sábado, 29 de junho de 2013

ATÉ QUE NÃO...



artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão, hoje,
sábado


“Até que não”, frase que ninguém sabe explicar exatamente o que significa,  mas todo mundo entende,  virou ‘meme’ na Internet. Alguém sabe o que é  meme?
 “Até que não”, você poderia responder, ficando claro que, se você nada acrescentou, mesmo assim seu interlocutor entendeu o que você queria dizer (ou não) e ponto final. O meme  avassalador surgiu após um diálogo  entre Xuxa  e uma fã, pelo twitter:

XUXA – “Minha gente, desculpa não ter falado com vocês esses dias. Estou ralando muito. Férias estão chegando, preciso gravar para adiantar. Mas estou com saudades dos nossos papos. Beijos”.
FÃ ( Aline Gomes) - “Dando muito, né?”.
XUXA – Até que não.
E pronto, foi suficiente para a fama. Uma celebridade que não tem o que fazer; uma fã  com  menos ainda o que fazer, suspeitando, com razão,  de que uma celebridade que não tenha o que fazer esteja dando muito; uma resposta que quer dizer tudo - ou nada - ao gosto do freguês,  e eis que temos a matéria-prima suficiente para um meme memerável ( ops, memorável). Para quem ainda não entendeu o significado da frase , eis alguns usos, muito práticos, de utilidade pública.

                           


1.REPÓRTER. “Presidenta Dilma, porque o pacto só saiu depois das manifestações?”
            PRESIDENTA. “Até que não”.
            REPÓRTER. “Como assim?”
PRESIDENTA. “Já houve um pacto para curar gay. Outro para curar o Maracanã - que estava muito velho -, outro para curar Carlinhos Cachoeira, Zé Dirceu e outros da cadeia.  Enfim...”
REPÓRTER. ”E para curar a corrupção?”
PRESIDENTA. “Até que não.”


                                                


2.REPÓRTER. “Felipão, as estatísticas mostram que o Brasil é o país que mais recorre a faltas, tendo o dobro da Espanha. O Brasil antigamente jogava bonito, hoje joga na base da porrada. Você está mandando bater?”
FELIPÃO. “Até que não”.
REPÓRTER. “Como?”
FELIPÃO. “Quer dizer... Só até Neymar virar um bom lutador de MMA.Vocês viram a tesoura voadora que ele deu no zagueiro italiano no jogo contra a Itália?”

                                             
     

3.CAETANO VELOSO ( no twitter, tentando explicar o movimento) “ O jogo do Neymar ensina que o movimento emaranhado das ruas tem de achar o jeito inspirado de acertar. Que saibamos chegar ao mais bonito”
FÃ. “Caetano, essa frase com essa baianidade tão profunda significa que você está aprendendo a filosofar com o Pedro Bial? Ou será com o Arnaldo Jabor?”
CAETANO . “Até que não”
FÃ. “Afinal de contas, você está a favor do movimento ou não?”
CAETANO. “Uma vez eu disse que o Xandy tem o bumbum mais bonito do Brasil. Em matéria de movimento sou mais o seu, com o dito cujo.”

                                                     


4.REPÓRTER. “Deputado,  estamos sabendo que você foi um daqueles que votariam a favor do PEC 37”
DEPUTADO. “ Até que não.”
REPÓRTER. “ Como assim?”
DEPUTADO. “ Quer dizer...votaria, mas já nem posso dizer que votaria. Você sabe, um deputado tem o direito de mudar de opinião para defender os interesses...”
REPÓRTER. “Seus próprios interesses?”
DEPUTADO. “Até que sim, quer  dizer...Não é bem assim, isto é... um deputado é eleito para ter o direito  de não ser contra nem a favor, muito pelo contrário, de forma que sua ausência venha a preencher uma lacuna, ou seja ...”
REPÓRTER. “Afinal de contas, vocês mudaram de opinião a respeito do PEC 37 só depois da pressão popular, não foi?”
DEPUTADO. “Até que não.”  

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sábado, 22 de junho de 2013

A COPA VERDADEIRA




artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado.


Mas, afinal de contas, qual é a Copa que o Brasil está disputando? No gramado, verdinho, rodeado de arquibancadas  cheirando a leite, 11 jogadores, bem-nutridos e endinheirados, vestem uma camisa verde e amarela e, depositários da confiança de toda uma nação partem para a luta. Mas, e lá fora? Os manifestantes contra o estado de corrupção a que chegou o país. Que Copa será essa?

1.BRASIL x BRASIIIIILLLLLLLLL!

Esse Brasillllllllllll!,  interminável, que se pretende tão grande como o primeiro é   o de Galvão Bueno, quando o Brasil faz um gol, um golzinho só. Muita gente já se perguntou quanto Neymar, o craque,  ganha para fazer um gol, mas pouca gente já se deu ao trabalho de perguntar quanto custa um gol gritado pelo maior embusteiro  da nação, aquele  que se julga o mais patriota dos brasileiros, Galvão Bueno. Quanto será que ele ganha por cada letra que estende além,  na garganta intermináaaaaaavel ?
Esse Brasiiiilllll, de Galvão Bueno, como ele próprio sabe,  está longe de ser o Brasil de verdade. O Brasiiiillll! de Galvão Bueno é vistoso, joga sempre bonito ( até quando não está jogando nada) , é pleno de brasileiros cheios de vida e de bolso. Milionários, como ele, que têm mansões na Europa onde moram, de preferência à sua própria terra, mesmo sendo tão ‘patriotas’.  É um Brasil de mentirinha, de noventa minutos apenas, ou, no máximo, de 24 h de ressaca de gol, que não resiste à passagem do tempo e do quotidiano, mas  que tem sido suficiente para iludir,  por alguns segundos,  os nascidos num  Brasil de verdade.
O Brasil não é páreo para o Brassiiiiilllll!   
                                               




2.CAMARÕES x ELEFANTES.  

