domingo, 31 de julho de 2022

A LOJA QUE VENDIA PAIXÕES


 

A LOJA QUE VENDIA PAIXÕES

José Ewerton Neto

 

Lojas Marisa. Rua Grande. Adentrando a loja poucos hão de perceber a emanação de algo diferente que evola através dos detalhes  arquitetônicos , escadas e plataformas.

É lá que, em meio a recordações o homem pergunta à vendedora: “ Você sabia que aqui houve um cinema?” “Sim, alguém me disse.” Ela responde.  Talvez ele esperasse uma resposta menos óbvia. Sem importar-se com isso e extasiado pela memória continua: “Quantas vezes aqui estive na  adolescência. Aqui vi grandes filmes e grandes artistas. Ben-Hur, Os brutos também amam, Burt Lancaster, Marlon Brando, Sofia Loren...Você conhece Sofia Loren, não?”  “ Com certeza  não, senhor. Quem é?...”

O homem decepciona-se, o deslumbramento que começara a sentir ameaça esvaecer ao entender ser compreensível que ela não sinta nenhum orgulho especial por trabalhar em um local onde viveram tantas belezas, paixões, histórias, sonhos e ilusões. Muito tempo passou, e é óbvio que ela não viveu tanta coisa, talvez seus pais, quem sabe... Súbito, entrando em empatia finalmente com suas recordações a moça  compartilha: “ Olhe ali estão algumas imagens dessa época “

De fato, em relevo junto à parede podem-se ver enormes fotos da época em que a loja era um cinema. O homem transporta-se novamente para o passado e percebe que jamais conseguiria transmitir à sua interlocutora  tantas emoções que ele e tanta gente sentiram. Quem sabe, se ele fosse bem mais jovem e  um bom contador de histórias...

 Então, talvez ele  pudesse convidá-la  para ir ao cinema e ambos adentrariam não nesta Loja Marisa , mas no monumental  Cine Éden do passado. E ambos assistiriam Amor, Sublime Amor, de mãos dadas.

Num gesto brusco o homem  se vira e, dizendo um até logo, que soa mais como um murmúrio,  se vai,  para que ela não perceba  uma lágrima que chega.   

sábado, 16 de julho de 2022

SUSPIROS DE UM GÊNIO


 

SUSPIROS DE UM GÊNIO

José Ewerton Neto

 

Luís Buñuel, um dos gênios do cinema, foi o autor de um das melhores   autobiografias já publicadas intitulada Meu último Suspiro, não só pela sua beleza literária como também pelo elevado grau de  conhecimento  de vida, autenticidade   e sinceridade.

Resumo aqui apenas 6 desses tantos “suspiros” geniais

1.Sobre o terrorismo e o patriotismo. Tenho desprezo por aqueles que fazem do terrorismo uma arma política para uso de uma causa qualquer, por aqueles que matam e ferem para atrair a atenção do mundo. Tenho horror a eles. Parece-me ignóbil qualquer ostentação patriótica. Não suporto o patriotismo ostentatório. Nada me parece mais abominável do que os hinos nacionais.

2.Sobre Federico Garcia Lorca e Salvador Dali.

De todos os seres humanos que conheci, Federico é o mais marcante. Não falo nem de seu teatro ou de sua poesia. Falo dele. A obra-prima era ele. Podia ler qualquer coisa, a beleza sempre jorrava de seus lábios. Era como uma chama.

Quando penso em Dali, apesar das recordações de nossa juventude, apesar da admiração que ainda me inspira uma parte de sua obra me é impossível perdoar-lhe o seu exibicionismo ferozmente egocêntrico e, sobretudo, seu ódio declarado à amizade.

3.Sobre viagens.

Nunca viajei por prazer. A atração pelo turismo – tão disseminado à minha volta, não existe para mim. Não sinto nenhuma curiosidade pelos países que não conheço e jamais conhecerei. Em compensação, gosto de retornar aos lugares onde vivi, aos quais me prendem recordações.

4.Sobre partidos.

Embora simpatizante e fazendo parte da Associação dos Artistas Revolucionários, nunca aderi ao partido. Não gostava das longas reuniões, não podia suportar a ordem do dia, as considerações intermináveis, o espírito de célula.

Mantive minhas simpatias pelo partido comunista até o fim dos anos 50, Depois disso fui me afastando cada vez mais. Seja onde for o fanatismo sempre me repugna.

5. Sobre o fim.

Se me dissessem: restam-lhe  20 anos de vida, o que quer fazer de cada um dos dias que vai viver? Eu responderia: dê-me duas horas de vida ativa e 22 horas de sonho, contanto que possa lembrar-me destes – porque os sonhos só existem através da memória que os alimenta.

