segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A LINGUAGEM DE DEUS

artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal O estado do Maranhão, sábado


Deus existe ou não? Segundo li, numa revista,  menos de 20% da comunidade científica acredita em Deus. Igualmente,  é grande o número de pessoas  que se consideram ateus, justamente nos países onde é mais elevado o conhecimento técnico e científico ( em algumas nações chega a mais de 50%). De fato, temos que admitir que o exercício da fé se torne mais árduo  quando confrontado às bases científicas que traduzam algo do que já se sabe sobre o universo: sua grandiosidade, as leis físicas que o geraram, a infinita pequenez da raça humana, sua fragilidade diante da natureza e, principalmente, da natureza diante de um espaço-tempo avassalador.
                        Diante dessa questão, sabidamente complexa, as pessoas se manifestam, em resumo, de três formas: uma, a de crença absoluta, que pode ser por ignorância; a segunda, de descrença ou ateísmo que se pretende fundamentado  na ausência de provas captáveis pela ciência; e uma outra, a de indiferença, na qual se incluem os agnósticos.   Na prática, o  “não sei” dos agnósticos resume uma cômoda permanência em cima do muro sobre a questão que é como se dissessem como o mineiro que não quer se envolver: “Sua ausência veio preencher uma lacuna” ou “Sou ateu, graças a Deus!”.  Curiosamente, existe uma passagem do Novo Testamento que parece adequar-se àqueles que se confessam indiferentes. Na frase de Jesus Cristo: “Prefiro os muito quentes ou muito frios, porque os mornos, eu os vomitarei.”
                        Penso que qualquer ser humano cuja compreensão e orgulho do sentido da própria existência  tenha alguma validade para si um pouco além do ato banal de sobreviver, não pode se furtar a esta questão, apenas porque esta seja complexa ou insolúvel. Essa busca, certamente mais grandiosa do que a descoberta em si, perpassa uma tentativa de transcender a uma questão puramente metafísica para que ela se imponha como suporte de suas relações com os demais seres humanos e com seus valores existenciais. “A finalidade da existência humana não consiste apenas em viver, mas em encontrar um motivo para viver”, dizia Dostoiévski. Evidentemente, a tentativa de alcançar a solução do grande mistério “o que somos; de onde viemos, para onde vamos” está na raiz do significado maior de qualquer vida, que se pretenda digna disso.
                        Na minha adolescência li um livro que considero fundamental para o meu singelo entendimento e que se chama “A arquitetura do universo” do físico norte-americano Robert Jastrow. As páginas do livro não tratam de um possível embate teológico ou mesmo filosófico, tão costumeiros entre os cientistas modernos, mas da doação, para mim repentina, dos mistérios do universo  já conhecidos pela ciência em linguagem accessível para leigos, como eu. Nem precisaria, então, gostar  tanto de Física,  minha matéria curricular preferida, ou de Poesia (nos meus impulsos extra-escolares) para concluir que nenhuma ficção desenvolvida pelos melhores  autores do mundo (Cervantes, Proust ou Dostoiévski ) seria comparável à criação  desse personagem chamado aventura humana, ali descrita de forma espetacular: tão improvável, tão frágil e, ao mesmo tempo, tão misteriosa e – por que não? – divina.  Retiro do autor  em questão esta última frase de um de seus livros:
                        “Neste momento parece que a ciência nunca será capaz de erguer a cortina acerca do mistério da criação... O cientista escalou as montanhas da ignorância; vê-se prestes a conquistar o pico mais alto; à medida que se puxa para a rocha final é saudado por um bando de teólogos que estiveram sentados ali durante séculos.”
                        A partir da leitura desse livro, sempre que posso leio outros que tratam do tema da origem do Universo e que, virtualmente, descambam para uma possível explicação (não-explicação) da existência de Deus.  Desde livros com argumentação científica como o do cientista Richard Dawkins, Deus um delírio  que vocifera contra a a fé e a crença, até os livros que preferem debater o assunto com uma boa carga de bom-humor como o delicioso e pragmático  “ Explicando Deus numa corrida de táxi de Paul Arden. Com mínimo rigor científico Arden chega à conclusão de que todos os que ardorosamente debatem o assunto, religiosos x ateus, no fundo acreditam na mesma coisa, e o embate é apenas uma questão formal . O que os céticos chamam de força superior , os religiosos chamam de Deus. Ou seja, se   alguns preferem  dar um rosto a Deus, isso é uma mera questão lingüística. .
                        Antes que alguém pense que pretendo, no breve espaço desta crônica  colocar remotas luzes sobre o debate , adianto que o fim desta é menos pretensioso: apenas sugerir a leitura do livro de Francis Collins, A Linguagem de Deus, como perfeito complemento da curiosidade que qualquer um possa ter sobre a vida e seus mistérios. Cientista, como Dawkins, diretor do Projeto Genoma que trabalha com o que há de mais moderno no estudo do DNA, o código da vida, e um dos mais respeitados cientistas da Terra, Francis Collins se coloca a favor da crença em Deus, assumindo os riscos peculiares a quem, dentro de uma comunidade  que despreza qualquer argumento desprovido de provas concretas, argumenta a favor da fé sem perder de vista o conhecimento científico. Sem receio de se situar no limite da dúvida compara uma a uma as soluções trazidas pela ciência, contrapondo-as à possibilidade de um ser superior, deixando um rastro de fé e esperança que parte da dúvida, inclusive a notável improbabilidade da matéria ter se  formado baseando-se apenas nos princípios de física conhecidos.
                        Ao fim de sua leitura, independente de qualquer crença, ouso dizer, que haverá um notável adendo ao cabedal de qualquer  um,  em termos de discernimento e argumentação científica sobre o tema. No meu caso, além disso, a consolidação da solidificação de uma verdade já cristalizada há muito tempo: há muito maior grandeza humana em se acreditar em Deus que em não acreditar. Cristalizou-se a verdade que já desconfiava.  dúvida é essencial quando nem todos os caminhos levam a Deus, muito pelo contrário. A satisfação com a leitura de um livro que vai agradar tanto aos ateus quanto aos religiosos, no meu caso particular talvez tenha sido porque me trouxe uma confiança que já tinha e que independe de se acreditar ou não. A convicção não mais divina ou laica de que Quanto menos evidências houver, sempre haverá maior Há mais grandeza humana em se acreditar em Deus.
                                                                       ewerton.neto@hotmail.com

sábado, 8 de outubro de 2011

VOCÊ PODE MATAR ALGUÉM HOJE

artigo publicado no jornal  O estado do Maranhão,
seção Hoje é dia de...