Não se trata da seleção de Camarões, aquele simpático país da África que já jogou um futebolzinho razoável. Camarões, desta vez,  sequer vai à Copa. Mas estamos falando dos camarões que estarão na Copa, aqueles graudões, servidos nos restaurantes de hotéis com estrelas a perder de vista,  para serem deglutidos pelos de sempre: executivos da FIFA, da CBF, negociantes  da Copa – e da cozinha, mandatários   e seus puxa-sacos. São  os camarões de Fortaleza, Recife e Salvador que  a populaça – sem dinheiro sequer para  ir aos estádios, jamais vai sentir o sabor na própria boca.  Quanto aos elefantes, não estamos falando dos rechonchudos elefantes  dos livros infantis , mas daqueles que estarão na Copa e que nasceram especialmente para ela.  Os  elefantes...brancos.
Os camarões farão sucesso, sem dúvida, serão festejados quando descerem pelas goelas, mas depois da copa desaparecerão se em profusão. Já os elefantes brancos, esses não.  Esses permanecerão para sempre, abandonados e   imponentes, monumentos do desperdício, símbolos eternos de um país que os prefere a hospitais e escolas. Os elefantes brancos vencerão.



                                  

3. PÃO x FELI-PÃO.

O pão subiu de preço. O Feli-pão subiu muito mais. Quantos pães,  necessários para alimentar a boca de milhões de brasileiros famintos,  são necessários para alimentar o bolso do Feli-pão? O que é mais importante para o nosso país: o pão na boca do povo ou o pão nos bolsos do Feli-pão? (Um pão custa em torno de quarenta centavos, um Feli-pão, dizem,  ganha quase um milhão). Perguntas que só uma disputa de Copa resolve.
Feli-pão, além de ganhar muita grana,  é um técnico medíocre, igual a tantos por esse Brasil afora, mas tem certas virtudes: é grosseiro, boquirroto, metido a valente , mas esperto o suficiente para se dar bem às custas do talento de alguns  jogadores. Foi assim quando ‘montou’ no talento de Rivaldo,  para ganhar a Copa de 2002 e fez jus à sua personalidade oportunista ao repudiar o jogador,  quando este, veterano, quis voltar a jogar no time que ele dirigia, o Palmeiras. E está sendo  ainda Feli-pão quando,  no último jogo Brasil x México  teve a coragem de dizer que foi o “espírito de luta” implantado por ele em sua  equipe que ganhou o jogo, e não Neymar.  Espírito de que, cara-pálida? Se espírito ganhasse jogo o campeonato baiano terminava empatado - como dizia João Saldanha.
Porém, mesmo que o Brasil perca a Copa, Feli-pão, sairá vencedor. Não terá como abandonar o barco covardemente, como fez com o Palmeiras, time que empurrou para a  segunda divisão. Mas seu salário exorbitante garantirá sua  festa.  Feli-pão não é apenas  pão a perder de vista. É  Feliz-pão!

                                       
                                      

4.PEC 37 X HINO  NACIONAL . 

Hino nacional,  honra nacional. Páreo duro? Nem tanto. O Hino Nacional será cantado antes das partidas, como sempre,  sem que o brasileiro saiba sequer o que está falando. Ou cantando. Um dia vi perguntarem na tevê a uma famosa e respeitada jornalista qual era o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”. Ela se enrolou e não soube. Mas, qual seria o sujeito do Hino Nacional, da Honra Nacional?
Com certeza não é o PEC, o PEC não parece ser um grande sujeito. Está longe de jogar  como Pelé, com cujo nome parece, antes, ao que tudo indica , ao invés  de jogar,  foi jogado ( para ver se pega) . Os manifestantes não querem o PEC, reconhecem nele um símbolo da proteção à corrupção. Se neste país já ninguém investiga , com a chegada do PEC, ponto final: a corrupção some por encanto. Que solução!
Os manifestantes não gostam desse cara, desse PEC. Mas, quem duvida que o ele vai sair ganhando? Claro, porque quem dá o resultado do jogo não é a bola na rede, mas, justamente,  quem tem o interesse de ficar livre das investigações. A honra nacional, coitada, ficará mais uma vez a ver navios.
Vai dar PEC,   37 a Zero.

                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com

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sábado, 15 de junho de 2013

A VOLTA DO MARACUJÁ-PÊNIS



artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão, hoje sábado.


