sociais.   
Enfim, bastaria  atualizar a palavra ofensiva e  xingar à vontade: o que interessa é que a ofensa seja capaz de ofender  alguém  na medida certa. Para aliviar a própria dor.
                                                                              ewerton.neto@hotmail.com                                                                                                  http://www.joseewertonneto.blogspot.com

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

POVO/CURRÍCULO



artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal O estado do Maranhão, sábado



CURRICULUM VITAE DO POVO


Enfim, o currículo do povo. Essencial, nesta hora de troca de prefeitos em que corre o boato de que vão botar muita gente na rua. O povo, como todo mundo sabe, também é gente e - como nem todo mundo sabe -  também precisa de emprego. Portanto, é hora de colocar o currículo, mostrar o potencial e sair à caça. Para os que saem e os que  chegam, o importante é mostrar para os empregadores  o que é o povo, suas qualidades, suas aspirações  e a que veio. 
1.Nome: Povo
2. Apelido: (antes da eleição); Minha Gente, Brasileiros, Companheiros. (Depois da  eleição); Ignorantes, Raça de Malandros, Gente Imprestável.
3. Filiação: (pai)  Nunca soube quem foi. (mãe) Alguém que  nunca soube quem foi seu pai.
4. Data de Nascimento: Ainda não nasceu. Só vegetou.
5. Local: Debaixo de pontes, de viadutos, de papelão,  do céu etc.
6. Onde Reside: No próprio corpo, quando não está bêbado. Quando está doente é residência fixa, quando está se arrastando, é móvel.
                                                                 

7. Estado Civil. O único estado que a ele se aplica é o de calamidade pública.
8. Sinais Característicos. O dente que sobrou e uma infinidade de vermes.
9. Carteira de Identidade. Identifica-se pela falta de dinheiro, na carteira.
10. Carteira de Habilitação. É habilitado pelo Governo para andar a pé, desde que não seja em shopping  centers, faculdades, centros de convenções, camarotes , etc.
11. CPF. Não tem o CPF, mas tem o CDF, de tanto exercitar o traseiro nas calçadas das filas dos hospitais públicos.
12. Escolaridade. Sonha em ser acadêmico um dia ( de escola de samba)
13. Curso de Pós-Graduação. É especialista em pós: de estrada (nas caminhadas de sem-terra); de calçada, de crack etc.
14. Curso de extensão: Vive se aprimorando em estender a mão - para pedir dinheiro.
15. Um motivo de orgulho: Os nove filhos.
16. De tristeza: Dois terem sobrevivido.
17. Música preferida: De panela cheia de feijão, chiando no fogão.
18. Cantor preferido: A torcida do Flamengo gritando gol ( mas isso já faz tempo).
19. Uma dúvida: Dúvida não tem nenhuma, dívidas  tem muitas.
20. Frase histórica mais conhecida. “Se é para o bem do povo e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico - com o dinheiro.”  De Dom Pedro I ou  de um político qualquer.
                                                                              ewerton.neto@hotmail.com                                                                   http://www.joseewertonneto.blogspot.com.br

sábado, 17 de novembro de 2012

RESOLUÇÃO DOS PROBLEMAS DE SÃO LUIS? SÓ NA FEIRA



artigo publicado na seção Hoje é dia de..
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão


Solução para os problemas de São Luis? Só na feira.
Não, não pense que é piada e que a maliciosa pergunta induz à resposta “sexta-feira” , que é o dia para onde tendem, nas mesas de trabalho dos tecnocratas e burocratas,  todos os problemas  sem solução da nossa capital. Mas, pense numa feira, mesmo. Essa, que se intitulou  XI Feira de soluções e teve como tema “ A matemática aplicada aos problemas de São Luis” . Coitada da matemática!
Um amigo meu, repórter,  foi  lá para conferir. E, depois de enaltecer a iniciativa dos jovens alunos, sempre sonhadores,  transcrevo alguns tópicos, os mais populares,  que lá foram discutidos, com  suas soluções. Matemáticas?
1.O que será feito com  o V.L.T. ?  Eis aí um problema para dar uma bruta dor de cabeça a qualquer matemática que se preze.  Uma solução aparentemente lógica teria  de estar  numa equação a várias incógnitas – e bote incógnita nisso! Dito e feito.  Uma grande batalha foi travada entre alunos, computadores e programas de dar em doido no Excel, sem que nada de prático se concluísse.   A resposta jamais seria  encontrada se um estudioso  não tivesse a feliz idéia de atentar que a solução teria de vir  da resolução  complexa, não de uma equação, mas de uma matriz. Não, não de uma  matriz matemática, mas na matriz das idéias que passam pelas cabeças de nossos administradores.
Resumindo:  “ a matemática faz sua parte, saber o que se passa na matriz  das idéias de nossos tecnocratas ,  aí são outros quinhentos”.