6.Sobre bares.

O bar é,  para mim, um local de meditação e recolhimento sem o qual a vida é inconcebível, um exercício de solidão. Antes    de  mais nada tem que ser tranquilo, bastante escuro, muito confortável. Toda música, mesmo distante, tem que ser severamente proscrita, contrariamente ao hábito infame que hoje se propaga no mundo.

( obs do cronista: Imagina se vivesse hoje no Brasil e fosse obrigado a escutar dupla musical sertaneja!)

domingo, 12 de junho de 2022

NAMORADOS EM ALTA

 



 NAMORADO, UMA MOEDA EM ALTA ?

 

José Ewerton Neto

 

 

 

                   O Namorado, assim como outras moedas, depende muito do valor de  sua cotação no mercado. Recente reportagem do Fantástico informou que os casamentos estão em alta novamente, com os promotores de eventos casamenteiros acumulando muita grana e  revalorizando  essa questão de ter ou não namorado -  que andava muito em baixa durante a Pandemia. Nessa época, como todos sabem,  doava-se namorado e ninguém queria troco.

Como a Pandemia se foi,  as mulheres voltaram a sonhar com um casamento de véu e grinalda, rumo ao altar (objetivo  ancestral de todas elas que se explica porque a vida continua não sendo coisa muito pródiga em ilusões que valham a pena). O certo é que, para facilitar os casamentos, hoje em dia qualquer pedaço de  praia serve como igreja, qualquer dono de bar serve como padre  e  qualquer  azulzinha serve de hóstia – com a vantagem de adiantar uma forcinha logo mais para o futuro marido.

O certo é que a serventia principal de um namorado que sempre foi  a de elas se precaverem da Anuptafobia (medo de ficar solteira) parece ter voltado com alguma força.

Afora isso, até a sua segunda maior utilidade (como adorno pessoal para mostrar para as amigas) entrou em desuso com a possibilidade de elas usarem as soluções de relacionamento oferecidas pela net.

                   A verdade é que em comparação com outras moedas igualmente  populares Namorado, ao contrário do dólar ou do euro, nunca foi  uma moeda forte e, além disso, é uma moeda difícil de ser guardada. Não dá para guardar no bolso ou na mochila,  dentro do vestido ou em outro esconderijo. Não dá para retirá-los numa caixa eletrônica nem depositá-lo em bancos (não só porque os bancos comuns não aceitam,  como também os da praça nem  existirem mais para namoro - o romantismo acabou).  Por vezes elas tentam guardá-lo dentro de si, mas, infelizmente, para ambos, isso dura  pouco tempo.

                                      Ao indagar-se a qualquer uma delas a razão de, no mundo de hoje em que elas são cada vez mais independentes,  ainda perderem tempo investindo em namorados ao invés de no bit-coin, por exemplo,  muitas  responderão que mais vale um namorado na mão que dois voando  embora saibam de antemão que sempre acabam pagando com juros. A sorte é que não são juros reais, mas disfarçados: “Juro que te amarei por toda vida!”

                           

 

 


quinta-feira, 19 de maio de 2022

LULA E BOLSONARO DISPUTAM O DIABO

 



José Ewerton Neto

Com a proximidade das eleições Lula e Bolsonaro deixaram o pudor de lado  e têm usado todas as armas existentes ao alcance para superar o adversário.  A última foi a de apelar por uma ajuda do  Diabo.

O que eles não esperavam é que fossem chamados ao mesmo tempo.  Esta semana, Bolsonaro e Lula se postaram diante de uma live espiritual em sua presença e foram confrontados pelo Todo Poderoso do Mal.

1.Satanás: “Sei que ambos são inimigos. Por acaso, algum de vocês consegue enxergar algum mérito no outro”.

Bolsonaro. A única virtude que ele teve na vida  foi ter cortado o seu dedo quando era torneiro-mecânico. O que prova que era muito melhor como torneiro-mecânico  do que como presidente.

Lula. Reconheço nela a virtude de ter tentado tocar fogo no quartel onde trabalhava. Mas nem para incendiário ele serviu.

2.Satanás: “ Quando vocês vierem para cá um dia como desejarão  que a vida lhes seja aliviada?

Lula. Uma boa cachacinha. Sendo das boas, esse fogo do inferno eu tiro de letra. . 

Bolsonaro. Uma boa arma para praticar tiro ao alvo, seja o alvo  quem for. Mas, por favor, não me venha com foice.

3. Satanás. “Se um dia vocês me sucedessem no  comando do inferno, o que, vocês fariam de imediato?.’

Bolsonaro. Liberaria o porte de armas para todos, inclusive para os diabinhos de 3 meses.

