sexta-feira, 17 de abril de 2026

O VERSO MAIS BONITO DA LÍNGUA PORTUGUESA



“...Alguém poderia me ajudar   a escolher o  verso mais bonito? ”

 

“Tu pisavas nos astros, distraída” da música   Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa, foi considerado por Manuel Bandeira o mais bonito verso da língua portuguesa.

            O fato de tê-lo escolhido não de um poema concebido inicialmente para ser apenas lido (como a maioria) sugere que a escolha de um verso bonito não é simples e demanda atenção, percepção e sensibilidades típicas de alguém do ramo, no caso um poeta da envergadura de Manuel Bandeira.

            Talvez porque a captação da emoção propiciada pela beleza, tal como ocorre na atração física, envolva submeter-se inicialmente ao impacto do conjunto e, somente no instante seguinte, aos detalhes que suportam e evidenciam essa sedução. No caso da atração física, a harmonia do conjunto é sucedida pelo êxtase concedido pela contemplação distinta de olhos, boca, postura, etc. No caso da leitura a sequência não se dá, fragmentando-se os elementos que compõem a teia de sedução.  

            Por isso, ao indagar-se a alguém pelo poema mais bonito que leu muitos hão de se lembrar de seu favorito com alguma facilidade, enquanto à indagação de seu verso favorito, poucos se arriscarão a uma resposta. Imagino que alguns poemas tornados clássicos, se destacariam na preferência coletiva, casos de A Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, As Pombas, de Raimundo Correia, ou algum poema de Augusto dos Anjos. Outros menos votados somente surgiriam de leitura e preferência pessoais. No meu caso, entre os brasileiros prefiro A Mosca Azul de Machado de Assis, ainda que o escritor carioca seja mais conhecido como romancista do que como poeta. Mas, e o verso? Quantos se arriscariam a escolhê-lo? 

            Certamente não seria o “escarra nesta boca que te beija”, ainda que coexista muito à vontade no soneto popular — e belíssimo — de Augusto de Anjos. Uma nova leitura do poema Versos Íntimos, focada nesta frase, sugere o fato de que um poema bonito subsiste a não ter sequer um grande verso ou, até mesmo, ter versos bizarros como esse. Em   Canção do Exílio nenhum verso se distingue sozinho, e o conjunto compõe uma peça poética que, mesmo sem ser cantada, produz acordes nostálgicos de alta vibração, com harmonia e ritmo tão apropriados à fala que poucas canções chegam perto. Assim, como esse poema não sente falta de um belo verso, versos muito bonitos podem sobreviver a poemas sofríveis.

            Dito isso, alguém poderia ajudar-me a escolher o ‘meu’ Verso mais Bonito? Lembro, de supetão, de algumas construções lidas há pouco dos grandes de nossa terra que nos deixaram recentemente como “Palavra, escrevo-a nua: água”, de Nauro Machado ou “Um pássaro preso, mesmo cantando é mudo”, de José Chagas ou, indo mais longe, “Eu vi um homem perseguindo o horizonte. ”  de Stephen Crane.

            Como não fui capaz, porém, de escolher um entre tantos, resta-me a opção de render-me à sabedoria do poeta pernambucano e concluir que sim, de fato, o verso escolhido por ele é o mais bonito.  Mesmo porque, se não for, ainda assim ele terá acertado, pois o verso mais belo será sempre aquele capaz de nos prostrar extasiados diante de sua sedução — enfim, aquele capaz de fazer com que pisemos nos astros, distraídos.


 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

AVOZ QUE TE CONDENA


“Uma voz inumana, monocórdia, repetitiva, chata, estoica e...”

 

Ser um humano algum dia soou como algo que sempre dava a qualquer ser vivo, tido como racional, muito orgulho.

O tempo passou... e, hoje, esse orgulho passou a diminuir depois que essa raça, ao tentar resolver suas próprias necessidades, foi substituída por artifícios tecnológicos criados por ela mesmo. Sua inteligência está sendo gradativamente trocada pela IA e sua voz por outra desconhecida e indiferente.

Uma voz inumana, monocórdia, repetitiva, chata, estoica e...

Outro dia tentei resolver um problema por telefone com um plano de saúde. Após inúmeras tentativas fui recebido por uma voz aparentemente gentil, listando pra mais de quinze opções, para que eu escolhesse uma só, apenas para que esta, por sua vez, me encaminhasse para ...outra voz.  

De opção em opção, tendo por referência sempre aquele som repetido e   imperturbável, adentrei no reino do desconhecido, do improvável, do apavorante e, logo vi, do insolucionável. Depois de mais de vinte minutos, sem outra alternativa, e perdido naquele labirinto de mensagens que não me levavam a lugar algum, desisti batendo o telefone.

Raciocinei, desolado, que dia virá em que — numa evolução dessa situação kafkiana, você será acusado pela mesma voz receptora de algum crime que não cometeu e sequer tem ideia do que seja.

Mecanicamente a   voz lhe direcionará para um site da Internet onde você supostamente poderá tentar provar a sua inocência. Sem alternativa, você tentará sua salvação apertando botões e abrindo janelas inacessíveis usando um mundão de senhas até que o veredito chegue em forma de mensagem lhe indicando que você está usando dados inválidos, enfim, que você não é você.

Desesperado, você buscará falar com uma outra voz (agora você estará sujeito a qualquer uma) indicada pelo site, mas que se recusará a atende-lo sem que especifique qual foi o crime que você cometeu, terminando por anunciar que em dez minutos a polícia estará batendo em sua porta.

É quando você pensa que será até bom ir para a cadeia porque lá, pelo menos, você terá um ser humano vivo para lhe atender. 


 

domingo, 22 de março de 2026

10 LIVROS DESLUMBRANTES



10 LIVROS

José Ewerton Neto

“O que somos, de onde viemos, para onde vamos?”...

            Em 2006, 20 anos atrás, portanto, listei em crônica no jornal O estado do Maranhão os livros mais marcantes e essenciais para minha formação literária e humana. Ressaltei que não se tratava de uma lista dos melhores romances, mas sim dos mais significativos para mim.