2. Como resolver o problema de nossas  praias poluídas?  Depois de matarem a cabeça,  mais uma vez,  os estudantes  chegaram à conclusão de que a solução teria de estar numa permutação pura e simples, embora não necessariamente, matemática.  Deu para entender?
Essa  possível solução foi sugerida por um estudioso,  que,  por sinal,  é morador de um  luxuoso prédio na Ponta D`areia.  Ele diz que há muito tempo convive com o problema tanto é assim que toda vez que vai ao banheiro e dá a descarga costuma se despedir do cocô, dizendo “até-logo” porque sabe que vai encontrá-lo horas  depois nas águas da Ponta Areia, boiando nas águas onde costuma banhar-se.  Daí porque, com sua  vasta  experiência, ter chegado  à conclusão de que a solução não passa longe de uma permutação - que já foi feita, aliás. Enfim, para  bem de todos e felicidade geral da nação: basta permutar  o método de cálculo e o local das medições, que os cocôs  comportam-se direitinho.  Simples não é?  Se a matemática não vai a Roma, Roma vai à Matemática. Ou, para quem não gosta de adágios: se os cálculos dizem o que não se quer, mudam-se os cálculos.
3. Como   aumentar  seu  patrimônio  3 a 4 vezes  com o mesmo salário?  A notícia, escancarada pelos jornais da capital sobre o patrimônio de alguns vereadores e posta para resolução matemática caminhava para um desfecho sem solução quando alguém propôs a idéia de que os números dos salários, podem sofrer de um súbito “ Mal de Alzheimer  matemático”. Ou seja, números racionais, tornam-se irracionais de uma hora para outra,  dando uma canseira nos computadores que tentam controlá-los, em vão. Daí que podem descambar  para um crescimento em  progressão geométrica, tanto mais rápido quanto mais o sujeito não souber explicá-los.  Nem precisa dizer que a solução matemática sugerida foi exaustivamente  aplaudida pelos políticos presentes.
4.  Como aumentar de uma hora para outra  a quantidade de municípios do Estado e, principalmente, da ilhal?  Alunos e professores deram tratos à bola para responder a tão intrigante questão até chegarem  à conclusão de que esse  interesse político pelo “bem estar da população” pode ser expresso por uma equação traduzida pela seguinte relação:
 1 quebra-molas + 1sujeito (querendo ser prefeito) + amizades com deputados + um caminhão velho = Município.
Relação matemática essa que passou a se chamar, imediatamente,  Lei da Criação de Municípios no Brasil. De tão genial, este arranjo  matemático deverá ser propagado  para outros estados brasileiros onde sempre haverá   interesses  de mesma natureza.



5. Como aumentar a mobilidade do trânsito na capital? Eis uma tarefa hercúlea para qualquer matemático de vez que em São Luis, por falta de bons planejadores, todas as vias paralelas,  em número de mais de quinhentas, oriundas de mais mil subúrbios tendem para duas ou três avenidas principais onde circulam mais carros do que gente, mais guardas de trânsito do que carros e mais barreiras eletrônicas do que guardas .  A solução matemática encontrada, se é que podemos chamar assim - , foi questionar o  postulado antigo da Matemática  que diz que duas paralelas se encontram no infinito. Em São Luis, garantem  os matemáticos,  as  paralelas sempre se encontram, ao contrário de no infinito,  num monstruoso engarrafamento.
Encontrada  a “raiz” do problema, lamentou-se que esta nada tivesse a ver com  uma “raiz” quadrada. Desta, pelo menos, poderia se esperar uma solução.
                                               ewerton.neto@hotmail.com                                                                                                                  http://www.joseewertonneto.blogspot.com

sábado, 10 de novembro de 2012

OS HÍMENS ESTÃO À VENDA



artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal O Estado do Maranhão



Você tem menos de vinte e um anos e é bonitinha. Conseguiu – sabe-se lá como! - manter seu hímen  intacto  até agora. Tem uma vontade danada de ganhar dinheiro fácil, mas acha que fazer concurso para modelo é perda de tempo   porque não tem ossos à vista o suficiente.  Idem, já pensou em se inscrever para o BBBrasil, mas a concorrência por lá também é grande: a putaria é exagerada,  os machos são retardados  e um hímen intacto não ia fazer tanto sucesso. Que tal vender seu hímen?

                                             

Foi essa a idéia  que teve Catarina Migliorini, catarinense,  20 anos completos e hímen idem.  Inscreveu-se num  site australiano de seleção de virgens e foi escolhida para doá-lo, em leilão. O preço do dito cujo  já está por volta de duzentos mil dólares e, com isso, ela avança firme em sua pretensão não anunciada: fama e dinheiro. Diz, para despistar, que usará a grana para financiar seus estudos de medicina e para abrir uma ONG.  Antes que os grupos religiosos comecem  a lhe meter o pau (sem duplo sentido, já que, por enquanto ninguém venceu o leilão) ela reage dizendo que sua finalidade é puramente artístico-científica. Segundo o site, o propósito da empreitada é fazer a divulgação de como uma mulher se sente antes, durante e após perder a  virgindade. Será?
 O site só não explica porque não foram perguntar  isso para qualquer periguete num baile funk da periferia. Talvez porque acreditem, com razão, que isso faz tanto tempo que elas não se lembrariam.  Poderiam, por outro lado, indagar a qualquer  aluna de corte e costura, que esta responderia facilmente :  piranha antes, dorzinha durante, milionária depois. O certo é que enquanto o dia D não chega ( será dia 25 deste, num avião sobrevoando o Pacífico) Catarina curte férias em Bali – na Indonésia, sem descuidar de suas obrigações profissionais: estuda  seu ponto G, prevendo  que isso poderá ser  de muita serventia-  logo depois do dia D.
            2. Por outro lado, se você for do sexo masculino,  jovem, e tiver as mesmas aspirações  de grana fácil, não fique triste imaginando que as oportunidades  sexuais da rede sejam discriminatórias em relação aos homens . Saiba que o russo  Alexander Stepanov, de 23 anos, também resolveu leiloar a sua virgindade.  Tímido,  ele se justifica dizendo  que ficaria mais confiante com uma mulher que pagasse para transar consigo,  iniciando uma nova era: a do sujeito que precisa ser pago como prostituto para poder dar sua ‘arrancada’. Antigamente, como se sabe , a coisa era diferente:  o marmanjo é que  tinha de pagar uma prostituta para iniciar-se. Parodiando Machado de Assis: mudaram as prostitutas ou  mudou o tesão ?