Estranho que no dia dos Namorados nenhum casal tenha se lembrado de que havia logo ali, num pomar da cidade, o melhor presente que alguém poderia ter dado a seu parceiro apaixonado: o original, simbólico e espiritual  -porque ressuscitou - maracujá-pênis. Ao invés de exaurir suas economias num restaurante da Lagoa ou da Litorânea (capazes de exaurir também qualquer  tesão) era melhor ter escolhido esse fruto de mão dupla . Se ofertado pela moça, para lembrar  as obrigações sexuais do rapaz, tantas vezes esquecidas. Se da parte dele, para insinuar uma renovadora motivação amorosa. 

                Ninguém levou isso conta,  mas  também pudera!: A volta do maracujá-pênis  não foi festejada pela grande mídia a não ser em uma pequena notícia de canto de jornal. Lembro que um dia escutei, em um belo filme, uma frase, nunca olvidada,  sobre um personagem: “muito passado, pouco presente, nenhum futuro”. Certamente o contrário da sina do  novo maracujá-pênis : “pouco passado, muito presente , vasto futuro”.
                                                       

1.O PASSADO. Para quem não se recorda, vale a pena lembrar. O maracujá-pênis surgiu há cerca de dois anos  atrás,  num sítio de Ribamar. Imponente, bizarro  e sedutor logo virou celebridade, bombando na Internet e nas Redes Sociais e deixando para trás gente famosa nesse ramo, como um rapaz  maranhense de Sicupira do Norte,  que tem o maior pênis do mundo. As ribamarenses, excitadíssimas, logo começaram a alterar seus hábitos alimentícios: o suco de açaí foi preterido pelo de maracujá,  o feijão com arroz pelo sorvete do fruto  e a tradicional sobremesa de doce de leite foi superada pelo mousse da fruta amarelinha.  Estrangeiros,  vindos sabe-se lá de onde, começaram a aparecer no sítio de dona Marta, lembrando uma súbita invasão dos sem-terra. Incomodada em sua quietude, Dona Marta, claro, passou a cobrar pela visão do fruto. Sim, porque até o clima mudara com a chegada do fenômeno: por conta das fantasias sexuais das ribamarenses, especialistas começaram a detectar um aumento da umidade relativa do ar no entorno da região.   
Mas, como tudo que é bom  dura pouco, um belo dia, de repente, o fruto se desfez, se foi, escafedeu-se. Para tristeza de todas e felicidade geral dos homens (cada vez mais comprimidos diante da festiva concorrência) o fruto morreu, ninguém sabe como e por quê. Sua curta trajetória  parecia ser coisa de um passado definitivamente enterrado.

                                            

2.O PRESENTE. Mas eis que o fruto se fez de volta, anunciado esta semana para o mundo inteiro, não mais em Ribamar, mas em São Luis. Como se lê na reportagem: “Pé de Pirocujá ( apelido carinhoso do fruto)  retorna, com força total na Ilha do Amor. “ A reportagem acrescenta  anda que o Pirocujá renasceu no bairro do Calhau,  num sítio em frente à casa de um famoso cantor maranhense, que inclusive postou fotos do fruto na Internet para que ninguém duvidasse.  (Teria sua ressurreição  a ver com a qualidade da melodia executada no interior da casa,  e o ambiente musical ao redor?)
Isso não importa, o que interessa é que o Pirocujá (ex-maracujá-pênis) está de volta, sintomaticamente, mais uma vez na Ilha do Amor. Se o amor é eterno, nada mais justo que um fruto que guarda em seu bojo uma representação natural do amor esteja destinado a vida eterna.                                

3.O FUTURO. Apesar de toda essa sina heróica e romanesca não custaria nada aos políticos darem uma mãozinha em prol da  confirmação do  Pirocujá como um novo símbolo da cultura local. Se, conforme noticiado,  existe vereador propondo a instalação de um impostômetro em praça pública (o povo preferiria, com certeza, um corruptômetro)  por que não uma estátua do Piro...em praça pública, para felicidade geral da nação, e das mulheres em especial? A essas alturas, já não deveria estar na pauta dos representantes da população  demandas para implantação de estudos científicos que garantissem a subsistência do fruto, evitando, assim, riscos de outra debandada do mesmo,  causada sabe-se lá por quê?


                                         


Uma coisa é certa. Se comprovado, como sugerido acima,  que o maracujá-pênis precisou para se desenvolver e frutificar de uma boa música popular maranhense, se não houvesse outras razões,  já haveria um bom motivo.
                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com                                                                                   http://www.joseewertonneto.blogspot.com

terça-feira, 11 de junho de 2013

NAMORADO A JUROS ALTOS




artigo publicado na seção Hoje é dia de...Sábado, 6 de junho
na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo, jornal o Estado
do Maranhão


Dia dos namorados à vista, as namoradas estão cada vez mais à beira de um ataque de nervos. Trata-se de conseguir um bom presente para ele ou de se sentir objeto de alguma atenção, seja lá como for.
 
Vai compreender as mulheres pós-modernas! Difícil  entender que depois de terem obtido, a muito custo,  a emancipação, a igualdade de direitos, o profissionalismo e a independência ainda careçam tanto assim de um namorado, apenas  para exibir às amigas como se fosse um adorno . E que façam questão de preservá-los mesmo quando são, cafajestes, gigolôs, pretensiosos, ou...