20 anos depois, embora tenha lido preciosos títulos de lá para cá, a lista permaneceu a mesma com apenas uma alteração.

 

1.A MARCA DO ZORRO de Johnston Mc Culley 

Foi o primeiro livro que me deu a noção de que um dos maiores prazeres da vida poderia estar, também, em um monte de palavras em sequência sem sequer uma ilustração. Antes disso só lia quadrinhos. Lembro que não consegui despregar-me de sua leitura de mais 150 páginas e, mais tarde, o   reli mais de uma vez. Devo a ele a introdução nessa coisa de felicidade que é a leitura.

2.ROBINSON CRUZOE de Daniel Defoe

Li na versão para jovens, de Monteiro Lobato — este com deliciosas ilustrações— numa edição capa dura, presente de minha saudosa tia Rosa Ewerton. Muitos anos depois encontrei um maltratado exemplar dessa edição, num sebo da Rua do Catete. Imediatamente adquiri o livro e até hoje está conservado, sem que eu tenha tido coragem de ler de novo (para não perder o encanto), sabendo que ali está preservado um dos pedaços mais gloriosos de minha infância.

3. O ATENEU, de Raul Pompéia

Aquelas palavras insólitas, aqueles longos parágrafos, nem sempre inteligíveis à primeira leitura e, nas entrelinhas, sombras que precocemente marcam a trajetória de vida do ser humano. Livro denso, mórbido, talvez muito forte para ser lido por um pré-adolescente e que deixa marcas indeléveis sob uma nuvem de incerteza e fatalidade, através de uma escrita a um só tempo mágica e sombria (Mais tarde soube que seu autor era um homem atormentado). Minha visão do mundo jamais foi a mesma depois. Marcante e essencial.

4.O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, de Emily Bronte.

Uma história de amor, simplesmente. Talvez a mais intensa história de amor jamais narrada em qualquer época contendo os ingredientes básicos de amor, paixão e drama.  Nenhum filme (e olha que já foram feitas belas versões!)  reproduziu  plenamente o que a imaginação da autora foi capaz de criar sob o uivo das ventanias vagando pelos morros, onde pontua uma história de amor selvagem e transcendente. Quem nunca leu o livro está condenado a uma pena irreparável: a de jamais ter se apaixonado por Catarina Earnshaw, a personagem principal do livro. 

5.DON QUIXOTE DE LA MANCHA, de Miguel de Cervantes

Refiro-me à edição completa, que li depois de adulto, já que a edição adaptada para jovens não me empolgara tanto. Devo ao romancista espanhol o melhor riso possível da existência humana que é o riso sem sarcasmo, condescendente com o ridículo da condição humana. Está em minha lista por isso e não por ter sido considerado, recentemente, o maior romance da literatura universal.

6.O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO, de J.D. Sallinger

Penso que este livro está para a literatura como os Beatles estão para a música no que tange à tradução dos anseios juvenis. Sintomaticamente, ou não, o assassino de John Lennon carregava nas mãos, na hora da execução, um exemplar desse livro. Alguém que queira sentir o pulsar da juventude em suas veias — independentemente de sua idade — não precisa tomar remédio ou estimulante, basta ler algumas páginas deste romance.

7.A BÍBLIA, vários autores.

Hesitei em colocar este título por ser um livro especial, que acabei confirmando por seu conteúdo ter sido muito edificante para mim — além de literatura das boas. O livro   O poder do pensamento positivo, de Norman Vincent Peale, é todo calcado nele e me ajudou muito no período de transição para a fase adulta. Reli muitas vezes o Novo Testamento e vi que não carecia mais de livros de formação auxiliar. Uma só frase de Jesus Cristo no Sermão da Montanha   vale por todos os livros de autoajuda que hoje abarrotam as livrarias.

8.PERGUNTE AO PÓ, de John Fante.

Estive por desistir da leitura, após suas primeiras páginas, mas, graças a Deus!, persisti . Tinha razão o bom, irreverente e irrefutável Charles Bukóvski quando se referiu ao autor na apresentação do livro:  “ Afinal, um homem que não tem medo da emoção! ” 

9.LOLITA, de Vladimir Nabokov

Pode um sexagenário escrever um livro de mais de duzentas páginas sobre sua paixão por uma garota de 12 anos? Pode e deve, se estiver escrevendo uma obra-prima e se chamar Vladimir Nabokov. Sim porque as insinuações de pedofilia caem por terra diante da maestria do autor ao jamais confundir as coisas, transformando a sua admiração, ocasionalmente erótica e apaixonada, em êxtase poético e literário passando ao largo da pornografia deletéria.  

10.A ARQUITETURA DO UNIVERSO, de Robert Jastrow.

O que somos, de onde viemos, para onde vamos? Nenhum livro seria capaz de responder definitivamente essas questões essenciais, mas este livro do físico e astrônomo Robert Jastrow chegou muito perto oferecendo, de forma didática, o melhor do conhecimento científico a alguém que queira ser iniciado nesse confronto de ideias. Como nenhuma aventura é tão fascinante quanto a busca do ser humano pelo seu significado diante do   Universo esse foi um dos melhores livros de aventura que já li.  


 

sábado, 21 de março de 2026

AS PALAVRAS QUE NOS FALTAM



“ ... porque se fôssemos ilungas...coitados deles!”  

 

Quantas palavras existem na língua portuguesa? Infinitas, porém, por maior que seja um dicionário que caiba todas elas, será insuficiente.

Sim, porque traduzir o universo de tudo o que se diz ou se escreve não é para qualquer livro, mesmo gigantesco. Principalmente, sabendo-se que há um outro universo de palavras que não foram ditas ainda, nem escritas e, em alguns casos, sequer pensadas.

Foi por isso que anos atrás a editora Conrad lançou o oportuno livro Tingo, o incrível dicionário das palavras que a gente não tem.

Vejamos um breve exemplo de algumas que nos fazem falta. Muita falta.

 

1.Scrotarsi (italiano)

Significa ir embora de algum lugar por não suportar a presença de alguém.

