sábado, 27 de março de 2010

DE EX-LEILAS A EX-TESSÁLIAS

Texto publicado em O Estado do Maranhão,
hoje, sábado, seção Hoje é dia de...



DE EX-LEILAS A EX-TESSÁLIAS


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com




Estava outro dia em frente a uma banca de revistas, especialista em revistas novas e usadas quando deparei com duas Playboy, próximas, que apresentavam na capa, em uma delas a foto de Leila Lopes e no outro a de Tessália Serighelli. A de Tessália, ex BBB, é a ultima edição da revista e a outra, de 97, ainda em bom estado. Curiosamente, nas duas, a foto de capa não tinha apelo erótico, mas apresentava apenas o rosto das duas mulheres.
A revista mais antiga, com Leila Lopes, exibia o retrato de uma mulher bonita, mais para o lado cândido – na época ela criou fama como professorinha, na novela O rei do Gado. Talvez estivesse aí a fonte de insinuação erótica: a sensual fêmea escondida por trás da aparente ingenuidade da professora, a ser investigada nas páginas internas, um prato para preencher as fantasias masculinas. No ensaio, ela faz força para executar muito bem o seu papel de prostituta.
( Prostituta? Talvez os leitores considerem esse termo muito forte, afinal de contas, posar nua não é suficiente para caracterizar uma prostituta. Ou não? Recorrendo ao dicionário Larousse vemos que prostituta é aquela que se prostitui, sendo prostituir o ato de fazer algo conflitante com os próprios valores, por dinheiro; degradar-se ou aviltar-se. Portanto, o cronista está correto, mas esse não foi o motivo de ter escolhido propositadamente o termo, mas sim, o de aproveitar o ensejo para extrair daí uma verdade: estamos numa sociedade onde o que choca não é a atitude, mas a palavra ou a circunstância em que se fala. ) Voltando ao ensaio, ele é bonito, mas nada extravasa em termos de luxúria: Leila não tem o apelo erótico de uma Juliana Paz, por exemplo. Decididamente, estava mais para professorinha do que para vulcão sexual. Estou falando dela no passado, porque... Será que alguém se lembra dela? No fim do ano passado, morreu. Suicidou-se.
Já Tessália, que agora povoa o batalhão das celebridades sexy, ao exibir também sua nudez por dinheiro, tem em comum com a outra uma aparência doce. Seu ensaio resulta no que os especialistas chamariam de competente, porém, pouco sedutor. Assim como a primeira, Tessália apenas tenta cumprir o seu papel de subir na vida às custas de sua razoável beleza. Para isso tem um blog na Internet, para isso se candidatou ao BBB e se imbecilizou em companhia de gente estranha e estúpida, para isso rolou pelas camas com os machos, para isso se sujeitou a ouvir insinuações de um picareta chamado Pedro Bial. “Jogo da vida”, ela diria, o que, para ela, é suficiente para cumprir a sina que povoa o imaginário da maioria: Ser bonita, cavoucar celebridades pela Internet, cair num reality-show, posar nua, faturar uma grana, virar ex-BBB para o resto da vida e...
Não, não sejamos mórbidos ao imaginar que Tessália possa ter, um dia, o mesmo destino da outra. Suicidar-se um dia? Como e por quê? Para quê? Por que uma mulher bonita tentaria contra a própria vida? Não, decididamente Tessália não tem motivos, posou para a Playboy, vai virar Ex BBB, aconteça o que acontecer, pelo menos, terá a felicidade medíocre, de tantas.
E, no entanto, pelos mesmos motivos, quem pensaria, na época, que Leila Lopes se mataria? Que fã conceberia que ela um dia faria isso, aos quarenta e um anos, ainda bonita. Quem poderia explicar sua atitude? Lembro de alguns detalhes da carta que escreveu, antes de sua morte, e que li, numa revista: falava em Deus, dizia que não se suicidaria por necessidade financeira, mas por cansaço. Estava simplesmente cansada da vida e agora queria Deus. Apenas isso.
Não explicou, porém, porque razão precisaria morrer para chegar ao deus que, agora, ansiava. Entre uma das razões aventadas pelos amigos mais próximos para explicar sua atitude uma delas é a de ter feito, pouco antes de sua morte, um filme pornô. Depois disso, alijada do cenário artístico global, passou a sofrer uma condenação moral implícita no ambiente onde ainda queria sobreviver, o que a fragilizou definitivamente.
Donde se conclui que o mesmo meio que estimula o sexo
desenfreado em suas novelas, que mostra cenas de sexo em público nos seus reality shows, que exibe piadas obscenas para crianças, e que (ao mesmo tempo em que condena) insinua a pedofilia através de gestos e danças eróticas de crianças; esse mesmo ambiente repudia aqueles que assumem abertamente a “coragem” de se prostituir. Ou seja, estimular a prostituição e incentivar a pedofilia e outras aberrações sexuais é permitido, mas ter a coragem de assumi-las é condenável. Tal hipocrisia é do mesmo teor do comportamento da sociedade que, no passado, fechava as casas de prostituição que se intitulassem rendez-vous, admitindo as que passaram a se intitular motéis, que proliferaram do mesmo jeito.
Resta desejar que Tessália, a nova iniciante, a bem de nunca se suicidar, conviva naturalmente com as possibilidades do meio que escolheu, e que aprenda cada vez mais a ser hipócrita. Que não assuma jamais diante da própria filha que foi prostituta num programa de baixo nível, e que entenda definitivamente que o meio televisivo, que escolheu para subir na vida, é uma religião que não admite verdades. Assim como a Rede Globo sequer fez menção à sua ex-artista quando morreu, homenageando-a ou tendo uma breve compaixão pelo seu destino, que Tessália continue a ter vergonha também da realidade e conviva naturalmente e para sempre, (como tanta gente faz e gosta) sob a divindade da ilusão e da hipocrisia.



DE EX-LEILAS A EX-TESSÁLIAS


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com




Estava outro dia em frente a uma banca de revistas, especialista em revistas novas e usadas quando deparei com duas Playboy, próximas, que apresentavam na capa, em uma delas a foto de Leila Lopes e no outro a de Tessália Serighelli. A de Tessália, ex BBB, é a ultima edição da revista e a outra, de 97, ainda em bom estado. Curiosamente, nas duas, a foto de capa não tinha apelo erótico, mas apresentava apenas o rosto das duas mulheres.
A revista mais antiga, com Leila Lopes, exibia o retrato de uma mulher bonita, mais para o lado cândido – na época ela criou fama como professorinha, na novela O rei do Gado. Talvez estivesse aí a fonte de insinuação erótica: a sensual fêmea escondida por trás da aparente ingenuidade da professora, a ser investigada nas páginas internas, um prato para preencher as fantasias masculinas. No ensaio, ela faz força para executar muito bem o seu papel de prostituta.
( Prostituta? Talvez os leitores considerem esse termo muito forte, afinal de contas, posar nua não é suficiente para caracterizar uma prostituta. Ou não? Recorrendo ao dicionário Larousse vemos que prostituta é aquela que se prostitui, sendo prostituir o ato de fazer algo conflitante com os próprios valores, por dinheiro; degradar-se ou aviltar-se. Portanto, o cronista está correto, mas esse não foi o motivo de ter escolhido propositadamente o termo, mas sim, o de aproveitar o ensejo para extrair daí uma verdade: estamos numa sociedade onde o que choca não é a atitude, mas a palavra ou a circunstância em que se fala. ) Voltando ao ensaio, ele é bonito, mas nada extravasa em termos de luxúria: Leila não tem o apelo erótico de uma Juliana Paz, por exemplo. Decididamente, estava mais para professorinha do que para vulcão sexual. Estou falando dela no passado, porque... Será que alguém se lembra dela? No fim do ano passado, morreu. Suicidou-se.
Já Tessália, que agora povoa o batalhão das celebridades sexy, ao exibir também sua nudez por dinheiro, tem em comum com a outra uma aparência doce. Seu ensaio resulta no que os especialistas chamariam de competente, porém, pouco sedutor. Assim como a primeira, Tessália apenas tenta cumprir o seu papel de subir na vida às custas de sua razoável beleza. Para isso tem um blog na Internet, para isso se candidatou ao BBB e se imbecilizou em companhia de gente estranha e estúpida, para isso rolou pelas camas com os machos, para isso se sujeitou a ouvir insinuações de um picareta chamado Pedro Bial. “Jogo da vida”, ela diria, o que, para ela, é suficiente para cumprir a sina que povoa o imaginário da maioria: Ser bonita, cavoucar celebridades pela Internet, cair num reality-show, posar nua, faturar uma grana, virar ex-BBB para o resto da vida e...
Não, não sejamos mórbidos ao imaginar que Tessália possa ter, um dia, o mesmo destino da outra. Suicidar-se um dia? Como e por quê? Para quê? Por que uma mulher bonita tentaria contra a própria vida? Não, decididamente Tessália não tem motivos, posou para a Playboy, vai virar Ex BBB, aconteça o que acontecer, pelo menos, terá a felicidade medíocre, de tantas.
E, no entanto, pelos mesmos motivos, quem pensaria, na época, que Leila Lopes se mataria? Que fã conceberia que ela um dia faria isso, aos quarenta e um anos, ainda bonita. Quem poderia explicar sua atitude? Lembro de alguns detalhes da carta que escreveu, antes de sua morte, e que li, numa revista: falava em Deus, dizia que não se suicidaria por necessidade financeira, mas por cansaço. Estava simplesmente cansada da vida e agora queria Deus. Apenas isso.
Não explicou, porém, porque razão precisaria morrer para chegar ao deus que, agora, ansiava. Entre uma das razões aventadas pelos amigos mais próximos para explicar sua atitude uma delas é a de ter feito, pouco antes de sua morte, um filme pornô. Depois disso, alijada do cenário artístico global, passou a sofrer uma condenação moral implícita no ambiente onde ainda queria sobreviver, o que a fragilizou definitivamente.
Donde se conclui que o mesmo meio que estimula o sexo desenfreado em suas novelas, que mostra cenas de sexo em público nos seus reality shows, que exibe piadas obscenas para crianças, e que (ao mesmo tempo em que condena) insinua a pedofilia através de gestos e danças eróticas de crianças; esse mesmo ambiente repudia aqueles que assumem abertamente a “coragem” de se prostituir. Ou seja, estimular a prostituição e incentivar a pedofilia e outras aberrações sexuais é permitido, mas ter a coragem de assumi-las é condenável. Tal hipocrisia é do mesmo teor do comportamento da sociedade que, no passado, fechava as casas de prostituição que se intitulassem rendez-vous, admitindo as que passaram a se intitular motéis, que proliferaram do mesmo jeito.
Resta desejar que Tessália, a nova iniciante, a bem de nunca se suicidar, conviva naturalmente com as possibilidades do meio que escolheu, e que aprenda cada vez mais a ser hipócrita. Que não assuma jamais diante da própria filha que foi prostituta num programa de baixo nível, e que entenda definitivamente que o meio televisivo, que escolheu para subir na vida, é uma religião que não admite verdades. Assim como a Rede Globo sequer fez menção à sua ex-artista quando morreu, homenageando-a ou tendo uma breve compaixão pelo seu destino, que Tessália continue a ter vergonha também da realidade e conviva naturalmente e para sempre, (como tanta gente faz e gosta) sob a divindade da ilusão e da hipocrisia.



sábado, 20 de março de 2010

DOENÇAS MUITO ESTRANHAS ( OU NEM TANTO)

Texto publicado no jornal O Estado do Maranhão,
hoje, sábado, seção Hoje é dia de...

