quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

NAURO MACHADO, POETA





artigo publicado hoje, quinta-feira no jornal
o Estado do Maranhão

NAURO POETA, POETA  NAURO
Jose Ewerton Neto, autor de O Oficio de matar  suicidas

                Morto Nauro Machado, as declarações em louvor à sua memória não se demoraram em exaltações à sua  obra poética, pois esta, já consolidada e sabida, disso não precisava. Com notável frequência aqui e ali, se preferiu destacar alguns aspectos singulares de sua trajetória de vida, como escritor e, principalmente, como personagem de si mesmo, com toda a refulgente abrangência que, no seu caso, isso lhe propiciou.  
            De todas as excepcionais virtudes de seu talento múltiplo (era também ensaísta e cronista) nenhuma terá se estratificado mais no horizonte da imortalidade do que a de ter sido um poeta na verdadeira acepção da palavra (perdoem-me o clichê ) como hoje em dia já não há. Um autodidata que desde cedo, na juventude, incorporou e escolheu como objetivo maior de sua vida a dedicação ao exercício da poesia em sua totalidade e sem concessões. “A danação divina”,  “a maldição benfazeja”, “ o veneno da tristeza na alegria ou vice-versa”, enfim todas essas imposições que fazem parte do labor cotidiano de quem dedica sua vida a tanger os píncaros da glória, sabendo-se no entanto, torturantemente preso ás amarras de sua sina: essa dedicação solitária do escritor a um ofício que é duro, mas como dura! , como ele muito bem soube destacar em versos  de quem vivia  e sabia do que estava falando.
            E que poucas vezes teve sua tradução artística expressa de forma tão escancarada e sublime como no filme Infernos, de Frederico Machado, seu filho,  quando este conseguiu, com raro talento,  captar todo esse formidável compromisso de um artista (seu pai) para com sua vocação.




                                                    






 Ali estão o poeta andarilho, os livros que amava,  a febril intensidade de sua vocação, a pulsação de seus versos em sua voz, o desapego  às formalidades e às convenções quando em busca de sua liberdade poética,  e a fotografia da incorporação das ruas e luzes da cidade como personagem dessa sua cruzada de forma tal que, em contrapartida acabou se tornando, ele mesmo,  personagem de sua cidade, como destacaram alguns.  Nauro Machado foi magnificamente feito ator de si mesmo nesse   curta metragem tão premiado, evocando em seu roteiro, mesmo sem citação,  os famosos versos de Fernando Pessoa : “O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.” Quem o sucederá?
            Conversávamos, eu e alguns amigos escritores,  sobre essa impossibilidade. Uma plêiade de notáveis poetas continua, graças a Deus, a ritmar a pulsação do coração poético da ilha de forma que, quer queiram quer não, quer insistam em desfigura-la ou não,  esta jamais se dissociará de seu destino de ser a Atenas Brasileira . No entanto,  o formato de alguém transformado em sinônimo da poesia  a ser apontado nas ruas por mendigos, desvalidos, boêmios, intelectuais, ou simplesmente fantasmas do cotidiano, que apontavam a Nauro Machado como se aponta a alguém de quem se percebe a aura de uma significância impalpável , já não existirá mais.



                                                        


                                



            Pois os tempos modernos são plenos de velocidade, instabilidade, fragmentação e disputa pela sobrevivência e de espaço nas ruas e nas redes sociais. A poesia continuará jorrando  nos intervalos dessa azáfama, mas não se espera que se aproprie e se concentre  em determinados indivíduos  motivados a fazer mais que de suas vidas poesia (como fez Rimbaud, por exemplo,  em certa fase de sua existência)  da poesia suas vidas. Como fez Nauro Machado, poeta.
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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A FILA ANDA





Artigo publicado hoje, quinta, no jornal
o Estado do Maranhão


Tudo começou quando o pequeno Abel, o filho de Adão e Eva, aproximou-se dos pais para ver aquilo que os dois estavam fazendo. Claro, os dois estavam tão concentrados (ou enlevados, ou seduzidos, ou distraídos) que não atentaram para a curiosidade do menino e, pronto, estava formada a primeira fila humana da qual se tem notícia.