Quantas vezes vamos embora de um lugar e não temos uma palavra única para explicar o porquê. De repente sumimos, e se alguém nos perguntar a razão falta a palavra.

Como seria mais simples se tivéssemos à mão a palavra Scrotarzi! Do jeito que as coisas estão — neste país tão abarrotado de gente escrota — essa expressão pouparia até carta de suicídio: Bastaria dizer:  Scrotei-me! E ponto final.

2.Cazar (espanhol)

A palavra quer dizer chutar o adversário em vez de chutar a bola.

Enquanto a palavra que temos (casar) está ficando cada dia mais fora de moda, a palavra parecida (cazar) do idioma Espanhol, está ficando cada vez mais comum. Na seleção brasileira, outrora reduto de craques, o que mais existe são jogadores botineiros mais preocupados em chutar o adversário do que a bola. São cazadores profissionais, ganham rios de dinheiro com isso, vivem cercados de mulheres por causa da grana, e fingem que são casadores, ao invés de cazadores.

3.Ilunga (em tishilumba)

Ilunga é quem perdoa uma ofensa, tolera uma segunda, mas jamais a terceira.

A bem da verdade, no nosso Brasil não dá para ser Ilunga. Desde que nascemos somos condenados a perdoar a primeira, a segunda, a terceira... e assim indefinidamente. Aprende-se isso no trânsito, nas escolas, no trabalho, até ficarmos catedráticos em perdoar. Brasileiro, profissão: Perdoador. No Brasil se perdoa tudo: de chifre a político, de amigos a inimigos passando por marginais, juízes de futebol e VAR.

Estamos tão acostumados a perdoar que perdoamos antecipadamente a porrada que vai cair    no nosso lombo, depois. Como, aliás, repetimos todo dia na nossa demonstração de fé (O Padre Nosso) que rezamos todos os dias: ...” Assim como nós perdoamos aos nossos devedores. ”

Dessa forma, nossa sina até o final dos tempos vai ser sempre perdoar sucessivas vezes porque se fôssemos ilungas...coitados deles!  


 

terça-feira, 17 de março de 2026

PONTO G COM IA




PONTO G COM IA


                “No início desse século falava-se muito mais no ponto G”

 

No início desse século falava-se muito mais no ponto G. Lembro que em um programa de televisão, de humor, dois repórteres entrevistavam as mulheres que passavam no centro de São Paulo   perguntando se conheciam o tal   ponto.   A maioria não sabia mas houve uma que não se fez de rogada:

— Não sei moço, não sou de São Paulo sou de Belo Horizonte, e mal conheço os pontos de ônibus daqui.

Se repetissem a reportagem hoje tenho a impressão de que o resultado da enquete seria semelhante: muito desconhecimento e, até mesmo, indiferença. A verdade é que ou todo mundo aprendeu onde fica ou sumiu de vez — porque nunca foi assim tão fácil de achar.  Tem gente até que acha que ele nunca existiu. 

Ponto G à parte, o sexo vai indo muito bem, obrigado, até que uma reportagem bombou   na Internet sugerindo que a IA vai ajudar, em breve, a identificar onde ele está, o que, aliás, já era de esperar.

Podemos imaginar os diálogos em uma agência matrimonial fornecedora de parceiros em um futuro não tão distante assim.

—Que tipo de marido você prefere?

— Um que saiba encontrar o meu Ponto G, claro. Até agora ninguém achou.

— Não se preocupe com esse detalhe. Escolha o parceiro que cuidamos do resto. Temos equipamentos capazes de auxiliar o mais neófito dos sujeitos.

— Como???

— Posso lhe adiantar que possuímos drones microscópicos, dotados de IA, perfeitos para ajudar os casais aqui contratados na busca e identificação do dito cujo.

— E tem garantia?

— Perfeito! Não tem erro. O drone microscópico fornecerá uma visão interna do ângulo mais favorável da penetração direto para o celular ou tevê, ou filme. Se ainda assim a mulher se mostrar insatisfeita poderemos fornecer um de nossos profissionais para ajudar o seu parceiro — caso ele concorde, naturalmente.

— Custa muito caro esse equipamento?

— Não se preocupe com isso. Vocês poderão pagar por anos a fio, como temos certeza de que sua relação vai durar.

— Posso levar um agora?

— Certamente, mas não prefere escolher o marido antes?

— Não, mudei de ideia. Agora não vou precisar mais dele. 


 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

3 DE CARNAVAL E MAIS UMA


 

Quais seriam as 3 músicas de Carnaval que você citaria como as mais marcantes em sua vida, caro leitor? Não necessariamente as que você acha mais belas, mas aquelas que tocaram a sua sensibilidade a ponto de não serem dissociadas do que   o Carnaval tem de melhor e que você preserva em sua memória?

Resolvi escolher 3

1.Camisa Listrada, de Assis Valente

Este samba de Assis Valente, embora com o passar dos anos não tenha ficado intrinsicamente associado ao Carnaval, é o samba que melhor expressa, para mim, em sua letra principalmente, além de em sua melodia irreverente, a alma carnavalesca. O espírito de liberdade, de boemia, de farsa, de escapismo e dissolução das regras nunca foram tão marcantes como no ritmo pulsante e progressivo desta canção, com gírias deliciosamente pueris   da época até desaguar num: Sossega Leão! Sossega Leão! Sem dúvida, um monumento à ironia e à liberdade.

2. A Felicidade, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes .

Tristeza não tem fim, Felicidade Sim, aparentemente é o que menos se coadunaria   a uma letra que obrigatoriamente teria que exaltar a “suposta” alegria do Momo. Mas, quem disse que o Carnaval é só alegria? O que é tristeza e o que é alegria num período em que se freia o tempo para que dure 5 dias e pareça   uma eternidade? Há de acontecer de tudo e é por isso que essa belíssima canção não diminui a alegria carnavalesca ao falar de tristeza de uma felicidade — necessariamente transitória e fugidia — de forma tão pungente e tão poética “A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar.”

3.Jardineira.