DOENÇAS MUITO ESTRANHAS ( OU NEM TANTO )


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com


Nestes dias de gripe A, uma pesquisa do jornal australiano Sydney Morning Herald relacionou dez das síndromes mais estranhas que atingem o ser humano. Todas essas doenças existem e mobilizam médicos e pesquisadores na busca de uma cura. Curiosamente, porém vê-se que a maioria delas já aconteceu no Brasil ou, pelo menos, alguma equivalente.

1. Síndrome do Sotaque Estrangeiro – Provocado por uma lesão no cérebro, o distúrbio faz com que suas vítimas passem a falar com sotaque – na maioria dos casos as vítimas sequer conhecem o novo idioma. Um dos casos mais recentes ocorreu em 2006, quando a britânica Lynda Walker sofreu um infarto e acordou falando inglês com sotaque jamaicano.
Doença muito semelhante ocorre com muitos brasileiros. Basta viajarem para o exterior: Paris, Londres, Nova Iorque etc. para propagar esse fato e ostentar – com sotaque interiorano - detalhes da viagem como se isso não fosse um fato tão corriqueiro hoje em dia. A doença não lhes permite perceber que num mundo tão globalizado como o de hoje, onde as diferenças culturais não são mais tão marcantes, nada justifica tanto alarde. Algum tempo atrás a televisão exibiu um desses doentes em visita ao exterior “chorando” de emoção porque estava vendo neve pela primeira vez na vida. Isso enquanto os de lá “choram”, mas de raiva, já que a neve, para eles, não passa do nosso equivalente em lama e aporrinhação.
Aparentemente, nossos doentes não se deram conta ainda que sofrem
desse mal, embora não se possa dizer que sofram da síndrome do sotaque estrangeiro, mas sim do complexo do sub-desenvolvido, ou do vira-lata, de que falava Nelson Rodrigues.

2. Síndrome da mão estranha. Em inglês “alien hand syndrome” ( síndrome da mão alienígena). Quem é acometido por essa doença vê uma das mãos ganhar vida própria. Os efeitos da falta de controle sobre a mão podem ser reduzidos dando a ela uma tarefa qualquer, como segurar um objeto.
Consta que alguns políticos, envolvidos com o mensalão, tentaram justificar a rapinagem do dinheiro público, apresentando-se como vítimas dessa doença. ( No caso, a anomalia teria acontecido, pela incapacidade de controlar as próprias mãos, todas as vezes em que sentem cheiro de dinheiro por perto.)
O Ministério Público ainda não se pronunciou a respeito, tanto é assim
que eles continuam à solta, mas e você? O que acha disso, caríssimo leitor?

3. Maldição de Ondina. Ondina é a ninfa das águas na mitologia pagã européia. As vítimas dessa doença perdem o controle da respiração, esquecendo-se de respirar e, muitas vezes, morrem sufocadas. Alguns, preventivamente, têm de dormir com um ventilador. Descoberta há 30 anos a síndrome registra cerca de 400 casos no mundo.
No Brasil o equivalente de maldição de Ondina não faz o doente perder o controle da respiração, mas do ouvido. Nossos doentes, se esquecem de pensar e, com o ouvido deteriorado, invadem as ruas com sons a decibéis de dar em doido. Somente através da doença se conseguiu finalmente explicar como a barulheira infernal não lhes corrompe os tímpanos. O que nunca vai dar para explicar é a perda da noção de que nem todo mundo está com o ouvido suficientemente atrofiado, para se deleitar com a parafernália.

4. Síndrome de Cotard. Espécie de depressão extrema que leva o doente a acreditar que já morrreu, e que todos ao seu redor também são cadáveres. Em casos extremos o doente pode até ter a impressão de sentir sua carne apodrecendo, e vermes passeando pelo seu corpo.
Especialistas julgam que o primeiro caso da síndrome de Cotard aqui no Brasil pode estar ocorrendo com a famosa atriz Suzana Vieira. Crente de que já morreu e que não tem satisfação alguma a dar ao mundo dos vivos ela deve ter a impressão de que sua carne está apodrecendo ( ver fotografias recentes). Daí o seu esforço em enganar a si própria, cometendo cada vez mais bizarrices, como a de rebolar seus oitenta anos, de forma grotesca, no carnaval. Uma razão adicional para acreditar que ela sofre mesmo da síndrome de Cottard é a de que ela realmente sente os vermes passearem sobre o seu corpo. Recorde-se de que, para os moralistas, um gigolô não passa de um verme.

5. Síndrome da redução Genital – Também conhecida como Koro, esse distúrbio mental deixa a pessoa convencida de que seus genitais estão desaparecendo. Em Cingapura, 1967, o serviço local registrou centenas de casos de homens que acreditavam que o seu pênis estava sumindo. No Brasil, um caso foi registrado no Instituto de Psiquiatria da USP, quando o doente, tentou se matar com duas facadas.
Como são as coisas! Na Cingapura centenas de casos ocorreram, mas ninguém chegou a ponto de tentar contra a própria vida. No Brasil, bastou acontecer uma primeira vez para que alguém tentasse se matar. Parece bastante razoável, portanto, que, num surto de previdência, um deputado tenha solicitado um projeto de lei autorizando a distribuição gratuita de viagras para a população. Dessa forma, estaria plenamente justificada a criação de mais uma bolsa: desta vez, o Bolsa-Aparece.

6. Síndrome de Capgras – Após sofrer uma desilusão com alguém próximo a pessoa passa a acreditar que eles foram seqüestrados e substituídos por impostores. O sintoma evolui até o ponto da vítima acreditar que ela também se tornou um farsante.
Um episódio recente, de repercussão internacional, corrobora a suspeita de que a síndrome de Capgras, infelizmente, chegou ao Brasil.
Quando Lula, um ex-sindicalista e grevista, e que já fez greve de fome, se pronunciou abertamente contra aquele que se suicidou através dela em Cuba, chamando-o de bandido, a favor de Fidel Castro, pairou a sensação de que de Lula , o ex-sindicalista, foi seqüestrado e que deve existir agora alguém muito parecido em seu lugar.
E pior, quando aceitamos tudo isso: acreditamos em Dunga e na transposição do Rio São Francisco; e suportamos Ivete Sangalo, Arnaldo Jabor e o Big-Brother, não resta a menor dúvida. Nós brasileiros, vítimas de uma gigantesca epidemia, também acreditamos que somos farsantes. Não passamos de réplicas. Nosso problema maior – Deus nos salve! - não é a gripe A, mas a síndrome de Capgras.

sábado, 13 de março de 2010

O ULTIMO ESCRITOR

Texto publicado em O estado do Maranhão,
seção hoje é dia de..., hoje, sábado

O ÚLTIMO ESCRITOR


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com



Esta cena não vai demorar a acontecer, daqui a uns vinte anos talvez, possivelmente menos. Talvez não aconteça dessa forma, mas seu contexto já está na imaginação de muita gente. Pode-se dizer que os estratos que dirigem esta nação e a imensa maioria do povo age como se isso já estivesse acontecendo.
- Mãe, o que é aquilo mãe?
O filho, aflito, aperta com intensidade a mão da mãe, e contempla alguém não identificado, um personagem sim, mas em tudo estranho aos seus olhos. Estamos num parque e o tal personagem está sentado num banco, com um ou dois livros do lado, escrevendo num caderno. O pequeno, assustado, parece se incomodar muito com isso.
- Sei não, filho, mas acho que é um escritor. Deve ser o mesmo que me parou outro dia na rua para me vender um livro. Que audácia! Quem vai gastar seu dinheiro com livro?
- Como? Escritor? Que é isso, mãe?O que é aquilo que ele segura? O que faz?
- Pare de fazer tantas perguntas bobas, menino!
Num ato impulsivo de curiosidade, próprio das crianças, o menino faz um gesto em direção do homem.
- Cuidado! Calma, menino! Não chegue perto, jamais chegue perto de um homem desses. Não falei que se trata um escritor?
- Sim mãe, mas o que é escritor? Veja, ele não tem cara de quem faz mal a alguém.
- Como não? Já te falei muitas vezes, não vou mais te repetir: Cauã!, fuja de quem faz coisas estranhas. Esse homem escreve, deve escrever muito Ele lê muito, passa o dia escrevendo. Por quê? Para quê? Isso é muito esquisito, filho, por que ele não procura outra ocupação? Se gosta tanto assim de ler, por que não se tornou um professor ? Por que não estudou para ser médico? E se não tem dinheiro para pagar faculdade porque não vai ser guardador de carro, que dá muito mais dinheiro?
- Ele é um vagabundo, então?
- Se não é, faz tudo para ser. O que pode pretender uma pessoa que passa o dia todo escrevendo? Não tem mulher? Não tem família? Sei que mora neste bairro porque já o vi antes. Mas nunca vi esse homem num supermercado, nunca o vi dando risadas, nunca o vi junto de um carro de som, botando conversa fora e escutando forró, como todo mundo. Certamente julga que seja bom viver desse negócio de livro. Ora, por que uma pessoa compraria um troço desses, se não serve para nada?
- Mãe, o que é mesmo um livro?
- Observe com atenção. Daqui dá para olhar.
O filho faz novamente menção de chegar mais perto para ver.
- Não vou te avisar outra vez, Cauã! Já avisei, não se aproxime dele, é perigoso.
O menino conteve-se e aguardou.
- Livro era esse negócio esquisito que ninguém mais usa. Sabia que houve tempo em que as crianças iam para a escola e carregavam um monte deles? Era feito de papel e ainda bem que hoje isso acabou. Hoje você tem e-book, tem celular, tem I-Pod. Enquanto a professora dá as lições, o aluno pode se distrair fazendo joguinhos e espiando coisas instrutivas como Big-Brother, novela, jogo de futebol. Você acredita que houve tempo que nos obrigavam a ler as histórias que vinham nesses livros e que chamavam de romances?
- Mãe, a senhora também chegou a ler algum?
- Tentei sim, era obrigada a isso, mas jamais consegui. Toda vez que tentava ler um, dormia.
- Era uma espécie de remédio, então, mãe?
- Pior, muito pior. Era uma tortura, filhinho. Os professores os usavam para nos meter medo. Tínhamos que ler histórias desagradáveis desses homens de muito tempo atrás, desses que viraram estátuas. Ora, se a gente podia ver novelas e filmes cheias de imagens, porque a gente tinha de matar a cabeça para entender essas mesmas imagens numa letra atrás da outra? Era coisa de gente perversa mesmo, de quem não gostava de criança. Queriam que a gente deixasse de escutar forró, de ver o Big-Brother, de assistir filmes, de namorar, tudo isso para ver esses livros escritos por psicopatas como esse daí. Você sabia filho? Alguns desses escritores se mataram. Teve um até que...
- Céus, como devia ser muito ruim nesse tempo, mamãe. Não deixar a gente ver Big-Brother, aquelas mulheres gostosas, não é mãezinha?
- Ah, safadinho! Sim, meu filho, era muita maldade. Mas ainda bem que o mundo evoluiu. Um dia você vai dar valor ao que a gente teve de agüentar para que as crianças do mundo de hoje...
De repente, o menino queda, extasiado, em contemplação profunda, o que interrompe a fala da mãe num quase grito
- Mãe, e agora, o que ele está fazendo?
- Filho, ele está pensando. Ele deve ter parado para pensar, é isso: parou para pensar, para refletir sobre alguma coisa.
- Para que mesmo, mãe? Refletir? Como se faz isso?
- Eu não te disse que ele é doido? Se existe tanto som para escutar, tanta gente para conversar, tanta coisa para fazer, tanta novela para assistir por que um ser humano pode pensar em pensar? Quem pode gostar de pensamento e silêncio?
- Mãe, não seria melhor chamar logo a polícia?
- Deixa para lá filho. Estamos no Brasil, eles demorariam para chegar. E depois, não precisa temer, esse é o último!