                                              





            De lá para cá as filas tomaram conta de tudo – e de todos. Uma revista científica, este mês, lamenta que em pleno século XXI os homens não tenham inventado para organizarem-se algo melhor do que filas, o que não é de estranhar. Até hoje os humanos ainda não inventaram um equipamento de proteção contra a chuva melhor do que o guarda-chuva ou algo para puxar saco de alguém melhor do que reuniões que, no final das contas, não passam de filas de babacas,  em torno de uma mesa e  um chefe. O certo é que, por costume ou sei lá o quê, de tanto conviverem com as filas, os homens adotaram cada vez mais as mesmas. Brasileiros, em especial.

            Brasileiro adora uma fila! Vive  reclamando , mas adora. Senão, como explicar que se sujeitem a permanecer horas e horas numa fila de loteria, sabendo de antemão que suas chances de ganhar são tão intensamente miseráveis quanto grandiosas são suas chances de estar fazendo papel de idiota para um Governo que lhe explora? Brasileiro gosta tanto de fila, que de algum tempo para cá passou a responder a quem lhe pergunta como vai usando a expressão “A fila anda!”, querendo dar a entender que as coisas estão mudando para melhor.

            Vai gostar de fila assim, na fila do inferno!, 




                                                    






disse-me  um dia  um matemático amigo meu , que , a essas alturas , deve estar enfileirado numa fila de psicopatas. Foi ele que, outro dia, para confirmar a sua teoria da predileção do brasileiro por filas, postou-se em pleno sol de meio dia, no meio da praça Deodoro, olhando fixamente para o sol, com os óculos escuros. Imediatamente, acercou-se alguém para perguntar o que ele estava observando. “Uma fila de sombras querendo entrar no sol”, respondeu, adiantando que aquele seu lugar era o único propício para observar isso.  Quando seus olhos se cansaram, afinal, olhando desta vez para trás, o que viu lhe confirmou a pesquisa: havia mais de cem pessoas querendo desfrutar da mesma informação. Quando se afastou, desnecessário dizer da expressão de agradecimento e vitória daquele que ocupou o seu lugar.

            “O brasileiro só se sente bem se estiver numa fila”, completa. E estas bem que proliferam ao gosto do freguês: fila para deixar criança em colégio; fila de guardador de carro para guardar seu carro; fila de jogo de futebol, fila de bolsa família e fila do ENEM. Evoluíram, aprimoraram-se e tornaram-se pós-modernas. Entre as mais recentes; de filas  de motos nos estacionamentos a filas de motoqueiros estendidos no asfalto;  De filas de bois despachados do Porto do Itaqui a filas de chifrudos que permaneceram na ilha, etc. etc

            Finalizando a sua robusta pesquisa o estudioso amigo meu conseguiu destacar as 3 leis fundamentais da ‘sua’ Teoria das Filas:

            1.A única fila em que pobre chega na frente é de espermatozoide. (Mas ao chegar, já entra na fila dos arrependidos.)




                                                 





            2.O direito das filas geralmente obedece a lei domais forte. Ou do mais rico, ou da mais boazuda.

            3.Nenhum ser humano se livrará da fila. Nem que seja a do seu enterro.
            Até mesmo porque, aí mesmo é que  a fila anda.




                                                





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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

QUE SERÁ DO BRASIL, SEM A PLAYBOY?





Desta vez é definitivo: A  Playboy brasileira deixará de circular. Preocupada com mais essa má notícia Dilma Roussef chamou seus ministros para enfileirar lhes a seguinte lista de preocupações:

            1.Como ficará a situação das milhares de EX_BBBs do sexo feminino que ficarão desempregados?