Lula. Criaria  o  bolsa-família. E botaria  meu filho Lulinha para tomar conta do dinheiro. 

5.Satanás: “ Qual  foi a maior mentira de seu adversário?”

Lula. Ele ter negado que  foi miliciano.

Bolsonaro. Ele ter negado que roubou.

8.Satanás: “ Algum  fato na biografia de seu opositor chegou a lhe entusiasmar?

Lula. A facada. Mas não foi bem executada.

Bolsonaro. A tornozeleira eletrônica. Deveria   ainda estar usando uma em vez de aliança de casamento.

Entusiasmado com o que acabou de ouvir Satanás tomou uma decisão: Vai apoiar os dois, porque qualquer um que vença,  o Inferno estará bem representado.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

TORNE-SE MULHER E SE APOSENTE MAIS CEDO!


 645, o pensador políticamente incorreto que nasceu na Pandemia  reflete sobre o que vê e ouve


SINCERO COMO UM NÚMERO

CERTEIRO COM A MATEMÁTICA

BEM-HUMORADO COMO ELE SÓ 




domingo, 23 de janeiro de 2022

O TÚNEL DA FELICIDADE




645, O Pensativo políticmente incorreto que surgiu durante a pandemia continua 
refletindo sobre 
imagens, notícias e fatos que lê e ouve. Como sempre


SINCERO COMO UM NÚMERO
PROFUNDO COMO A MATEMÁTICA
SAGAZ COMO ELE MESMO 





 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

645 E A ATENAS BRASILEIRA






645 , o pensador politicamente incorreto que surgiu durante a pandemia .

SINCERO COMO UM NÚMERO
SAGAZ COMO A MATEMÁTICA
IRÔNICO COMO ELE PRÓPRIO 

 

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

AS ESTÁTUAS LÊEM MAIS DO QUE AS PESSOAS

 




645, O PENSADOR POLÍTCAMENTE INCORRETO 
DA PANDEMIA

SINCERO COMO UM NÚMERO
CORRETO COMO A MATEMÁTICA
IRÔNICO COMO ELE MESMO 

terça-feira, 7 de setembro de 2021

DIÁRIO DA FUNDAÇÃO DE SLS ( contado pela própria ilha)


 

Escrito pela própria Ilha:

“Hoje, 8 de setembro de 1612 resolveram me batizar de São Luís. Nada melhor que começar, portanto, a escrever meu próprio diário. Assim como inventaram um nome para mim, sei lá as histórias que ainda poderão inventar a meu respeito.

Sou uma ilha. Na verdade, nunca liguei muito pra esse negócio de ser um pedaço de terra cercado de água por todos os lados. Isso nunca fez diferença para mim, a não ser que basta estender os braços em qualquer direção que encontro água. Sou uma felizarda, portanto!

Não sei até hoje dizer quando, de fato, nasci e me criei e porque virei ilha. Dizem que foi de tanto o mar bater no continente que adquiri esse formato. Bote tempo nisso. Sei que tenho milhares e milhares de anos, o que não é tanta velhice assim para pedaços de  terra como eu, só sei que me separo do continente por um pequeno trecho de água chamado de Estreito dos Mosquitos. Dos mosquitos? Isso mesmo. Imagino que botaram o nome de Mosquito a esse estreito porque nesse lugar as ferroadas  doíam pra burro. Será? Já que mosquito é o que não falta em todo lugar que tenha água, terra e mangue, como minha superfície, portanto.   

Como ia dizendo, resolveram me batizar hoje. O nome que escolheram foi São Luís., em homenagem ao rei da França, que nunca vi mais gordo . Isso embora eu já tivesse o nome de Upaon Açu,  que me foi dado pelos Tupinambás que viviam há muito tempo por aqui e que acho até mais bonito.   Upaon Açu, significa Ilha Grande o que não soa nada mal pra mim não é?

E por que essa gente vir de tão longe para me apelidar de São Luis, se eu já tinha nome? Aí é que está, essa turma não veio de tão longe, sem segundas, terceiras e quintas intenções. Certamente não vieram só por causa de meus belos olhos, que é essa a minha paisagem de sol , mar , praia, horizonte à beira do mar, linda de morrer, sem falsa modéstia.

Na verdade, faz mais de século que, de vez em quando, eles começaram a aparecer por aqui para encher de madeira suas  canoas grandes ( por eles chamadas caravelas) ,  que levavam para os seus lugares de origem. No começo causaram o maior reboliço nos nativos daqui, que nunca tinham visto igual. Com o tempo os tupinambás tiveram de se acostumar com seus focinhos porque com o passar dos anos volta e meia vinham dar nos meus costados.