Aliás,  nem precisa que sejam homens, não é mesmo Daniela Mercury? Como canta Erasmo Carlos, antes mal-acompanhada do que só, parecendo ser mais importante para elas, hoje em dia,  ter um namorado do que um homem, mostrando que o grande dilema da mulher ( como de resto , o de todo o ser humano, é o de não suportar a própria companhia).  Como dizia Montagne o maior problema da humanidade -  e em especial o das mulheres - é o de não conseguir ficar sozinha  em seu próprio quarto. Às namoradas então, segundo a faixa etária:

                                         

Tipo 1.  Com mais de 50 anos, a que adora dar de mamar.  (à La Suzana Vieira)

57 anos incompletos e dois maridos também, a única queixa que tem da velhice que chega é a coluna, porque faz tempo que não aparece nas colunas sociais. Diz pra todo mundo que adora seu namoradinho de vinte porque este substitui seu neto com vantagens na hora de ir pra cama, já que dorme bem mais rápido. Não teme as estripulias do rapaz  porque sempre fez sexo seguro:  tanto assim que traiu seus maridos várias vezes, mas com o segurança . Gaba-se do seu namorado mais jovem porque com este descobriu rapidamente, sem precisar de analista,  a causa do imenso vazio que começou  a perceber nas coisas que a rodeiam. A começar, pelo da carteira.

                                      
                                  

Tipo 2. De treze a vinte cinco a popozuda quebra-barraco ( à la Anitta do funk).

Trabalha numa loja de shopping , mora no subúrbio. Popozuda e independente (acha que o segundo adjetivo não passa de um complemento do primeiro) topa qualquer parada, desde que não seja de ônibus. Julga que encontrou o namorado certo, porque este sempre lhe acerta o olho toda vez  em que se excede rebolando a bunda na  balada. Sempre fez de tudo para aparecer, inclusive, desaparecendo com as roupas da butique onde trabalha. De todas as qualidades do amado,  a preferida, além de ele ser do torcedor do Coríntians é a de ser aprendiz de traficante.  Adora tatuagens. Tem uma na nádega esquerda que foi, aliás, sua única veste no último desfile da escola de samba.                            

Tipo 3. Entre 25 a 50: A intelectual pós-moderna ( à La Regina Cazé ou Preta Gil)
Acha que fazer ginástica é uma forma de ser intelectual. Depois de muito ralar diz que finalmente está perto de encontrar a si mesma, mas reconhece, um tanto tardiamente,  que essa opção para namoro não serviria. Depois de correr  feito uma desesperada de manhã, de tarde, de noite, encontrou  o atual namorado: um ex-flanelinha, ex-jogador de futebol , ex-cantor de forró, ex-cordeiro de trio elétrico, enfim, um ex-croto. (como as ‘intelectuais’ gostam ). Baixinha, gordinha e corajosa , adora um livro de auto-ajuda, mas, em matéria de acrofobia ( medo de altura) só passou a ter medo disso depois que caiu de um salto de 50 cm. Quanto à  leitura prefere 50 tons de cinza, a lista telefônica e os recadinhos do celular do namorado, embora desconfie de que sejam  apenas  cópias. ( Compreensiva, faz de conta que entende: “ é que o rapaz, como todo namorado,  não gosta de gastar o cérebro, coitadinho!”)    
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sábado, 1 de junho de 2013

SURFANDO COMO BRUNA SURFISTINHA



artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão, hoje sábado

Neste melhor e mais culto país do mundo (depois de Lula) uma Bruna Surfistinha é pouco, duas é bom e três, dez, cem mil... é bom demais. E deve ser por isso que surgiu, uma segunda Bruna Surfistinha, Lola Benvenutti, que ganhou destaque na mídia há mais de mês, como a mais notável sucessora da primeira. Vamos a que veio.

1.Teoria da Evolução. Teoria da Evolução é assim mesmo e Lola (a segunda Surfistinha aprimorada) estudou um pouco mais, tanto é assim que se formou em letras pela Universidade de São Carlos. Dedicada e sábia logo aprendeu que é melhor um passarinho na mão (ou um pinto?) que dois voando,  e lá se foi seguir a carreira de acompanhante, preferindo essa solução à de ralar em sala de aula para empurrar goela abaixo de estudantes coisas que eles pouco estão interessados em saber.  (Como todo mundo sabe no Brasil de hoje os estudantes só não têm mais raiva de livro não apenas porque o dia tem apenas vinte e quatro horas, mas porque o alfabeto só tem 23 letras).  

2.Lola, a Benvenutti. Lola Benvenutti, nome artístico de Gabriela Natália Silva já havia decidido se tornar garota de programa desde os dezessete anos, ou seja, 4 anos atrás, demonstrando uma vocação precoce, mas nem tão surpreendente assim neste século. É de se imaginar que, na pré-adolescência, quando os pais lhe perguntavam que curso ela gostaria de seguir ela respondesse  que queria ser professora  - deixando de especificar o que gostaria de ensinar . Se tivessem insistido talvez tivesse dito que queria ser Bruna Surfistinha. Afinal de contas, profissão de mais glamour e sucesso para mulher, neste país, do que a de ‘acompanhante’, só de perua de telenovela ou de popozuda de Funk.