                                               





            2.Como ficarão os fornecedores de botox, demais preenchimentos, peelings, tratamentos estéticos, etc. etc. agora que as peruas encarquilhadas da Globo ( tipo Maitê Proença, Claudia Raia, Suzana Vieira etc. não mais precisarão desses produtos para posar para a Play?




                                                





            3.Como serão evacuados agora os mananciais de esperma de coroas e criancinhas, masculinas que através de punhetas davam vazão às suas fantasias e tinham por onde jorrar? Que acontecerá agora?
( Teme-se por um potencial  aumento de casos de estupro em todo o país).


4. Quando poderá ser vista, afinal, Sandy nua como um dia pudemos ver Lidia Brondi? Não
só de bolsa-família vive a ilusão do homem - e da mulher - brasileira.


                                          


                                    
                       



            A presidenta exigiu providências para salvar o Brasil. Caso não seja atendida, ameaça posar nua em qualquer edição pirata da revista Playboy, mesmo de origem paraguaia.

            Diante de sua disposição Eduardo Cunha já está pensando em iniciar imediatamente  o processo de impeachment da presidenta, mesmo correndo o risco de perder o mandato. 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A BELEZA DAS PALAVRAS





Artigo publicado hoje, quinta-feira, no jornal
o Estado do Maranhão


A “Palavra do ano” de 2015 não foi uma palavra, mas um emoji ( uma imagem pictográfica que simboliza um rosto chorando de alegria). 


                                                 



O que sugere que chegamos a uma época em que a beleza de uma palavra não esteja mais no seu significado, ou sonoridade, mas na sua imagem.
            E qual seria a palavra mais bela da língua portuguesa? Provavelmente não foi escolhida ainda, mas da língua inglesa sim, e isso aconteceu há uns oito anos atrás. 42000 pessoas de diferentes países escolheram a palavra mother (mãe), como a mais bela. Mas será que é definitiva a escolha? Seria realmente mother a palavra mais bela?
            Refletindo sobre as palavras que a secundaram em termos de preferência estas foram, pela ordem: Pasion (paixão); Smile ( sorriso); Love ( amor); Eternity (eternidade); Fantastic ( fantástico); Freedom ( liberdade)...etc. Dá para perceber que seus equivalentes em português seriam apreciados igualmente e que muitas dessas palavras estariam também entre as escolhidas se o objeto fosse nossa língua. Particularmente, lembro que fui possuído de singular empatia – que dura até hoje – pela palavra freedom  quando a vi, pela primeira vez, na adolescência, num poema de Shelley e nem sabia o que significava. (É possível que visse na sonoridade da palavra récem-descoberta a capacidade de traduzir melhor a dimensão de um sentimento tanto mais amplo quanto mais capaz de renovar-se...)                                            



Mas aí é que  está, uma palavra deve ser considerada bela a partir de sua sonoridade ou pelo que representa? Considere-se que certas palavras, em qualquer idioma, têm uma sonoridade poética e musical que independem do seu significado, como, por  exemplo butterfly , do inglês. Não precisa ser artista para intuir que seu equivalente em português, borboleta, não soa com o mesmo poder de fogo. Daí que poderíamos chegar a uma fórmula pretensiosa e definitiva quanto a isso. Palavra bela = seu significado + sua sonoridade.