Caro leitor, você está na iminência de matar alguém hoje. Isso não está passando pela sua cabeça, não é? Mas, acredite, não só você, também eu, ele  ou qualquer outro que dirija um veículo pelas ruas da cidade está perto de tirar a vida de alguém. Mais provavelmente, de um motoqueiro.
                   É essa a realidade nua e crua, quer acreditem ou não, quer queiram tomar providências ou não: todos nós, que dirigimos um carro pelas ruas de São Luis (ou de qualquer outra grande cidade do Brasil) estamos nos aproximando, perigosamente, de eventuais matadores.
                   Precisa dizer que nas últimas vinte e quatro horas ( estou escrevendo esta, numa quarta-feira),  três motoqueiros foram mortos só aqui em São Luis? Precisa dizer que mais de 50% dos leitos dos hospitais públicos de São Luis são ocupados por motoqueiros? Precisa dizer que em São Paulo morre mais de um motoqueiro, por dia? Preciso dizer que já participei de três acidentes com motos ( embora me considere um motorista precavido) e que já tive dois parentes  mortos por motoqueiros?
                   Não, não precisa dizer, todo mundo sabe disso ou então não vê,  , não lê, não escuta. Estranhamente, nenhuma autoridade federal até agora idealizou tomar providências para executar,  em âmbito nacional, um plano para amenizar o que seria considerado uma hecatombe - ou uma praça de guerra -  em qualquer outra nação civilizada. Como se a morte desses milhares de pessoas não representasse um ultraje e uma vergonha para qualquer administração que se preze. Parecem  querer que recaia sobre nossa cabeça – de todos nós, motoristas - a pecha de matador, com todos os traumas que essa realidade implica.
                   Sim, porque chegamos a um ponto em que já não bastam as salvaguardas de respeito às leis de trânsito e cuidado ao dirigir.  Porque as  potenciais futuras vítimas surgem a qualquer momento e a qualquer hora, aos milhares, de todo lugar: da direita, da esquerda, da frente, ou detrás. Súbitos, imprevisíveis, quando não invisíveis ( os que entendem  de trânsito sabem que existe um ponto cego, de onde surgem, muito difícil de detectar e  dificilmente identificável via retrovisor do carro).
                   Ora! – alguém poderia questionar – isso não estaria acontecendo apenas porque os motoqueiros sejam,  em grande parte, uma raça de gente louca, imprevidente e inconseqüente? Não, não se trata disso, qualquer analista das reações humanas em situação caótica sabe perfeitamente que isso acontece justamente porque são seres humanos e como todos os demais ( inclusive os motoristas de carro) sujeitos a impulsos de açodamento e distração. A diferença – e essa diferença é  crucial porque tange o limite da vida  – é que no carro, essa vida está se encontra dez vezes mais protegida.
                   O que caberia então fazer? Ora, se não ocorrem sugestões a quem de direito, qualquer leigo, como eu, pode  arriscar-se  – e elas são muitas: diminuir a quantidade de motos nas avenidas , inibir as facilidades de vendas,  determinar faixas preferenciais e  vias obrigatórias para motos, aumentar a punição dos insensatos com exclusão do veículo, por muito maior tempo, etc. etc. etc.
                   . São essas hipóteses exeqüíveis? Sabemos que em sua totalidade não, que são medidas difíceis de serem executadas num trânsito cada vez mais  conturbado, e que há problemas sociais envolvidos. Mas, o que não é admissível é que de tantas medidas paliativas ou corretivas possíveis, não se pense em uma só para mudar esse estado de coisas. Ao adiar o problema para sempre por falta de vontade política de resolver um problema  e justificando a omissão como sendo necessária para garantir a subsistência e a permanência na escala social atual de tanta gente, as autoridades estão, nada mais nada menos, que  entregando-as à morte antecipada.  
                   E, igualmente pior, transformando pessoas  inocentes em potenciais matadores. Cuide-se e reze muito, caro leitor!   
                                                                                                                                                                ewerton.neto@hotmail.com

sábado, 1 de outubro de 2011

MANUAL PARA APANHAR CRIANÇA EM ESCOLA

artigo publicado no jornal O estado do Maranhão,
seção Hoje é dia de..hoje sábado.                                             
                                                                                 



                        Eis que a tarefa de apanhar criança em escola transformou-se numa verdadeira ciência, das mais difíceis de aprender. Deu-se que os pais de hoje acreditam que educação se aprende  apenas nas escolas, e não dando exemplos, o que fez com que essa tarefa banal tenha se transformado numa verdadeira guerra. De pais contra professores, de pais contra pais e de pais contra os próprios filhos (pela ausência de modelo a ser seguido). Donde surgiu o primeiro grande postulado do manual,  embrião da futura ciência.

                        “Não existe professor no mundo capaz de impedir que um pai idiota tenha no futuro um filho que o mereça.”

                        Ora, se o espaço da crônica já era exíguo para um manual, quanto mais para uma ciência! Descrevamos, pelo menos, os principais tipos encontrados nessa “guerra”:   

                        1. A  MADAME    DA JAMANTA. A grana não foi suficiente para a família adquirir mais um carro, bonito, prático e funcional para facilitar o trabalho de madame.  Resultado: ela tem de se socorrer mesmo da jamanta do marido: um veículo do tamanho de um ônibus escolar com a diferença de que transporta um filhinho só.         
                        Coitada de madame!  Tem que penar para dirigir o veículo, ingovernável, pelas estreitas ruas da cidade – e haja trapalhadas! Sem outra saída, ela escolhe o caminho mais fácil para resolver a questão: aporrinhar a paciência dos demais motoristas. Sem dispor de uma vaga onde colocar a sua jamanta, a pobre  madame disponibiliza todos os centímetros cúbicos disponíveis ao seu redor, inclusive, o pára-brisa ou o farol do primeiro carro mais próximo. Engarrafamento quilométrico à vista, o pior é ter de agüentar o seu sorriso angelical quando, tenta explicar ao guarda: “Faço isso por amor ao meu filho. Veja como é bonitinho!”