                                             
                                     

3.Formada em  Letras. Quando decidiu cursar Letras, portanto,  Lola já era garota de programa. Ao ingressar na graduação passou a fazer jornada dupla quando, como qualquer  trabalhador(a) passou a exigir o pagamento das horas extras.Versátil, chegou até a exercer a profissão alternativa (de professora), mas, embora querida por seus alunos, optou pela principal, onde era mais querida ainda. Uma questão muito pessoal de dinheiro, vocação, carinho, amor e a famosa sabedoria de Nelson Rodrigues: “Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.”

5.Nome de Guerra. Lola, além do bonito nome poético mostra veleidades intelectuais exibidas no corpo, onde estão incrustadas tatuagens, uma contendo um poema de Manoel Bandeira e outra, fragmentos de um texto de Guimarães Rosa. Com isso faz mais pela literatura brasileira do que muitos  professores por aí que jamais escreveram sequer um poema no quadro-negro, que dirá na própria pele. Além  disso, é autora da frase “ Faço porque gosto”, onde ao mesmo tempo que proclama sua profissão de fé, responde a quem a critica. Diz que detesta o rótulo ‘prostituta’, preferindo ser chamada de acompanhante. Se tivesse lido Bandeira um pouco mais, uma solução seria deixar-se chamar de Vulgívaga, como no belo poema do autor pernambucano Mas, hoje em dia, quem sabe o que é isso?
                                              
4. Agora é Tarde. No programa da Band Agora é Tarde, Lola confessou que chegou a transar com seus alunos na época em que lecionava, mas nunca chegou a cobrar  por isso, demonstrando  um desapego que nem todo profissional tem. Poderia ter acrescentado: “Nunca fiz greve” o que demonstraria mais heroísmo ainda. Tanto desprendimento deveria credenciá-la,  no futuro, a ser convidada, como Xuxa foi,  pelo Governo Federal para liderar campanhas contra a exploração da prostituição infantil. Afinal de contas, experiência como Xuxa nesse ramo de atividade ela tem com uma vantagem: enquanto Xuxa, seduzia menores, baixinhos e pequenotes  no primeiro filme pornô que aparecesse,  Lola jura de pés juntos – e coxas abertas – que jamais transou com aluno com menos de dezoito anos. Enfim, uma dama se comparada à outra!
                                       
                                     

5.O futuro. Apesar da correria do dia-a-dia, Lola ainda consegue arranjar um tempinho para o lazer. Diz que transa com as pessoas que gosta ( homens, mulheres, casais e travestis), e que “tamanho não é documento, o que importa é a desenvoltura”.
Desenvoltura à parte o futuro da nova Surfistinha é fácil de delinear no horizonte do panteão nacional destinado às nossas grandes mulheres: capa da Playboy, entrevista no Faustão, novela e filme contando a sua biografia, de preferência  com Débora Secco (se ainda estiver suficientemente úmida). Que ninguém duvide: assim como um ex-presidente (Lula) já disse que todo brasileiro deveria se orgulhar de por aqui ter nascido alguém como Faustão é de se esperar que logo haja outro presidente (a) para enaltecer os méritos de uma heroína tão jovem e tão capaz de fornecer diariamente uma cota tão generosa de  exemplos edificantes a serem imitados por uma juventude tão carente– de   sexo. Dá-lhe Bruna! (Ops, Dá-lhe Lola!)
                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com

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sábado, 25 de maio de 2013

COM QUEM SE PARECEM AS PALAVRAS



artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado



“As palavras, como se sabe, são seres vivos.” Vítor Hugo.

                De vez em quando leio nas manchetes dos jornais frases que denunciam a ação de alguns estúpidos: “Vândalos destroem patrimônio público.”, deixando-me  a incômoda impressão de que os autores do delito estão sendo elogiados. Sim, porque a palavra  vândalo soa muito bonita para classificar esse tipo de gente, é sonoramente agradável, parecendo recusar-se a simbolizar os indivíduos em questão, mesmo que esteja aí para isso. Enfim, quando a palavra resiste ao significado que se pretende da mesma, tudo indica que ela cumpre sua obrigação de representar,  seja lá o que for, a contragosto e, neste caso, por ser sonoramente agradável, insurge-se  com certa rebeldia contra o que se pretende dela, mais ou menos como o denunciado pelo romancista francês na epígrafe acima.                                                                  
 Nesse caso, melhor para eles, os selvagens,  quando são cognominados de vândalos porque ao invés de serem achincalhados são, no meu modo de entender,  estimulados. “A palavra é tão bonita que dá até vontade de fazer o que eles fazem   só para merecer ser chamado de palavra tão bonita”, não é mesmo?
                 
                                          
                                                           