 A si chamam de portugueses,  franceses e holandeses, o diabo a quatro, ao mesmo tempo que chamam os daqui de índios. Além das canoas  grandes o que chamou logo a atenção foi   a arrogância no falar e no gritar e a pele diferente, bem mais clara, parecendo cor de leite.  

Se eles chamam os daqui de índios, os nativos que moram sobre o meu solo, os tupinambás, chamam os portugueses de peró, ou seja tubarões, e os franceses de ayurujuba, ou seja, papagaios amarelos por estes serem louros ou ruivos, portanto um pouquinho diferente dos primeiros , os portugueses,   e falarem muito. Faz sentido, não é? Quem fala demais ouve o que não quer. Até ser chamado de papagaio.

Desta vez eles, os papagaios amarelos, chegaram em  número bem maior com 500 homens em 3 caravelas cujos nomes são Regente, Charlotte e Saint Anne Construíram um forte, rezaram missa, cantaram, homenagearam o rei da terra deles, , Luís XIII e, assim, em pouco tempo eu estava batizada e com novo nome.

Quanto às suas verdadeiras intenções?  Continua no próximo capítulo.


segunda-feira, 30 de agosto de 2021

ENTREVISTA COM A GALINHA


 

O projeto de lei da deputada Elisângela Moura ( PC do B) que institui a galinha da raça “Canela-Preta” como patrimônio histórico, cultural e genético do Piauí  foi aprovado há poucos dias  na Assembleia Legislativa desse Estado.

O projeto suscitou controvérsias nas redes sociais com diferentes posicionamentos a respeito de sua  necessidade, mormente em tempos tão conturbados. Curiosamente ninguém foi ouvir a opinião do personagem principal: ela, a própria galinha. Nossa equipe de reportagem conseguiu esse ‘furo’ suprimindo essa lacuna. .

Repórter - Antes de tudo parabéns, Dona Galinha Canela-Preta! Como a senhora está se sentindo?

Galinha - Como assim?

Repórter – Em breve a senhora e suas parceiras serão reconhecidas como Patrimônio Histórico Cultural e Genético do Piauí.

Galinha – Ninguém me disse, mas se for verdade, isso me faz sentir  como uma galinha humana. Humana, demasiadamente humana, como disse alguém.  

Repórter – Galinha  humana? Nietzche? Confesso que me confundo. Desculpe, a senhora poderia esclarecer melhor?

Galinha – E precisa?  Vocês humanos  não apelidam de galinha a mulher que dá pra tudo e pra todos, e que depois de comida vocês maltratam e desprezam? Pois é justamente assim que estamos nos sentindo agora.

Repórter – Calma,  dona Galinha! Não era bem isso o que esperávamos.

Galinha – E o que você esperava? Que fôssemos sair cacarejando pra lá e pra cá por causa disso? Pra que nos serve homenagens como essa?

Repórter – Puxa vida, não interprete assim, Dona Galinha. Pense que a deputada apenas  quis prestar uma distinção à espécie de galinácea que  distinguiu vocês , tão saborosa!

Galinha – Poupe o  “saborosa” senhor! Essa deputada nunca quis homenagear galinha alguma, mas sim o próprio bucho. No dia em que esse decreto for aprovado sabemos que será a primeira a comemorar comendo justamente uma galinha.

Repórter – Quanta amargura, Dona Galinha!

Galinha – Quisera eu que realmente tivéssemos um gosto amargo para que todos vocês nunca mais nos engolissem. .Ou o senhor acha que é bom acordar todo dia esperando apenas a hora de ser guilhotinada?. Nossa vida se resume a isso.

Repórter – É doloroso e constrangedor, mas Juro que não havia lembrado, disso dona Galinha  os humanos se esquecem eternamente do sofrimento de vocês. Sei que é desagradável, mas não posso me furtar a mais uma pergunta que já estava programada. Não me leve a mal, mas como a senhora prefere ser servida?

Galinha – Viva.

Repórter – Por fim, a senhora gostaria de fazer um último pedido?

Galinha – Que as galinhas de verdade como a gente sejam, pelo menos um dia, tratadas como os homens tratam as suas.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

O FIM DO DON JUANISMO MASCULINO


 645 O PENSADOR POLITICAMENTE INCORRETO DA PANDEMIA , comenta o noticiário do dia. 



SINCERO COMO UM NÚMERO

PRECISO COMO A MATEMÁTICA 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O CHEIRO NOSSO DE CADA DIA


 

“O homem é o  único animal que não gosta do próprio cheiro”, dizia Millor Fernandes, assim resumindo  a solitária diferença que nos distingue dos demais animais. Sim, porque o cérebro maior e mais inteligente não nos distingue tanto assim, já que no resto somos quase iguais.  A ciência mostra que o nível genômico da espécie humana atinge a extraordinária semelhança de 95 a 99 % ao dos chimpanzés.