            Empunhando esse conceito ficaria mais fácil encontrar a tal palavra. Pelo significado, por certo, chegaríamos às palavras óbvias, acima citadas: Amor, Paixão,  Infinito.  Já, pela sonoridade, Vendaval, Melancolia, Delírio etc. não tão óbvias assim, porque exigem para ser apreciadas que nos dissociemos daquilo que representam.  Existe palavra mais bonita e contraditória que Lúcifer, com sua sonoridade poética e sedutora e, no entanto, significando o domínio do mal, ou o próprio diabo? Fosse Lúcifer o nome de um anjo do bem, muitas das namoradinhas brasileiras suspirariam por galãs de novelas com esse nome.
            Escutei em algum lugar, mais de uma vez, que a palavra saudade seria a palavra mais bela da língua portuguesa. Nenhum outro idioma a possui num único termo, com a mesma carga de sentimento, intraduzível. De fato, a palavra saudade certamente satisfaria a fórmula acima, tanto em significado como em sonoridade, porém, ainda assim, hesitaria em especular que  seja a mais bela. A palavra mais bela talvez devesse ser aquela que, potencializada pelos sentimentos intraduzíveis da esperança e da crença na superação humana, individual e coletiva,  fosse incapaz de ser contida num símbolo – poderia ser até mesmo uma palavra não dita, ou ainda, aquela que reverbere melhor pelo não-dito que pelo dito.



                                                      





            Quem duvida de que, nestes dias trágicos de tentativas de sufocação da beleza e da vida pelo horror, em Paris,  uma das palavras mais belas do idioma francês, FRATERNITÉ ( fraternidade) ressoe ainda mais bela?

                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com                                                    http://www.joseewertonneto.blogspot.com


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

CADÊ O SUICÍDIO?





artigo publicado hoje no jornal O estado do Maranhão








CADÊ O SUICÍDIO?


Jose Ewerton Neto, autor de O ABC bem humorado de São Luis


                                                           


 


            Quando alguém comete suicídio, pode-se dizer que essa pessoa deliberou consigo mesma para chegar a essa decisão e que houve alguma contraposição  dentro de sua mente, certo? Sim, porque a decisão de chegar ao ato final passou por debates, postergações, conluios,  entendimentos...etc. tudo a que têm direito dois Eus  -ou mais - em vias de tomar uma importante decisão ( e bote importante nisso!) a respeito de uma vida comum.


            Neste mundo atual, em que proliferam os Eus numa única persona (devidamente liberados pelos psicanalistas) não seria lícito supor que em qualquer decisão de alguém a respeito de si, como essa, tomem  parte pelos menos dois Eus significativos, um a favor e um contra, e que o mais forte acabe assassinando o mais fraco, ou vice-versa?


            Esta visão de dois Eus se engalfinhando até o limite fica muito clara quando se pensa no tipo de suicídio em que esteja envolvido o sentimento de culpa. É aquele decorrente da vergonha, da ignomínia e da mácula, quando evidentemente um Eu foi pego em ato ilícito cuja desonra não foi aceita pelo outro (ao qual poderíamos chamar de consciência). Ainda que os dois hajam cometido o opróbio de comum acordo, um deles, o Eu que tem o orgulho de sua dignidade, despertou tardiamente para o mal feito e cobriu-se de vergonha, preferindo morrer.  Assim é que, em última análise dá-se,  também no suicídio, o assassinato, a morte de alguém perpetrada por um Eu que, opondo-se ao outro, não admite vida se não puder exibi-la com honra.


            Esse tipo de suicídio, como se sabe,  é comum acontecer nos países de tradições morais rígidas, com valores éticos prezados por todos.  Com alguma frequência, no Japão, na Suécia, na Inglaterra ou Dinamarca, somos surpreendidos com a notícia de algum político que, tendo enriquecido ilicitamente, não suportou a vergonha de encarar a face acusadora da sociedade ou de sua própria consciência e preferiu penalizar-se, recorrendo à morte para limpar-se da indignidade cometida. Isso acontece em muitos países, dizíamos...


            Porém, nunca no Brasil.


            Ora,  por que é tão raro que isso aconteça por cá? Qual a explicação para isso?


            Conversávamos entre amigos, outro dia, sobre os recentes casos de corrupção, tão propalados, quando estranhamos  o fato de que, mesmo diante das evidências, a única demanda da consciência desses cidadãos envolvidos é no sentido da fuga à responsabilidade. Chega a ser tragicômico! Os elementos envolvidos compactuam com o ilícito com a mesma naturalidade com que comem, dormem e respiram. Continuar no poder é o único objetivo deles, jamais têm a coragem de confessar seus crimes e pedir perdão à sociedade pelo que fizeram.