sábado, 6 de março de 2010

A ARTE DE SER CORNO

Texto publicado no jornal O estado do Maranhão,
seção Hoje é dia de...neste sábado

A ARTE DE SER CORNO


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com




A grande dificuldade de se medir o talento de um corno é saber até onde essa é uma arte sua, natural e exclusiva, ou apenas uma conseqüência do talento para botar chifres da parceira que escolheu. De forma que o talento do corno parece não se revelar apenas no ato em si, mas nas decisões que toma a posteriori.
Talentoso ou não, a ciência prova todo homem tem um potencial nato para ser chifrudo o que significa dizer que todo macho é uma cabeça à espera de um chifre, embora nem sempre tenha sido assim. Antigamente - e bote milhares de anos nisso - quando ainda éramos macacos não sabíamos que podíamos ser cornos. Mas já desconfiávamos. Segundo a teoria evolutiva todo esse ciúme, que o macho sente pela fêmea que julga sua, nasceu da impossibilidade de nossos tataravôs macacos saberem se o embrião que fazia a barriga da companheira avolumar-se era, de fato, seu. Podemos imaginar o drama. Se hoje em dia, com exame de DNA e tudo, as dúvidas persistem imagine nessa época.! (recente reportagem de uma científica atesta que, atualmente, 8 % dos filhos reconhecidos por seus pais, como seus legítimos descendentes, não o são, na realidade)
Não é de estranhar, portanto, que muito tempo depois, na idade
média, os homens tenham tentado proteger a exclusividade de seus genes com a invenção do cinto de castidade. Coitados, não conheciam, ou faziam de conta que não conheciam a primeira Lei Universal dos Cornos que diz: “não há equipamento capaz de prevenir um homem de se tornar corno” ( que é apenas uma versão – piorada - da muito popular Lei Universal da Natureza Feminina que diz: “fogo de morro acima, água de morro abaixo e mulher quando quer dar, ninguém segura”).
Cerca de oitocentos anos a mais de evolução, esse ciúme, tão instintivo e avassalador, gerou nas páginas do mestre Machado de Assis um verdadeiro tratado sobre o tema chamado Dom Casmurro. Neste romance ele relata, elegantemente, o drama de um corno chamado Bentinho, para sempre em dúvida quanto a verdade do seu gene na barriga da amada Capitu, atormentando-se por causa disso, capítulo após capítulo, sem coragem de dar a volta por cima. O certo é que, se evoluímos, passando de macacos para homens, o sofrimento, porém, continuou.
E, ao que tudo indica, nunca acabará. Nestes dias que correm,
de Internet, Big-Brother e pílulas de felicidade, uma notícia de chifre ganhou mais assunto na imprensa internacional do que a nova queda nas ações da bolsa européia. Trata-se do lateral Bridge, da seleção inglesa, que, traído pela namorada com um companheiro de time e de farra, Terry, decidiu abandonar o English Team. “Não posso usar a mesma camisa de um cara que pode ter usado as minhas camisinhas” teria dito ele, e, desde então, só se fala nisso na Europa.
O que teria acontecido, para que um acontecimento tão banal tenha adquirido tons de tragédia mundial? Parece que Bridge, ao dar uma de vítima, descuidou-se de uma das regras fundamentais do Manual Universal dos Cornos que diz: “todo chifre nasce do mesmo tamanho, mas aumenta desproporcionalmente, quanto mais se fala nele”. Por desconhecimento de uma regra elementar, o zagueiro, que se revelou um corno de raro talento ao se despedir voluntariamente da seleção, corre o risco de ficar mais famoso nessa arte que na de jogador de futebol.
Com o intuito didático de evitar que mais cornos se tornem famosos como Bridge lembraremos, a seguir, alguns itens desse manual Que este não se torne uma Bridge ( ponte, em português ) que o conduza, ao invés, para o outro lado, caríssimo leitor:

1. O sujeito que tem vergonha de ser corno deveria se lembrar que todo ser humano não passa de um corno, pois sua sina é ser traído e abandonado um dia por aquela que mais ama: a própria vida.

2. Todo homem que ama uma mulher acima de todas as coisas corre o sério risco de vê-la rapidamente abaixo das coisas do primeiro homem que aparece.

3. Numa relação homem-mulher nunca dá empate, sempre um dos dois está ganhando. Se o homem julga que sua relação está empatada é porque já está perdendo.

4. O bom corno não é mais corno não só porque o dia tenha só 24 horas, mas porque o alfabeto só tem vinte e três letras e o espelho só tem uma imagem.

5. Nunca existiu nem jamais vai existir equipamento de Proteção Individual para o corno. O melhor que já inventaram foi a camisinha, mas quem usa, quando interessa, é o outro.

6. Um corno pode ser perfeito, o não-corno jamais. Depois que inventaram a fantasia feminina não dá para escapar. Na melhor das hipóteses o sujeito toma chifre do Brad Pitt, na pior da Angelina Jolie. (ou vice-versa, com queiram).

7. O chifre foi a melhor forma já inventada por uma mulher para colocar os homens nos seus devidos lugares. Seu marido no seu (dele). Seu amante no seu (dela)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

AS ULTIMAS PALAVRAS DE ALGUÉM

Texto publicado em O estado do Maranhão, hoje
sábado, seção Hoje é dida de...


AS ÚLTIMAS PALAVRAS DE ALGUÉM


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com



A última frase dita por alguém jamais deve ser confundida com a de um epitáfio, eis que não são frases elaboradas, mas espontâneas. Diante do ignoto e do inominável, muitas vezes o ser humano expõe sua verdade mais íntima, sem artifícios. Ela pode ter sido:

Inexorável, como a de Jean Cocteau: “O gosto da morte está vindo. Sinto o sabor de algo que não é deste mundo.”

Filosófica, como a de Galois: “ Não fique triste meu irmão. É preciso muita coragem para se morrer aos vinte anos.”

Fatalista, como a de Jane Austen; “A única coisa que desejo é morrer.”

Irônica, como a de Heine: “Acho que Deus me perdoará. Afinal, esse é o seu serviço.”

Estóica, como a de Arquimedes: “Por favor, não atrapalhe minhas equações.”

Sarcástica, como a de Oliver Cromwell: “O diabo está aí para me seduzir. E eu já me sinto seduzido.”

Tragicômica, como a de Elizabeth Tudor: “Por favor, não me leve ainda. Todo o meu reino por só mais um minuto.”

Heróica, como a de Joana DÀrc “ Segure a cruz bem alto para que eu possa vê-la através das chamas.”

Patética, como a de Goethe: “Abra as persianas que eu quero ver luz, mais luz.”

Diante do que foi dito por essas pessoas, engrandecidas pela História, não custa imaginar como poderia ser , no futuro, a última frase de algumas de nossas atuais celebridades:

Madonna: “Luz, mais Luz”, mas não se referindo como Goethe, acima, a um raio luminoso, mas ao seu namorado Jesus Luz.

Suzana Vieira: “Que Deus encontre outra perua mais porralouca que eu para cuidar da minha coleção de gigolôs.”

Pelé: “Tenho que admitir que o pior presente que eu poderia ter deixado às criancinhas do Brasil não foi o meu milésimo gol, mas sim a Xuxa.”

Hugo Chaves: “Errei mas tenho uma desculpa. Para resolver todos os problemas da Venezuela nasci com muita chave no nome. E poucas na cabeça.”

Pedro Bial : “Não admito o crime de ter feito milhões de brasileiros de idiotas por causa do BBB, mas a culpa de, por dinheiro, ter me transformado no maior deles.”

Paulo Coelho: “Reafirmo que não fiz pacto nenhum com o diabo para ter vendido tanto livro ruim. Se houve algum mágico que tirou este Coelho aqui de sua cartola, só pode ter sido Deus.”

Ivete Sangalo: “Não tenho medo de nada. Se sobrevivi até hoje ao Axé, sobreviverei com certeza ao inferno, não é mesmo mãinha?”