Resta especular se essa diferença não teria sido provocada pelos humanos apenas como forma de se destacarem dos outros animais. Mais ou menos como se, a partir de determinado momento de sua curta trajetória geológica, os homens resolvessem se perfumar como uma forma de dizer a si mesmos: “Tá vendo? Somos, de fato, superiores aos outros animais, tanto assim que não fedemos como eles.”

A história comprova essa tese, já que somente de pouco tempo para cá, os homens passaram a rejeitar o próprio cheiro. Basta ver como procediam nossos tataravôs em seus ambientes, mesmo os supostamente mais refinados.  

1.A higiene do palácio de Versalhes, por exemplo, no século 17 era de “lascar” para os padrões de hoje. O corpo inteiro das pessoas só era lavado uma vez por ano e para se limpar bastava lavar as mãos e o rosto.  Nessa ocasião a família inteira se banhava no mesmo barril e com a mesma água. A urina era despejada pelas janelas, a limpeza íntima era feita com sabugos de milho ou com as próprias mãos, as necessidades eram feitas em qualquer lugar indo parar nos corredores e jardins. Um decreto de 1715 dizia que as fezes deveriam ser retiradas dos corredores uma vez por semana.

Um pouco mais para longe, na  Roma Antiga,  os banheiros públicos eram frequentados sem distinção de sexo. Nesses espaços não havia preocupação em oferecer material para higiene íntima. As pessoas se viravam com o que estivesse à mão, como água, grama e até areia. E – pasmem! -  era nessas latrinas coletivas, instaladas em grandes barricadas de pedra,  que se promoviam debates, banquetes, e encontros cívicos.

Por aí se vê que o fedor não incomodava.  E que a porcaria que saia pela parte de baixo era mais inofensiva do que a que  hoje sai, pela boca,  dos que se reúnem em ambientes palacianos para tomar   grandes decisões administrativas, perfumados por fora e imundos por dentro, “os sepulcros caiados” de que falava Cristo.

2.Quanto aos outros animais, estes  continuam ‘cagando  e andando’ para o próprio cheiro, o que não significa dizer que sejam menos limpos. A barata, por exemplo, tida como um animal fétido e repulsivo tem o seu exterior extremamente limpo, mais higiênico que o rosto de muita coroa habituê de coluna social, entupido de creme, loção e botox.

A sujeira das baratas, é bom saber, restringe-se ao seu interior, mais exatamente ao seu sistema digestivo. É lá que ficam os vírus e as bactérias que são expelidos em seu cocô e podem causar infecções. Portanto, caro leitor(a),  aproveite a ideia e dê um afetuoso beijo na couraça de uma barata,  que isso não lhe trará problema algum.

Isso leva a acreditar que a tão anunciada substituição dos homens pelas máquinas, prevista para breve, apresentará pelo menos uma vantagem evolutiva. Estas jamais terão nojo do  próprio cheiro.

domingo, 8 de agosto de 2021

DE FILHOS DE HOJE A PAIS DE ONTEM



A equipe de reportagem entrevistou alguns jovens procurando saber qual o presente que os filhos estavam comprando para seus pais e o que lhes dariam, se pudessem.

 

            1. Pablo, 17, mora na Cidade Operária. Comprou-lhe uma gravata. Daria, se pudesse, uma periguete para ele parar de encher o saco da sua namoradinha de 15 anos, Keyla, que ele apelidou de Calú, dizendo-lhe piadinhas sem graça, e querendo se insinuar. (Calú – epa!, Keyla – vive ameaçando lhe deixar porque já não agüenta mais).              

                                                                              

            . 3. Franco Júnior, 14 anos, mora no Felipinho. Comprou-lhe um depósito portátil de uísque. Daria se pudesse um alambique completo para ele parar de mexer no seu notebook, toda vez que está bêbado. O que acontece a cada dois dias.     

 

            4. Surama, 18, mora no Anjo da Guarda. Comprou-lhe  um ursinho de pelúcia cor-de-rosa. Daria, se pudesse, ao pai que é cabeleireiro uma assinatura do Jornal do Anjo da Guarda, para ele aprender como vai ‘sair na foto’ se continuar a dar em cima do namorado de sua colega, Tania, que é traficante perigoso e não gosta, nem um pouco, desse assédio.  