                Tal impropriedade não parece atingir todas as palavras, ao contrário, pois umas são,  exatamente,  a feição   daquilo que delas se diz. Só para dar um exemplo próximo a palavra achincalhar do parágrafo acima, nunca me pareceu tão bem investida em sua tarefa de significar o que, no popularesco, seria equivalente a  esculhambar ou escorraçar. (Teria a sílaba lha essa característica,  de proporcionar pela sua sonoridade essa conotação de menosprezar, como na palavra canalha? Os lingüistas que me ajudem nessa associação se houver).
                Lembro que o escritor mineiro Oto Lara Rezende dizia que a palavra mais bonita da língua portuguesa é lêndea, essa mesma facilmente incluída entre aquelas que se rebelam contra seu destino e sina. Embora não chegue a mesma conclusão do escritor mineiro, é fácil concordar com ele em que a sonoridade elegante e poética da palavra em nada condiz com o ovo de um piolho, que representa. Estão igualmente nesse time, a meu ver, tantas outras como Lúcifer, Melancolia, Apocalipse, Vendaval, ou Holocausto. Caso não representasse o demo tenho certeza de que muitos pais teriam grande orgulho em colocar em seus filhos o nome de Lúcifer de tão bonito que é. (Se você, leitor, resiste neste instante em considerá-lo assim, é porque está preso a uma consciência de pré-raciocínio, senão, responda depressa: qual nome é mais bonito: Lúcifer ou Cauã? Lúcifer ou Caíque? Existe nome mais horroroso que se possa dar a um filho de que Cauã? Se nos abstrairmos da significância anterior é evidente que o nome  Lúcifer soa muito mais bonito, com a sua sonoridade elegante e angelical, do que Cauã,  que parece com tudo menos com nome de gente.  Ou, então,  Caíque...Esse não tem mesmo a aparência de uma canoa de segunda?).  E, assim por diante, ao nos abstrairmos do que significam e atentarmos para suas características  os nomes apresentam personalidades, as mais inesperadas possíveis.

                                                                         
Quem pode negar que Melancolia teria a cara da Monalisa, independente do que ela está pensando por trás do seu indecifrável sorriso? E Vendaval, não se parece muito mais com um guerreiro lendário? E Rouxinol, não parece um jovem- um tanto efeminado, vá lá – que toca muito bem violino? Ora, se reconhecemos que as palavras têm suas personalidades o mínimo que deveríamos fazer com respeito a isso seria evitar sua degradação, como, por exemplo, estamos fazendo com a palavra  corrupto. Se corrupto alguma vez teve muito mais a semelhança natural apropriada a alguém que pertenceria  a uma seita religiosa meio misteriosa e passou ‘pela obrigação lingüística que lhe foi imposta’ a representar  o indivíduo vil que se corrompe, a sua banalização num país como  o nosso, está fazendo com que fique cada vez mais parecida a um sujeito enfatuado e buxudão, com uma perua ex- bonita do lado, num carrão importado e se achando muito orgulhoso  por fazer jus a um epíteto  tão nobre e corriqueiro (para a sociedade hoje em dia )  como corrupto.

                                              
                                             
Contra isso, essa contínua e imperdoável  interferência dos homens nas palavras, nas suas personalidades e seus significados, permanecem aquelas que, indeléveis, permanecerão para sempre intocáveis. Como a palavra pássaro, por exemplo. A palavra pássaro é outro pássaro.

                                                       
                                                                              ewerton.neto@hotmail.com
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sábado, 18 de maio de 2013

NO TRÂNSITO, ESSE GUERREIRO É VOCÊ



Artigo publicado hoje, sábado, na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão


Não duvide: esse guerreiro é você.  Mesmo sem armas e sem perfeita consciência disso saiba que você está indo para uma guerra, talvez, a pior de todas: a guerra do cotidiano. E é dessa que menos chances você tem de voltar vivo. Basta lembrar os seus inimigos:

1.Motoqueiros.  Eles surgirão dos quatro cantos do mundo e mais um: aquele que você menos espera. Nem adianta tentar se antecipar para prevenir: eles o cortarão pela direita, esquerda, por cima ou por baixo. Mantenha a reta, segure firme o volante, contenha-se para não ter um colapso cardíaco, chegou finalmente o sinal. Ufa!
E pensar que coisa de dez anos atrás eles não disputavam com você os raros espaços que sobravam nas avenidas, você era feliz e não sabia. Outro dia disparou um de dentro de um caixa eletrônico. Você se assustou, freou bruscamente. Nem deu tempo de  perguntar o que ele estava fazendo lá dentro com moto e tudo, já ele veio perguntando o que você queria lá também. Você tentou chamar um guarda, mas, ao invés dele, surgiu uma nuvem de motoqueiros ameaçando linchá-lo. Você, claro, desistiu de ponderar diante de argumentos tão convincentes e teve que pagar o conserto da moto (e da caixa eletrônica, idem), dando graças a Deus por ter voltado para casa. Quando ao amassado do seu próprio carro, você finge até hoje que é só uma ilusão de ótica passageira.

                                                

2.Barreiras eletrônicas e radares. Você pensava que conhecia as barreiras eletrônicas uma por uma. Pode-se dizer até que com alguma  intimidade, já que elas passaram a povoar seus pesadelos depois que você pagou uma saravaida de multas.  É capaz de dizer qual a mais afoita e até por quais  times  elas torcem. (tem uma que deve ser da  Gaviões da Fiel, porque mata com sinalizador). Tanta intimidade não evitou que elas o transformassem no inimigo público número 1. A coisa deve ser absolutamente pessoal porque até quando você passa com o pneu furado, a vinte por hora, elas o multam. Do jeito como proliferam (além delas, os radares ) , você está pensando em adotar uma e levar para casa a fim de multar as muriçocas que passaram a visitar sua casa , a cem por hora. Quem sabe, assim teriam alguma utilidade. 