Elton John: “Antes que seja tarde retiro o que disse. Nunca quis dizer que Cristo era gay, mas que ser gay era divino!”

José Roberto Arruda: “Diabos usam meias? Demônios usam cuecas? O que me preocupa é saber onde é que vamos esconder nosso dinheiro.”

José Serra: “Não quero que toquem o hino Nacional no meu funeral, prefiro o Hino da Bandeira para que cantem bem alto o verso que diz: “ Recebe o afeto que se enSerra em nosso peito juvenil...”
















terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

UMA QUESTÃO PESSOAL

Artigo publicado na seção Hoje é dia de...
sábado passado em O estado do Maranhão

UMA QUESTÃO PESSOAL


Jose Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com






Uma questão pessoal, soberba ou inveja: uma das três, ou as três ao mesmo tempo. Somente assim se explica porque o técnico Dunga, da seleção brasileira de futebol não convoca para a seleção brasileira de futebol o jogador Ronaldinho Gaúcho, um dos melhores do mundo na década e, ainda hoje, o mais talentoso jogador brasileiro em atividade.
A explicação dada pelo técnico não convence ninguém. Não convence os fãs africanos que gostariam de ver de perto seu ídolo, não convence seus admiradores no mundo todo e não convence ex-jogadores da estirpe de Maradona, admirador do seu futebol e incrédulo diante de sua não convocação. Primeiro, o técnico Dunga disse que o jogador precisa mostrar que o seu futebol ainda é o mesmo, para merecer a convocação. Ora, isso Ronaldinho tem mostrado de sobra, como comprovam as manchetes dos jornais europeus diante de suas últimas atuações. Não fosse por isso, porém, bastaria assistir a dois ou três lances do craque para concluir que Ronaldinho nem precisa mostrar todo o seu futebol para ser melhor do que gente do quilate de Julio Batista, Elano, Josuel, Ramires e mais uma penca, habituais “preferidos de Dunga”.

Quando contestado pelos repórteres sobre o porquê dessa fajuta decisão Dunga recorre à sua manjada tese do “amor à camisa”, talvez porque deva a ela a sua ascensão como técnico. Para quem não se lembra, Dunga estava completamente esquecido no cenário futebolístico, quando foi sacado, como um coelho, da cartola do “mágico” Ricardo Teixeira, presidente da CBF, depois do fiasco da última copa. Tentando tirar de cima dos seus ombros a responsabilidade pelos desmandos administrativos ocorridos no transcorrer da competição, Ricardo jogou a culpa nos três jogadores principais ( Ronaldo fenômeno, Ronaldinho e Kaká ) e os acusou de irresponsáveis e inconseqüentes, elegendo como contraponto para isso o burocrático e medíocre, mas esforçado Dunga, como o novo modelo a ser seguido.

Mas o que é mesmo esse tal de amor à camisa de que tanto se fala? Seria o patriotismo, de araque, que irrompe da voz de Galvão Bueno ou o entusiasmo efêmero de brasileiros, que só se lembram de ser patriotas em época de copa do mundo? Ou deveria ser o senso de profissionalismo que todo ser humano deve ter, independente da camisa que veste, a bem de sua própria realização? Ora, se Dunga está falando de profissionalismo então não deveria ter convocado Adriano, do Flamengo, que desapareceu do clube que lhe pagava na Itália para vir jogar no Rio, onde se acostumou a faltar treinos e a aparecer na hora em que bem entende. O que nos leva a concluir que argumento falho é o que não falta à boca de Dunga quando se propõe ao exercício de desprestigiar o craque do Milan, deixando transparecer toda a soberba que o norteia, por trás de sua implicância.
Soberba por quê? Talvez porque seja muito fácil ser arrogante, quando se dirige uma seleção brasileira de futebol. Trata-se, de um plantel que conta sempre com uma infinidade de craques, e que nem precisa dispor do melhor para ganhar uma Copa. Foi assim em 1962 quando nem precisou de Pelé ( havia ainda Garrincha e Amarildo) e foi assim em 2002 quando prescindiu de Romário (havia Rivaldo e Ronaldo, o fenômeno) Enfim, ao contrário do que se anuncia, ser técnico da seleção brasileira de futebol é um dos melhores empregos do mundo: ganha-se rios de dinheiro, adquire-se prestígio internacional e sua única “dificuldade” é justamente a fartura da matéria-prima. Dificuldade? Seria essa a mesma dificuldade a ser enfrentada por alguém, cuja profissão fosse a de ser milionário, e tivesse como único obstáculo o trabalho de conferir o excesso de dinheiro.
Pois Dunga já percebeu isso e, trata com indiferença o jogador do Milan, plenamente convicto de que pode ganhar a copa sem ele, o que é verdade. Para isso basta montar (como ele vem fazendo) uma equipe cheia de cães de guarda na defesa, deixando a coisa lá na frente para Kaká e Luis Fabiano resolverem. Isso, já foi suficiente em 1994 quando, mesmo jogando um futebol medíocre para os padrões brasileiros, o Brasil ganhou uma copa - nos pênaltis. Dunga, não coincidentemente, era um desses cães de guarda da seleção. Nada mais coerente que pretenda reviver, na seleção que dirige, o mesmo estilo “joga feio, mas ganha”, certo de que sua vitória representará a consagração do seu estilo.
O que faz aflorar, além de sua arrogância a sua inveja. Suas contradições mal conseguem disfarçar sua frustração por não ter tido a capacidade de Ronaldinho Gaúcho de fazer do futebol uma obra de arte. (Essa inveja tão própria da natureza humana – a do medíocre pelo talentoso, a do puramente esforçado pelo gênio – já teve sua crônica esmiuçada no filme Amadeus, quando seu diretor inspirou-se no esforçado compositor Salieri para contrapor o drama do medíocre diante do talento que a natureza sobeja a alguns poucos, como Mozart).
Não deveria esquecer, porém, de que a obrigação de qualquer técnico da nossa seleção não é apenas ganhar uma Copa, como também, faze-lo de forma incontestável, jogando bonito, sim. Assim aconteceu nas seleções de 58, 62, 70 e 2002. Ao optar por não convocar um dos melhores jogadores do mundo Dunga joga sua grande cartada, certo de que ganhará a copa jogando burocraticamente, mas dificilmente atingirá, dessa forma, a glória que almeja.
Pode até ganhar, mas não conseguirá acrescentar muita coisa ao seu
currículo. Ao confrontar craques e tentar dilapidar o estilo que fez a glória do futebol brasileiro apenas corre o risco de, como técnico, passar para a história como o jogador medíocre que sempre foi.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O ULTIMO CARNAVALESCO

Texto publicado na seção Hoje é dia de...
O estado do Maranhão, sábado

O ÚLTIMO CARNAVALESCO

Jose Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com





Chico Jardineira já decidiu: não vai brincar os quatro dias do carnaval deste ano. Para onde vai ninguém faz a mínima idéia. Embora tudo isso pareça muito esquisito, a verdade é que alguma coisa já vinha mudando no comportamento de Chico Jardineira de algum tempo para cá.
Há três anos que ele foge das grandes aglomerações carnavalescas. Nada de Madre Deus, de Litorânea, de bailes de Gala, nada. No carnaval do ano passado Chico Jardineira podia ser visto pelas ruas do bairro, sempre com uma fantasia diferente, mascarado, pulando e brincando. Sozinho. Onde houvesse uma turma de bêbados, no botequim ou no mercado, crianças vestidas de fofão, turmas de blocos de sujos, de repente, lá aparecia Chico Jardineira: festivo, alegre, dando sustos nas crianças e nos adultos, bêbado – que ninguém é de ferro –, mas sem aporrinhar ninguém.
E pensar que Chico Jardineira foi o maior folião que já existiu em São Luis. Chico era daqueles de sair de casa na quinta-feira de carnaval e voltar apenas depois da micareta de Ribamar. (Eu disse micareta? Taí uma coisa que Chico nunca aturou ) Um vez perguntou, furioso, como se tivesse levado um tapa: “Micareta? Que diabos é micareta, o nome daquilo é lava-pratos, que estão fazendo do carnaval?” Pois foi por amor ao carnaval que, ao longo de sua vida, Chico perdeu três esposas e cinco amantes. Lembram daquela música do Assis Valente sobre um cara que “vestiu uma camisa listrada e saiu por aí”? Chico era mais ou menos assim, só que não era a sua camisa que ostentava listras, mas, ao invés, seu próprio rosto, que ficava listrado de tantos lanhos que levava das mulheres, desprezadas por causa da folia.
Era, porém, irreconhecível depois do carnaval Voltar ao normal significa que Jardineira se transformava em Francisco Espósito, seu verdadeiro nome. Trocava tão radicalmente de personalidade que até hoje nunca se soube qual a verdadeira. Após o carnaval jamais era visto em festa de reggae, forró, ou qualquer outro evento musical , há quem diga até que no resto do ano virava budista. Donde se conclui que Chico Jardineira só gostava mesmo de carnaval, só se alegrava no carnaval, a sua felicidade na vida se confundia com o carnaval, tanto é assim que ele sabia cantar, de cor, todas as marchinhas carnavalescas, desde o Pelo Telefone, passando por Máscara Negra até as mais recentes, como o “Gostosa”, do Bulcão.
Pois Chico Jardineira acabou revelando algumas de suas decepções para uma amiga comum. Quando perguntado por que não freqüentava mais o circuito carnavalesco, ele explicou: “Falta alegria” “Como?” surpreendeu-se ela, “Que está dizendo? Tanta gente e falta alegria?” Ele respondeu: “ Só vejo ali gente andando de um lado para o outro, sem verdadeira animação, só conseguem dançar se botarem um trio elétrico na frente deles. Ora, alegria não se compra Se houvesse alegria espontânea não precisava o governo gastar tantos milhões para incentivar o carnaval. Tanto dinheiro deveria ser gasto era com hospitais, com a saúde pública e escolas e não para tentar entusiasmar um carnaval, onde já não há espontaneidade. ”
Agora fui eu que perguntei abismado:
- Ele disse mesmo isso?
- Disse, e disse muito mais.
- O quê?
- Que no Brasil não existe mais carnaval, que carnaval é um estado de espírito, não uma festa e que, portanto, durante seu período não era para serem executadas músicas de outros ritmos como axé, rock, forró ou o que quer que seja. Que nada tem contra o trio elétrico, mas contra as músicas que executam e que quase morre de rir quando ouviu tocarem , certa vez, no carnaval baiano, o Hino Nacional.
- Puxa vida! Quem diria... O Chico Jardineira falando isso!
- É, mas...
- Mas...
- Na verdade, quem me disse isso foi o Espósito, entende? Como você sabe, ele e o Chico Jardineira até eu tenho dúvidas se são a mesma pessoa.
Não quis esclarecer isso com o próprio Chico, mas, sábado passado o encontrei num boteco. Era o único carnavalesco, em pleno sábado magro, contrastando com uma multidão de beberrões discutindo futebol. Houve alguém que, inclusive, abriu o porta-malas do seu carro, ligou o som e elevou-o às alturas, tocando funk. Chico, fantasiado e alheio a tudo isso, parecia completamente deslocado, mas insistia nas suas brincadeiras carnavalescas, em vão. O tempo foi passando, um a um se foram, até que me vi sua derradeira companhia. Tive pena de sua solidão, bêbado diante de um copo de cerveja, depois de vê-lo cantarolar uma marchinha atrás da outra, numa ladainha que não tinha fim. Então disse:
- Chico, porque você não vai para a Madre Deus? Lá deve haver mais animação que aqui.
- Para lá eu não vou. Minha alegria é espontânea, entende? Assim como a minha tristeza de agora. Ambas são puras, sabe?
Ao contemplá-lo, todo pintado de branco, como um palhaço, era como se visse um foto dos antigos carnavais, o que, imediatamente, me fez lembrar de um elepê que tinha uma capa belíssima, com dois foliões mascarados e o curioso nome (para mim que era criança, então) de Lira de Xopotó. Como eu o via agora, tal e qual um pierrô desconsolado diante de um copo, vi também transportada, da fotografia para a realidade, uma visão esquecida dos velhos carnavais. Acho que não entendi muito bem o que ele quis dizer quando falou em pureza, alegria e tristeza, mas de uma coisa pude ter certeza: era o último carnavalesco.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

