sexta-feira, 29 de abril de 2016

SUA MEMÓRIA CONTRA VOCÊ





Um belo dia, você lembra de que sua memória existe. Por uma notável coincidência justamente porque começou a esquecer de muitas outras coisas. Num  dia você esquece  da chave  do seu carro, no outro da senha do seu celular,  no outro do nome de seu filho... e até, por incrível que pareça,  do seu próprio neto . Não é que você o deixou no banco de trás do carro quando saiu para comprar-lhe um game, foi tomar uma cervejinha e isso quase causou uma tragédia? Ora, como você já não é nenhum garotão desconfia que  essa sua memória tem sérios problemas e é chegada a hora do ajuste de contas. Você começa:

            “O que está acontecendo com você, Memória? De uns tempos pra cá, sinto que você está me sacaneando, me traindo.”   
             “Você não devia falar assim comigo. Sou uma anciã de respeito e cumpro com minhas obrigações na medida do possível. Na verdade não sou eu que estou falhando, mas você.”
            “Por que não me  lembrou que ontem era o último dia de pagar a conta do IPTU sem multa? Por que não me avisou que o Armando  (para quem estou devendo uma baita grana ) é flamenguista ao invés de vascaíno, deixando que lhe mandasse  aquela piada de vascaíno vitorioso no domingo? Por que me permitiu falar o nome de Valdete, minha amante, no grupo de nossa família no what’s up? Que está acontecendo, vamos,  me diga!”
            “Não posso compensar suas trapalhadas o tempo todo. Você teria que se ajudar também, nunca se preocupou comigo, nunca correu pra se exercitar, nem gostou de ler. Sequer uma palavrinha cruzada de vez em quando.”
            “Podia confiar em você no passado, hoje, claramente, não. Outro dia fui sair com a Valdete  e ela jogou na minha cara que eu estava virando broxa. Fiquei espantado, onde já se viu? Ponderei que broxar uma  única vez nunca significou impotência  e ela me jogou na cara que não tinha  sido uma só vez , porém mais de vinte. Mais de vinte? Que diabo era isso? Eu não me  lembrava desses detalhes, mas o pior é que não tive convicção, entende? Deu-me um branco, deixei-a sair com ar de vitoriosa e simplesmente por quê? Por que você não faz seu ofício direito. Assim não dá.”



                                             




            “Memória seletiva, seu ingrato! Você teria preferido que eu lhe  lembrasse seus fracassos? Obsessivo, você teria gasto sua grana, com psicanalistas, quem sabe teria tentado o suicídio. Quanta grana lhe salvei fazendo-o  esquecer tantas coisas! Seu apelido de infância era  Boca de Chuveiro , lembra? Claro que não, já que eu lhe fiz esquecer. Quer que eu lhe reviva o tempo em que você que você riu do seu tio padre, quando este estava no caixão e você se retirou para dar gargalhadas no banheiro só porque o viu pela primeira vez sem barba? Acontece que hoje, cada dia a mais em sua vida se junta a um monte de registros acumulados que eu tenho que guardar. E quem trabalha dobrado para lidar com esse lixo sou eu. É lixo demais para uma vida só!”

            “Minha vida, um lixo? Isso não vai ficar assim. Vou procurar um  médico e ele me dirá o que fazer. Ou troco de memória ou faço outra. Com você eu não fico mais.” 

            - Quantos anos você tem mesmo?
            - 55.
            - Mentira, você tem 59. E daqui a pouco tempo estará com Alzheimer. Não é você que não me quer, eu é que não quero mais seu corpo comigo. 

                                               





Bye, Ciao, Até Logo, ou Au revoir, a porta da rua é a serventia da casa!

                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

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terça-feira, 26 de abril de 2016

TEM BUM-BUM NO PALÁCIO ( e outras notícias)





NOTÍCIAS DA SEMANA

1. Programado esta semana o envio de mais dez mil bois ( em pé ) via Porto do itaqui
rumo a Ásia

O Clube das Chifreiras do Maranhão está conclamando o apoio popular para uma manifestação pelas ruas de São Luis com o fim de acabar imediatamente com isso. Em nota pública o Clube teme que:

a) Se continuarem exportando tantos bois, o que será do Clube e das Chifreiras? Vão ter que trabalhar dobrado para encontrar mais cabeças onde colocar chifres. 
b) A grana dos chifrudos acabará na mão das asiáticas.
c) Acham que o transporte dos bois  em pé é uma crueldade. Por experiência própria sabem que o chifrudo prefere ficar deitado enquanto os outros deitam com suas mulheres. 