                                  

3.Animais. 50 anos atrás os animais já invadiam o trânsito, mas até que você não se preocupava tanto, desde que fossem de 4 patas: jumentos , cachorros, vacas e galinhas,eram quase inofensivos. O que você passou a temer mesmo, de algum tempo para cá, são os humanos que, na disputa do trânsito, estão sempre próximos de atingir a perfeição animalesca quando pegam num volante. Então urram, esperneiam, berram, uivam, cada um  se esmerando em ser mais feroz que o outro, contando para isso com a parafernália tecnológica de seus automóveis. Se  querem zurrar usam uma caixa de som, se querem uivar , usam uma buzina, se querem espernear usam o acelerador e se querem escoicear...Bem, aí tentam xingá-lo, mas claro que você finge que não tem  ouvidos, senão se transforma em mais um.


                                           
                                             


4.Vagas.Bem que você batalhou, suou, penou, teve de escutar muito alarme de despertador e apito de fábrica,   até que conseguiu, finalmente, comprar seu carro com prestações a perder de vista e com juros que doem a vista. Só para descobrir que não existe lugar para colocá-lo, esteja o veículo se movendo ou, principalmente,  parado.  Se nas ruas já é difícil, nos estacionamentos, pior ainda. Antigamente, isso acontecia só  no Centro da cidade, agora é em shopping  center, farmácia, hospital ou cemitério.
A guerra por uma vaga você já aprendeu que é uma batalha vã, mas você não pode desistir,  você é um guerreiro. Depois de mil avisos de proibição: “Esta é para táxi”, “Esta é para moto” “Esta é para helicóptero”, você, guerreiro escolado, volta para casa e estaciona em sua própria garagem. Tem a perfeita consciência de que gastou gasolina, paciência, tempo e disposição, mas não pode deixar de ser acometido pela sensação, ainda que tardia, de como pode ser gostosa  essa sensação de vitória: a de ainda estar vivo.

                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com
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sábado, 11 de maio de 2013

A MÃE SEGUNDO A VIDA QUE CHEGA



artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão, hoje
sábado


Um esperma fecunda um óvulo e, logo depois, surge o embrião de uma vida humana. A partir daí... (Bem, não vamos entrar nessa discussão sobre a partir de quando é vida ou não e, muito menos, em que condições se deveria  ser a favor do aborto ou não. Há tempo para isso). Primeiro vamos acompanhar a vida que chega a partir do quarto mês, quando esta já adquiriu, digamos assim, alguma maturidade. A partir de então...

                        4o mês: Aqui estou. Não sei direito quem eu sou, mas, com certeza, se estou aprendendo a pensar, então existo. Tanto penso que, embora muitas vezes fique nervoso, quando escuto o barulho da água fico mais tranqüilo. Existir, pelo que estou vendo, não significa muita coisa, eu quero mais é viver.  Segundo um  tal de Oscar Wilde, que eu lerei no futuro, viver é muito raro, a maioria das pessoas apenas existe. Portanto, existo e já estou treinando, minuto a minuto, para viver.


                                                                        


                        5o mês: Aprendi a urinar. Claro que engulo minha urina, ora bolas, se não há outro jeito... No mais, a vida aqui é confortável, as noites e os dias são iguais. Há um silêncio muito profundo e bom, às vezes ouço um tuc tuc como o de um relógio e sinto uma coisa assim profunda dentro de mim que não sei explicar, parece algo assim como um relógio de esperança que bate sem pressa; quando chego à conclusão de que é isso mesmo: bate profundo, em mim, o ritmo da esperança e  esse é o primeiro presente que vou levar para fora quando me derem as boas-vindas : um olhar cheio de esperança.

                        6º mês: Ninguém me olha nem me vê por enquanto, chego a pensar que isso é uma quase felicidade. Ninguém me acha gordo, bonito, feio ou magro, ninguém fala mal de mim ainda. Às vezes, acho que eu poderia continuar eternamente nessa viagem, rumo ao mundo, sem muito prejuízo, já que não preciso lutar para comer, durmo umas 22 horas por dia e ninguém se importa com isso, nem me chama de vagabundo. O que faço nas duas horas que faltam? Penso, e acho até que faço isso cada vez melhor. Às vezes, fico imaginando quando chegar a hora. Sei que me desprotegerão a partir desse dia e logo conhecerei o sol e a chuva. Depois virá a morte, mas não quero pensar nisso agora, cada coisa a seu tempo. Sonhei ontem que Deus disse que não nos devemos preocupar com o amanhã, que basta ao dia o seu próprio mal. Disse também: “Olhai as aves do céu e os lírios do campo, eles não tecem nem fiam e nem Salomão com toda a sua glória se vestiu como um deles”.


                                                           
                                                                   

                        7o mês: Meus olhos já se abrem e fecham o que, a rigor, nem precisava. Também não preciso de brinquedo, se tenho o meu cordão umbilical prá isso. Aviso aos navegantes: não estou indo de trem nem de avião, esse transporte que me conduz e protege, ao mesmo tempo em que me torna parte do futuro, tem um nome e uma explicação que jamais será encontrada nas leis físicas que um dia tentarão explicar tudo: chama-se mãe. Acho que acabo de conhecer o único meio de transporte capaz de levar alguém das trevas para a luz.