                                          


O único problema  é que o rapaz esqueceu de perguntar às mulheres o que elas acham disso. O preço de sua  virgindade  chegou a apenas 13 mil dólares, mesmo assim atulhado de ofertas de homossexuais ativos e passivos. Parece que as mulheres continuam não dando tanto valor assim para esse negócio de “virgindade masculina” e,  se tivessem que escolher, prefeririam um na base do quanto mais “estuprado” melhor. A história de sucesso dos Casanovas e Don Juans da vida prova isso.
3.  Para os  coroas e desprovidos de virgindade, por sua vez, nem assim cessam as oportunidades sexuais milionárias da Internet. Notícias repetidas  pela imprensa internacional dão conta de que existe  um bilionário chinês de Hong-Kong oferecendo mais de cem milhões para o ‘homem de verdade’ que for capaz de conseguir  dissuadir sua filha de casar com uma lésbica. Como a tarefa não seria  nenhum sacrifício a julgar pelo retrato da chinesa divulgada nos jornais, resta encontrar a solução para  esse  “homem de verdade”,  que até as brasileiras reclamam de que não existe mais, seja do ponto de vista chinês,  finlandês ou extra-terrestre.
Resumindo, se você for jovem e quiser ganhar dinheiro fácil nem precisa ser filho de milionário ou ter um paisão político para herdar sua herança de votos. Basta diminuir a cota de seus escrúpulos sexuais e correr para a Internet. As chances são vastas.
                                                                                  José Ewerton Neto

sábado, 3 de novembro de 2012

OS MAIORES MONSTROS SÃO OS HOMENS



artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal O estado do Maranhão, hoje sábado,
com o título Sobre Monstros e Humanos


“ A maior arrogância do homem não é imaginar-se à imagem e semelhança de Deus, mas acreditar que o diabo pode se pior do que ele.” Do livro O infinito em minhas mãos

                Tenho a impressão de que nós, humanos, fingimos ter medos de monstros, que na maioria das vezes  inventamos, como forma de escaparmos da realidade de que nós somos nossos próprios monstros, mais ou menos como diz a epígrafe da novela acima referida, deste cronista.
                Daí que a maioria dos monstros com que costumamos nos aterrorizar desde os tempos de criança, não  passam de personagens simpáticos - embora bizarros, por vezes até ingênuos na sua incapacidade de nos causar real pavor.  Uma prova disso são os vampiros e sua transformação atual em objetos de desejo sexual,  almejados por  todas as nossas adolescentes. O que, pensando bem, soa plenamente justificável, pois, caso não tivessem sido inventados à sua época, por quem sonhariam nossas garotas, hoje, se a realidade é tão implacável para com elas? Fiuk, Luan Santana, Gusttavo Lima? Todos  são cantores e ídolos  medíocres, tão anódinos quanto bobalhões, a se prestarem, quando muito,  para consumo em histeria coletiva  comandada por qualquer bobo da corte televisiva. Mas, e para sonhar? Muito melhor um vampiro.
Por outra, quem deveria nos aterrorizar mais: uma assombração que nos espanta,  mas que é incapaz de nos causar dano maior, ou um político corrupto, desses que elegemos com freqüência,  a subtrair as verbas destinadas  às escolas e hospitais e condenando milhares, inclusive nossos parentes,  à morte?  Ora, isso apenas reforça a convicção de que o lobo do homem é o próprio homem e, perto dele, qualquer  lobisomem não passa de um cordeirinho.
                Quando me tornei amante, em criança, de histórias em quadrinhos não conseguia me aterrorizar com o que via nas revistas  de terror. Os zumbis, por exemplo,  apareciam como seres assustadores, mas o que me dava era uma imensa pena desses coitados. Que mal podia fazer um zumbi? Sendo  um morto-vivo, era alguém que tendo morrido, sequer tinha o direito de gozar de sua paz definitiva. Embora feios, não distinguia maldade em seus rostos, o que me expressavam era uma imensa tristeza,  bem parecida com aquela  do famoso quadro de Edvard Munch. Eram,  no meu entender, vítimas, não algozes. Igualmente, por mais que tentasse não conseguia entender – isso até hoje - porque pessoas adultas tinham (ou têm) medo de pessoas mortas, muitas vezes queridas, temendo que depois de mortas, estas lhes apareçam como fantasmas. Que poderia haver de melhor na vida do que a visita, pós-morte, de um ente querido, pelo menos para nos dar a certeza de que não se foi, definitiva e implacavelmente, sem retorno?
                Recente publicação da revista Superinteressante traz   uma lista de bestas e feras, desde as  mais conhecidas:  vampiros, zumbis e lobisomens acima referidos, passando pelos monstros poéticos como unicórnios, sereias e hidras até os quase reais como piranhas, tubarões , baleias monstruosas e água-vivas  mortais.  Todos são tão deliciosamente inofensivos quanto as histórias mirabolantes  que são contadas sobre eles, sem contar os simplesmente cômicos como o saci-pererê e a mula sem cabeça.