2. Prefeitura do Rio briga com a Construtora que fez a ciclovia Tim Maia que desabou semana passada no Rio sob o impacto de uma ressaca das ondas do mar. Ambos se acusam mutuamente pela responsabilidade da tragédia.

Baseado no que acontece no Brasil tudo indica que a Justiça em breve encontrará o culpado.
TIM MAIA. Comentário explicativo dos engenheiros da perícia técnica.


                                       




"Os cálculos e o projeto estavam bem dimensionados e se alguma falha aconteceu foi do gordo Tim Maia. Acostumado a não cair com ressaca de cocaína, que é muito mais forte, não deveria tombado por causa de uma ressaca de água."  

3. Ex Miss Bum-Bum , mulher do novo Ministro do Turismo, faz ensaio no gabinete do Ministro, no palácio da Alvorada.
Comentário dos analistas dos indicadores políticos e econômicos.


                                 





"Não resta dúvidas de que o Governo agora  começa a Melhorar.
Se até agora era  merda abundante pra todo lado, agora, pelo menos há uma bunda abundante na frente de tanta merda"





sábado, 23 de abril de 2016

O MELHOR DE TODOS OS LIVROS





artigo publicado hoje, no jornal
o Estado do Maranhão


Jose Ewerton Neto, autor de O oficio de matar  suicidas

            Para isso existem competições, torneios e copas: para escolher o melhor, entre os melhores. Só existe um campeão indiscutível quando ninguém seria capaz de fazer melhor que este.
            Dia 23, comemora-se o Dia Internacional do Livro (data de falecimento de dois grandes escritores Miguel de Cervantes e  William Shakespeare). Também se celebra, este ano,  o quarto centenário do falecimento do autor de Don Quixote. Lembro de que dez anos atrás cem consagrados escritores de diferentes países dedicaram-se a uma complicada tarefa: escolher o melhor livro de todos os tempos. Difícil, não? Isso não se resolve, como no futebol, com uma Liga dos Campeões. Aqui não há gol, não há atacantes e nem juízes. Ana Karenina de ponta-esquerda? Madame Bovary de centroavante, Capitu de goleira? Certamente, os “gols” de seus autores não seriam marcados por eles, mas pelos seus personagens e os melhores seriam aqueles que muito tempo depois da morte de seus criadores  continuam vivos na memória das sucessivas gerações de leitores que os perpetuam.
            Nem precisa dizer qual foi o escolhido. 

                                              



Ele, o nosso velho conhecido, aquele que povoou os melhores dias de nossa infância de riso e curiosidade, o amigo íntimo e “abilolado” de todas as crianças, o cavaleiro da triste figura, o nobre fidalgo Don Quixote de la Mancha. Sempre acompanhado do seu fiel escudeiro Sancho Pança.
            Quem nunca leu o livro não sabe o que perdeu, mas isso não significa que jamais os tenha visto. Um: Don Quixote, alto, magro, culto, idealista e sonhador, ansioso para mostrar sua valentia, se for preciso, duelando até com moinhos de vento. Outro: Sancho Pança, generoso e rotundo, ignorante, realista e pragmático, fiel ao seu patrão a ponto de segui-lo em sua delirante epopeia no mundo da fantasia. Estão, ambos, na nossa vizinhança, na escola, no trabalho (é só querer reconhece-los), porém, principalmente, dentro de cada um de nós.  Porque o que somos mais que um Don Quixote e um Sancho Pança a se contraporem em nossa consciência dividida: uma parte que tenta emoldurar o sentido da nossa vida transformando-a em momentos de ilusão, e  uma  outra,  que nos chama para a realidade nua e crua?                                                    



            Provavelmente, deva estar na leveza da escrita desse autor, sem rebuscamento e pretensão,  a grandeza desse romance que o torna singular e único. As comparações são inevitáveis e tantos vão dizer – sem que se possa contestar-lhes a escolha – que preferem ao Don Quixote de Cervantes, o Ulisses de James Joyce, ou Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. Ou autores como Thomas Mann, Dostoievski ou o próprio Shakespeare. São livros elogiados igualmente pelos críticos, etapas fundamentais na formação da cultura universal, mas neles falta a dose  de humor e a simplicidade presentes em Don Quixote e é isso o que o distingue. O romance de Miguel de Cervantes extrai da espontaneidade e da naturalidade, com o pressuposto de contar uma história essencial, sem sofisticações ou jogo de palavras o que pode haver de melhor na criação literária. Com isso consegue ser lido por todos mantendo mesmo nas adaptações para crianças a exuberância de sua construção lúdica, a emoção e o prazer de sedução. Daí ter sido escolhido com 50% a mais de votos que qualquer outro dos 99 livros.
                                                  