 

            5. Técio, 11, mora no São Francisco. Comprou-lhe um time de botão. Se ele não perceber a indireta daria se pudesse um time de futebol de marmanjos para ele tomar conta e parar de se meter a técnico do time de futebol júnior do bairro, onde joga e que se chama Demolidores F.C.  Isso quando não entende de querer jogar na ponta-esquerda

 

             6. Vadinho, 18 anos, mora no Centro. Comprou-lhe um cedê pirata da Jovem Guarda. Daria se pudesse um baita som de carro para que ele passasse a escutar muito longe de casa esse tal de Márcio Greyck, que ninguém agüenta mais ouvir dentro de casa quando ele está ‘consertando’ alguma coisa, todo sábado pela manhã. .

 

            7. Baron, 20 anos. Mora no Jardim América. Comprou-lhe um relógio paraguaio. Daria se pudesse, uma casa em Jacaré dos Homens nas Alagoas, ou na Conchinchina, para que ele fosse embora de vez e os deixassem (ele, sua mãe e o amante dela) em paz para sempre.  Com a casa, naturalmente.

 

                       9. Cristana, 18 anos, mora no Calhau. Comprou-lhe uma garrafa de vinho tinto (adquirido por sua mãe). Daria se pudesse, uma adega de vinhos importados se ele prometesse nunca mais lhe abraçar com seu insuportável mau hálito de álcool quando quer se exibir para os amigos. Pois sabe muito bem que ele não conhece vinho algum e gosta mesmo é de emborcar, disfarçadamente, uma boa caninha do engenho.

 


 

sábado, 31 de julho de 2021

O NÚMERO INFINDÁVEL



Quando comecei  a me interessar pela matemática, na infância, nenhuma de suas expressões me pareceu tão perturbadora,  curiosa e surpreendente como a Dízima Periódica, um número rebelde que não para de se repetir na última casa.

Nada consegue detê-la: nem uma cerca de arame farpado, nem uma barreira eletrônica, provavelmente nem os buracos das ruas de São Luís. Nessa época comecei a desconfiar que aquela história do tão certo quanto dois mais dois são quatro não passava de uma frase de efeito.

Anos atrás li em reportagem de uma revista científica que o número de Avogadro não é mais o mesmo. O famoso 6,02 x 1023 de repente não é mais aquele. A diferença é na casa de centésimos de milésimos, mas num número tão grande isso equivale a bilhões de bilhões.

Bote bilhões de incertezas nisso! Como diz Becker, o autor dos cálculos : “O que pretendíamos, de fato, era encontrar uma nova definição científica para o quilograma, que ainda carece de definição.” Ou seja, Avogadro apenas entrou de gaiato nessa história e a essas alturas do campeonato, todos nós, escravos da vida moderna,  somos gordos,  mas não sabemos exatamente o quanto.

Claro, tudo evolui na vida, até as fórmulas. Assim como Galileu e Newton que ficaram para trás, agora ficou Avogadro e seu número, sem sequer um “Advogado” para defendê-lo. Se o ser humano levou milhões de anos para descobrir que o tempo e o espaço não passam de abstrações e tem funções relativas tudo indica que num futuro não muito distante a matemática e seu dois mais dois não sejam  exatamente quatro.

Isso dá uma esperança ao destino bizarro da dízima periódica. Qualquer dia vão descobrir que duas paralelas se encontram antes do infinito ou que a dízima para em algum lugar, quem sabe num bar da esquina. Se para tomar um chope ou simplesmente rir das agruras dos estudantes em prova do Enem isso são outros quinhentos. O fato é que, as esquisitices dos números um dia terão solução, imperfeitas ou não.

Irremediáveis, insolúveis e definitivas, por sua vez, são as dízimas periódicas da vida, essas que se repetirão eternamente como uma sentença: as enchentes de  inverno com suas mortes trágicas, as bobagens coletivas como o BBBrasil, as Pandemias etc.etc.

Como seria bom se as realidades da vida, ao invés de tão periodicamente irreversíveis fossem inexatas, mutáveis e manipuláveis quanto as da Ciência! O mundo seria bem melhor, certamente. Tão certo como dois mais dois não são (serão) quatro. 


 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO VASCO


 

1.Na época em que O Vasco da Gama foi fundado, 1898,  o turfe, o ciclismo e o remo eram as modalidades esportivas que seduziam os jovens na capital da República. D,Pedro II ainda era o regente quando no Brasil surgiram as primeiras agremiações dos esportes náuticos.

A sedução pelos  esportes náuticos dava-se  pela movimentação das elites dos centros urbanos fugindo da insalubridade em busca do ar puro da orla da baía de Guanabara. O mar sugeria saúde  em contraponto aos lugares centrais vítimas da sujeira provocada pela contaminação dos esgotos a céu aberto, proliferando epidemias.  

Nas 3 primeiras décadas  de sua fundação o Vasco tornou-se uma das principais agremiações do remo só vindo a aderir ao futebol em 1915 após sua fusão com o Lusitânia SC, que também nasceu da colônia portuguesa do Rio. Com o nascimento da República as associações desportivas cariocas começaram a se estruturar como times de futebol a partir de 1904.