                        2.O IMPERADOR DAS RUAS. Não, não se trata de Adriano, o imperador romano, evocado no romance Marguerite Yourcenar, nem do outro, mais conhecido, o jogador de futebol que um dia jogará no Coríntians. Estamos falando é do imperador das ruas, aquele que acredita que a rua – qualquer rua -  é um prolongamento de sua garagem.  Vai daí que confundir a portaria das escolas, com um prolongamento, agora, de seu império, é um mero exercício de estilo. Estaciona em frente ao portão, e lá se planta pelo tempo que julgar necessário, pouco se lixando para o  troar de buzinas incomodadas com a interrupção do trânsito.
                        Sem pressa, e respaldado pela falta de educação peculiar a quem se julga o dono do mundo ele se nega terminantemente  a estacionar adiante, o que lhe levaria míseros segundos e alguns metros de andança. “Andar é coisa para quem não é imperador” parece dizer ao filho que chega  lentamente , desde já bastante parecido com o pai. Quinhentas buzinadas depois, (dos importunados), ele dá partida no carro, triunfante e sorridente, o saco coçando de tanto fazer os outros esperarem, como se nada tivesse  acontecido.

                        3.O   REI DO ZIGUEZAGUE. Apressadinho é pouco, para ele. O homem  botou na cabeça que apanhar o filho no colégio é a tarefa mais importante que existe na Terra  e que deixá-lo esperando, cinco minutos que seja, porá em risco o futuro da humanidade. Haja loucuras para chegar a tempo! Serpenteia mais do que cobra na areia quente, faz fila dupla nos retornos e promove disputas de velocidade de fazer inveja a qualquer filme policial dos anos setenta. Tudo isso porque passou da hora de buscar o filho e este – coitado! - não pode ficar esperando senão na melhor das hipóteses abre um berreiro e, na pior, enche a professora de tapas.
                        Histérico, angustiado e à beira de um ataque de nervos, o Rei (ou rainha ) do ziguezague, sobe correndo as escadarias do colégio, se desculpando   pelo atraso, só para ouvir da coordenadora: “ O senhor(a) não precisava ter vindo tão cedo. Rafinha está numa brincadeirinha com seus amigos e manda você arrumar o que fazer e aguardar meia horinha a mais.”

                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com
                                                                                                                      

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ENTRE FATOS E FRASES

artigo publicado no jornal O estado do Maranhão, seção
Hoje é dia de...Caderno Alternativo, último sábado


ENTRE FATOS E FRASES


                                                                                  José Ewerton Neto



                        Os últimos dias começaram surpreendentes  com a súbita presença de uma baleia na praia da Raposa, justamente enquanto se realizava, aqui na capital,  o SLZ Fashion Week.  Vocês sabem o que é o SLZ Fashion Week? (Assim mesmo é que se escreve, com nome inglês, na terra de Gonçalves Dias, onde se dizia que era de bom tom falar português, e de preferência, o melhor).
                        Pois  perguntem para a baleia, já que, segundo consta, ela deve ter vindo do Canadá, onde se fala francês e inglês muito bem. A coitada, que estava bem magra, teria se empolgado com a oportunidade de posar como modelo no SLZ FASHION WEEK e, prevendo que teria, afinal, sua chance num evento meio provinciano, emagreceu o quanto pode e por aqui chegou para concorrer com as ex-gordas daqui. Morreu de anorexia - coitada! - antes de desfilar, mas teve direito aos seus dois minutos de fama, que as demais iludidas bobinhas da ilha não tiveram. “Pelo menos isso!” ela teria dito antes de dar seu último suspiro. Quanto às frases:

                        1. “NÃO BOTO OS PÉS LÁ NO FLAMENGO. NEM NO ESTÁDIO.” Zico, ex-craque do time e atual técnico do Iraque, magoado com seu clube de origem, que o acusou de favorecimento aos filhos, quando dirigente.
                        Se pudesse tiraria até seus gols de lá, não é mesmo, Zico?

                        2. “UM DOS SONHOS QUE TENHO É FAZER UM PROGRAMA SOBRE AUTOMÓVEIS, QUE SÃO MINHA GRANDE PAIXÃO” Tânia Oliveira, em entrevista ao portal IG
                        Um programa sobre automóveis, ou num automóvel? Explica esse negócio direito, Tânia.

                        3. “ JURO POR DEUS, ELA NUNCA ME DEU BRONCA. EU TE JURO QUE NÃO, MAS SE NÃO QUISER ACREDITAR...SEI QUE É DIFÍCIL...” Fernando Hadad, ministro da Educação ao sair, sorridente, de uma reunião com a presidente Dilma.
                        Isso  ministro, sorria de felicidade e puxa-saquismo! São tantos os ministérios e tão poucas as oportunidades de chegar perto da chefa, que suas broncas  estão sendo disputadas no tapa.

                        4. “A CANÇÃO MORREU. A TECNOLOGIA MATOU O INTIMISMO.” José Ramos Tinhorão, jornalista e crítico musical,  sobre os shows que movem multidões aos estádios.
                        Não seja tão otimista, Tinhorão. Mais dia menos dia o forró acabará matando a tecnologia.

                        5. “OS TORCEDORES ME VAIAM PORQUE SOU BONITO, RICO, E GRANDE JOGADOR”. Cristiano Ronaldo, atacante do Real Madrid.
                        Quanta modéstia, “grande” Cristiano! E você nem quis dizer que se considera  dez vezes melhor que o Pelé e o Messi juntos, e vinte vezes mais bonito que o Brad Pitt e a Angelina Jolie.

                        6. “NÃO ACREDITO QUE A VIDA COMECE NO BERÇO E TERMINE NO TÚMULO.” Nicete Bruno, atriz, que acredita na reencarnação.
                        Você tem toda razão, Nicete. Mas a vida também pode começar num túmulo e terminar num berço – a depender do otimismo.

                        7. “PASSEI TRÊS MESES ME OLHANDO NO ESPELHO. ACABEI PARECIDA COM O JÁDER BARBALHO” Fafá de Belém, depois que colocou Botox no rosto.
                         Dos males o menor, certo Fafá? Pelo menos o botox só deixa a mulher horrorosa! Acusada de corrupção, por enquanto, ainda não...

                        8. “ PREFIRO OS BARES PEQUENOS E DESAJEITADOS, QUE CHEIRAM SEMPRE UM POUCO A XIXI. AÍ ME SINTO À VONTADE” Lady Gaga idealizando os bares que costumava freqüentar, antes de se tornar famosa.
                        Cada um se inspira como pode. Tá explicado, enfim, porque as músicas de Lady além de terem cheiro de xixi, têm som de xixi.