            Capistrano de Abreu dizia a respeito da falta de vergonha que grassava  entre os brasileiros públicos, de sua época, que esta nação só carecia que houvesse - e se cumprissem -   duas leis primordiais:  1) Todo cidadão brasileiro é obrigado a ter vergonha 2) Revogam-se todas as disposições em contrário.


            Em face do que se vê nos tristes episódios do lava-jato, petrolão, etc. nos quais autoridades agarram-se  a seus cargos com unhas e dentes, mesmo confrontados a seus próprios desvios de conduta, surge mais uma interpretação para essa atrofia tão brasileira de caráter. Esses  indivíduos jamais recorrerão ao suicídio como os arrependidos de lá fora e,   tampouco, pedirão um dia perdão pelos seus pecados justamente porque todos os seus vários Eus, e não apenas um, são corruptos. Nasceram desprovidos de consciência e, consequentemente, de vergonha.


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sábado, 24 de outubro de 2015

AÇAÍ X JUSSARA OU SAMPAIO X PAISSANDU


ou SAMPAIO X PAYSSANDU?






artigo publicado quinta-feira no jornal o Estado do Maranhão



AÇAI X JUSSARA, quem ganha? Bem, pelo menos no Maranhão deveria dar jussara, pelo orgulho do nome maranhense. E, no entanto, alguns maranhenses com complexo de vira-lata preferem chamar a saborosa fruta  pelo nome ( importado do Pará) de açaí. São os mesmos que adoram morar em nome de prédio com nome inglês e se enfiar num capote, sob um  frio desgraçado, para,  tirando uma foto com pau de selfie , enfiar no instagram ou no facebook e pedir ao jornalista para colocar na coluna social do jornal.

            Sim, “tem gosto pra tudo nesse mundo e ainda sobra para ficar debaixo de um boi”, como dizia o caboclo e ainda sobra para esses maranhenses que adoram mostrar que estão no exterior, seja  lá em que condições a serem suportadas por um vira-lata.


                                          



 Eles acham muito mais saudável virar picolé do que chupar  um,  de jussara ( eu disse jussara)  sob o sol das maravilhosas praias de sua própria terra.
            Mas, meio “sem querer querendo” acabamos por falar na salutar competição entre maranhenses e paraenses e, nesse item deveria dar empate, afinal trata-se da mesma fruta, deliciosa, por sinal. Ou não? A daqui não seria mais gostosa, até mesmo porque seu nome é mais bonito e... mais feminino?
            Eles ganham na pontualidade da chuva, nós na do sol.  Eles ganham na umidade, nós no vento. Eles dizem que as mulheres daqui são quentes, nós dizemos que as de lá são acesas. Eles  têm a Banda Calypso, nós temos o Boi Barrica. Eles têm Fafá de  Belém , nós temos Chico – e Rogério -, do Maranhão. O povo de lá gosta de brega aforrozado, o daqui gosta de forró abregalhado. Eles têm Carimbó, nós temos o bumba-boi. Eles  têm Amado Batista, nós temos Alcione. Eles têm pato no tucupi, nós temos arroz de cuxá. Eles têm praias de água doce, nós temos de água salgada. 

                                              


Eles têm índios diversos, nós temos índios de versos - Gonçalves Dias não era índio?. (Por falar nisso, damos de dez a zero neles em literatura, com um time da  pesada: Aluízio Azevedo, Artur Azevedo, Raimundo Correa, Gonçalves Dias etc. etc.)  Dá até para mandar o Sousândrade de quebra – ele, que, no fim da vida, quebrava pedras. Eles têm o Círio de Nazaré, nós temos São José de Ribamar.