ATRÁS DA BOLSA-BANDIDO

Texto publicado ontem, sábado,
seção Hoje é dia de...

ATRÁS DA BOLSA-BANDIDO


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com



Para um estrangeiro, aqui residente há pouco tempo, nosso país poderia ser interpretado como o país das meias: o lugar onde alguns governantes enfiam o dinheiro roubado dos eleitores. Poderia ser também o país das cuecas (pelo mesmo motivo), mas poderia também ser chamado, preferencialmente, o pais das bolsas. É que, por aqui, de um tempo para cá, tem bolsa para tudo. Depois da bolsa família, já surgiu a bolsa-cultura, a bolsa-olímpiada, a bolsa-copa e, por último, o que nem todo mundo está sabendo, a bolsa-marginal. Vejamos como funciona e como você pode se candidatar a uma..

1. Primeiro, crie um pouco de coragem. Basta um pouquinho, afinal de contas, roubar é um ato muito corriqueiro por aqui e dá muito status, principalmente se o ladrão for um homem importante. (O povo brasileiro, já deu para perceber, não liga muito para esse negócio de honestidade e quanto mais é roubado, mais aprecia o político que lhe assalta)
Se você não teve tanta sorte assim, mas tem talento para a marginalidade, fique sabendo que pode contar agora com a ajuda do governo para lhe dar uma força. Com um tantinho só de coragem (que em outros paises talvez chamassem de canalhice) vá em frente.
2. Ataque o primeiro desprevenido que aparecer e roube o que ele tiver. Não precisa temer sua reação. Após seu primeiro gesto de ataque, ele já estará consciente do que se trata e, acostumado, nem fará ocorrência policial. Pegue sua grana e vá embora, tranquilamente, lembrando de que esse é apenas o primeiro passo para candidatar-se ao direito de ter sua tão ansiada bolsa-bandido.
3. Depois de já ter assaltado uns cinqüenta você estará cada vez mais perto de conseguir essa dádiva tão generosa do governo para vagabundos como você. A merda é que ainda não lhe prenderam, (polícia por aqui não foi feita para prender ladrão , mas para multar, lembre-se disso) mas não desista , vá fundo, assalte mais um, mais outro...
4. Até chegar o dia de sua grande inspiração. Escolha alguém quepoderá ser uma velhinha, um aposentado, ou uma criança, que você queira violentar. Quando algum deles reagir meta-lhe uma bala, cometa qualquer atrocidade, seja perverso, mas, desta vez, se aperfeiçoe no escândalo, e não fuja. Quer queiram quer não desta vez eles vão ter de te prender.
6. Pronto, você agora é um assassino reconhecido, está preso e terá
direito à sua tão esperada bolsa. Foi mais fácil do que você pensava, não foi? Não importa que exista por aí um defunto assassinado por você, uma família destruída, parentes revoltados... Isso é o de menos: para o governo e para as leis desse país a vítima é você, ao invés daqueles que foram brutalizados. Pode fazer agora o seu melhor ar de coitado mas se, por acaso não quiser, não se preocupe: o direito que você adquiriu por ter cometido um crime é seu, ninguém poderá tirar.
7. Agora é só correr para o abraço. Na cadeia, com alimentação de graça
e sem trabalhar, você automaticamente fará jus a uma bolsa que vai sustentar seus dependentes pelo tempo em que ficar preso. Já tinha visto grana mais fácil? São mais de setecentos reais por dependente, R$ 752,12 garantidos por lei, conforme consta em mensagem que corre na Internet, site apontado www.previdenciasocial.gov.br. Mais do que uma empregada doméstica, mais do que um comerciário, mais do que um lavrador, ou milhões de brasileiros que se acabam nas filas da previdência. Quer recompensa melhor pelo crime que você cometeu?
8. Se a burocracia aporrinhar, não esquente, talvez demore um pouco,
mas sai. Afinal de contas, é para defender os seus direitos de marginal que existem as leis brasileiras devidamente aprovadas por aqueles a quem você deu seu voto de confiança. Elas sempre estarão do seu lado, qualquer empecilho basta chamar seu advogado, porque você roubou, você matou, você fez muito por esse país. Você não passa de um bandido mas seus direitos jamais serão contestados porque , como já disse alguém há muito tempo, “este é um pais feito por bandidos, para facilitar a vida de bandidos.”

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

PARA NUNCA MAIS ESCUTAR

Texto publicado na seção Hoje é dia de...
sábado, O estado do Maranhão

PARA NUNCA MAIS ESCUTAR


José Ewerton Neto, membro da AML.

ewerton.neto@hotmail.com



Lembro da frase de um grande escritor que dizia: “Quando falares cuida para que tuas palavras sejam melhores que o teu silêncio.” Se isso já não era fácil quando havia mais respeito ao silêncio alheio, imagine hoje em que se fala o que der na telha, por conta da impressão de que o barulho é a maior propaganda de si mesmo. Tem muito mentecapto por aí que, por não ter o que dizer, acha que pode substituir o seu vazio intelectual por uma caixa de som, como se pudesse falar através dela.
Uma prova de desrespeito ao próprio silêncio é o que dizem as ditas celebridades. Falam tanto e tão mal, que suas palavras reverberam como os decibéis de um trio elétrico de terceira categoria. Eis algumas delas, ainda do ano passado, como tentativa de exorcizar o que não deve ser dito no ano em curso.

“Vou passar do baile funk para o cemitério”, Susana Vieira.
Você está coberta de razão, Susana. Como você já morreu há muito tempo (embora não saiba), nem vai fazer diferença.

“Achava que ela era uma chata, daquelas metidas e afetadas”, Otaviano Costa sobre a mulher “capa da playboy” Flavia Alessandra, antes de conhece-la.
Grande Otaviano! Você quer dizer que, desde que isso não afete as metidas, pouca importa que ela seja uma chata, certo?

“Ronaldo não se recorda e, a princípio, nega ser o pai do menino.” Amir Bocaiúva, advogado de Ronaldo, o fenômeno, no processo de investigação de paternidade movido pela mãe de um garoto de 4 anos, em Cingapura.
Caro advogado, seria melhor usar outro argumento, já que em matéria de negar, o fenômeno dá de dez a zero em São Pedro, que só negou Cristo três vezes. De algum tempo para cá ele nega que transou com travestis, nega que fez lipo, nega que “abirobou” na Copa da França e nega que simulou uma contusão no ultimo jogo Coríntians x Fla para prejudicar o rival paulista, São Paulo. Para piorar nega até fogo, segundo Susana Werner e Milene, suas ex-companheiras.

“Se me perguntarem se sou bi, vou brincar e responder que sou penta.”
Preta Gil, cantora(?) sobre sua orientação sexual.
Alguma inspiração flamenguista, Preta Gil? Depois do ultimo campeonato o Fla oscila do penta , segundo os pernambucanos ao hexa, segundo os cariocas e ninguém sabe o certo, nem a CBF, nem a FIFA. Não seria melhor passar logo direto para o octa?

“Max é viciado nele mesmo. (...) Ele é um produto. As caretas são sempre as mesmas e isso não é à toa. Enquanto o produto vender, para que mudar?” Francine Paia ex bbb, sobre o seu namorado Max Porto, ex bbb.
A grande diferença, cara Francine, é que o picareta do Max ganhou muito dinheiro para ficar viciado nele mesmo. Pior são os telespectadores idiotas que se viciam nos que são viciados neles mesmos( os BBBs) e, ao invés de pagamento, recebem em troca o sorriso abestalhado do Pedro Bial.

“Não fiquei assustada com a diferença de idade. Fiquei assustada com a paixão.” Zezé Polessa atriz de 55 anos sobre o seu relacionamento com o ator Ricardo Nunes, 22 anos mais novo.
Já o teu namoradinho, Zezé, não ficou assustado com tua paixão, mas com a diferença de idade; principalmente quando te viu nua.

“Às vezes acho que sou do lado errado, da cor errada. Eu devia ser mulata.”Luma de Oliveira
Não bote a culpa na cor, Luma. Quem preferiu ficar do lado de um bombeiro do que do homem mais rico do Brasil(Eike Batista) , foi você. Provavelmente, uma sombra tolheu tua visão na hora da escolha. Mas, será que isso tem a ver com mulatice, ou com escuridão total?.

“ Eu sou um ser humano normal como qualquer outro, mas as pessoas não me acham.” Roberto Justus, empresário e apresentador, ao desmentir sua imagem de homem sofisticado.
Não seja modesto, Roberto. Para sermos justos (ou justus) as pessoas só não te acham normal porque você, é muito mais chato do que qualquer pessoa normal. Enfim, você é tão especial que consegue sofisticar a própria chatice, não é mesmo?