                        9. “ DEUS É O CONJUNTO DE LEIS QUE REGEM A NATUREZA” Leonard Mlodinow, físico e escritor, em entrevista à Veja.
                        Isso! E um belo dia esse conjunto de leis teve um orgasmo, aconteceu o BIG-Bang e tudo começou. (Orgasmo de Deus é diferente, certo Leonard?)   

                                                                                              ewerton.neto@hotmail.com
                                                                                                   



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

TERROR E HORROR, DEZ ANOS DEPOIS

artigo publicado no jornal O estado do Maranhão, seção
Hoje é dia de...Caderno Alternativo, sábado


Terror e Horror. Dez anos  depois da tragédia em Nova Iorque que abalou o mundo, do horror já esquecemos, mas o terror continua assunto do dia. Talvez porque o horror, esta palavra que significa violenta sensação de medo e padecimento atroz, tenha sido vivido apenas pelos milhares de vítimas que há dez anos tiveram suas vidas interrompidas. Para mortos assim, envolvidos em batalhas das quais não participavam, edificamos  monumentos , tomamos uma coca-cola, fazemos discursos, e a vida continua
                   Mesmo que tenham padecido  “o horror, o horror!” de que falava Marlon Brando no filme O coração das trevas   , baseado na obra prima de Joseph Conrad. No caso deles, um horror tão real quanto bestial, tão pouco cinematográfico quanto  demasiadamente humano, porque causado pelo próprio homem.
                  Ora, se  estes (os terroristas ) são especialistas em disseminar o horror, por que continuam à solta, e às vezes chegam a ser venerados pós-morte, como aconteceu com Osama Bin Laden? Por que ainda há quem os defenda em nome de ideologias? Isso nos leva, dez anos após, a refletir sobre a matéria de que são constituídos e que os faz germinar um após  outro, para sempre, infelizmente e indefinidamente.  

                   CRUELDADE – Uma ocasião  perguntaram a Napoleão Bonaparte o que era preciso para ganhar uma guerra. Ele  respondeu: Dinheiro, muito dinheiro, bastante dinheiro! Ao perguntar-se a um aliciador  de terroristas o que seria necessário para formar um exército perfeito ele certamente diria : prometer-lhes crueldade, muita crueldade, bastante crueldade.
                   ESTUPIDEZ – Para um terrorista não pode faltar o tipo de estupidez que não vem da ignorância, mas da incapacidade de refletir. Ao contrário do bom Don Quixote que no afã de defender a nobreza perdida do ser humano se dirigia contra moinhos de vento, o terrorista é capaz de enxergar até torres de concreto como suas inimigas, e de derrubá-las sobre os corpos de milhares de vítimas, curiosamente os mesmos inocentes em defesa dos quais tenta justificar a sua maldade.
                   COVARDIA–   Não pode haver terrorista sem elevada dose de covardia: a daquele que se insurge contra pessoas frágeis e indefesas com medo de enfrentar, de igual para igual, militares, Ao se imolarem, fingindo-se de heróis ou patriotas, pretendem que não se reconheça a monumental covardia daquele que se esconde da vocação de monstruosidade, através da própria morte.
                ÓDIO – Um terrorista precisa possuir um ódio  pessoal , imenso, avassalador. Mas, ao contrário do que muitos pensam o grande ódio do terrorista não nasce da revolta contra esse ou aquele, mas contra si mesmo. Com medo e vergonha de se suicidar sozinho e sem justificativa para viver, tenta pelo menos iludir a memória, doando-se uma importância que nunca teve em vida, mesmo que para isso tenha de levar de roldão pessoas inocentes.     

                  
         2. Isto posto, deveria ficar para a humanidade a questão de por que somos eternamente incapazes de isolar a maldade. Em nosso país,  tantas vezes justificamos a violência como tendo por fundo uma causa social quando sabemos que não é isso,  que para contestar essa idéia bastaria apontar a quantidade imensa de pessoas que sendo vítimas da miséria social não escolheram o caminho do crime.
                   Talvez porque, convivendo com o bem e o mal, pela nossa própria natureza humana, sejamos um pouco terroristas também. Quando ameaçamos nossos vizinhos no trânsito por motivo fútil , quando nos solidarizamos com assassinos ao invés de com suas vítimas, ou  quando, possuidores de algum cargo de poder, rugimos contra os subordinados com os quais não simpatizamos.
                   Do meu último romance O infinito em minhas mãos retiro este prólogo:  “A maior arrogância do ser humano não é acreditar que Deus tenha a sua imagem e semelhança, mas imaginar que o Diabo pode ser pior do que ele.” Possuindo a maldade dentro de nós, o que nos distinguirá da perversidade animal será o fato de nos olharmos quotidianamente no espelho e superarmos nossos instintos, exercitando o Conhece-te a ti mesmo, do qual falava Sócrates. Não parando para refletir sobre isso quando, apressados, tentamos justificar e explicar barbaridades contra esse ou aquele, não passamos  de meros simpatizantes de assassinos, terroristas também.

                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O A-B-C de São Luis

artigo publicado no caderno especial do jornal
O estado do Maranhão, por ocasião do aniversário
da cidade em 8 de set 2011


Com São Luís as vésperas de completar 400 anos, ainda existem cidadãos que desconhecem o bê-a-bá de sua cidade, o significado de suas expressões mais típicas. Num esforço de livre interpretação e inspirado na “deliciosa” leitura de O bê-á-bá de Brasília, de Marcelo Torres e Maranhão na Ponta-da-Língua , de José Neres e Lindalva Barros
surgiu esta forma bem-humorada de homenagem.


Ata. O maranhense chama de ata o que em todo lugar é fruta-de-conde. Isso porque quando acabou a  monarquia os condes passaram a trabalhar nas sinecuras fazendo atas. E lá estão até hoje.

Atraca. O que lá fora é chamado de diadema ou tiara, por aqui virou atraca. Isso porque os marinheiros depois de aportarem no Desterro, saíam sedentos atrás das meninas da rua 28 e lhes doavam tiaras. Mas o que queriam mesmo era  atracá-las. 

Anjo da guarda. Um dos bairros mais recentes e populosos de São Luis,  já foi considerado um dos mais violentos, numa época em que os guardas não faziam por menos. Daí a razão do nome. O anjo era para proteger dos guardas.