                                                                      

                A  revista, no entanto, parece ter esquecido da serpente encantada de São Luis – essa que um dia, quando seu rabo encontrar a cabeça vai esmagar a ilha. Ou seja, mais  um monstro que, originado  de uma lenda é igualmente  digno de pena em seu destino inglório de  ilusão descabida.  Pois, como disse a seus amigos que foram visitá-lo em seu  recente aniversário,  o poeta e cronista  José Chagas evocando, de uma de suas crônicas passadas, seu amor à São Luis :  “Esta cidade permanecerá para sempre imorredoura e bela porque resiste aos seres humanos que estando sobre ela fizeram  de tudo para destruí-la, administradores ou não”. Portanto, se a cidade  conseguiu resistir aos homens, que dirá à serpente!
                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com                                                                                                   HTTP://www.joseewertonneto.blogspot.com



sábado, 27 de outubro de 2012

A BOLÍVIA QUERIDA NO A-B-C BEM HUMORADO DE SÃO LUIS (4)


Artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo, jornal
O Estado do Maranhão, hoje, sábado


Em sua quarta edição , segue o A-B-C  bem humorado de São Luis, um passeio com livre interpretação sobre as expressões idiomáticas, ditos e coisas típicas de nossa cidade. ( Mais uma vez  na carona dos imperdíveis livros de  J.R. Martins e José Neres sobre expressões populares maranhenses)
1. “A Valença é que”...A sorte é que. O sanluizense, esperto,  prefere  falar de valença do que de sorte acreditando, com razão, que falar de sorte pode dar azar.  
2. “Acender o morrão”. Iniciar a bebedeira. Embora seja usado por homens e mulheres  teria sido originado do dito universalmente conhecido: água de morro abaixo, fogo de morro acima e mulher quando quer dar ninguém segura. Daí o ‘acender o morrão’,  já que, ao iniciarem a bebedeira elas já estão acesas há muito tempo.
2. “Baixar a matraca” – Surrar, bater. Como ultimamente vem fazendo a Bolívia querida ( abaixo).
3. “Bolívia Querida” – Diz-se do time de futebol mais querido da cidade, o Sampaio Correia F.C. , o único, em todo o Brasil  a possuir, depois de domingo passado,  três títulos de campeão nacional : da segunda, terceira e quarta divisões, o que leva a concluir que o próximo será o da série A, não pela seqüência no tempo ( primeiro foi a segunda, depois a terceira e a quarta) mas porque não há mais divisões.  O Sampaio Correia é possuidor de algumas características que o diferenciam e  o tornam simpático até para os torcedores mais distantes . O nome não é uma homenagem a um grande personagem histórico como, por exemplo, o  Vasco da Gama, mas a um intrépido aviador quase desconhecido que pousou pela primeira vez em São Luis num avião vindo de outro país, no caso, a Bolívia. Daí as cores do time inspiradas na bandeira dessa nação. Aliás, muito impressiona que,  até hoje,  os mandatários bolivianos não tenham reconhecido esse imenso serviço prestado às cores de seu país pelo time maranhense e não tenham convidado a Bolívia Querida para jogar contra a sua seleção. Vai ver que devem ter medo do resultado, pois o Sampaio, a julgar pelo que vem mostrando, ganharia de goleada. 
Na última partida, aliás, que fui assistir no renovado Castelão lotado – está uma maravilha! - o segundo gol  boliviano foi uma obra-prima com impressionante semelhança com a marca de Diego Maradona ( que tive o privilégio de assistir no Maracanã, a primeira vez em que esteve no Brasil quando, jovem ainda,  era apenas uma promessa  genial) : o lançamento, preciso,  no espaço futuro que nos deixa atônitos por alguns segundos  até que aparece um companheiro livre diante do goleiro para concluir. Coisas de Arlindo Maracanã,  em seu dia de Maradona.
Quanto à simpatia que exerce na torcida - que o leva a ter preferência local até de torcedores flamenguistas, portanto rubro-negros, o que, a princípio, deveria ser uma incoerência porque seu rival Moto-Clube tem essas cores - deve estar nestas pequenas singularidades atraentes: a humildade de ter escolhido o nome de um modesto aviador e, como símbolo, as cores, também,  de um modesto  país: verde, vermelho e amarelo na camisa e calção cáqui.  ( Cadê o calção cáqui ? O calção verde que vi no domingo, a meu ver  tira a originalidade  do uniforme) . A Bolívia querida deve ter  a preferência e admiração de uns oitenta por cento dos torcedores desta ilha o que faz com que São Luis, além de Atenas Brasileira e Jamaica Brasileira seja também a Bolívia Brasileira.
4. “... e ele nem seu Souza”. E ele nem aí; não dar atenção a alguém ou coisa. Teria se originado quando um  comerciante chamado Sousa abriu um restaurante no centro de São Luis e, à semelhança do turco Nacib de Gabriela, não via – ou fingia não ver - o batalhão de marmanjos que davam em cima de sua  esposa que tomava conta do restaurante. Quando perguntada por que não tinha filhos ela respondia: “Nem eu nem Sousa gostamos de crianças”, embora, vez por outra, no cair da tarde fosse surpreendida  no colo de algum rapazote na mesa mais oculta do restaurante. Grande Sousa!
5.  “Paidegual”. Superlativo de pai d`´egua ; avantajado; muito grande. Ou seja, trata-se do aumentativo de um aumentativo já que o maranhense chama pai dégua algo avantajado ou monstruoso. Ex prático: “Nada existe de mais paidegual do que as mentiras que os políticos contam aos seus eleitores quando pedem voto. Donde se conclui que paideguinhas, no mínimo, é como os políticos tratam, em suas intimidades,  os mesmos eleitores depois de eleitos”.
                                                                              ewerton.neto@hotmail.com

sábado, 29 de setembro de 2012

VIDA E MORTE DO MARACUJÁ-PÊNIS



artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o estado do Maranhão, hoje, sábaso