Jardineira, entre tantas marchas memoráveis e – eternas –, talvez seja a mais eterna delas em sua vocação carnavalesca, porque fala indistintamente para adultos, velhos, namorados, trabalhadores, estudantes e crianças com uma sutileza, uma puerilidade e uma suavidade sem igual. Seus ingredientes de ritmo, vibração e emoção contagiante só podiam ter paralelo por escrito em uma camélia que caiu do galho ficou tão triste e depois morreu para encher o folião de emoções a serem   ressuscitadas enquanto houver carnavais e vidas.

Era para ter sido 3 mas ficou faltando uma:

Taí (Pra você gostar de mim)  de Joubert de Carvalho.  

Essa deliciosa marchinha de carnaval, que quase ficou para trás, lembra minha mãe, Carmem Miranda, Gal Costa, Carnavais, eu aprendendo a tocar violão com meu pai e, já adulto, tocando para amigos e parentes suficientemente bêbados para não se importarem com afinação, cordas quebradas, etc.

E, ultimamente, lembra minha neta, hoje com 6 anos de idade, pedindo para   tocar essa música no celular e, a partir daí, pulando, dançando e cantando até não poder mais.

Precisa mais? RsRs


domingo, 4 de janeiro de 2026

BRIGITE BARDOT : A BELEZA MORRE ( parte 3)


 

 “Brigite Bardot, a BB, morreu esta semana, em Paris. ”

Dos 4 ícones da glamorosa beleza feminina internacional dos anos 60/70:  Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Brigite Bardot e Sofia Loren só uma permanece viva: Sofia Loren, a maior atriz e, certamente, a mais bela de todas.

Brigite Bardot, a BB, morreu esta semana, em Paris.

Lembro, quando criança, de uma marchinha de Carnaval, cujo tema era Brigite Bardot   e que dizia assim:

BB, BB, BB. Por que é que todo mundo olha tanto pra você? (Refrão) /Será pelo pé? Não é. /Pelo cotovelo? Não é./ Pelo joelho? Não é. /Você que é boa e que é mulher, me diga então porque é que é.

Parecia mais uma marchinha ingênua povoando a imaginação de infantes como eu, que jamais desconfiariam de suas insinuações sexuais explícitas. Os autores carnavalescos aproveitavam o período para extravasar os impulsos eróticos reprimidos ao longo do ano por uma sociedade ainda repressora e puritana

Para a criança pairava no conteúdo da letra um mistério afetuoso, quase angelical

—Por que que é   então, tia?

— Sem vergonhice, meu filho. Carnaval é só imoralidade.

E a criança crescia e aprendia.

Minha admiração precoce pelo cinema e pela leitura de revistas me fez saber que Brigite Bardot, atriz francesa, era uma mulher escandalosa, libertina e sexualmente desinibida que, por trás de um rosto belíssimo e marcantemente angelical causava sensação no mundo por aparecer nua em filmes e se envolver com homens mais velhos e casados pouco se lixando para a moral e os bons costumes. Por isso era tão famosa! Pelos escândalos quase paradoxais num rosto de beleza tão pueril e doce.

Era impossível ao adolescente ficar imune aos apelos de Brigite Bardot como mito sexual, mas, curiosamente, a atriz francesa jamais me fez ir ao cinema por causa dela, como acontecia por Sofia Loren, esta, a minha grande adoração juvenil. 

Talvez a sedução que emanava da italiana viesse — além da deslumbrante beleza física — de sua capacidade interpretativa, mas não sei, não consigo discernir se o jovem teria sido afetado por isso, mas, de fato...

Brigite Bardot como atração meramente física não perduraria tanto. Tanto que finda a juventude e os escândalos (que progressivamente perderam impacto) eclipsou-se como atriz. Do formidável quarteto citado acima: Marilyn Monroe, teve um fim trágico, suicidando-se e Elizabeth Taylor, de estonteantes olhos verdes, conjugou a beleza com performances antológicas que lhe renderam o Oscar como   em Quem tem medo de Virgínia Wolf? morrendo em 2011.

Inteligente o suficiente para perceber que sua beleza havia fenecido Brigite Bardot não se inundou de botox, como tantas fazem, para disfarçar a decadência. Abandonou o cinema   e dedicou-se a causas como a proteção dos Animais   tornando-se uma ardorosa defensora dessas   espécies tão indefesas diante da sanha humana. 

E, assim, percorreu os anos que lhe restaram, acompanhada, agora, não mais da beleza física, mas da verdadeira — que é a dos gestos dedicados a uma causa nobre.





quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

SOCORRO! O ESPERMA ESTÁ ACABANDO!




José Ewerton Neto

“...Quando puder evite a masturbação, especialmente a compulsiva. “

.

 

Como se não bastasse a comprovação científica de que a inteligência humana está diminuindo, outros estudos amplos mostram que a contagem de espermatozoides tem diminuído também em várias regiões do mundo ao longo das últimas décadas. O trágico é que isso aponta para a extinção do ser humano se a produção de esperma continuar a cair ao ritmo atual.

É mole ou quer mais?

O curioso é que as mulheres, sempre mais sutis e perspicazes, já haviam detectado algo nessa direção sem recorrerem a estudos e pesquisas. Não é de hoje que, após o início deste século, elas passaram a invadir as redes sociais reclamando da ausência efetiva de homens (não só numericamente, mas, por assim dizer, qualitativamente falando) bradando o indefectível “Nesta Terra está faltando macho! ”  

Para evitar a consumação da tragédia a comunidade científica está arquitetando divulgar, em breve, para a população masculina, um Pequeno Manual de Prevenção do Esperma, cujos principais itens, divulgamos abaixo:

1.Não desperdice seu estoque. Quando puder evite a masturbação, especialmente a compulsiva.