Areal. Antigo nome do bairro que hoje se chama Monte Castelo. Em época de chuva são tantos os buracos que tudo fica um lameiro só. Dizem os atuais moradores que o bairro já foi um monte de areia, virou um monte Castelo, e hoje é quase  um monte de lama.

Batizar o carro. Diz-se de levar o carro recém-adquirido para receber a proteção de São José de Ribamar através das bênçãos do padre. Talvez seja essa á a principal razão pela qual o sanluizense só gosta de carro zero.  Para não cometer o pecado de mudar o nome de batismo do carro.  

Baldiar. O sanluisense diz baldiar ao invés de vomitar, porque quando chegava na quarta-feira de cinzas dos antigos carnavais estava tão bêbado que, para vomitar, confundia o penico com um balde.

 Bode. (de bode). O sanluizense diz que a mulher menstruada está de bode porque antigamente, quando ela chegava  nessa fase, mudava de humor e ficava zangada feito um bode. E principalmente, gostava de inventar chifres na própria cabeça - mesmo os que já existiam.

Cabaço. Cabaço, por aqui, significa hímen, virgindade. Tudo começou quando num passado um tanto remoto as meninas protegiam seu sexo com os braços. Os homens diziam “Tira cá o braço!” Virou “tirar o cabaço”.

Cagado. Diz-se da pessoa que tem sorte. Ao contrário, quem faz besteira faz cagada. Portanto São Luis não é só a cidade que têm os universitários que menos lêem livros no Brasil, é também o único lugar do Brasil em que é melhor ser cagado  do que cagar. Alguma coisa a ver com a outra?

Cafundó dos Judas. Cafundó significa lugar muito remoto e cafundó dos Judas, de mais longe ainda. Como nossos deputados adoram inventar municípios e, com muito mais velocidade, os vereadores da capital apreciam criar vereadores o povo anda dizendo que os município são extraídos dos cafundós, e  os vereadores dos Judas. 

Cidade. São Luis é uma cidade heróica que resistiu aos franceses, aos holandeses, portugueses, mamelucos, imigrantes e demais  descendentes, só não consegue resistir aos seus legisladores, que dela tiram uma cidade atrás da outra: São José de Ribamar, Paço do Lumiar, Raposa  e agora estão pensando no Maiobão. Qualquer dia a cidade de São Luis será apenas da Praia Grande ao Monte Castelo e olhe lá. E ainda tem a TV Cidade, a Cidade Operária  e,  uma verdadeira atro-cidade, no trânsito!  

Cambito. Perna muito fina. Se Gisele Bundchen por aqui houvesse nascido jamais chegaria onde  chegou. Teria sido reprovada no vestibular por causa dos cambitos.

Catiroba. Mulher muito feia. Xandy, o pseudo-cantor quando aqui se apresentou há cerca de dez anos chamou as sanluisenses de feias num episódio deu muito o que falar. Como a reza da sanluizense é fatal, o disse-não-disse do dito cujo acabou lhe custando caro quando acabou casando com Carla Perez, esta sim, uma verdadeira catiroba.

Égua. O sanluizense quando se espanta ou vê algo absurdo exclama “Égua!”, porque os primitivos mandões e poderosos eram tão ignorantes que pareciam cavalos. Evidentemente, como ninguém poderia chamá-los de cavalos, socorria-se exclamando; “Égua!”, para disfarçar.

Enxerida. Mulher que se mete em coisas alheias.  Dizem que quando a maranhense fica desse jeito é porque não consegue um homem para inserir-se nela. Quando passa muito tempo sem ser inserida, fica enxerida.

Hem-Hem. Expressão que tanto pode significar sim como não. As grandes decisões maranhenses são tomadas desse jeito. Manuel Beckmam jamais teria dito “Pelo povo do Maranhão, morro contente”, mas “Hem,Hem”.

Hum-Hum-  Tradução do hem-hem para o inglês, segundo a maioria das trezentas e tantas escolas que se aprimoram em ensinar inglês na ilha.

Mexer a priquita. Expressão usada para mandar alguém sair da inércia. Essa é uma das razões pela qual o estudante maranhense tem um dos mais baixos índices de leitura no país, e, também, um dos maiores de mães solteiras adolescentes.  As mães mandam a filha mexer a priquita e parar de fazer nada. Bem mandadas, quando não estão dançando forró, mexem a priquita pra valer.  

Na hora. Expressão que o sujeito usa para dizer que está pronto para resolver o problema de alguém em cima da hora, mas que, na prática, significa dizer que está pronto para não fazer nada hora nenhuma. Hino de guerra dos guardadores de carro da cidade.

Pedra.  Refere-se à música de qualidade. Tudo começou quando o som que se ouvia em São Luis era tão ruim que as pedras que batiam nas cabeças dos dançarinos (nas brigas habituais das baladas ) tinham um som mais bonito do que o que se ouvia nas radiolas. O pessoal criou o hábito de pedir pedra e mais pedra.

Qualira. O maranhense chama gay de qualira porque o primeiro gay maranhense foi um português que se chamava Lyra, era enrustido e se casou com uma índia que quando soube exclamou: “Quá, Lyra!”

Ri-Ri. O sanluizense chama zíper de ri-ri porque quando a parceira permite que ele o abra, primeiro ele ri de felicidade. Depois ela.

Se  acha. Pessoa convencida e arrogante,  que causa indignação porque se pretende superior as outras. A frase é complementada por um definitivo “a ultima coca-cola do deserto”,  “a ultima virgem de São Luis”, “ o único buraco de rua que foi tapado”, etc.