Morreu o maracujá-pênis. Sem pompa e circunstância, sem aplauso, sem choro e sem vela, sem discurso de vereador. Morreu onde nasceu, num pequeno sítio em São José de Ribamar, humilde como sempre foi, sem entender muito bem a razão de tanto interesse humano pelos seus dons, digamos assim, fálicos. Teve vida gloriosa e breve, embora modesta, e faleceu ao lado das folhas secas do pequeno pomar onde nasceu, sob o olhar vigilante de sua dona, Maria Rodrigues, de 56 anos que até agora não conseguiu conter o choro diante de sua partida irremediável.  
            Alguns pequenos detalhes de sua ‘curta’ biografia:
            Tudo começou quando num belo dia dona Maria resolveu comprar um maracujá comum, amarelo e redondo. (Até aí nada demais, pois quem não gosta de maracujá, principalmente amarelo?) Sua surpreendente trajetória só começou a se delinear quando Dona Maria resolveu plantar o fruto no quintal do seu sítio. Eis que, contrariamente a todas as previsões de falta de cuidados, o pé de maracujá, mesmo assim cresceu. Foi crescendo, crescendo, cada vez mais até que...
                                                                               
            Meses depois, noutro belo dia, o filho de dona Maria, que caminhava pelo pomar, não conseguiu conter um grito de pavor ao deparar com um gigantesco pênis, pendurado num galho de uma árvore. Muita coisa deve ter passado pela cabeça do pobre garoto (nenhuma delas, de desconfiança das mulheres de casa, diga-se de passagem) até constatar que, de fato, tratava-se mesmo de um maracujá. Nem precisa falar de sua corrida desabalada para avisar dona Maria, Deus e o mundo. Pronto! Estava descoberto o maior fenômeno natural jamais ocorrido na cidade: um pujante e sedutor maracujá-pênis, pendurado no galho de uma pequena árvore, mostrava potencial para seduzir todas as mulheres carentes e não-carentes deste planeta.
            A partir de então, divulgado o fato nas redes sociais e na imprensa, todo mundo sabe mais ou menos o que aconteceu no que se refere ao seu apogeu e glória. Dona Maria, de repente, viu seu modesto sítio transformado em atração turística internacional, a princípio freqüentado apenas por vizinhos e  curiosos, para logo depois ser invadido por turistas e jornalistas do Brasil e do mundo. Resolveu,  claro, cobrar pela exposição, como dizia: “Já perdi a conta de quantas pessoas passaram por aqui, de manhã, de tarde e de noite. Depois que o meu celular sumiu passei a cobrar 2 pela visita, 15 para tirar foto e 30 para filmar”. Ou seja, tabela de cobrança tão perfeita assim, nem mesmo a do leão do imposto de renda! A única falha na contabilidade de Dona Maria foi ter esquecido de cobrar o lucro pela fantasia sexual propiciada, de graça, às mulheres.
            Tão surpreendente quanto a vida do maracujá-pênis foi sua morte precoce. A hipótese, por ela levantada, da ação dos cupins para justificar o ocaso precoce do fruto tão sedutor e gostoso (em ambos os sentidos), é refutada pelas mulheres da cidade, compreensivelmente revoltadas. “E o maracujá-pênis, propriamente dito? Quem se preocupou com o seu próprio bem-estar e prazer? Não teria sido melhor ter nascido um maracujá comum e azedo do que ter sido transformado num prostituto fudido e mal-pago?”
                                                                       
            Tantas possíveis explicações psicológicas parecem tardias, agora, para compensar a perda de um personagem tão simpático e querido do povo da cidade. Sabe-se, no entanto, que as comunidades populares femininas da cidade balneária já estão se movimentando para exigir de seus administradores que seja erigida, de imediato, uma estátua do maracujá em praça pública, capaz de preservar para sempre sua saudosa e insubstituível memória.
            De preferência, dizem elas, em tamanho  cinco vezes maior que o original.
                                                                                                                                                                                                                               ewerton.neto@hotmail.com
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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

COMO IDENTIFICAR UM BOM CANDIDATO



Artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão, sábado, passado


Se a idéia que os eleitores brasileiros têm de seus políticos é a pior possível, deve-se reconhecer que a recíproca também é verdadeira. Só isso explica que um candidato contrate um carro velho disfarçado de trio elétrico, para fazer urrar, sob elevados decibéis, nos ouvidos de um potencial eleitor seu nome ou número, tendo ao fundo a música mais paupérrima e irritante possível. Uma, duas, três, milhares de vezes por dia, sem compaixão pelo sossego do pobre cidadão.
                        Ora, se um candidato acredita piamente que conseguirá votos dessa forma isso é o mesmo que acreditar, também piamente, que ele considera seu eleitor um idiota ou um retardado mental Equivale à crença de que é possível enfiar na cabeça de alguém um nome apenas pela sua mera repetição desenfreada, mais ou menos como faria um domador com o animal que pretende adestrar.  Ou seja, para eles o eleitor é um ser completamente estúpido.
                        Já que esse procedimento deve estar em dia com a abordagem aconselhada pelos seus marqueteiros, que tal tentar identificar  o bom político pela sua similaridade midiática já que até dentro de suas casas, numa tela de televisão, eles fazem questão de aporrinhar seus eleitores?