O paradoxo é que quando isso acontecer acabará sendo um balde de água fria no aconselhamento de intelectuais irrefutáveis como Woody Allen que defendem a prática como a solução das aflições competitivas masculinas com o argumento: “ A grande vantagem da masturbação é que você escolhe a mulher que você quer. ”  Essa grande vantagem, como todos sabem, vem aliada a um baixíssimo custo e ainda conta com o privilégio, nada desprezível, de que “ Dependendo da imaginação do praticante a mulher pode pedir mais. ”

2.Faça depósitos regulares

Como em uma poupança bancária, o sujeito precavido deve estocar para o futuro, especialmente se ainda for novo e tiver em abundância. Neste caso, resguardando-se, deverá deixar outros canais, também muito solicitados, apenas para carícias etc.  preservando a integridade do seu esperma apenas para locais que a natureza reservou para esse fim.  Dessa forma, estará contribuindo para a preservação da espécie humana. Devidamente   guardado e congelado alguém no futuro poderá fazer uso dele.

3. Use seu esperma com eficácia.

O que o manual estará querendo dizer é que os espermas deverão ser usados, doravante, com a mesma eficiência com que o goleiro russo Safonov usou as mãos ao defender 4 pênaltis do Flamengo.

Em outras palavras, os homens deverão procurar saber, com antecedência, para onde o seu futuro Eu em potencial estará sendo   encaminhado. Claro, nem sempre o homem pode exigir de sua parceira um Certificado de Bons antecedentes, mas todo cuidado é pouco e todo desperdício passará a ser considerado um ato de indiferença diante do destino da espécie humana.  


 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

AS MELHORES DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO




“Dois grandes cronistas humorísticos me serviram de fonte de inspiração...”

 

Dois grandes cronistas humorísticos me serviram de fonte de inspiração em minha adolescência para que eu um dia enveredasse na prática desse gênero da escrita que, para meu deleite pessoal, prefiro à crônica lírica, engajada ou debatedora.

Não sei se aprendi, mas certamente devo a ambos — e a José Chagas, aqui no Maranhão, a quem humildemente substituí no espaço do Hoje é dia de...— muito do que até hoje enviei para as páginas dos jornais em mais de vinte anos.

Foram eles: Millor Fernandes (contundente, sarcástico   e  cerebral)  e, mais tarde, Luis Fernando Veríssimo  (sutil, irônico e cerebral). Com   estilos um tanto diferentes na composição de suas crônicas, mas com o mesmo impacto demolidor das hipocrisias humanas.  

Morto Luís Fernando Veríssimo esta semana, integro-me a homenagem que lhe é prestada por seus fãs, rememorando algumas de suas frases geniais e, dando-me à ousadia de, como admirador, comentá-las.  

1.     Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca ”

Obs. Nem tanto.  LFV morreu sim, fisicamente, como todo mundo. Mas — como MIllor—  tão cedo não será esquecido.

2.”Conhece-te a ti mesmo, mas não fique íntimo”

Obs. Verdade, aí está um bom conselho.

O perigo acontece quando o sujeito não estabelece freio e vem a apaixonar-se por si mesmo. Neste nosso país, adorar a si mesmo tem dado em presidência da república e, depois, cadeia.

3.”A vida é a melhor coisa que conheço para passar o tempo”

Obs. Verdade.

Mas ainda está longe da perfeição, já que acaba muito depressa.

4.” Eu não sei para onde caminha a humanidade, mas quando souber vou pelo outro lado. ”

Obs. Bom conselho que todos deviam seguir.

Sendo assim, é bom que os brasileiros se apressem porque está vindo aí um monte de chinês”

5.”O mundo não é só ruim. Está é mal frequentado. ”

Obs. Verdade. Parece até que na fila para entrar se descuidaram e deixaram passar um monte de   “patriotas”.

6.” Não há nada que um homem possa fazer no espaço que uma máquina não possa fazer melhor, a não ser morrer. ”

Obs. Outra verdade.

A IA está provando que para fazer melhor que um homem nem precisa ir pro espaço. Basta o espaço do próprio cérebro humano”

7.” Com o tempo os detalhes estragam qualquer biografia. ”

Obs. Verdade.

É por isso que os melhores biógrafos são aqueles que ficam atentos às fofocas e não aos detalhes.

8.” Não vejo vantagens na reencarnação. A não ser que conte tempo para o INSS”

Obs. Verdade.

Mas, pensando bem, nem isso compensaria ter de aguentar os humanos de novo.

9. “ O Brasil é esse estranho país de corruptos sem corruptores”.

Obs. Verdade. E, portanto, mais uma pra   completar a memorável frase de Tim Maia que diz:

O Brasil é esse país estranho em que puta goza, gigolô tem ciúme, traficante fuma maconha, comunista é de direita e — com essa — tem corruptos, mas não tem corruptores ” E...

10. “Às vezes, perdemos nossa fé, então descobrimos que precisamos acreditar, tanto quanto precisamos respirar...É nossa razão de existir. ”

VERDADE ABSOLUTA! Sem comentários.

 


 

terça-feira, 11 de novembro de 2025

AS DESVENTURAS DE UM METALÚRGICO



“A sua cabeça, de tanto carregar um capacete, tomou a forma deste. ”

Mimi, o metalúrgico é um rapaz muito esquisito. Sem cor definida (terá entrado fumaça em sua pele?), passa nas ruas, indo ou vindo do trabalho, como um objeto –muito – identificado: é MIMI, o metalúrgico.

A sua cabeça, de tanto carregar um capacete, tomou a forma deste. Onde se viam olhos, boca, nariz, etc hoje se vê — com mais perfeição — as letras CSN. Os seus membros, tão desconjuntados, parece que só se mantêm aderidos ao tronco graças a uma inevitável soldagem e seu tronco terá sofrido uma trefilação, posto que   está   tão magro que dá pena. Enfim, quem olha MIMI diz logo que precisa de urgente tratamento.

MIMI já havia pensado nisso e preferiu o tratamento térmico ao tratamento de minérios. Consta que o médico à vista de seu estado ponderou: MIMI, o que está havendo, rapaz? A tua dureza está muito baixa. Você não é mais, nem de longe, um homem de têmpera.