            Miguel de Cervantes, o grande campeão, merece todas as homenagens póstumas que lhe serão prestadas nesse dia. Ninguém  até hoje foi  capaz de fazer melhor

                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A BUNDA MAIS TRISTE DO MUNDO




 e outras notícias do dia 21.04.2016:

1. Frase de Yoko Ono: Meu marido, John Lennon foi a única pessoa que me aguentou. É difícil um homem entender o que as mulheres estão pensando. A maioria deles nem escuta!

Quando pediram para explicar a frase Yoko 
respondeu: 

"Quando tiramos aquela  foto nus, na década de 70
de costas para a capa do disco eu pensei: "Puxa, minha bunda ainda é mais feia e triste que a sua." Sem precisar que eu falasse, ele me deu beijo e sussurrou:
"Não tem  problema. Eu tanto entendo como aguento. 

Só assim saberão o  quanto eu te amo"


2. 4 presos cavaram túnel e deixam presídio em Rosário.

Das duas uma: Ou a moda de Pedrinhas, em São Luis,  chegou até Rosário, a 100 km de São Luis ou os túneis de Pedrinhas, (o que é mais provável)  avançaram e chegaram na cadeia do município vizinho . Será que não são os mesmos presos?

3. Uma caixa contendo recordações de Rogério Ceni está sendo vendida na Amazon por R$ 2100,00 reais. 

Comentário de Juca Bolo, dono de um bar no bairro do Angelim:
                                              






" Tudo isso? E ele não tinha parado de jogar futebol? Tem goleiro muito menos frangueiro que ele , aqui mesmo no Nordeste, que se compra por muito menos."

4. Vasco x Flamengo, em Manaus supera até Copa do Mundo.
Com ágio, filas e até procom para conseguir ingresso já bateu o recorde da copa

Comentário do mesmo  Juca Bolo, no mesmo bar:

Vasco x Fluminense, domingo passado tinha mais de 35 mil pessoas e só com a camisa do Vasco. E ainda vem pesquisa de torcida no Brasil dizer que o Palmeiras tem mais torcedor no Brasil do que o Vasco. Vai ver que fazem essas pesquisas no Alianz Parque.


quinta-feira, 14 de abril de 2016

ZIKA , DENGUE, CHIKUNGUNYA, H1N1







Artigo publicado no jornal O Estado do Maranhão,
hoje, quinta-feira

Se você ainda não teve uma, caro leitor, em breve você será convidado a se tornar hospedeiro de uma doença chamada de dengue,  ou zika, ou chicungunya ou ...
            Esta é a sua grande certeza (talvez a única) que lhe garantem neste ano de dúvidas de 2016. Quanto a  saber qual delas lhe caberá, aí é querer demais, não é? Dois diálogos abaixo, em circunstâncias  tão extemporâneas quanto reais , explicitam melhor esse estágio  de sua triste sina, caro leitor, expondo duas faces cruéis e tragicômicas dessa sua destinação de vítima, como cidadão do Brasil e do Universo.  

            1.O DOENTE EM CONSULTA

            “O que é mesmo que eu  tenho, doutor?”
            “Você acabou de dizer. Febre, dor de cabeça, dor no corpo, coceira, inquietação  e...”
            “Acho que disso eu já sabia. Queria saber era a  origem da doença  e o que devo fazer para ficar bom.”
            “Bem, como médico posso dizer com absoluta confiança e 99,5 % de certeza, primeiro  de que você foi picado por um mosquito e segundo que esse mosquito lhe causou ou Dengue, ou Zika, ou Chicungunya, ou ( taí o 0,5 % de incerteza ) uma H1N1.”
‘           “Mas...”
            “Mas o quê?”
            “O remédio que você vai me receitar não deveria ter direção certa? A pontaria do mesmo não deveria ser pelo menos igual a do mosquito que me ferrou? Como vou poder me aplicar um remédio se o senhor  não sabe exatamente o que eu tenho?”


                                                       



            “Bem, se você não se deu ao trabalho de identificar o mosquito que lhe vitimou: seu endereço, C.P.F, motivação,  carteira de ferrador etc. a medicina não pode fazer nada. Vou lhe receitar um Tylenol, que dá pra todo tipo de febre e você vai ter de esperar calmamente.”
            “Calmamente? E se as dores continuarem?”
            “Não se preocupe. Logo saberemos se estamos no melhor caminho.”
            “De que jeito? Não consigo entender.”
            “Se você não morrer até lá.”