1.                Político Xuxa. É aquele que quando era pobre não se importava em ver (ou gozar) com a coisa preta. Agora, que está com a vida cor-de-rosa, dá uma de defensor das minorias. Baixinhos, altões, sapatonas, bipolares etc.

2.              Político Asa de Águia. É aquele que tão logo vê uma chance de locupletar-se com o dinheiro público avança em cima do voto do eleitor como uma águia. Mas, assim que se elege desaparece e voa. Feito a mesma águia.

3.                 Político Chiclete com Banana. É aquele que para se eleger promete o que lhe dá na telha: de chiclete a banana, passando por hospitais e foguetes interplanetários.  

4.                 Político Avenida Brasil. É aquele que acredita que seu eleitor é vagabundo ou não tem o que fazer. Por isso acha que toda ruela ou beco, por onde seu eleitor transita, é uma imensa Avenida Brasil que ele pode ocupar a hora que quiser com bandeiras, passeatas, carreatas e gritarias de acólitos e  puxa-sacos.

5.                 Político Mastruz com Leite. É aquele que só almoça em restaurante do Calhau e adjacências, mas em época de eleição se manda para o Mercado Central ou Feira do João Paulo e faz questão de comer até mastruz com leite com os feirantes – principalmente se houver uma câmera de televisão por perto.

6.                 Político Jô Soares. É aquele que antes da eleição faz graça para todo mundo rir, mas depois que se elege só atende depois das onze e meia.




7.                 Político Companhia do Pagode. É aquele político que se anuncia jovem, com quase quarenta anos, mas quer aparentar vinte graças ao Photoshop. Que nunca foi visto antes em lugar algum da cidade mas se for eleito, logo passará a ser visto em companhia de um bom  pagode.

8.                 Político Big-Brother-Brasil. É aquele que promete um milhão se for eleito e, depois de meter um bando de periguetes e  aventureiros dentro de uma casa alugada, faz de conta que aquilo é um comitê de campanha eleitoral.                                                                                          ewerton.neto@hotmail.com                                                                       http://www.joseewertonneto.blogspot.com

sábado, 15 de setembro de 2012

BRAZUCA, A BOLA DA VEZ



artigo publicado sábado passado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão


Chama-se BRAZUCA, com z, a bola que vai ser jogada de um lado para outro, durante a copa de 2014 e que dará o tom, nesse período, da alegria e do mau humor brasileiro. Esse foi o nome escolhido, numa competição em que derrotou suas colegas Carnavalesca e Bossa-Nova.
                        A escolha teria sido justa? Pensando bem, todo o povo brasileiro deveria ter sido chamado a participar.  Futebol é tão importante no Brasil que todos adorariam, mesmo porque se já são obrigados a votar em políticos que não conhecem e que não querem ver mais gordo, por que não se disporiam a votar em alguém ( a bola) que jamais ficará azucrinando seus ouvidos, repetida e cruelmente, dia após dia,  até chegar às eleições?
                        De minha parte, prefiro mesmo a Brazuca, mas devo reconhecer que, até nesse tipo de eleição, os candidatos são muito fracos. Começa que Bossa-Nova nunca foi nome de bola, não cheira a bola, nem tem sabor de bola. Como todos sabem, bola de futebol nunca foi coisa de Mauricinhos  e a Bossa-Nova, como todos sabem, foi um som ( às vezes magnífico, às vezes chatinho) egresso das reuniões da alta classe-média carioca, regadas a uísque importado e bom vinho. Bem ao contrário de onde se dá bem uma verdadeira bola de futebol, com serventia para sem- terras e com terras, pardos, cafuzos e sararás, com cotas e sem cotas.
                        Quanto à Carnavalesca, pior ainda. Já pensaram, durante a copa, o Neymar reclamando de que não consegue tratar bem a ‘Carnavalesca’ porque esta vive lhe chamando de ‘Mascarado’? E se a ‘quarta-feira de cinzas’ começar  mais cedo? Ora, dos males o menor, mesmo com Z e tendo gente dizendo por aí que o nosso ‘complexo de vira-lata’ falou mais alto e nos submetemos mais uma vez aos gringos, expulsando o s, para  agrada-los.
                        Pelo sim, pelo não, nada como tirar essas dúvidas com ela própria,  Brasuca, a brasileirinha que todos conhecemos:  apanha dos maridos, tem mais de cinco filhos , adora um forró e vibra mais ainda com novela do que com viagem de moto-táxi (este sem querer). Cujo sonho maior não era ser uma mulher –bola, mas uma mulher...Melancia
                                                                       