Quem é metalúrgico sabe que no tratamento dos aços o remédio para aumentar a dureza é um aquecimento a alta temperatura seguido de um resfriamento brusco. Mas MIMI, coitado, não é aço e, se bem que sujeito a sintomas típicos do aço como envelhecimento e corrosão há   uma diferença: no seu caso a corrosão se dá de dentro para fora, devido a ação contínua e insaciável dos vermes. Donde a suspeita: teria MIMI entendido mal a receita?

O certo é que MIMI enchia-se de cachaça no bar da esquina   — era o aquecimento, e depois se esquecia nas calçadas em pleno frio do inverno de Volta Redonda — era o resfriamento brusco. O que levou ao diagnóstico: Está desenganado. Já ultrapassou o limite elástico, sua inteligência está em fase de escoamento e em pouco tempo seu corpo entrará em fase de ruptura.  

Causa dó lembrar que um dia MIMI sonhou ser rico; um deputado ou senador, como todo jovem. O destino, como se sabe, faz muitas curvas   só que, no seu caso, foram curvas erradas: curvas de Boudouard, curvas TTT, curvas de equilíbrio. Era inevitável que terminasse assim, encurvado.

Pensando hoje friamente, é forçoso reconhecer que MIMI foi cúmplice desse destino para chegar a essa desastrosa situação. Casou cedo, teve muitos filhos. Não teve planejamento nem controle da produção. Seus filhos se saíram todos ingratos e perdulários — faltou claramente Controle de Qualidade.

A ligação com a esposa, a princípio católica e fiel, degenerou, se tornando o que poderia se chamar de uma ligação co-valente — isto é, com valentia mútua.  Poderia ter se convertido num grande personagem, mas passou fora do Conversor Thomas ou do Conversor Bessemer.  

Hoje chora lágrimas tão sólidas que parecem lingotes. Seu coração se funde em copiosas mágoas e, de tanta febre seu peito mais parece um Alto-Forno ou Auto-Forno, como queiram. Pelo visto vai continuar até o fim refratário ao sucesso e ao bem-estar financeiro. Poderia ter reagido a tempo, mas onde está a sua energia livre de Gibbs? Foi gasta com mulheres na rua.

Mas a vida de um metalúrgico é assim mesmo. E quando chegar a hora de sua morte e, para adaptá-lo ao caixão, for preciso tosar seus cabelos e re-barbas — como se fosse uma usinagem — ninguém lembre um torno.

Para não confundir com o que foi em vida.

 

PS. Essa brincadeira com o profissional da Metalurgia foi publicada  no jornalzinho denominado A CAREPA na Universidade Federal Fluminense de Volta Redonda, quando me formei.

Realçando termos do jargão metalúrgico (em negrito) circulou imediatamente em várias escolas e universidades do sul do país, com seu bom-humor e   irreverência, típica dos universitários da época e dos jovens de todos os tempos.

 

 

domingo, 2 de novembro de 2025

LONGO E DESESPERADO GRITO



                                            AS RUÍNAS

          

                “ Um longo e desesperado grito de horror. ”

 

Um plano   simples é um romance policial que me agradou bastante ter lido. Depois soube que havia virado filme, mas não cheguei a assistir. Não gravei na ocasião, contudo, o nome do romancista.  

Mais recentemente, encontrei entre meus muitos livros ainda não lidos, o romance as Ruínas de um certo Scott Smith, com uma capa que evocava algo parecido com temas da natureza. Mofando nas muitas prateleiras de minhas estantes, destinava-o para venda em minha banca de revista quando chamou-me a atenção uma chamada de Stephen King para o romance: “ Um longo e desesperado grito de horror. ”

Quer atrativo para leitura maior do que uma frase tão acachapante e magnética e, ao mesmo tempo, tão apavorante ou repulsiva quanto essa? Especialmente se assinada por ninguém menos do que   Stephen King?

Malgrado meu atual cuidado preventivo em relação a tudo que possa me induzir a noites mal dormidas (a partir de apreensões, pesadelos e outros que tais) o fato é que   a frase acabou se impondo quase como uma intimação. Não   devido a sentença do autor famoso, mas pela coreografia macabra da dança das palavras num desconcertante apelo irresistível. A que poderia se    assemelhar   um longo e desesperado grito de horror? O que seria tão apavorante e contundente? Lembrei-me da famosa pintura O grito de Edward Munch e, claro, fui ao livro.

Passado algum tempo percebi que o longo e desesperado grito de horror tinha de fato semelhanças com o quadro do pintor —  menos pelo escabroso e mais pelo horror psicológico, cujos embates entre os personagens com suas estruturas mentais deteriorados pelo pavor forneciam um outro atrativo.

Isso evidencia que Scott é um mestre na captura do leitor à sua trama, porque o mantêm sequestrado, malgrado seus escudos, vacinas e válvulas de escape — tão fáceis de executar como simplesmente abandonar a leitura. Bons autores são assim: não permitem que você abandone o seu livro, mesmo que você intente fazer isso.

Ah, sim, depois finalizar o romance, à procura de mais informações sobre o autor descobri para minha surpresa, na própria orelha do livro, que era   o mesmo de O Plano Simples. Scott Smith.

Eu simplesmente esquecera de atentar para esse detalhe   na orelha do livro. 

 

domingo, 19 de outubro de 2025

UM BOM LIVRO SOBRE CAUSOS E COISAS DO MARANHÃO



 “Guerra da Amazônia e outros contos, de Valmir Seguins, foi lançado

semana  passada, 11 de outubro  na livraria da AMEI, shopping São Luís.”

 

 Ao ler os contos deste livro de Valmir Seguins, o leitor comum (aquele que compra o livro somente pelo prazer da leitura) jamais se pergunta se aquilo que está lendo é realidade ou ficção.

Sim, porque para ele não interessa se o fato descrito aconteceu de verdade, pois, seduzido pela narrativa, está mais envolvido em chegar ao final da história o quanto antes para desvendar o que o encadeamento dos acontecimentos lhe reserva de misterioso ou pitoresco, eis que, desde o primeiro conto lido, sabe que o autor lhe reserva algo desse tipo. Em suma, o leitor não está interessado na fidedignidade dos fatos porque ele segue motivado apenas pelo prazer de ler, no afã de consumir palavra por palavra, vírgula por vírgula, um conteúdo que lhe faz sorrir, refletir, ou recordar algo parecido com o que já presenciou ou viveu.