            2. REUNIÃO NO CÉU. DEUS E SEU AGENTE PARA ASSUNTOS EXPEDITOS (São Expedito)
            “Bom Deus, sua onipotência não acha que já estaria na hora de exterminar de vez os humanos? Milhões de anos se passaram e não tivemos muito progresso com essa turma.”
            “Humanos? Quem são???!!Não me lembro deles.”
            “Estou me referindo aos humanos, também chamados terráqueos. Aqueles que vivem num planetinha chamado Terra, ao redor de um sistema de quinta categoria que chamam Solar e numa galáxia vagabunda de nome até bonito: a Via Látea.”

                                                  



            “Ah, sim, agora me lembro. Aqueles que se consideram à minha imagem e semelhança e que tantos e tantos anos depois que lhes pus no mundo não conseguiram exterminar inimigos como mosquitos, centenas de vezes menores que eles. E que de tão imundos não se livram do próprio lixo? Uma lástima!”
            “E então? Mando providenciar  um asteroide para acabar logo com eles? A verdade é que temos milhões de seres muito mais inteligentes para nos preocupar em todo o Universo. Precisamos definitivamente resolver esse  nosso problema de termos  de nos  lembrar de espécies que nem deveriam mais existir.”  
            “Não precisa, não desperdicemos asteroides. Vamos deixa-los com seus lixos e mosquitos. Logo serão exterminados por eles.”
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quinta-feira, 7 de abril de 2016

LAVA JATO X CORRUPÇÃO A JATO




                                                           


artigo publicado hoje no jornal
o Estado do Maranhão


BATALHAS DA ERA DO JATO E LAVA-JATO
Jose Ewerton Neto, autor de O oficio de matar  suicidas

“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece,  mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas...” Sun Tsu

            Na epígrafe acima retirada do livro A arte da Guerra, parece estar o grande problema: não nos damos conta de quantas batalhas nos envolvem e nos levam de roldão. Bons tempos aqueles em que as batalhas mais comuns neste Brasil eram do tipo   Vasco x Flamengo; Modernos x Antiquados, Direita x Esquerda etc. Hoje as guerras são mais sutis, plenas de nuances obscuras, quase imperceptíveis em suas sutilezas: em seus cadáveres, seus mortos e feridos com consequências imprevisíveis.
  
            LAVA-JATO X CORRUPÇÃO A JATO. No Brasil sempre foi assim: a corrupção mais rápida que a justiça. Toda tentativa de chegar junto, quase sempre foi em vão. Quando a corrupção ia de carruagem, a justiça chegava de pangaré, quando ia de trem, a justiça ia a cavalo. 

                                                 



Que não me queiram mal os juristas que a culpa não é deles: não é que a justiça ande devagar, a corrupção é que nesta terra sempre foi acelerada. Mesmo hoje, que a justiça anda mais célere, na base do lava-jato, o que se teme mais uma vez é que os corruptos, viajando de jato, acabem levando a melhor. Sim, porque , segundo a imprensa, Dilma (que adora um jatinho) começou a correr, acelerada  atrás dos votos de políticos que, tendo o rabo preso, não querem nem ouvir falar de lava-jato por temerem ser os próximos. Será que essa batalha já tem vencedor anunciado?

            CHICO NOVO X CHICO ANTIGO. Essa batalha talvez ficasse  melhor entendida se fosse nominada O que Chico dizia x O que Chico faz. Nada a ver com o Chico da novela, estamos falando é do outro, o Buarque de Holanda. 

                                                   



A batalha só começou porque (repentinamente?) os Chicos passaram a não se dar bem um com o outro, o Chico de antes com o Chico de agora. Qual deles vencerá, hein? O Chico de antes defendia os pobres, o de hoje defende a corrupção. O Chico de antes era contra a ditadura, o de hoje  é a favor da dita cuja. Chico era contra os militares (pelo menos da boca pra fora), hoje Chico é contra os procuradores da justiça (da boca pra dentro, com o indefectível uísque importado). Chico que um dia foi o Buarque de Holanda do Brasil hoje virou  só da Holanda mesmo.

            CAEMA X PREFEITURA DE SÃO LUIS. Essa batalha é maranhense e foi intensamente noticiada pela imprensa de alguns dias para cá. A Prefeitura manda tapar buracos em uma avenida, a Caema manda fazer buracos na mesma avenida. Se a Prefeitura os cria, a Caema finge que não olha, mas se a Prefeitura tapa, a Caema esburaca. 