                                                 



 Eles são marajoaras,  nós somos Timbiras, Eles tem o Mercado de Ver-o-Peso, nós temos o Mercado Grande, onde não se vê o peso.
            E no futebol, quem ganha? Eles têm um time com nome de remo, o Clube do Remo, nós temos um com nome de moto, o Moto Clube.  Eles têm o Mangueirão, nós temos o Castelão. Eles deram Sócrates, nós demos Canhoteiro. Que, por sinal,  era muito melhor (leiam o livro: Canhoteiro, o Garrincha que não foi). Eles têm o Paissandu, nós temos o Sampaio Correa, um tem o pai no nome, o outro tem nome de pai. Um está na série B, o outro também. O Paissandu tem Pikachu nas pernas alheias, o Sampaio tem Pimentinha nos olhos dos outros. E vão se enfrentar sábado pelo Campeonato Brasileiro. 

                                            



Quem será mesmo o melhor, de verdade, sem tergiversações?
            Vai dar Sampaio. Deixemos de complexo de vira-lata e vamos lá, torcer pelo que é nosso!

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sábado, 17 de outubro de 2015

ESTAR É FÁCIL, SER É QUE É DIFÍCIL!






artigo publicado quinta-feira no jornal
o Estado do Maranhão


Perdido sem saber onde está? Não se preocupe com isso, caro leitor, a tecnologia está colocando cada vez mais à nossa disposição, instrumentos capazes de nos localizar,  onde quer que estejamos. Uma antena ali, um satélite acolá, um celular em suas mãos,  e pronto. Geograficamente, estamos achados, definidos, realizados. Ufa! Pelo menos em relação ao onde estamos parece que ficamos resolvidos. Já, quanto ao quem somos...

            Aí são outros quinhentos e, pensando bem, já seria querer demais. Quem  somos? Ora, para com isso, leitor, melhor deixar esse assunto pra Deus e olhe lá, já que a coisa ao invés de melhorar, anda ficando cada vez pior. Se a humanidade, como um todo, ninguém sabe o que é, imagine você, pobre criatura, parte ínfima dessa humanidade! Quem é você? Ora, vá se enxergar!

            Bons tempos aqueles em que um nome nos servia e em que, na falta deste, um apelidozinho nos quebrava o galho. No século XXI e em pleno apogeu do nosso avanço tecnológico,  para saber quem somos precisamos não só de um nome mas, além disso, de senhas, muitas senhas. Tudo obedecendo àquela lei fundamental da identidade no reino do modernismo: “Quando mais números decorarmos para indicar quem somos, mais eles se tornarão  insuficientes.”





                                                   






            Estar é fácil, ser é que é difícil aprendi a filosofar,  num belo dia em que resolvi fazer uma transferência de valores pela internet. Precisei de identidade, CPF, nome do pai, nome da mãe, CEP, palavra-chave e frase de referência. Já estava na vigésima senha quando me pediram o nome. No auge da minha ansiedade sonhei em como seria bom se houvesse, definitivamente, uma única senha, para guardar todo o restante. Logo percebi que eu estava delirando, tudo se confundia em minha memória, eu dava voltas, muitas voltas sem conseguir chegar a lugar algum. Meu Deus, e agora? Eles pediam meu nome, eu havia esquecido.

            Irritei-me, mas logo cheguei à conclusão de que não valia a pena. Não, não nos zanguemos com isso, nosso nome é apenas um risco na memória alheia, há milhões de anos que pelejamos para saber quem somos sem conseguir, é natural que uma máquina desconfie da gente. Se um ser humano duvida de si mesmo a ponto de procurar outro ser humano (no caso um analista)  para descobrir quem é,  como se pode reclamar da desconfiança de uma pobre máquina?