Ao ler esses mesmos contos o leitor de perfil mais literário ou acadêmico (aquele que exerce a leitura, também por um dever de ofício e que, portanto, adquiriu intuitivamente a inclinação investigativa de perscrutar o que está se passando nas entrelinhas entre o autor, o narrador e os personagens de sua criação),  aquele que tanto pode ser um mestre em literatura, um praticante de jornalismo  literário, um resenhista ou um bom escritor,  também a ele, jamais ocorre se perguntar, pelo menos enquanto estiver lendo,  onde começa a realidade e termina a ficção ou vice-versa. 

Sim, porque também ele foi seduzido pelos artifícios usados pelo autor Valmir Seguins que arrebataram o leitor comum, acima. Ou seja, histórias sempre interessantes e factíveis, por mais bizarros que possam parecer certos elementos do ambiente, picantes e, na maioria das vezes, divertidos, escudados por descrições minuciosas da geografia do local com riqueza de detalhes, tornando-as íntimas para o leitor. Inclusive as siglas de instituições ou organismos governamentais, que saltam da descrição dos fatos como se extraídas do profundo poço da memória de cada um, ainda ressoando familiares, trazidas do passado e incorporando-se aos personagens descritos.

Teriam sido reais? Mas, que isso interessa, de fato?  Talvez seja   uma artimanha do autor para dar credibilidade ao que está sendo narrado ou não, mas isso pouco importa para o leitor, seja    qual   for o seu tipo. O que interessa é que a arquitetura da narrativa se tornou de somenos diante da simplicidade e da objetividade do enredo; que vai direto ao ponto para, assim, primeiro granjear a atenção do leitor e, depois, conduzi-lo   à epifania final. Como um prédio bonito, diante de cuja visão impactante o transeunte se detêm para apreciar, mas a quem jamais ocorre indagar como o arquiteto fez para chegar a um monumento artístico.

                Pois é isso que distingue os contos deste livro: histórias bem contadas que arrebatam o leitor por caminhos pitorescos, curiosos e humanos, próprios da vida comum. Os personagens do autor, portanto, não são   de natureza heroica, são   apenas humanos, demasiadamente humanos, como disse o filósofo. Como, por exemplo, esse impactante e imprevisível personagem chamado Coisinha do conto com esse título: um magnífico representante dessa coisa abrangente e heroica chamada de ser humano.

            Já foi dito que a tarefa do romancista é chamar as coisas pelo devido nome antes de transformá-las em símbolos, o que parece um ótimo conselho a escritores interessados em criar algo como “a ilusão da realidade. ”

Percebe-se, de pronto, que o autor Valmir Seguins não está interessado nisso, embora possa estar fazendo isso, porque está pouco preocupado com a teoria literária. Ele quer simplesmente contar uma boa história explorando a riqueza humana de personagens como Coisinha, do conto com esse título, como o bêbado contumaz de O bêbado perdido,  como  o intrigado descobridor  Anacleto de  As tamboeiras de milho de Vaca Velha, como a maliciosa Aline do conto  Aline etc. Assim como nos mil   episódios de  Decamerão que fez a glória de Giovanni Boccacio, são histórias talvez contadas para o autor ou que ele viveu ou que imaginou, já que, como todo escritor atento ele tem asas para imaginá-las ou enriquecê-las. Sendo um precioso observador e tendo afinidade com o   “humano” como tinha o escritor italiano, é um pescador das riquezas cotidianas que concedem àquele que as interpreta e as propaga, a fortuna do dom de Deus das pequenas coisas, (se me permitem recorrer ao belo título do romance da indiana Arundhati Roy)  

Se Oscar Wilde um dia disse que a realidade imita a ficção muito mais que o vice-versa, estar no limiar dessa ambiguidade praticando o ofício de escrever e sair ileso das incursões nesse território, tornadas irrelevantes graças ao prazer da leitura que proporcionam, é o de melhor que pode acontecer a um escritor.  Esse, creio, é o tal do dom de narrar que segundo Mia Couto empobrece definitivamente aquele que não o possui.

Sendo assim o escritor Valmir Seguins é um homem rico, graças ao seu virtuoso manejo da arte narrativa, privilégio de   poucos. Como também são ricos os leitores que ganharam a fortuna prazerosa de se deliciarem com   essas páginas.  

José Ewerton Neto, romancista e poeta, pertence à Academia Maranhense de Letras, onde ocupa a cadeira 11. 

 

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

A BOCA ME TORNA A MAIS TRISTE




“ A boca me torna a mais triste ao lado dos olhos mortos.

Há uma linha escura entre os lábios, no contorno de várias ondas de brisa numa tempestade turbulenta — ela diz não me beije, não me engane. (...)

 sou uma dançarina que não sabe dançar.”

Os versos acima são de Marylin Monroe. Surpreso, leitor?

Provavelmente sim, já que, dessa atriz morta há mais de meio século, todos se recordam apenas como atriz sex symbol.

Que, no entanto, se chamava Norma Jean e não Marilyn Monroe, que era morena e não loura, e que estava mais para triste e solitária do que para a doidivanas de esfuziante felicidade que aparece em tantas imagens.

O fato é que o aparente paradoxo apelativo de alguém famoso e sedutor, com um final trágico, povoou as páginas de livros e filmes sobre a trajetória de uma mulher que não era infinitamente bela como a comoção a tornou, e que teria preferido, na sua intimidade, ter sido uma mulher comum com alguém que a compreendesse e amasse.

Meses atrás, surgiram na net fotos da atriz lendo Ulisses, de James Joyce, um dos maiores cânones da literatura. (Que nem todo escritor leu — e a maioria que diz ter lido, não leu).

Marilyn leu o romance ou posou de intelectual para compensar a impressão que passava de  “loura burra”? E que a fez se casar com Artur Miller, escritor consagrado, em mais um de seus amores desafortunados?