                                                      


A batalha (ou o jogo) bastante criativo,  parece ser pela preservação da espécie vulgarmente conhecida como buracóides. Admitindo que os buracóides sejam animaizinhos que nascem, crescem, vivem e  se reproduzem como todos os outros animais, deles se diferenciam porque , ao contrário deles, se perpetuam. Dizem que existem razões políticas por detrás dessa batalha. Será? Ou será que a verdade oculta está dentro de um buraco? Também pode ser.  

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sábado, 2 de abril de 2016

CRUYFF E A MAGIA DO FUTEBOL




artigo publicado quinta-feira no jornal
o Estado do Maranhão

Jose Ewerton Neto, autor de O oficio de matar  suicidas

                Coisa de louco? Os caras se mexiam em blocos triangulares, retangulares, piramidais e quantas figuras geométricas mais fossem possíveis criar em torno de uma bola. Atônitos estavam eu,  a plateia que me acompanhava à frente de uma televisão,  e o time da Argentina que, no estádio, levava gol em cima de gol.
            Ninguém jamais havia visto coisa parecida em matéria de futebol. Não é que os onze, vestidos na cor laranja, fossem sequer fantásticos.  


                                                       

                                                  

(Fantásticos foram os brasileiros, 4 anos antes). O que havia de fantástica ali era a organização coletiva de um time executando diferentes funções sem posição pré-determinada, uma espécie “Um por todos e todos por um”. Quem executava esse ‘concerto’ era a  Holanda, que se sagrou vice-campeã da Copa de 1974.Poucos se deram conta que ali se iniciava uma revolução na concepção da prática do futebol tradicional, a mais importante, e, talvez, a última.
            40 anos depois desse episódio, semana passada, eis que morre Johan Cruyff que se tornou símbolo dessa equipe, justamente por ser aquele que estava mais perto do genial,  mas sem chegar a sê-lo (Sim, porque ser gênio é para pouquíssimos: Pelé, Garrincha, Maradona e, agora, Lionel Messi). Nesses 40 anos  toda a evolução futebolística acontecida foi, de uma forma ou de outra, consequência dessa, num esporte cuja maior sedução para as plateias não está a  reboque de aprimoramentos científicos de capacitação física , mas sim na capacidade de um mais fraco vir a ganhar do mais forte, para delírio e satisfação de desvalidos e marginalizados.  Somente no futebol poderiam ter sido gênios  atletas aleijados como Garrincha ou baixotes atarracados como Diego Maradona.
            Pois Johan Cruyff encarnou e simbolizou o que pode ser feito em termos de organização tática para o atingimento da vitória, com plasticidade e beleza, mesmo  sem as jogadas típicas dos talentosos. 


                                                  



A interpretação do que estava ocorrendo, porém, uma encruzilhada com apenas duas opções de entendimento, viria a ter consequências salutares para uns (os europeus), e desastrosas para nós, brasileiros.
            Enquanto os  cinturas duras europeus enxergaram no aprimoramento tático a forma de superarem suas limitações de talento, técnicos brasileiros vindos do Rio Grande Sul, especialmente depois do fracasso brasileiro na copa de 1982, aproveitaram para tomar conta da ‘intelligentsia’ futebolística nacional,  inserindo a filosofia do futebol de resultados oriunda desse estado: de vitórias obtidas à custa de pancadaria, com ênfase na tão famosa garra gaúcha, para esconder um futebol de brutamontes. Foram expoentes nessa disseminação o tosco Felipão e o limitado Dunga (desde quando jogador). Castrou-se  paulatinamente o surgimento de jogadores notáveis e partiu-se rumo ao maior fracasso do futebol brasileiro em  todos os tempos; perder de 7 a 1 em sua própria casa.
            Se fossem menos arrogantes esses técnicos teriam buscado aprender com o próprio Cruyff  que,  considerando-se um admirador do futebol brasileiro,  lamentava  que  num país onde nascem tantos talentos, se praticasse, hoje, um futebol sem beleza e sem vitórias. Então, esses obtusos senhores parodiariam a famosa frase de Che Guevara ensinando, por sua vez, aos seus jogadores: “Hay que endurecerse, pero sin ‘perder a ternura e a beleza do futebol’ jamais”.
                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com
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segunda-feira, 28 de março de 2016

TRÂNSITO LOUCO ( OU MELHOR, MANÍACO)

artigo publicado na seção Hoje é dia de...
Caderno Alternativo, jornal o Estado do Maranhão,