                                                        etc





sábado, 3 de setembro de 2011

UMA VERGONHA MUITO INCONVENIENTE


artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal O estado do Maranhão, hoje
sábado


Jornal O estado de São Paulo, edição de 13 de Agosto de 2011. Algumas notícias de primeira página:
                        “ Juíza é assassinada no Rio, outros 69 estão ameaçados.”
                        “ Pressionada, Itália anuncia corte de gastos.”
                        “ Fotos de presos pela PF geram crise”
                        “O universitário do Maranhão é o que lê menos”.  Peraí, O UNIVERSITÁRIO DO MARANHÃO É O QUE LÊ MENOS?                     
                        De fato, o jornal, em reportagem interna, lamentava que a pesquisa em várias universidades brasileiras denunciasse aquilo que já se desconfiava: o universitário brasileiro, de um modo geral lê muito pouco, não só comparado a países de cultura tradicional como a França e Alemanha como – para falarmos de países vizinhos – Chile e Argentina. O que não se sabia é que, entre eles, o pior é o maranhense. Só para termos uma idéia enquanto 23 % de universitários gaúchos lêem dez livros, em média por ano, o mesmo porcentual maranhense não chega a sequer um livro. Repito: 23% DOS UNIVERSITÁRIOS MARANHENSES NÃO CHEGAM A LER SEQUER UM LIVRO POR ANO.
                        Se essa constatação, publicada  num dos jornais de maior circulação do país, e por aqui reproduzida,  chegasse a nos envergonhar , por que então nenhuma autoridade  se manifestou a respeito? E, quando estou falando de autoridades estou falando também, também de interessados próximos: reitores, professores, intelectuais, secretários de estado e... Os  próprios estudantes.
                        Talvez porque essa não passe de mais uma vergonha inconveniente. E bote inconveniente nisso!  É preferível  falar no sucesso do Geia  ( muito justamente, aliás); no reconhecimento (finalmente) do bumba-boi com patrimônio cultural do Brasil; nos projetos para comemoração do quarto centenário de São Luis e , nunca , na verdade acachapante de que NINGUÉM QUER MAIS SABER DE LER NUMA CIDADE QUE SE INTITULA ATENAS BRASILEIRA . Principalmente, seus universitários.

                        2. Mas, por que a pouca leitura significaria uma vergonha? Aí é que está, fosse eu um jovem universitário, doido para passar no vestibular do BBBrasil ou ávido para curtir shows de Sorocabas na Expoema,  ficaria pensando toda vez que um sujeito viesse pela enésima vez falar nesse assunto “abominável” da necessidade de leitura “Por que será que essa turma não para de encher o saco? Puxa vida, tenho muito mais o que fazer do que ficar meia hora penando em cima das páginas de um livro.” E  reconheço que,  dentro de sua lógica de bobo feliz com sua parvoíce, ele teria razão.
                        Pois só pode avaliar a fortuna trazida por um livro quem habituou - se, desde cedo a ler. Como dizia um escritor francês, jamais coube ou caberá ao ser humano ser proprietário de sua morte genética, mas de sua morte intelectual sim, e nossa raça se aprimorou em se suicidar da melhor forma. O universitário maranhense, ao que tudo indica, está sabendo muito bem escolher a sua: é também entre todos os universitários brasileiros o que menos freqüenta bibliotecas.
                        Ora, se estamos lidando com mortos intelectuais prematuros de nada  vale evocar frases como as de que “ A literatura não faz alguém mais ou menos feliz, mais ou menos rico, mas é a principal estimuladora da única coisa que diferencia um animal do outro: a reflexão, ou seja, aquilo que o distingue.” O que soa desconcertante - nesse esforço que todo ser humano deveria ter para distinguir-se de outros animais -   tanto ou mais que o desapego dos universitários maranhenses pelo instrumento mais rico que possuem para que possam se tornar melhores profissionais,  é a indiferença das autoridades a respeito.
                        Claro, por que tocar na ferida de mais uma vergonha inconveniente?

                                                                       ewerton.neto@hotmail.com

domingo, 28 de agosto de 2011

HINO NACIONAL AO ARROZ DE CUXÁ


artigo publicado no jornal O estado do Maranhão, seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, ontem, sábado


Ouviram do Rio Anil as margens  não tão  plácidas, de um povo heróico (não há outra saída ) um brado retumbante: “ Quero o mesmo IPTU de volta, abaixo o aumento da CEMAR!”. E o sol da  liberdade ( só se for do bairro da Liberdade) em raios fúlgidos brilhou no céu da ilha nesse instante.
                   Se o penhor dessa igualdade (todos são iguais diante do cuscuz Ideal) conseguimos conquistar com braço forte (de tanto carregar  caranguejo) , em teu seio ò liberdade, desafia o nosso peito a própria morte. ( se o peito de frango morto fosse nosso,  até seria bom!)

                   Ó ILHA AMADA,  IDOLATRADA
                   SALVE-NOS, SALVE-NOS!

                   São Luís, um sonho intenso, um raio vívido, vindo de uma barreira eletrônica à terra desce, se em teu formoso céu risonho  e límpido a imagem do Cruzeiro ( Cruzeiro não, Sampaio Correia) resplandece.
                   Gigante pela própria natureza, ( só pode ser um buraco de rua )  é belo, forte, impávido colosso e o teu futuro espelha essa grandeza.
                   Terra adorada, entre outras mil, és tu São Luís, ó ilha amada a primeira de quase mil vereadores. Para esses filhos, serás sempre mãe gentil,  ilha amada, São Luís.

                   Deitado eternamente em berço esplêndido ( mas sem poder morrer por falta de cemitério), ao som do forró e à luz do céu profundo. Fulguras ó São Luís, florão da ilha, iluminada ao sol do Novo Shopping  da Cohama (mais um).
                   Do que a terra mais garrida os teus tristes campos de Perizes tem mais flores (todo dia morre alguém) Nossas praias tem mais vida ( e preço de matar ),  nossa vida em teu seio mais amores (amores para todo mundo, mas grana só  para os  que mamam).
                  
                   Ó ILHA AMADA,  IDOLATRADA
                   SALVE-NOS, SALVE-NOS!

                   São Luís de amor eterno seja símbolo, o lábaro de ATENAS BRASILEIRA que ostentas estrelado, e diga o verde-louro dessa flâmula: indiferença no presente, esquecimento no futuro, apenas a glória do passado.
                   Mas se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta ( greve de guardadores de carro, greve de táxi-pirata) Nem teme quem te adora a própria morte ( os hospitais metem mais medo )
                   Dos filhos corruptos deste solo ( que jamais irão para a cadeia) serás sempre mãe gentil, pátria amada Brasil .


sábado, 20 de agosto de 2011

CONTENHAM A LIBIDO, GAROTAS!

artigo publicado hoje, seção Hoje é dia de...
Caderno alternativo, jornal O estado do Maranhão


Noite de quarta-feira, em São Luis. O que tinha tudo para ser apenas mais uma noitada de amor e prazer acabou em tragédia, num motel da Cidade Operária, numa combinação que cada vez mais está se tornando rotineira nas crônicas policiais: um coroa assanhado, uma gata fogosa, uma caixinha de viagra e...   
                   Para as meninas que gostam de curtir a vida  adoidado um pouco mais de cautela e caldo de galinha não vai lhes fazer mal nestes tempos que correm. Se você é uma delas, cara leitora, mas não é necrófila, não gosta de filme de terror, nem de sexo bizarro, seguem algumas recomendações elementares antes que seja tarde:
                  
1.                 EXIJA O CHECK-UP ANTES. Isso mesmo. Além da camisinha como preventivo, passe a acrescentar mais um: a radiografia do parceiro, devidamente assinada por um bom cardiologista. Jamais se iluda com um palavreado romântico. Se o sujeito, com a orelha mais vermelha que um pimentão, tentar lhe conquistar com conversas do tipo: “Meu coração está batendo mais forte, diante de sua gostosura.”, desconfie e caia fora. Vá lá que esteja dizendo a verdade!... Isso pode ser muito, muito perigoso.  