            De incerteza em incerteza, perseguido por números e senhas, dia virá em que seremos acusados de assaltarmos nossas próprias senhas. Seremos julgados e condenados como ladrões de senhas, hackers de nós mesmos. O suicídio surgirá como uma solução,  ávidos que estaremos de que, pelo menos Deus, no paraíso, saberá quem somos.
            Mas não nos  iludamos. A tecnologia terá chegado por lá também e São Pedro – imaginando que seja São Pedro aquele sujeito com capuz de santo e jeito de terrorista em frente a um notebook – exigirá:





                                               





            “Digite a senha”
            “Como? Senha de quê?”
            “Para entrar no céu, precisa  de senha. Admira-me que não saiba. Deus não lhe mandou a senha pro seu whatsupp pouco antes de você morrer?”
            “Pelo amor de Deus,  nem tenho celular. A única coisa que sei é rezar o Padre Nosso, de cor e salteado. Será que não serviria como senha?”
            “Sinto muito, senhor,  mas sem senha, o inferno é a serventia da casa! Se mande pra lá. É o único lugar do mundo onde ainda dispensam senhas.”

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sábado, 10 de outubro de 2015

LER, COMPRAR, ESCREVER




artigo publicado no jornal o Estado do Maranhão,
quinta-feira, dia 08.10.2015


Afinal de contas, uma Feira de Livros, a que será que se destina? Diante de uma pergunta dessas, muitas interpretações acadêmicas, todas evocando o papel da difusão cultural e o engrandecimento do saber popular, se  ouviriam e, não estariam, de fato,  erradas.  Porém, sendo lícito supor que se move na difusão do livro em si, o começo e o fim do propósito de uma feira de livros como se responderia aos estudantes, que para lá se dirigem, se estes perguntassem: “Mas o que há de prazeroso nisso?”
            Qualquer leitor calejado poderia lhes responder: “Três dos maiores prazeres do mundo: ler, comprar livros e escrever”. Porém se um desses personagens fosse além: “Mas, dentre esses, qual seria o prazer maior?”,  só restaria a opção de compará-los para encontrar uma possível resposta.

            1.Escrever. Um personagem de um recente filme de sucesso diz em sua fala que “É necessário viver a vida em plenitude, e não apenas sobreviver”, o que é, em outras palavras, uma versão do que já fora dito por Dostoiévski  em um de seus romances : “ O segredo da existência humana consiste não apenas em viver, mas em encontrar um sentido para viver” Pois escrever, ao contrário de ser uma chatice como disse arrogantemente o escritor Chico Buarque, é justamente (pelo que se depreende dos escritores que levaram essa tarefa a sério), essa compulsão de viver em plenitude, o que acontece quando alguém se entrega à tarefa de interpretar, e recriar o mundo, primeiro para si, depois para o alheio.




                                                        






            Esse tipo de exercício, provavelmente, era o que fazia Maranhão Sobrinho, poeta maranhense, ao escrever seus poemas em botequins, rabiscando-os  em papéis de embrulho, diferentemente de Chico Buarque de Holanda que, como se sabe, precisa ir a Paris para escrever seus romances , residindo aí a razão, talvez,  de achar isso tão chato. Recuado em seu luxuoso apartamento sob os céus de Paris não terá alcançado a plenitude a que me referia acima e que extasiava o pobre –financeiramente – Maranhão Sobrinho. Diríamos que o compositor carioca (será mesmo escritor?)  não pegou,  nem jamais pegará o espírito da coisa.

            2.Comprar livros. Até as crianças se rejubilam com a dádiva de receber presentes, sendo maior, no entanto, quando você se dá o próprio presente, o que acontece quando você compra livros para si. E, principalmente,  quando você o descobre com algum esforço de pesquisa (a preço de banana, então nem se fala!) – o que faz a paixão dos colecionadores e bibliófilos.





                                                   






            Se ler um livro, como já foi dito, é viajar sem sair do lugar, o que há de mais extasiante do que levar uma viagem ou um mundo novo para casa, com a possibilidade de deixar o livro na estante e poder viajar quando quiser?
            3.Ler. A estas alturas, será que ainda carece falar desse último prazer? Será que a simples menção dos outros dois já não nos conduziu a este último para solucionar definitivamente a questão? Sim, porque o que seria dos primeiros se não existisse este, que  é a chegada, a causa e a partida?
            Certamente, se escrever é potencializar a plenitude da vida  e comprar livros um vício irradiante, nada supera o prazer de ler, sem o qual não haveria os outros dois.