                        - E então Brazuca? Você está feliz com a vitória?
                        - Acho que sim, nunca pensei que alguém um dia  fosse se lembrar de mim.
                        - E agora, quando pretende sair do sonho e cair na real?
                        - Bem que eu gostaria que caísse algum real em meu bolso, tenho cinco filhos para criar, mas não sei não...
                        - Pelo menos agora você será uma mulher famosa no mundo inteiro. Já se acostumou com o z no lugar do s?
                        - Com o z no lugar do s, sim, mas o que eu gostaria mesmo era de um gringo no lugar dos meus maridos.
                        - Por que, você podia explicar melhor?
                        - E precisa? A idéia que a gente tem é que gringo não bate em mulher, não chifra a gente e tem bastante dinheiro.
                        - Mudemos de assunto. Você já pensou em como vai treinar para se dar bem na copa?
                        - E por que você acha que eu fui escolhida? Ora, filho, sempre fui treinada nisso de  levar chute de homem a torto e a direito: de escanteio, de pênalti, de lateral é comigo mesma, portanto, não vou  estranhar.
                        - Quais o  seus planos, então, para o futuro?
                        - Futuro? Acho que a única coisa que vai valer mesmo a pena para mim é o show de abertura onde espero conhecer de perto Roberto Carlos, Galvão Bueno, o Cristo Redentor e a Carminha.  Quanto a mim... Quem duvida de que se o Brasil perder ninguém vai culpar o Neymar, nem  o Mano Menezes, muito menos a Presidenta, que têm muito dinheiro? A culpa será mais uma vez da pobre Brazuca. Quer apostar?

                                                                                  José Ewerton Neto
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com                                                                       http://www.joseewertonneto@blogspot.com

sábado, 8 de setembro de 2012

SE SÃO LUIS...




Se São Luiz fosse uma mulher 
ainda assim  seria uma ilha.  Vá lá, o poeta disse que nenhum ser humano é uma ilha, mas São Luis teria de ilha o que somente certas mulheres têm: o comportamento reservado e especial, a pose paradisíaca, a aura oceânica cercando-a por todos os lados como  se dela pudesse jorrar, de repente...uma fantasia amorosa. Já repararam na reverência que salta aos olhos de quem observa uma mulher-ilha se aproximar?
                        Sendo ilha (o que nem de longe significaria que fosse orgulhosa ou inacessível) teria forçosamente também os braços longos, que avançam em direção ao resto do mundo. Pois é, suas pontes seriam seus braços e que braços! Acordam abraçando o alvorecer como a uma criança, seguindo depois para o quotidiano  e o que vier.
                        Sua cabeça - e com certeza São Luis não seria uma dessas mulheres espevitadas e sem cabeça – teria tudo para ser a mesma do poeta Gonçalves Dias, pequenina lá do alto em sua praça, contemplando o mar e a poesia.
                        Seu coração, quer queiram quer não, teria de estar no centro. Como todo mundo sabe, existe uma turma de administradores arvorados a  seus donos, que tudo fazem para remover seu coração dali. Ora, mais que insensíveis são, sem dúvida, péssimos cirurgiões, pois o coração de uma cidade, como o de uma mulher-ilha, é ‘intransplantável’. Alguns anos atrás, a cidade foi atendida em uma cirurgia que lhe reabilitou o coração, numa operação muito propriamente chamada Reviver. Ultimamente, alguns de seus administradores tem tido a iniciativa de revitalizar certas ‘artérias’ que inflamam seu coração. Demoraram a aprender que não há porque maltratar o coração de uma mulher que precisa, ao contrário, ser tratado com muito carinho. Pode-se dizer que esse coração, apesar de tantos maus-tratos acumulados ao longo de sua vida, resistiu à passagem dos séculos  e resistirá à dos milênios.   
                  Seus olhos, claro, não se parecem nem um pouco com os semáforos e as barreiras eletrônicas que ficam espiando qualquer distração do cidadão, para calcar-lhes uma multa. (Isso se chama extorsão). Muito ao contrário, seus olhos são vigias noturnos de sua tranqüilidade: movem-se como os vaga-lumes, e dia claro, já estão nos raios de sol que descendo  do céu clareiam a vida da cidade e sua paisagem.
               Seus ouvidos continuam imunes a todas as perturbações que a velhice, se é que podemos falar assim, lhe impõe. Aprenderam a ouvir de tudo: forró, reggae, trovões nas tempestades, foguetes no Reveillon etc., mas nada lhe causa mais incômodo do que propaganda de político. É impressionante como estes, que dela se propõem a cuidar,  sejam os primeiros a não terem dó dos seus ouvidos.  Imperturbável, ela sequer se protege com fone de ouvido, espera pacientemente pelo som da maresia batendo nos arrecifes quando chega a madrugada e pronto, está disposta para um novo dia. Além de bela: heróica e elegante.
            Quanto a seus pés, prefere andar descalça. Isso para não tropeçar nos buracos que seus administradores lhe impõem. Um buraco ali, outro ali, ela se fere acolá, mas jamais perde a elegância. Para isso  tem as pernas grossas de tanto subir as ladeiras  que a levam do centro à Praia Grande, seu roteiro preferido.

                                                                          

            Por fim, sua boca. Ah, sua boca, que não se parece nem um pouco com a de Angelina Jolie, ou de Carolina Dickman, e nem precisa! Parece-se isto sim com a da mulata faceira e sensual do grande escritor maranhense, e que se alimenta, além de beijos, de um bom  arroz de cuxá e peixe frito, no intervalo de um caranguejo e outro. Só não me pergunte onde, para não despertar ciúmes de donos de restaurantes. Aliás, essa mulher não é chegada a restaurantes pseudo-chiques do Calhau e adjacências. Já foi encontrada para os lados do Quebra-Pote, na Raposa, no Araçagi ou em qualquer lugar onde a poesia se misture com a comida. Já não se disse que o vinho é o prato intelectual da comida? Pois é, São Luis é o prato intelectual de qualquer restaurante da ilha, e, como o vinho, quanto mais velha melhor e mais saborosa para todo aquele que tenha o mínimo de refinamento cultural.
            Alguém a encontrou por aí? Por favor, dêem-lhe os parabéns por mim, e não se esqueçam de dizer-lhe que, mesmo quatrocentona, continua cada vez mais jovem e mais bela!