 VERAS, O TRANSIMANÍACO

Veras nunca soube – e talvez jamais saiba – que se transformou num transimaníaco. Que diabo é  isso? Vá lá, a síndrome que se apossou de Veras ainda não foi reconhecida pela ciência médica, mas Veras (isso a gente tem certeza) é uma vítima notória das obsessões do trânsito. Transimaníaco, pois,  é um neologismo que tenta nomear o aparente desvario humano diante dessas obsessões.
            Tudo começou quando Veras, que é motorista de táxi,  tornou-se especialista num jogo que ele mesmo deve ter inventado: adivinhar a causa do próximo e indefectível engarrafamento: “Esse tem cara de que foi uma moto. ” Ou “claro que  é gente da prefeitura, querendo mostrar que estão trabalhando” ou “ uma carroça”,   “atropelamento de pedestre”, “dono da rua esquecido no celular, dentro do carro”, etc. etc. Sua ‘brilhante’ ideia deve ter começado como uma forma de passar o tempo diante dos engarrafamentos , para se distrair sozinho , até que...




                                                         





            Soube disso quando coisa de  dois meses atrás combinei com ele uma corrida até o aeroporto. Avisei-o: “Vá pela  Africanos, para chegarmos mais depressa.” “Nada disso, vamos pela Jerônimo de Albuquerque, sei o que eu tô fazendo.” Estranhei mas não disse nada, afinal, o ‘especialista’ era ele. Como era de se esperar deparamos com um puta de um engarrafamento. Estranhamente, seu estado de euforia prevalecia sobre minha chateação. De repente, ordenou: “Vamos apostar” “Como, apostar o quê?” “Aposto que é guarda  fazendo blitz” “Não posso acreditar , a uma hora dessas, nessa avenida ” Ele fez que não ouviu: “Se for guarda fazendo blitz você me paga a corrida em dobro, se a causa for qualquer outra coisa você não me pagará  nada.”  Devo confessar que até eu fiquei ansioso para ver que bicho ia dar.

            Era uma blitz mesmo. Ele vibrou como se estivesse comemorando um gol do Sampaio, nosso time. A coisa só desandou quando fui pagar a corrida e ele me contestou: “Tá faltando mais grana, a corrida foi em dobro” “Como é que é?”, retruquei  abismado. Ele, com a maior cara-de-pau: “Você vai pagar em dobro, fizemos uma aposta e você perdeu” “Que diabo de aposta, Veras, pensei que fosse brincadeira.” “Brincadeira? Passa já a grana, compadre, apostas, apostas, amigos à parte” Enquanto discutíamos,  o risco de perder o vôo aumentava. Paguei  uma corrida e meia alegando falta de dinheiro, o que não era mentira, e ele saiu bufando, cantando pneus  e me xingando.

               Cerca de um mês depois, com meu carro na oficina e sem ter a quem recorrer,  liguei para Veras. Quem atendeu foi a esposa. Agoniada, ela me informou que Veras aparecera com o carro batido, graças a um acidente provocado por ele mesmo. Candidamente Veras lhe explicara ao chegar  em casa, sem o carro,   que provocara um engarrafamento na avenida, frustrado porque passara duas horas sem que tivesse havido um só acidente e ele  precisava se divertir. Dá pra acreditar? Diante do seu nervosismo disse-lhe que tinha um amigo psicanalista, Túlio, e que, provavelmente  ele iria nos indicar um rumo a seguir.  

            Antes mesmo que  procurasse Túlio o encontrei, por coincidência, no Shopping Tropical. Chamei-o para um chope rápido ele aceitou e começamos a bater papo. Contei-lhe sobre Veras e ele nem se espantou com isso: “Acredite, o trânsito é mesmo coisa de louco, tem gente muito  pior” “Quer dizer então que nem adianta o Veras  te procurar, que isso nem chega a ser doença e que  não existe remédio?” “Que doença, amigo, o sujeito hoje em dia para ser considerado louco só se for louco de pedra , e quer saber de uma coisa? Eu mesmo, quando estou no trânsito a coisa que mais me dá prazer é tentar adivinhar o que está travando o fluxo, adiante. E não sou só eu. Ou você nunca reparou que depois de horas num engarrafamento todos param diante do acidente e ficam contemplando o que aconteceu, como se não tivessem o que fazer? É uma forma legal de se distrair. Talvez, a única”.