            Para a Feira, então senhores, que 3 dos maiores prazeres do mundo, os esperam!

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sábado, 3 de outubro de 2015

O FLUMINENSE NAS COSTAS




ou O PESO DO MOLEQUE CRAQUE NAS COSTAS DO CRAQUE MOLEQUE



artigo publicado quinta-feira no jornal
o Estado do Maranhão


Ronaldinho Gaúcho é, talvez, o ultimo craque-moleque do futebol. Moleque no sentido que tem a ver com o lúdico e o irreverente  no  trato de sua atividade futebolística, em que destacou-se com raro virtuosismo. No seu caso específico, tão moleque que extrapola o exercício futebolístico com uma visão do mundo coerente com o que mostra em campo. Daí que, milionário, dá-se ao luxo hoje de ser inconsequente com sua profissão, tornando-se um antiprofissional assumido a favor de festas e bebedeiras, tão comentadas no jargão do jornalismo esportivo.





                                               





            Esta semana Ronaldinho Gaúcho saiu de campo vaiado pela torcida do Fluminense para, logo depois, ter seu contrato rescindido pela diretoria do clube, como se fosse  um perna de pau qualquer. Situação esta que em tudo contrasta com as festividades de três meses atrás. Então eram festas, aplausos, plumas e paetês na sua apresentação para a torcida. Aos que se recordam,  o motivo aparente da festa era a contratação de um jogador fora de série e de prestígio internacional. Porém, por trás desse motivo aparente estava o principal: dar-se um drible em Eurico Miranda presidente do Vasco e, por tabela, no clube rival.
            E é aí que entra o segundo personagem da história e do título desta crônica: o moleque craque. Não mais o craque-moleque Ronaldinho, mas, agora o moleque-craque 



                                                 






Peter Siemsen, presidente do Flu, de 48 anos. Ele que (exatamente igual aos cartolas anacrônicos e fanfarrões que ele repudia, como Eurico Miranda) achou-se no direito de também dar um drible no adversário, custasse o que custasse. E tomou a inciativa de passar o Vasco para trás na história da contratação de Ronaldinho Gaúcho. Depois de ter sido anunciado no Vasco, o moleque-presidente surgiu em surdina e, oferecendo muito grana, levou Ronaldinho Gaúcho para as Laranjeiras. E deve ter pensado: “Que drible, hein! Agora vou partir  pro abraço”.

            Hoje todos sabem que fim levou a história do tal drible. Ronaldinho Gaúcho, como era de se esperar, estava mais preocupado em rebolar nas baladas que promove, do que em driblar dentro de campo. Resultado: seus dribles se tornaram dos mais caros da história e cada drible seu, afinal de contas, custou a bagatela de 500 mil reais para o Fluminense.
            E tudo porque o moleque presidente também quis dar uma de craque. Está claro que a rescisão de contrato não vai sair barato para o glorioso time das Laranjeiras. Até mesmo porque se Ronaldinho tá pouco ligando para a grana, seu empresário e irmão Assis está. Ele não tem culpa se oferece um drible de seu irmão por 500 mil reais  (no ocaso da carreira dele) e, a essas alturas, ainda encontra quem pague . Que se apressem, pois os cartolas porque o contrato está em dólar e a conta está subindo.



                                           





            É por essas e outras que, mesmo fanática, a torcida de um time deveria pensar duas vezes antes de vaiar um grande jogador, pelo menos em respeito ao seu  passado. Ronaldinho Gaúcho não tem culpa se foi contratado. Seria muito mais válido e salutar para as tradições e as muitas glórias do Fluminense que vaiassem ao invés do craque-moleque, o moleque-craque. Que continua por lá.
                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com                                                                        http://www.joseewertonneto.blogspot.com