                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com
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sábado, 1 de setembro de 2012

JULIANA PAES GABRIELA X SONIA BRAGA GABRIELA




artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão



Juliana Paes x Sonia Braga. Se todo brasileiro gosta de novela   político parece gostar mais ainda. Repórteres do CQC foram entrevistar políticos em Brasília para investigar se eles se interessam mais por novela ou pelo Brasil. Alguém duvida da resposta? Do Brasil não querem saber, mas da Avenida Brasil...Todos sabiam da última de Carminha e  de quantos chifres tinha o Tufão etc., mas nenhum deles sabia citar os nomes dos  réus do processo do Mensalão.
                        - Zé Dirceu? Esse não era um jogador que jogava no Cruzeiro, no tempo de Tostão?
                        - Não, esse era outro Dirceu. O Dirceu Lopes
                        - Ah, sim, o Zé Dirceu... Acho que agora me lembro. Era o barbeiro preferido do Lula, não? O que ele fez ou deixou de fazer?
                        Alguns poucos se lembravam, vagamente, de quem era Zé Dirceu.
                        O que é muito compreensível. Por que um político (de verdade) se interessaria pelo julgamento do mensalão se ele já sabe, mais que ninguém, do resultado? Nas novelas, pelo menos, dá para se torcer por um final: previsível, mas ainda assim, um final. Já os julgamentos de políticos, como todos sabem,  tornaram-se  novelas de péssimo gosto: encenação,  atores pífios, e direção de reality show de segunda categoria esmeram-se para que as acusações se diluam no cotidiano do cidadão brasileiro, rumo à absolvição previamente anunciada. Cadeia, se houver, vai ser só para um passeio de fim de semana.

                        2. Mas a disputa ‘anunciada’ acima era entre Juliana Paes e Sonia Braga, e não Mensalão x Novelas. Nesta, há mais gente do que se pensa; motoristas de táxi, estudantes, donas de casa, papagaios e ursinhos de pelúcia empenhados em dar a sua sincera opinião. Afinal de contas, ser Gabriela não é para qualquer uma.
                        Como o ser humano é, por natureza, saudosista ( todo nascimento de alguém é um ato de nostalgia em que o bebê já nasce chorando de saudade da barriga da mãe ) Sonia Braga parece estar levando uma pequena vantagem. É que Juliana não consegue disfarçar, apesar da exuberância e sensualidade, que  já adentrou naquela faixa, de vinte e cinco aos trinta, que  são os ‘dez’ anos que mais custam a passar para uma mulher.  Se quiséssemos nos aprofundar, no entanto, o mais lógico seria que chegássemos a um empate técnico. Senão vejamos.
                        1. Beleza. Neste quesito eu, por exemplo, acho que sou mais a Sonia, embora  Juliana não seja – nem de longe! - de se jogar fora. Quer dizer, eu mesmo não sei. Quem sabe eu seja mais a Sonia por dentro (embora nunca vá saber, infelizmente), enquanto a Juliana é melhor por fora. Aliás, as duas se parecem tanto que Jorge Amado, hoje no céu, deve estar arrependido de não ter feito Gabrielas gêmeas.Uma pro turco e outra para ele - que me perdoe a Zélia Gatai.

                                                                      

                        2. Altura. Parece que Juliana é mais alta, mas será que isso é mesmo uma vantagem? Se é melhor para  trepar no telhado, como Gabriela gosta, deve ser bem pior para subir em árvores ou para dançar no meio da rua como ela também gosta. Igualmente, deve ser bem pior para dar uma escapada sem ser vista como ela gosta mais ainda.  

                                                                 

                        3. Sensualidade. Acredito que neste quesito Juliana ganhe por alguns milionésimos de diferença, não é mesmo? Provavelmente, a diferença deva estar está nos olhos de Juliana Paes “de ressaca parecendo uma epilepsia do mar” como disse de Capitu seu autor Machado de Assis. O escritor carioca falou isso se referindo a Capitu, mas deve tê-lo feito pensando também em Gabriela, de Jorge, o que evidencia, sem dúvida, um adúlterio intelectual, mas perfeitamente compreensível dado o que suas heroínas eram.
                        4. Gabrielismo. Qualidade de ser Gabriela. Já li o livro há tanto tempo que já não sei perfeitamente o que significa ‘ser Gabriela’, mas acho que deve ser uma coisa assim, meio baiana, do tipo “fingir tão completamente, que chega a fingir que é inocente  do desejo que faz os  homens sentirem”. Nessa história de Gabrielismo talvez facilite, (recorrendo mais uma vez a Machado) se dissermos  que Gabrielismo é aquilo que uma Capitu seria se tivesse nascido na Bahia, ao invés de no Rio.         
                        Portanto, é difícil evitar o empate embora  muita gente ache que não há como Sonia não ter sido mais Gabriela do que a Juliana está sendo, até mesmo porque, na época de Sonia ainda não havia sido inventado o Viagra. Ora, não era qualquer uma que seria capaz de fazer aqueles embolorados coronéis  transarem tanto num capítulo só. Era preciso ser muito Gabriela para isso!
                        Enfim, empate técnico, que há de soar para as duas como o título daquele filmezinho tão antigo:
                        “Matemática zero, amor dez.”                                                                                                                                                     ewerton.neto@hotmail.com                                                                      http://www.joseewertonneto.blogspot.com