“Queria ser gay, mas não consegui.” Fernanda Young.
Com essa Fernanda Young está inaugurando mais um tipo de variação sexual além das cinqüenta que já existem. Caetano Veloso, por exemplo, já deu inúmeras pistas de que seja do grupo e existe indicação de muito mais gente seguindo pela mesma cartilha. Ainda não dá para encher um caminhão, mas um trio elétrico, com certeza.

“Elas são de malíssimo gosto, sem nada na cabeça e feias”, Theo Becker, do reality-show A fazenda, sobre as suas colegas de programa.
Que elas não têm nada na cabeça e são feias isso todo mundo já sabia, Theo. O que não se sabia era que o malíssimo gosto delas era muito pior do que o teu em relação à língua portuguesa.

“Quando ainda me restava um mínimo de consciência eu mesma me internava. Mas quando babava no chão era Roberto quem tomava a dianteira.” Rita Lee, sobre a época em que usou drogas.
Explica essa história direito, Rita. Se ele tomava a dianteira, a traseira ficava com quem?

“Um dia, se Deus quiser, serei também pastor”, Kaká, jogador de futebol
Torça para que Deus não queira, Kaká até mesmo porque se seu desejo se tornar realidade você se tornará o primeiro milionário a se tornar pastor. Normalmente acontece o contrário. No começo são mortos de fome, depois é que ficam ricos.




sábado, 30 de janeiro de 2010

PARA NUNCA MAIS ESCUTAR

Texto publicado no jornal O estado do Maranhão,
seção Hoje é dia de...hoje, sábado.




PARA NUNCA MAIS ESCUTAR


José Ewerton Neto, membro da AML.

ewerton.neto@hotmail.com



Lembro da frase de um grande escritor que dizia: “Quando falares cuida para que tuas palavras sejam melhores que o teu silêncio.” Se isso já não era fácil quando havia mais respeito ao silêncio alheio, imagine hoje em que se fala o que der na telha, por conta da impressão de que o barulho é a maior propaganda de si mesmo. Tem muito mentecapto por aí que, por não ter o que dizer, acha que pode substituir o seu vazio intelectual por uma caixa de som, como se pudesse falar através dela.
Uma prova de desrespeito ao próprio silêncio é o que dizem as ditas celebridades. Falam tanto e tão mal, que suas palavras reverberam como os decibéis de um trio elétrico de terceira categoria. Eis algumas delas, ainda do ano passado, como tentativa de exorcizar o que não deve ser dito no ano em curso.

“Vou passar do baile funk para o cemitério”, Susana Vieira.
Você está coberta de razão, Susana. Como você já morreu há muito tempo (embora não saiba), nem vai fazer diferença.

“Achava que ela era uma chata, daquelas metidas e afetadas”, Otaviano Costa sobre a mulher “capa da playboy” Flavia Alessandra, antes de conhece-la.
Grande Otaviano! Você quer dizer que, desde que isso não afete as metidas, pouca importa que ela seja uma chata, certo?

“Ronaldo não se recorda e, a princípio, nega ser o pai do menino.” Amir Bocaiúva, advogado de Ronaldo, o fenômeno, no processo de investigação de paternidade movido pela mãe de um garoto de 4 anos, em Cingapura.
Caro advogado, seria melhor usar outro argumento, já que em matéria de negar, o fenômeno dá de dez a zero em São Pedro, que só negou Cristo três vezes. De algum tempo para cá ele nega que transou com travestis, nega que fez lipo, nega que “abirobou” na Copa da França e nega que simulou uma contusão no ultimo jogo Coríntians x Fla para prejudicar o rival paulista, São Paulo. Para piorar nega até fogo, segundo Susana Werner e Milene, suas ex-companheiras.

“Se me perguntarem se sou bi, vou brincar e responder que sou penta.”
Preta Gil, cantora(?) sobre sua orientação sexual.
Alguma inspiração flamenguista, Preta Gil? Depois do ultimo campeonato o Fla oscila do penta , segundo os pernambucanos ao hexa, segundo os cariocas e ninguém sabe o certo, nem a CBF, nem a FIFA. Não seria melhor passar logo direto para o octa?

“Max é viciado nele mesmo. (...) Ele é um produto. As caretas são sempre as mesmas e isso não é à toa. Enquanto o produto vender, para que mudar?” Francine Paia ex bbb, sobre o seu namorado Max Porto, ex bbb.
A grande diferença, cara Francine, é que o picareta do Max ganhou muito dinheiro para ficar viciado nele mesmo. Pior são os telespectadores idiotas que se viciam nos que são viciados neles mesmos( os BBBs) e, ao invés de pagamento, recebem em troca o sorriso abestalhado do Pedro Bial.

“Não fiquei assustada com a diferença de idade. Fiquei assustada com a paixão.” Zezé Polessa atriz de 55 anos sobre o seu relacionamento com o ator Ricardo Nunes, 22 anos mais novo.
Já o teu namoradinho, Zezé, não ficou assustado com tua paixão, mas com a diferença de idade; principalmente quando te viu nua.

“Às vezes acho que sou do lado errado, da cor errada. Eu devia ser mulata.”
Não bote a culpa na cor, Luma. Quem preferiu ficar do lado de um bombeiro do que do homem mais rico do Brasil(Eike Batista) , foi você. Provavelmente, uma sombra tolheu tua visão na hora da escolha. Mas, será que isso tem a ver com mulatice, ou com escuridão total?.

“ Eu sou um ser humano normal como qualquer outro, mas as pessoas não me acham.” Roberto Justus, empresário e apresentador, ao desmentir sua imagem de homem sofisticado.
Não seja modesto, Roberto. Para sermos justos (ou justus) as pessoas só não te acham normal porque você, é muito mais chato do que qualquer pessoa normal. Enfim, você é tão especial que consegue sofisticar a própria chatice, não é mesmo?

“Queria ser gay, mas não consegui.” Fernanda Young.
Com essa Fernanda Young está inaugurando mais um tipo de variação sexual além das cinqüenta que já existem. Caetano Veloso, por exemplo, já deu inúmeras pistas de que seja do grupo e existe indicação de muito mais gente seguindo pela mesma cartilha. Ainda não dá para encher um caminhão, mas um trio elétrico, com certeza.

“Elas são de malíssimo gosto, sem nada na cabeça e feias”, Theo Becker, do reality-show A fazenda, sobre as suas colegas de programa.
Que elas não têm nada na cabeça e são feias isso todo mundo já sabia, Theo. O que não se sabia era que o malíssimo gosto delas era muito pior do que o teu em relação à língua portuguesa.

“Quando ainda me restava um mínimo de consciência eu mesma me internava. Mas quando babava no chão era Roberto quem tomava a dianteira.” Rita Lee, sobre a época em que usou drogas.
Explica essa história direito, Rita. Se ele tomava a dianteira, a traseira ficava com quem?

“Um dia, se Deus quiser, serei também pastor”, Kaká, jogador de futebol
Torça para que Deus não queira, Kaká até mesmo porque se seu desejo se tornar realidade você se tornará o primeiro milionário a se tornar pastor. Normalmente acontece o contrário. No começo são mortos de fome, depois é que ficam ricos.




sábado, 23 de janeiro de 2010

PERFIL DE BIG-BROTHER

Texto de hoje é dia de...

O Estado do Maranhão, sábado, 23

PERFIL DE BIG-BROTHER

José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com

“Quer conhecer analgésico melhor que a felicidade? A idiotice, não é? A idiotice é vital. Ser meio idiota é legal para ser feliz.” Ana Maria Braga.



Prepare-se, você foi escolhido. Calma, não fique nervoso, a rede de televisão não sabe ainda que você é idiota, portanto, está apenas experimentando-o. Quem vai mostrar e provar isso é você que, daqui a alguns dias, estará pegando um telefone e ligando para votar em uma pessoa que nunca viu mais gordo, que nada tem para oferecer, menos ainda para dizer e muito menos ainda para mostrar.
Você pensa que estará fazendo isso porque não tem o que fazer, mas sabe que essa não é a única verdade. Você sabe perfeitamente que só um idiota perde o seu tempo com gente mais idiota ainda, mas... Quer saber mesmo a verdade? – você já nem se importa com isso. Durante toda sua vida lhe fizeram de idiota: políticos que escondem seu dinheiro nas meias, cartolas que armam resultados de jogos para favorecer times de maior torcida, departamentos de trânsito que lhe cobram multas extorsivas. Você então pensa que ser idiota um pouco mais um pouco menos, já nem faz diferença.
Eles também (os big-brothers) fazem de conta que são apenas exibicionistas, mas tem coisa pior por trás: são ignorantes, aproveitadores, grotescos, parvos e humanos, demasiadamente humanos, enfim. Você poderia tentar ser diferente deles mas você não quer, você já não têm mais ânimo, nem vontade. Você já pensou um dia em ler um livro, em aprimorar seu possível talento musical, mas qual, você prefere ser assim mesmo, alienado e bobo. Na verdade, toda essa estupidez generalizada (que faz com que tanta gente almeje se tornar boneco de circo de um picadeiro que tem um pilantra como animador, chamado Pedro Bial); na verdade isso o atrai, e, no fundo, você é doido para ser um deles, não é mesmo?
E é para ajudá-lo – se você for realmente fã do BBB - que estamos lhe entregando o perfil dos Big-Brothers dessa edição, todos tão parecidos. Vá lá: escolha um, tanto faz.


Alex: O advogado de São Paulo tem 36 anos e chegou ao programa dizendo que não gosta de quem tem duas caras. Tradução: ele só gosta de quem tem mais de duas revistas Caras, que ele sempre achou o máximo em matéria de literatura.

Ana Marcela: A estudante de Recife tem 25 anos e define-se como uma gargalhada, em um site de relacionamentos. Tradução: Ana Marcela acabou de descobrir um talento próprio: sabe se definir. Quando diz que é uma gargalhada está falando sério. Sua diferença para Pedro Bial, o animador pseudo-intelectual, é que a gargalhada dele caçoa dos telespectadores, a dela, ri de si mesma.

Anamara: É policial militar, natural de Juazeiro, BA. Deve apostar na sensualidade para conquistar fãs no programa e já disse que no sexo, gosta até de apanhar. Tradução: Anamara dá voz de prisão a torto e a direito, mas só libera quando apanha. (De cacete ou cassetete?)