2.No ano 1922, já na primeira divisão o Vasco venceu todas as disputas que participou.  E qual era o seu diferencial? No Vasco todos participavam diariamente de treinos técnicos e físicos. Em seu livro O negro no futebol brasileiro Mario Filho escreve: ‘Às vezes, de noite, se a noite era de lua podiam-se ver  os jogadores do Vasco treinando.” Mas havia uma outro diferencial a ser destacado: a origem de seus jogadores. Clubes como Fluminense, Botafogo e Flamengo eram formados por jovens da classe média carioca. O Vasco apresentava  um time de gente negra e parda, operários oriundos da classe pobre, trazidos da periferia da cidade.

A massa sentia-se atraída a acompanhar o Vasco onde quer que fosse, provocando ressentimento dos adversários. Para eles  o Vasco era um estranho no ninho  que, no entanto, vencia e vencia. Assim que tricolores, flamenguistas etc deram-se conta de que iam para os estádios para assistir a derrota dos seus para os ‘camisas pretas’  a coisa mudou de figura. A bronca com os portugueses, gerada por uma onda de xenofobia era que, se não fosse por eles,  aquele time formado por operários, pretos e mulatos não estaria desafiando e vencendo  gente de boa família.

Começou então uma onda de xenofobia e jacobinismo. Ainda Mário Filho: “O português levava a culpa. Pouco importava que o time do Vasco  com seus brancos, pardos, mulatos e negros fosse brasileiríssimo.”

O resto já se sabe. Inexplicável má vontade perdura até hoje contra o clube especialmente na mídia dominante no Rio e, daí para o país,  a ponto de se tentar transferir para outros times toda aura de popularidade e  tradição vanguardista conquistada, em sua origem, pela equalização dos direitos individuais e pela absorção dos desvalidos. Bastou um resultado adverso na copa de 1950 para se iniciar o processo de tentativa de demolição da popularidade do time, (que foi a base dessa seleção brasileira)  escolhendo-se  para bode expiatório  o grande goleiro Barbosa, eternamente considerado culpado pelo revés, por causa de sua negritude.   

Nada disso arrefece o apego de sua torcida ao time apesar de recentes dissabores. Combalido financeiramente à reboque de  administrações desastrosas, peculiares à estrutura avulsa do futebol brasileiro, o Vasco , no entanto, ostenta como patrimônio , além de sua imensa torcida, um estádio de futebol,  São Januário,  que é o único dessa envergadura no país, a  ter sido construído, tijolo por tijolo, com a ajuda apenas do suor de seus  torcedores.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

CASAMENTOS E VIDAS PERDIDAS

645 

O PENSADOR POLITICAMENTE INCORRETO SE DANDO AO LUXO DE COMPLEMENTAR FRASES E PENSAMENTOS 



SINCERO COMO UM NÚMERO

CURTO E GROSSO COMO A MATEMÁTICA 

terça-feira, 13 de julho de 2021

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BEIJO


 

1.Histórico. A respeito de como surgiu o beijo  os historiadores só têm uma certeza: ninguém sabe como começou.  Os humanos sempre se socorrem da religião para explicar as coisas, mas, evidentemente, Deus desta vez nada teve a ver com isso porque nunca teve parceiros para beijar. Seu filho, sim Jesus Cristo, foi beijado e, através dele, traído, razão pela qual Deus, naturalmente desconfiado, ainda vai passar umas tantas eternidades sem beijos.

Se o inventor do beijo nunca apareceu, muito menos a razão pela qual foi inventado. Teorias e especulações, porém, é o que não falta.  

1.1A teoria do “é bom ser fresco”. Na idade da Pedra a pele da pessoa seria uma rara fonte de sal, sempre à mão. Como o sal retém a água mantendo a temperatura do corpo especula-se que nossos ancestrais tenham começado a se beijar para se manterem frescos. Dá pra acreditar?

2.A teoria dos feronômios sexuais. Todo animal de sangue quente destila hormônios sexuais pela pele. A isso se chama feronômio, o que  desencadeia uma reação instintiva em vários animais.  Ora, nos tempos antigos, quando nosso olfato era bem mais apurado, os feronômios diziam mais de uma pessoa do que qualquer perfil de facebook hoje em dia. Beijar, portanto, acrescentava uma dimensão extra aos tipos de comunicação pelo cheiro.  