A breve leitura de seus poemas mostra que foi uma pessoa de sensibilidade singular, um ingrediente fundamental para ter sido uma artista na verdadeira acepção da palavra. E se inscreve no degrau daqueles que embora tivessem ganho muita grana, jamais tiveram isso como fundamental — como, mais recentemente, a cantora Amy Whinehouse.

Seus versos íntimos, feitos no recôndito de sua solidão, mostram isso: que Norma Jean não foi apenas a bela e sedutora Marilyn Monroe, mas uma mulher que buscava um sentido mais sólido para suas aspirações de vida — o que aumenta o progressivo fascínio em torno de sua trajetória como mulher e... artista.

Como disse após sua morte Arthur Miller, seu marido:

“Para sobreviver seria preciso que ela fosse mais cínica ou, pelo menos, mais próxima da realidade. Em vez disso ela era uma poeta na esquina, tentando recitar seus versos a uma multidão. ”


 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

TRIBUTO A CLÁUDIA CARDINALE



A BELEZA MORRE (parte 3)

José Ewerton Neto

         “A atriz ítalo-tunisiana Cláudia Cardinale  foi  da época de ouro do cinema..”

 

A primeira vez que usei esse título em uma crônica aconteceu quando faleceu em 2020 a eterna miss Brasil Marta Rocha, que durante muitos anos foi sinônimo nacional de beleza. Esse texto está no livro A verdadeira história de tudo e tudo mais, entre outras homenagens-biográficas resumidas.     

Depois, o mesmo título foi usado para Alain Delon em 2024 e, agora, vai para Cláudia Cardinale, ambos ex-atores de cinema.

A atriz ítalo-tunisiana Cláudia Cardinale é da época de ouro do cinema, quando este representava bem mais que a mera representação de um filme. Mais que isso, era um prolongamento das vidas dos espectadores em direção à ilusão, o glamour e a sedução.

Quando soube de sua partida definitiva, compartilhei com amigos e escritores o fato de que, das 5 estonteantes divas da época a beleza já morrera em Marylin Monroe, Elizabeth Taylor e, agora, em Cláudia Cardinale — permanecendo vivas, Brigite Bardot e Sofia Loren. Esta (para mim) a melhor atriz, e também a mais bela entre todas.  

Claudia Cardinale, que jamais chegou a ser uma atriz do porte de Sofia Loren e, nem mesmo, de Elizabeth Taylor, teve atuações marcantes em filmes inesquecíveis de grandes diretores como Era uma vez no Oeste e O leopardo, quando contracenou com Burt Lancaster — fita tão grandiosa quanto o romance que a originou, baseado em título do mesmo nome sobre a decadência de uma nobre família italiana.

Não há outro adjetivo que se cole mais à sua performance que não seja a pecha de “deslumbrante” quando movia seus traços fisionômicos a favor de sua desenvoltura teatral, em incursões arrasadoras.

Morreu nesta terça aos 88 anos, e deixa mais uma vez a sensação melancólica e desoladora de morte da beleza — esse atributo físico humano que Montagne afirmou ser apenas “...a promessa da felicidade”

Torço para que tenha sido assim — pelo menos enquanto durou, como disse o poeta Vinícius de Moraes — para alguém que a carregou com tanta desenvoltura.

Infelizmente, as belezas também morrem — não só as físicas —  e, quando se vão, morre também um pouco da ilusão e do    sonho de cada um dos que ficam.  

 

domingo, 3 de agosto de 2025

A FELICIDADE ANDA MEIO INFELIZ

ENCONTRO COM A FELICIDADE

José Ewerton Neto  

“E agora? Tem mesmo certeza de que vale a pena ser feliz, caro leitor?...”

 

Felicidade ou morte, ao invés de Independência ou Morte, por exemplo, é o título de um livro de autoajuda de muito sucesso.

Portanto, caro leitor, “Seja feliz ou morra” parece até ordem de alguma autoridade constituída deste país, sob pena de acabar na cadeia ou pagar mais imposto de renda, o que, convenhamos, é ruim, mas ainda é preferível a morrer.

         E agora? Tem mesmo certeza de que vale a pena ser feliz, caro leitor?

 Para resolver essa parada fomos encontrar a Felicidade. Ela própria, em pessoa. Estava pronta para desabafar.

         - Não aguento mais.

         - O quê, precisamente, Dona Felicidade?

         - Tanta gente atrás de mim. Tanta procura, tanta adulação, pensei que isso fosse acabar depois da Pandemia. Essa gente acha que virei o único remédio para as mazelas do mundo. E o pior é que   sequer se dão ao trabalho de querer saber quem sou. 

         - E quem você é?

         - Isso é o que eu gostaria de saber. Todos tentaram explicar em vão: filósofos, religiosos, cientistas...  Se felicidade é isso que todo mundo pensa que eu acabei sendo, desconfio de que eu mesma nunca fui feliz e   jamais serei.

         - Se a Sra. me permite, essa melancolia abate   depressa   pessoas sensíveis como a senhora.

         - Se fosse apenas isso... A questão é que, mesmo sem saber quem sou, de repente, me julgam capaz de resolver todos os problemas do mundo.   Até das mortes. Ora, eu não sou Deus! Definitivamente, estou possessa com tudo isso!

         -Poxa, dona Felicidade! Não sei o que dizer.... Talvez...  Bem, só me resta sugerir...

         - O quê, pelo amor de Deus!

         - Que tal procurar   um analista, Dona Felicidade? Isso pode ser depressão.

         - Jamais! Conheço-os muito bem: eles me usam como se eu fosse vacina. Dizem: “Procurem dona Felicidade, ela resolverá seus problemas”. Ora, para que servem então?

         - Hei de convir que a Sra. tem razão. Só desejaríamos que, pelo menos, a Sra. continuasse feliz, para o bem da humanidade.  Senão...

         - E quem lhe disse que me incomoda ser infeliz? Acredite, com tanta gente falando asneira a meu respeito, até que gostaria de ser infeliz, só para que me deixassem em paz, compreende? Estou prestes até a adotar um lema para mim: Infelicidade ou morte!