Carlos: conhecido como Kadu, é personal trainner, trabalha em uma badalada academia carioca e tem visual sarado. Tradução: Kadu precisa ter visual sarado porque sua penúria mental nunca sara. Por isso tem um sonho na vida: dedicar-se a ser ex-big-brother no futuro. E vai conseguir porque não há remédio que sare vocação tão contundente!

Claudia: moradora de Ribeirão Preto, 28 anos, tem uma agencia especializada em recepção e serviços, e potencial para ser uma Grazzi Massafera. Tradução: o potencial de Claudia é tão grande que vai passar direto para Suzana Vieira sem precisar fazer estágio em Graziela Massafera. Por isso já está saindo à caça do primeiro gigolô que aparecer. A casa está cheia. .

Dicesar: maquiador, atua como dragqueen na noite paulista com o codinome Dimmi Keer. Tradução: Dicesar é de César ( o imperador de Roma) a quantos Brutos imperarem no caminho. E jamais dirá: “Até tu Brutus?”


Elieser: 25 anos, modelo e engenheiro agrônomo em Maringá, foi mister Ecologia e define-se como bom de pegada. Tradução: como um bom animal pré-histórico, no físico e, principalmente, no conteúdo do cérebro, sua pegada é, de fato, bastante parecida com a de um mastodonte.


Tessália: publicitária de Curitiba, tem 22 anos. Apresenta-se como Twitess. Está solteira e terá de administrar a saudade da filha. Tradução: Tessália não devia se preocupar tanto com isso A filha aprendeu depressa o que significa a mãe ser Twitess, por isso entende, perfeitamente, seu sacrifício de abandoná-la para se enfiar numa casa de orgias sexuais públicas com um bando de retardados. Nem faz questão de saudade.


sábado, 16 de janeiro de 2010

A VIDA E A MORTE DO PONTO G

texto publicado na seção hoje é dia de...
Jornal O estado do maranhão, hoje, sábado, 15


A VIDA E A MORTE DO PONTO G


JOSE EWERTON NETO, membro da AML
ewerton.neto@hotmail.com


O Ponto G foi descoberto ( eu disse inventado, ou descoberto?) por um sujeito chamado Ernst Graffenberg nos idos dos anos 50. Naquela época os tabus sexuais ainda estavam por serem demolidos e a maioria das mulheres ainda pensava que era fundamental para chegar ao prazer que este fosse compartilhado exclusivamente com homens e não com mulheres, cães, gatos, vibradores, metrosexuais, enfim , as muitas variações de sexo que existem na Internet, no BBB e que proliferam no nosso mundo moderno.

( Até hoje não se sabe exatamente porque Graffenberg se preocupou tanto com isso. Passados tantos anos algumas hipóteses surgiram para explicar sua obsessão:

1. Conforme sugerido em 1976 por Shere Hite, intelectual do movimento feminista, a descoberta do ponto G não teria passado de um complô machista com a intenção de retardar a conscientização feminina de que o homem só serve para a procriação e olhe lá...[sabe-se que os bancos de sêmen que proliferam por aí prescindem da presença masculina no ato sexual]. Quanto ao prazer, o buraco é mais embaixo e Graffenberg não passaria de laranja de mais uma manipulação dos machos, com intenção de subjugar as mulheres, matando a cobra, mas não mostrando o pau, ou melhor moatrando o pau, mas não mostrando o ponto.
2. A segunda hipótese, menos mafiosa, sugere que Ernst , sendo pouco
atraente, queria aumentar suas chances com as mulheres. Na impossibilidade de atraí-las pelo método convencional, ofereceu-se como pesquisador e conseguiu, a aquiescência das mesmas, ganhando a chance de conhece-las de forma íntima e profunda ( na verdadeira acepção da palavra ).
O certo é que milhares de mulheres passaram pelo consultório de Graffenberg enquanto ele caçava o ponto G de cada uma. Um fato que corrobora para confirmar essa hipótese é o de que, ao contrário dos demais experimentos científicos cuja pesquisa usa animais como cobaias, no seu, Enrst resolveu partir logo para as mulheres. Ou seja , jamais passou pela sua cabeça a idéia de descobrir, preventivamente, onde estava o ponto G das ratazanas.
Qualquer que seja a hipótese correta, a verdade é que Enrst Graffenberg morreu feliz por ter imortalizado o seu nome. Antes de partir ele teria dito a célebre frase: “ Se Avogadro imortalizou-se por ter dado seu nome a um número amalucado, Fourier a uma série que pouca gente entende, e Alzheimer a uma doença, morro orgulhoso por ter dado o meu nome a um ponto que pertencerá eternamente à intimidade das mulheres. E, principalmente, por tê-lo colocado lá dentro.”)

É fácil imaginar o quanto às mulheres da época vibraram ( mesmo não dispondo ainda de bons vibradores ) com a notícia. Suas chances de prazer aumentavam em 70% e muitas esposas vislumbraram, de imediato, a possibilidade salvadora de não precisarem correr para o banheiro e recorrer aos clitóris, tão logo os maridos barrigudões saíssem de cima delas.

Alguém duvida que surgiu daí a revolução dos costumes que sacudiu a década seguinte? Como se sabe, logo elas inventaram a mini-saia, a tanga minúscula e o top-less. Claro, porque valia a pena, de novo, atraírem os homens, para ajudá-las a encontrar o dito cujo. Que começou a ser caçado, muito mais do que, décadas depois, Osama Bin Laden. O problema é que, assim como Osama, o desgraçado nunca deu jeito de aparecer.

Durante muito tempo elas continuaram fingindo, condicionadas pela pressão masculina, até que começaram a desistir da idéia por volta dos anos noventa. Desistiam, diga-se de passagem, não dele, mas dos maridos. E dos companheiros, e dos namorados, e dos homens. “Ora, se o ponto G existe mas ninguém descobre, então de quem é a culpa? Só pode ser desse cara que está comigo!” Donde provavelmente deve ter se originado o mais espetacular holocausto nas relações familiares que se tem notícia desde Sodoma e Gomorra, e que deu no que deu: mulheres para um lado, homens para outro e sexo para todo lado, inclusive das cabeças das criancinhas que não têm nada a ver com isso.

(Algo de muito curioso nessa história é que nenhum estudo sexológico ou social concedeu até agora ao ponto G sua posição como verdadeiro transformador dos costumes da vida pós-moderna. Temos de reconhecer a dificuldade: como colocar o ponto G no seu devido lugar se ninguém sabe qual é ?)

O certo é que, semana passada, tentaram dar um ponto final no ponto G. Andréa Burri ( que é burri, mas não tem nada de burra) comandou uma pesquisa no King`s College de Londres com mais de mil e oitocentas gêmeas, antes de anunciar sua inexistência, tendo o cuidado de acrescentar. “No entanto, nenhuma conclusão definitiva pode ser tirada e essa pesquisa precisa ser replicada com métodos mais refinados.”

No que concorda a interpretação sábia de uma de suas colegas que participou da pesquisa, menos como cientista e mais pela sua enorme experiência de vida. Segundo ela o ponto G, de fato, estaria morto, mas não enterrado; jamais desaparecerá do imaginário feminino e, nos últimos anos, mudou apenas de lugar. Se antes estava na vagina das mulheres agora está, com certeza, nas suas mãos , desde que elas carreguem um cartão de crédito. O orgasmo, finalmente alcançado, é só uma questão do que e do quanto este permitirá comprar.

sábado, 9 de janeiro de 2010

O VIBRADOR ENTRA EM AÇÃO

artigo publicado em O Estado do Maranhão,
seção Hoje é dia de...

O VIBRADOR EM AÇÃO

José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com




E o 2010 acabou chegando com mais estranheza do que tem direito.
Primeiro, a escolha de Ronaldo, o fenômeno, como uma das dez pessoas mais confiáveis do país (como uma nação pode confiar num sujeito que não sabe a diferença de um travesti para uma mulher?). Depois, o que aconteceu esta semana, aqui mesmo, em São Luis: o assaltante Dentinho resolveu inovar e partiu para uma nova modalidade de instrumento de persuasão criminosa.
Dentinho assaltou uma mulher chamada Janice Minervina com um pênis de borracha (ou vibrador, como queiram) de 28cm x 18 cm. Dizem os autos da delegacia policial que Janice, quando passeava na Lagoa da Jansen, ao sentir o “cano” da arma em suas costas entregou de imediato a bolsa que trazia a tiracolo e chamou a polícia. Fica para a imaginação do leitor tentar chegar a uma conclusão satisfatória a respeito da hipótese levantada por alguns repórteres policiais: a de que se o vibrador tivesse sido endereçado para outro local do corpo da vítima a sua reação teria sido outra.
Como toda sanluizense já foi roubada pelo menos uma vez nesta cidade ( nem que seja de um inocente celular) nada como pesquisar o que elas acham dessa nova modalidade de assalto, de acordo com a profissão que exercem.

Hortênsia – Professora de matemática do ensino médio. Mora na Cohab:
“Prefiro esta. Pelo menos o diâmetro da arma é maior e, sendo mais grosso e viril, os ângulos de sua conformação são mais suaves e, dessa forma, sua imagem é menos aterradora ”.

Elenaura – Psicóloga, mora no São Francisco e tem um consultório num Shopping:
“Psicologicamente, esta deixa um trauma de menor impacto na mente
feminina. Algumas mulheres, de personalidade mais forte, terão chances até de fantasiar suas futuras emoções.”

Dra. Etiene - Clinica geral, mora no centro e atende no Maiobão:
“O efeito colateral é menos prejudicial. Pelo fato de ser de borracha,
não fere e pode até deixar uma sensação agradável no corpo. Tenho certeza pessoal e científica de que este que é mil vezes preferível a um objeto cortante, um punhal, por exemplo.”

Domingas - Comerciante, mora no Lira e trabalha nas feiras móveis, vendendo verduras. “ Tem mais chance de se fazer um bom negócio. As mulheres poderiam
sugerir a troca de suas bolsas pelo vibrador; ou então dos celulares.”

Hilda Franchesini - “Mineira, mora no Calhau.. Freqüentadora assídua da páginas sociais, é perua profissional e tem uma clínica de rejuvenescimento nas horas vagas:
“Nada contra, só acho que o vibrador tem de ter qualidade. As mulheres
só deveriam entregar os seus pertences se comprovada a etiqueta do bicho. Teria de ser comprovadamente chique, meu filho! ”

Nanasara - Estudante de filosofia, é também cantora de banda de bumba-pop da ilha, se apresenta na região do Turu e adjacências:
“Como dizia Platão, ou , possivelmente Aristóteles, como todo ato sexual
é uma forma de assalto daquilo que você ainda precisa completar em si mesmo, as vibrações do viver quando interrompidas por um gesto, precisam de simbolismo vivo para continuarem. No caso, um vibrador é muito mais eficiente para isso do que um revólver.”