2.                  FUJA DOS GRUPOS DE RISCO. Entenda-se: homens com mais de quarenta anos. A partir daí suas chances de copular com um cadáver aumentam na mesma proporção da quantidade de botox enfiada na face embonecada do dito cujo. .  Se o seu problema é de tempo para chegar ao orgasmo, substitua um de quarenta por dois de vinte e vá em frente. Mesmo que os dois rapazes juntos não cheguem aos dez minutos que você necessita, ou à metade da grana que você receberia de um velho só, pelo menos lhe restará  o consolo de saber que se um dos dois morrer ninguém vai lhe acusar de estupradora. .

                        3. NÃO DÊ MAIS DE UMA. Contenha-se, fique fria, cobre o triplo pela segunda, enfim, procure satisfazer-se com uma só, até mesmo se , por ironia do destino, estiver gostando. Saiba que a partir da segunda, suas chances de alcançar um inesquecível orgasmo, aumentam nas mesmas proporções que as dele de transformar-se num esquecido cadáver. Mesmo que ele, para sua surpresa, revele-se “ de morte” na cama, de repente – pimba!... lá se foi um herói. Aliás, lembre-se sempre disso: na sua profissão “mais vale um morto vivo que um “de  morte” morto.”

4.          FIQUE DE OLHO ABERTO. Embora os olhos fechados possam estimular a libido, mantê-los bem abertos, nem que seja a intervalos regulares e disfarçados, pode ser uma precaução essencial. Sim, porque os gritos e sussurros que sinalizam o prazer são – por culpa da natureza humana  – os mesmos sons que servem para denunciar a chegada ao céu ou o inferno. Somente os olhos bem abertos serão capazes de avaliar, por sua vez, quando os olhos bem abertos do parceiro estão prestes a travar para sempre - não porque você seja boa de cama, mas de coma.

                   5. NÃO VÁ DE CARRO PEQUENO. Nada de carro pequeno. Prefira um desses horrorosos carrões que circulam por aí e que parecem ambulâncias, tratores ou caminhões. (Pode reparar que eles têm quase sempre um coroa, com cara de idiota, a dirigi-los, provavelmente porque estão a par  das complicações sexuais vitais de homens nessa idade). Lembre-se de que o  futuro ex-parceiro, agora cadáver, estará muito mais duro do que esteve há pouco o órgão que lhe causou a morte.
                   Somente num carro desse tamanho haverá espaço suficiente para ocultar um defunto estirado no banco traseiro sem que isso venha a lhe trazer complicações com a polícia. Aliás, se houver chances, prefira mesmo uma ambulância, porque se acontecer o pior, será muito melhor perante os parentes do morto, dar uma de enfermeira do que de carniceira.


                                                        ewerton.neto@hotmail.com


sábado, 13 de agosto de 2011

O PAI, O FILHO E O PRESENTE

artigo publicado hoje, sábado, no jornal
O estado do Maranhão, caderno Alternativo, seção
Hoje é dia de...


Nesta época, indefectivelmente,  aparecem na imprensa as mesmas manjadas listas de sugestões de presentes para os pais compostas de gravatas, computadores, camisas de time, etc. Haja criatividade para sair da rotina!
                   Esquecem que um bom presente depende fundamentalmente do pai em questão. Ora, embora tenham algumas características levemente semelhantes, como sexo, careca e barriga de cerveja, na verdade,  um pai nunca é igual ao outro, embora todos tenham uma notável identidade quando se trata de xingar  o motorista vizinho, no trânsito.
                   Para simplificar a questão e ajudar na escolha, poderíamos dividir o pai em três tipos.
                   O pai antigo (ou melhor, às antigas)   é aquele que ama tanto os filhos que não hesita em tê-los cada vez mais, de preferência com várias mães. Esquece da maioria deles com freqüência de forma que, lembra-lo disso, mesmo que seja  com um presente, não é exatamente aquilo que ele gostaria de receber. O pai moderno, por sua vez, gosta tanto de filhos que seu maior sonho é tornar-se um deles, fumando a mesma maconha, dançando o mesmo forró e batendo o mesmo carro.  Daí que não convêm, justamente nesse dia, xingá-lo de pai, sendo preferível, convida-lo para tomar umas e outras  chamando-o daquilo que ele já está acostumado: mano, cara, ou doidão.  
                   Já o pai ultra  moderno é aquele plenamente consciente do seu papel de mãe e dona-de-casa. Dotado de uma dose exagerada de amor paterno é capaz de fazer tudo pelos filhos, de preferência se estes não forem seus.
                   Suas possíveis reações.

                   1. Livros. Pode ficar certo de que o pai às antigas, pelo menos, fingirá que gosta. Você jamais o verá lendo uma única página do dito cujo,  seja de Paulo Coelho ou de Hemingway, mas, ele, certamente, ficará envaidecido com a lembrança. Gostaria de poder dizer-lhe,  na lata,  que teria preferido uma revista Playboy com a Malu Mader (que ele nunca conseguiu encontrar) mas tem plena consciência de que o entendimento perfeito entre pai e filho fica implícito na enorme lista de devedês pornôs compartilhados, de Gretchen a Rita Cadilaque.    
                   O pai moderno, mais pragmático,  lhe chamará de idiota se você cair na besteira de lhe trazer um  Chico Buarque ( com razão, aliás) . E berrará, para todo mundo ouvir,  que o único livro que leu - e gostou, foi o de Bruna Surfistinha. Claro que isso estará longe de abalar a formidável relação que vocês têm, já que chamar o outro de idiota é o tratamento preferido entre ambos.
                   Quanto ao pai ultra-moderno talvez preferisse O Diário de um banana, pensando que é sua autobiografia.