                                                        






            Olhei para Túlio tentando descobrir se detectava algum sinal  de psicopatia em sua face. Desisti. Tudo parecia normal em suas atitudes quando nos despedimos. “Tá de carro?”, ele  perguntou” “Não, tá na oficina” “Vai pra onde?” “Tô indo pra Cohab” “Ora, te dou uma carona, vamos pela Jeronimo de Albuquerque. O celular informa que  faz duas horas que o trânsito por lá flui normalmente ” “Opa, ainda bem!”, disse, agora animado para pegar a carona.  “ Não, não se trata disso, é que...Se faz duas horas sem acidente, pelo que se conhece dessa avenida, nos próximos quinze minutos tem tudo para pintar  um engarrafamento daqueles. Já pensou que barato? Poderemos apostar sobre a causa e nem vamos sentir o  tempo passar. “
            Dei meia volta, fiz de conta que lembrara algo urgente, Inventei uma desculpa e fui embora: iria de táxi, de ônibus, de carroça ou até andando, se fosse o caso. Já pensou se eu começasse também a gostar da coisa?



                                                       






            Resolvi tomar mais um chope enquanto me acalmava. Pelo menos por algum tempo, enquanto durou o efeito do álcool, parei de ver em todo mundo que por ali circulava,  um transimaníaco.

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quinta-feira, 24 de março de 2016

O LATIM DO LAVA JATO





artigo publicado hoje, no jornal
O Estado do Maranhão


Se os acusados do lava-jato soubessem latim nem precisariam ter apelado para palavras como acarajé e outros códigos. Ninguém ia entender mesmo e ainda passaria uma impressão de erudição bem melhor que os “Vão tomar no c...” que fizeram a festa das gravações. Vejamos como o latim, bem empregado,  cairia melhor em muitas das situações em que eles se meteram.

            1.”Ad libitum”, significa “À vontade”. Podia ter sido dito pelos executivos  da OAS à Lula e sua família diante do badalado Sítio  de Guarujá: “O sítio é todo seu, Lula. Ad libitum!”

                                                 


            2.”Alea jacta est”, significa “A sorte está lançada.”, e foi dita por Julio Cesar, imperador de Roma. Emprega-se quando se está diante de uma empreitada imprevisível. Dilma poderia ter usado essa expressão, antes de propor o ministério da Casa Civil à Lula, ao que este bem poderia ter respondido: “Se a sorte está lançada, a jararaca está pronta para abocanhá-la.”

            3.”Cogito ergo sun”, significa “Penso, logo existo.” É a frase mais famosa do filósofo francês René Descartes na qual se confirma a existência a partir do ato de pensar. Os advogados de Dilma, aliás, já estariam pensando em utilizar essa máxima se a presidenta, mais tarde, for condenada. O argumento é: “Se quem pensa, existe, então quem não pensa,  como Dilma, não existe” e, portanto, jurídica e filosoficamente, ela não poderia ser condenada.
                                                


            4.”Errare humanum est”, significa “Errar é humano”. Com tantos erros cometidos nesse episódio, causa espécie  que ainda não tenha aparecido alguém para se socorrer com essa frase,  que cairia muito bem, por exemplo, na boca de Aécio Neves. Aécio é o próximo alvo da Lava Jato e poderia tentar se justificar dessa forma, se não fosse tão convencido, como, aliás, seus parceiros tucanos como FHC.

            5. "Ex Abrupto” significa “De forma súbita, inesperada” É o que muita gente corrupta pensa do juiz Sérgio Moro, que, para eles,  teria surgido vindo não se sabe bem de onde. “Juizinho Ex abrupto!”, é o que essa turma diria se soubesse latim, mas, como não sabe,  prefere xingá-lo de “juizinho do interior”. Mas, claro, prefeririam que ao invés de Ex abrupto Sergio Moro passasse a ser, simplesmente, Ex- Juiz Sergio Moro,

            6."Ex nihilo nihil fit”, significa “Nada sai do nada”. Essa expressão filosófica subentende que tudo do Universo saiu de alguma outra parte. Por exemplo, se aparece vapor é porque havia água, se há fumaça é porque algo se queimou. Como Lula disse, em alto e bom som, que é o único capaz de incendiar o Brasil, então os acusadores que se preparem. Se algo acontecer “Ex nihilo nihil”, certo Lula?

            7."In vino veritas”, significa “ No vinho está a verdade”, e sugere que sob o efeito do álcool as grandes verdades são reveladas. Se Lula anda dizendo que não falou o que falou não teria sido uma boa ideia, para a turma do lava-jato,  ter feito o teste do bafômetro?