                        8o mês: Estou cada vez mais apertado neste meu cantinho e começo a ficar incomodado. Mas não é por causa de estar aqui, ao contrário do que os cientistas pensam. Certo, já não consigo movimentar-me muito bem, mas isso seria o de menos comparado a permanecer assim, mais do que junto , dentro dela. O que me incomoda mesmo é que ela deve estar penando para me carregar dum lado para o outro. Só por isso anseio que chegue logo esse dia do parto que deveria chamar-se, ao invés, como disse alguém, dia do fico. Pois não estarei partindo, mas ficando, não é?

                                                      

                                                           
                        9o mês: Bem, agora todos sabem que eu sou. E não apenas mais um, agora sou alguém, sou único, sou universal e principalmente eterno, pois jamais sairei da memória mais valiosa para mim que é a desta que ainda me carrega.  Chamo-me vida, vim através dela. Descubro que ela, bem mais que humana, é divina, mas continuarei a chamá-la de mãe que dá no mesmo.  

                                                           “A todas as mães do mundo e à memória da minha.”


                                                              ewerton.neto@hotmail.com
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sábado, 4 de maio de 2013

ETERNIDADE: A HISTÓRIA VERDADEIRA



artigo publicado na seção Hoje é dia de...Caderno Alternativo,
jornal o Estado do Maranhão, hoje, sábado




A  eternidade  deve ter realmente começado quando  Deus, cansado de tê-la ao redor, sem nenhuma serventia (sequer a de ser uma companhia agradável)  explodiu de ira.
                - Agora basta! Já estou cansado dessa tua aporrinhação sem fim. Vá-se à...
                A imensa ira de Deus só poderia mesmo desandar numa fúria em dimensões  jamais vistas,  e  foi então,  que aconteceu essa tal explosão a quem, nós, humanos, demos  o  nome de big-bang  e da qual somos apenas mais uma de suas míseras fagulhas.  No instante seguinte, Deus, certamente  mais calmo, deve ter pensado que ‘antes só do que mal-acompanhado desse tal de Universo’,  mas aí já era tarde.
                A eternidade, portanto, deve ter começado ‘oficialmente’ nesse ponto, quando esse algo que já não era mais o nada ( o Nada é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é Nada esse Nada que realmente é - como diria um certo poeta português)  teve consciência do tudo e do todo. “Queimo, logo existo”, deve ter pensado também, enquanto ardia, algum átomo de Hidrogênio um pouquinho mais inteligente do que os demais, quem sabe inspirado pelo fogaréu que o consumia. 

                                                                    
  
                Dá para imaginar como ela, a eternidade, deve ter ficado em polvorosa ao  ter sido revelado, de uma hora para outra, seu perfil de embusteira. Principalmente quando viu Deus providenciando sua substituição provisória por uma entidade chamada tempo. Viu-se então na contingência de ou explicar-se  ou  sumir por uns tempos. Claro que, diante da recém-apreendida ira de Deus, foi o que resolveu  fazer: “nada de explicar-me, vou ficar rondando esse tal de tempo  para ver que merda isso vai dar”.

                2. Foi por isso que só se voltou  a pensar  em eternidade muito tempo depois, mais especificamente quando um ser  muito bronco, (o macaco que nos antecipou)  lá pras bandas de um minúsculo planeta  chamado  Terra, queria se perpetuar  por trás de sua fêmea,  pensando “esse negócio é tão bom que nunca mais devia parar” . Antes que levasse um safanão da macaca -  que só veio aprender  o que era gozar árduas estações mais tarde -  sedimentou-se pela primeira vez , no cérebro de alguém, o embrião do que podia ser eternidade, embora, claro, o animal não tivesse a mínima  consciência disso.


                                                                   


                Pois foi com a eternidade na cabeça que nasceram milhões de anos depois,  linguajem, palavras, religiões,filosofias , angústia existencial  etc. A eternidade, providencialmente, vinha bem  a calhar  para dar suporte a todas essas idéias ainda mais que o tal do tempo já  dava sinais progressivos de cansaço para explicar determinadas coisas, ou, sendo mais direto:  para explicar o inexplicável. Expressões inventadas com o único propósito de ‘dourar’ a crueza  da vida como paixão, felicidade, infinito, e outras ilusões careciam da velha eternidade para poder explicar-se e pronto, a ETERNIDADE (essa vontade de perpetuar determinadas coisas e, mais que isso, de se perpetuar)  estava de volta  e  assim reinou  durante toda a era antiga e moderna.

3.Sucedeu,porém que, assim como o macaco-homem que a concebeu,    a eternidade também evoluiu, tornou-se pós-moderna e  hoje aprendeu a executar o jogo da existência , para não provocar outra fúria de Deus.
‘Sou uma eternidade pós-moderna, ao gosto do freguês’  parece dizer a nova eternidade.  Quer  eternidade maior que a corrupção no Brasil? Ou, a permanência numa fila de um Hospital Público? Ou, por outra, existe eternidade mais infinita que a de alguém no trânsito engarrafado desta capital, ao meio-dia?”

                                                     

                Enfim, hoje a eternidade está de volta, personalizada e disfarçada ao invés da anterior universal e abrangente, e não vê a hora de chegar-se a Deus, proclamar sua vitória e dizer “ Eu não disse que, apesar dos pesares, mesmo sem ser confiável eu era preferível para sua companhia do que esse tal de tempo? Não era melhor ter previsto  a merda que ia dar?”
                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com
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