                   2. Musicais. Para agradar musicalmente um pai às antigas, um Nelson Gonçalves ou um Altemar Dutra serão muito bem recebidos. Mas você fará melhor se o convidar para inaugurá-los na Zona, em companhia de algumas “amigas”. O pai moderno, por sua vez,  ficará sensível à um Rolling Stone, ou a um Beatles mas, desconfiado de uma  potencial indireta,  correrá para o espelho a fim de checar se não sumiram definitivamente seus cinco e meio últimos fios de cabelo,  que preserva com precioso carinho há quinze anos.
                   Quanto ao ultra-moderno nem caia na besteira de lhe trazer uma Amy Whinehouse . Julgando-se o homem mais antenado da face da terra, portanto o mais alegre e otimista, considera  Amy muito triste e só vibra  de alegria quando ouve Ivete Sangalo ou Shakira. Pensando bem, é bom deixar esse negócio de musica de lado e dar-lhe um abadá do Marafolia. Seus olhos brilharão de alegria.   

                   3. Restaurante. Jamais gaste seu dinheiro oferecendo um almoço numa churrascaria para um pai às antigas. Ele não gosta de celebrações em família, justamente por não saber, exatamente, qual é a sua. Um pai moderno poderá gostar disso, em parte, desde que a sobremesa seja boa, entendendo-se como isso uma boa rodada de cocaína.  Quanto ao pai ultra-moderno, ele será capaz de aceitar  o convite com uma condição: desde que esteja presente o melhor amigo da família: o Souza. Que é colega de trabalho de sua querida esposa e que, por coincidência, desconfia que seja o verdadeiro pai do seu filho.  

                   Bem, embora esses tipos representem as espécies  fundamentais e mais corriqueiras de pai, entre elas ainda existe uma minoria de tipos: discretos, reservados, silenciosos  e que não fazem questão  de solenidades, confraternizações, e muito menos de alardear o amor de pai.   Para estes, quem sabe,  o filho  seja  o melhor presente?

                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

terça-feira, 9 de agosto de 2011

SANLUIZENSES

artigo publicado no jornal O estado do Maranhão, seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, sábado passado


Rumo aos quatrocentos anos, a bordo da estação Sanluizana, algumas reflexões vadias, mas nem tanto.  

                   1. Pronto! Acabaram de descobrir a solução para os buracos de rua, o trânsito congestionado e os semáforos que não funcionam: mais dez vereadores para a câmara municipal. Segundo informações, a custo, em breve,  de um milhão e meio de reais. Portanto, em matéria de idéias para resolver os problemas estruturais e crônicos de uma população tão carente, nada como as soluções geniais dos legisladores maranhenses. No âmbito estadual quando a coisa está ruim, criam-se municípios. Na capital, quando a coisa está pior, criam-se vereadores.

                   2. Deu na imprensa que a atual secretária do IPHAM está alertando sobre o iminente risco, para São Luis, de perda do título  de Patrimônio Cultural da Humanidade, caso não sejam feitas reformas urgentes no patrimônio arquitetônico da cidade. (Imagine se essa comissão de analistas soubesse que  os escritores da cidade têm de entrar na justiça para receber os prêmios que lhes são concedidos pelos órgãos oficiais da cidade, por ocasião dos concursos literários! E que seus advogados ainda têm a coragem de recorrer,  quando os juizes dão ganho de causa aos artistas em primeira instância.)  

                   3. E a ilha de São Luis, ao invés de apenas água, agora está cercada de pirataria por todos os lados. Segundo as manchetes dos jornais  40% da frota de táxis circulando na capital é pirata.  Outro dia, parei meu carro no centro e quase tomei um susto quando pessoas que eu nunca tinha visto mais gordas desejavam entrar no meu carro. Demorei a perceber que não se tratava de uma invasão de sem-terra, ou, melhor, de sem-carros,  mas de pessoas disputando uma condução , simplesmente achando, por hábito, que todo carro que parasse naquele local era um táxi-pirata. Expliquei-lhes que por enquanto não, mas ia começar a pensar seriamente na hipótese se as coisas piorarem. (Parece que, por aqui, para ganhar mais uns trocadinhos bastam um carro velho, gasolina e cara-de-pau.)   

                   4. E a excelente idéia de fazer da recuperação do antigo prédio do  edifício BEM o início da revitalização do centro da cidade, parou no décimo andar . Parou por quê? Por que parou?
                   No rumo contrário das decisões burocráticas oficiais que tomaram a triste decisão de fugiram do centro, foi muito reconfortante saber, na ocasião,  que o governo da capital optara pelo caminho acima, consciente de que essa debandada causava um grande mal à cidade. Só que o outrora majestoso edifício agora permanece parado no ar, escorado no passado como um pássaro ferido que tenta se levantar e não consegue. E pior, sem os belos murais de Antonio Almeida. Quer dizer então que o sacrifício da arte do saudoso e genial Antonio Almeida foi em vão?

                   5. Nada mais provinciana que a obsessão da “gente bonita” da capital (como dizem os colunistas) com a divulgação de suas viagens ao exterior. Esquecidos de que, com o fortalecimento do real, a globalização, e o cosmopolitismo das empresas, todo mundo hoje viaja para o exterior assim que lhe dá na telha ou quando sua empresa manda, os “bonitinhos” assim que põem o pé fora do Brasil, tratam logo de enviar para a imprensa fotos e textos, narrando suas aventuras pelo exterior como se fossem  desbravadores tardios e tivessem estado, ao invés de nas ruas de Paris ou Nova Iorque,  dentro de um foguete interplanetário, passeando em outro planeta. .
                   Tão jeca quanto essa é  a mania sanluizense, muito difundida  na imprensa, de - quando se pretende alguma melhoria na cidade - pleiteá-la em nome do turismo ou do turista. Ora, não é o cidadão sanluizense menor que o turista, nem deveria ser menos merecedor da atenção das autoridades por ter nascido aqui. O ambiente em que vive  (aeroporto, rodoviária, praias etc) deve ser melhorado, principalmente por causa dele, por seus direitos fundamentais como cidadão e não apenas por causa de quem chega aqui uma vez e vai embora.  Ou será que, por  ter sido tão maltratado ao longo dos anos, o conceito pessoal do cidadão sanluizense se degradou,  a ponto de se considerar em vão solicitar melhorias em seu nome?

                                                                  ewerton.neto@hotmail.com