            8."Ecce homo”, significa “Eis o homem”, e a frase, irônica, foi dita por Pilatos antes de entregar Jesus Cristo para os judeus.

                                                   



 Dizem as más línguas que foi usando essas palavras que Lula apresentou Dilma como sua candidata à presidência e Dilma adoraria retribui-la apresentando Lula como o novo presidente do Brasil. Lula, que já foi “Eis o cara!” na boca de Barack Obama, aceitaria de bom grado a evolução comparativa já que se considera o brasileiro mais honesto deste país. Jesus Cristo, humilde perto dele, dizia pecar noventa e nove vezes.

                                                                                                                                                                                                                      ewerton.neto@hotmail.com

quinta-feira, 17 de março de 2016

O ANTIGO CINE EDEN ( e a contadora de filmes)




Artigo publicado hoje, quinta-feira, no jornal
O Estado do Maranhão




Lojas Marisa, Rua Grande. Basta adentrar o interior da loja para perceber, no ambiente, a emanação de algo diferente que paira através da visão dos detalhes arquitetônicos singulares, escadas e plataformas.  
            Sublimado em meio a recordações, o homem pergunta à vendedora: “Você sabia que aqui houve um cinema?”, “Sim, eu sei.”, ela responde. Talvez ele aguardasse uma resposta menos óbvia, correspondendo ao deslumbramento que sentia. Ele continua: “Quantas vezes estive  aqui, na adolescência, para ver grandes filmes e grandes artistas: Pistoleiros do entardecer, Ben-Hur;  Burt Lancaster, Marlon Brando, Sofia Loren...Você conhece Sofia Loren? “Não, não sei quem é...” O homem decepciona-se, mas logo entende que é compreensível que ela não sinta nenhum orgulho especial por trabalhar numa loja onde viveram tantas belezas, destinos, histórias, sonhos e ilusões.  Entrando em empatia com suas recordações a moça compartilha: “Olhe, ali estão as fotografias dessa época!”
            De fato, em relevo junto a parede, pode-se ver  grandes fotos da época em que a loja era um cinema. O homem transporta-se novamente para o passado e percebe que jamais conseguiria transmitir, à moça, as tantas emoções que ele e tanta gente sentiram. Para isso, no mínimo,  ele precisaria ser um bom contador de histórias.

            2.A Contadora de Filmes, romance do chileno Hernan Letelier , caiu no meu Kindle há cerca de quinze dias, apenas porque estava em oferta, já que eu não tinha referência alguma da obra. Assim que li o primeiro parágrafo, revelou-se um dos melhores livros já lidos por mim sobre a sedução da sétima arte, melhor até do que o badalado (e bom) Clube do Filme. Um breve resumo da história:
            “Num vilarejo dos rincões Andinos, do Chile, a única diversão da população miserável são as sessões cinematográficas de um improvisado cinema, em condições precárias de projeção. Uma garota de 13 anos, ao assistir as sessões  e transmiti-las para o pai, inválido, logo descobre um inusitado talento que, aos poucos,  se propaga para a vizinhança. Ela consegue entreter pequenas plateias, graças ao seu talento de atriz e, logo,  sua interpretação narrada dos filmes por ela assistidos se tornam sessões tão concorridas quanto as do cinema, possibilitando a inválidos e aos que não têm dinheiro para pagar a bilheteria, ter acesso ao maravilhoso mundo dos filmes. Tão talentosa é a garota,  e tão perfeita e eloquente a sua identificação com a arte que transmite, que se torna a grande atração paralela da cidadezinha.
            Infelizmente, porém, com a súbita chegada da primeira televisão ao povoado, seu sucesso esvaece acompanhando a derrota das sessões cinematográficas. Precocemente, seus sonhos de atriz desmoronam acompanhando a sua derrocada física como mulher, de novo perdida num deserto de emoções, futuros  e esperanças”.
            A Contadora de filmes surgiu-me, assim, um inesperado, belo e cativante texto sobre a sedução da arte cinematográfica, jamais vista em outro romance.
            Só almejaria possuir um tantinho do talento da Contadora de Filmes, de Letelier, para conseguir reproduzir à vendedora das Lojas Marisa 



                                                             





um pouco das emoções que um dia foram capazes de sentir aqueles que - no mesmo local onde ela trabalha hoje-, frequentaram, um dia, a plateia do Cine Éden  em todo o seu apogeu.

                                                                                  ewerton.neto@hotmail.com                                                                        http://www.joseewertonneto.blogspot.com