3. A teoria da confiança. Muitos cientistas evolutivos confiam em que os primeiros beijos (do tipo usado para cumprimentar) foram atos de confiança e proximidade. Autorizar alguém a ficar junto/beijar significaria mostrar que não havia medo de que o parceiro  mordesse ou atacasse pelas costas. Sendo entre parceiros do mesmo sexo, convenhamos,  era melhor passar por beijoqueiro do que correr o risco de comprometer o fiofó.

2. A história continua

2.1 Três mil anos A.C os adoradores já atiravam beijos a seus deuses, demonstrando que beijos não só eram praticados como jogados para o céu. A quantidade de morticínios e calamidades que se seguiam às oferendas faz acreditar que beijinhos voando não eram muito apreciados nessas alturas.   

2.2 O costume do beijo variava segundo a região e a cultura dos povos. Na Roma antiga o beijo era usado para cumprimentar não apenas amigos ou família, mas também estrangeiros com quem se cruzasse as ruas, ou até mesmo vendedores de porta em porta. Enquanto isso, no Egito mal se ouvia falar de beijos.

Acredita-se que Cleópatra, famosa por muitos e poderosos amantes romanos,  nunca os tenha beijado e talvez por isso deva  tê-los deixado a seus pés. Imagine o fogo de uma princesa que dispensava preliminares!  

2.3 Durante a idade média, na Itália, se um homem beijasse uma mulher em público tinha que se casar com ela. Como seria bom para as  casamenteiras de hoje se esse costume ainda prevalecesse: cada mulher que fosse a uma balada levaria mais de  vinte maridos para casa.

2,4.A grande praga que assolou Londres em 665 DC pôs um fim ao ato popular de beijar. O medo de pegar essa doença fatal fez com que as pessoas começassem a tirar o chapéu, curvar-se, fazer referências e apertar as mãos como novos gestos populares de cumprimento.

Qualquer semelhança aos dias que correm, caro leitor,  não é mera coincidência.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

PABLO VITTAR, O HOMEM IDEAL


 645, 

O PENSADOR POLITICAMENTE INCORRETO DA PANDEMIA 


SINCERO COMO UM NÚMERO

FATAL COMO A MATEMÁTICA 

domingo, 27 de junho de 2021

NORMALFOBIA, O MEDO DE SER NORMAL


 

Claudionor, 55 anos, é um homem normal,  tem boa saúde, tanto assim que tem resistido bem ao surto da Pandemia, mas há algo que passou a incomodá-lo de algum tempo para cá. O medo de algo.

Aprendeu que melaxofobia é medo de amar, grafofobia é medo de escrever à mão, peladofobia é medo de carícias e araquibutirofobia é medo de que a pipoca grude no céu da boca. Medo de quê? Isso mesmo, de que a pipoca grude no céu da boca. Portanto tem gente por aí que não tem medo de feminicidas (tanto assim que são soltos das cadeias com  metade da metade da pena original)  mas tem medo de que a pipoca grude no céu da  boca.

Com tanta celebridade assumindo publicamente suas fobias ( Julia Roberts tem agarofobia, que é medo de espaço aberto, David Beckam tem atoxofobia, medo de desordem e Megan Fox tem ovofobia, que é medo de ovo) Claudionor  começou a desconfiar que sua normalidade fosse anormal, o que tornou sua ida ao psicanalista uma questão de tempo.

 Isso aconteceu após ter dito , numa roda de amigos, que detestava dupla musical sertaneja. Uma mulher do grupo não se conteve, exibindo ares de pavor.

- Como? Juro que não entendi. Você não gosta de música sertaneja? Jorge e Mateus? Simone e Simaria ? Latão e Sucata?

- Tentei fazer com que meus ouvidos se acostumassem, mas desisti. É muito ruim!

-Não acredito que estou ouvindo isso! Juro que estou com medo de você!

Estupefato, Claudionor olhou ao redor pedindo um socorro que não veio. Pelo contrário, alguém o interpelou.

- Não só ela, todos nós estamos com medo de você. Como é possível alguém normal não gostar de música de dupla sertaneja?

Depois dessa Claudionor correu para o analista. A sessão,  surpreendeu pelo diagnóstico rápido e preciso

- Você está sofrendo de uma psicose moderna, pós-pandemia  Claudionor.

-Como?

- Você teve o azar de continuar normal, mesmo após tudo que aconteceu. Mas não se preocupe,  todos nós fomos infectados e   temos uma fobia

- E como se chama a minha?

- Ainda não está catalogada, mas poderíamos chama-la de NORMALFOBIA, o medo de ser normal.

- E você  aconselharia algum tipo de tratamento?

- Que tal um pouco de loucura, de vez em quando?

terça-feira, 15 de junho de 2021

FEMINICIDAS SOLTOS E À SOLTA


 




645 o Pensador Politicamente Incorreto da Pandemia 

Sincero como um número
Direto como a Matemática