Serena Campos – Estudante, desistiu do vestibular convencional há dez anos, quando decidiu seguir a profissão de candidata ao big-brother. Já publicou um livro de poesias chamado As razões do coração,
“Acho que, no caso desse tipo de assalto, as razões secretas do coração passam a vibrar mais intensamente...e de outras partes, também.”

Lucília Ernestina - Advogada criminalista, mora na Cidade Operária e faz
pos-graduação em salto-triplo – para fugir dos assaltantes.
“Esta nova modalidade de assalto precisa ser incluída urgentemente numa nova categoria dos códigos do direito criminalista, cuja hipótese vai contribuir para amenizar a pena do infrator. Ou seja, a de que o objeto do crime por parte do algoz pode ser confundido com o objeto de desejo da vítima.”

Cecília Regina, enfermeira, mora na Madre Deus.
“ Só acho que o assaltante, após ter apavorado a vítima com o vibrador, deveria ser condenado a acalmá-la depois com o mesmo objeto, para que as enfermarias dos hospitais não fiquem lotadas de mulheres à beira de um ataque de nervos.”

Soliege Brito, 35 anos – Formada em educação física, pratica vários
tipos de disputa, físicas ou não: judô, capoeira, basquete, lutas marciais, divórcios, etc. Praticamente mora na Lagoa da Jansen, onde faz cooper 23 horas por dia.
“ Bem , por razões sentimentais só posso dizer que vou direto para a delegacia, agora que já sei com quem está o vibrador de estimação que eu perdi.”


sábado, 2 de janeiro de 2010

CONTRATO DE FIM DE ANO

Artigo de hoje, sábado de O estado do Maranhão,
seção hoje é dia de...


CONTRATO DE FIM-DE-ANO

Jose Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com




Já que os seres humanos insistem em tratá-los como a seres vivos, capazes de fazer e acontecer, faz algum tempo que os anos novos, preventivamente, assinam em presença de Deus, um contrato de prestação de serviços de 365 dias. Eis, recentemente assinado, e em primeira mão, o de 2010:

1. O ano de 2010 compromete-se a fazer de conta que acredita que os excessos e as aberrações que os humanos cometerão, logo após sua chegada, são em sua homenagem, e não mero pretexto para dar vazão aos seus instintos etílicos. Idem promete não atrapalhar o reveillon, deixando-os se comportarem, mais uma vez, como se a mera passagem de um segundo - em tudo semelhante a infinitos outros - tenha algum significado especial ou seja capaz de mudar o que quer que seja.

2. O ano de 2010 promete trabalhar todos os dias do ano, chova ou faça sol, independente de ser feriado ou dia útil, mesmo contrariando interesses de baianos e cariocas, de políticos que só trabalham três dias por mês, ou de jogadores de futebol que só jogam um dia por semana e ainda se acham no direito de se considerarem cansados.

3. O ano de 2010 exime-se, peremptoriamente, das conseqüências que lhe serão atribuídas por conta de uma obrigatoriedade anual. Por exemplo, lembra que o Imposto de Renda, o IPVA, o IPTU, e as promessas e juras de emagrecer, são invenções incrustadas em uma necessidade que têm mais a ver com a cobiça e as obsessões dos homens, do que com a passagem corriqueira dos anos através dos tempos.

4. O ano de 2010 compromete-se a mandar a quantidade de água necessária que os homens venham a precisar. No entanto, lembra de que não o fará da exata forma que querem. (Ou seja, se a quantidade de água e vento enviada virar uma tempestade, ou um tsunami, em São Paulo ou em Santa Catarina, a responsabilidade não será sua, mas de quem nunca soube se prevenir a contento)

5. O ano de 2010 compromete-se a realizar a Copa do Mundo, mas avisa que não privilegiará essa ou aquela nação por conta de rezarem ou de dizerem, por exemplo, que “Deus é brasileiro”, como faz o Brasil. Lembra que a vitória dependerá, como sempre, de quem fizer mais gol, do juiz que roubar mais, ou de quem escolher seus melhores. Em resumo, não aceitará que tragédias coletivas ( tipo choro e ranger de dentes na Avenida Paulista ou em Copacabana ) lhe sejam atribuídas por conta de quem preferiu técnicos ruins( Dunga ) a jogadores bons ( Ronaldinho Gaúcho)

6. O ano de 2010 compromete-se a agir conforme reza seu contrato. Ou seja, simplesmente passará através da eternidade, e será indiferente a previsões e expectativas. Em resumo, jamais dará mais um minuto para um e menos para outro, mais rugas para uns e menos para outros, como pretendem certos arrogantes. Como a atriz Susana Vieira que exigiu da imprensa compreensão para suas atitudes “conforme a aparência, e não a idade”. Certamente, por nunca ter tido tempo suficiente (nem anos) para se enxergar em frente a um espelho.

7. O ano de 2010 compromete-se a enviar luz e calor no mesmo volume de sempre, apesar das previsões em contrário. Mas lembra que isso será insuficiente para iluminar os buracos-negros em que se transformarão as mentes, cada vez mais obscurecidas por programas como o Big-Brother, já anunciado. Exige, portanto, que ninguém o responsabilize por novos apagões, de origem psíquica.

8. O ano 2010 compromete-se a ficar até o final de sua jornada sem perda de seu entusiasmo. Mas, insiste em confirmar que não fará horas-extras, jamais admitindo que lhe aconteçam coisas como as que aconteceram ao ano de 1968 que virou, muito tempo depois, O ano que não terminou.
Como encerrará seu trabalho no último segundo do ano, avisa que quem quiser prender seu corrupto que o faça no dia e na hora certa. Assim sendo, não permitirá que se diga depois que José Roberto Arruda escapou para 2010, através do tempo e da falta de memória, quando a história confirmará, que se isso se der, será pela absoluta falta de vergonha de toda uma nação condescendente.

sábado, 26 de dezembro de 2009

2009 e a palavra que não terminou

Texto publicado hoje, sábado, na seção
hoje é dia de... O estado do Maranhão

2009 E A PALAVRA QUE NÃO TERMINOU



Jose Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com




Zuenir Ventura escreveu o livro 1968, o ano que não terminou. Que palavra melhor representaria o ano de 2009. Qual seria a palavra do ano?
Ora, as palavras que não terminaram (que ficarão na memória) dependem de cada um. No aspecto pessoal a palavra de 2009 que jamais terminará talvez se chame Literatura. Foi através dela que cheguei à Academia Maranhense de Letras, em 24 de Abril deste ano, para ocupar a vaga da cadeira 11, que pertencia ao poeta Manoel Caetano Bandeira de Mello e cujo patrono foi João Francisco Lisboa. Essa grande honra talvez não caiba numa palavra.
Pude conhecer de perto, então, a efervescência das idéias que culminaram nas vitoriosas realizações culturais que ocorreram durante todo o transcorrer do ano de 2008, em que se comemorou o centenário da Academia. Os ecos desses eventos, aliás, reverberam até hoje com a publicação, esta semana, do livro comemorativo do Centenário da Academia. Este livro, cuja publicação está coincidindo com o crepúsculo do mandato do atual presidente Lino Moreira, juntamente com a reedição recente do Dicionário de César Marques (frutos de um portentoso trabalho de pesquisa e revisão executado por Jomar Moraes), junto com outras realizações, vêm confirmar o dinamismo da administração de Lino Moreira que proporcionou aos cidadãos maranhenses, uma profícua série de acontecimentos à altura da grandiosidade e significação da data.

Quanto ao geral, a cada mês a sua palavra
Em janeiro, demissão. Pois é, o ano-negro após crise acabou melhor do que se esperava, menos para os 25 franceses que se suicidaram, depois de demitidos pela France Telecom. Meses mais tarde, em Dezembro, Leila Lopes, ex-atriz da Globo, também resolveu demitir-se da vida, partindo, segundo suas palavras em busca de Deus. A bela ex-professorinha Global suicidou-se aos cinqüenta anos, ainda muito bonita. Tudo indica que o deus que tanto ela queria encontrar estava muito longe do deus Global: tão semelhante ao deus do Lucro, da France Telecom, e tão indiferente às carências e expectativas de um ser humano.

Em fevereiro, fraude
E a advogada Paula Oliveira resolveu aprontar para cima das autoridades suíças simulando um aborto e um seqüestro, para conseguir grana. Enganou muita gente até ter descoberta sua fraude pela polícia. Como em Brasília fraude é o que não falta chega-se à conclusão que a menina escolheu mal o palco e deveria urgentemente fazer um aprendizado em Brasília com as autoridades governamentais. Mais especificamente, com o governador José Roberto Arruda. Que lhe ensinaria depressa como escapar da polícia.


Em Junho, acidente.
O termo acidente remonta ao latim accidens, entis “o que sucede”, particípio presente de accidere, “cair”. Como dizia Graham Greene “existe uma casca de banana por trás de toda grande tragédia”. Seis meses depois do acidente com o avião da Air France ainda não se descobriu a caixa-preta e muito menos a casca de banana, pois não convêm descobrir onde é que ela estava.

Em Maio, gripe.
A epidemia passou de gripe suína para gripe A por respeito aos porcos. Isso leva a acreditar que se ainda não contaminou todo o alfabeto foi por causa da reforma ortográfica - que não se lembrou de vacinar as três letras que chegaram


Em Setembro, marolinha.
No fim do ano passado Lula foi muito criticado, pela oposição, por ter chamado de marolinha à crise global. Já em Setembro, o jornal Le Monde, derramou-se em elogios ao nosso presidente atribuindo-lhe uma visão correta e antecipada do cenário econômico. Ora, como o nosso presidente anda acertando tudo, os oposicionistas que tanto o criticaram por ter dito que o povo estava na merda, logo estarão todos lhe aplaudindo . Com os dedos cheios de merda.

Em outubro, olimpíada.
E acabaram sacramentando as Olimpíadas no Rio, em 2016, apenas dois anos após à Copa de 2014, também no Brasil. Se os baianos já andam dizendo que vão enforcar o 2015 (imprensado entre dois feriadões) um dilema surge: cercados de olimpíadas e copas do mundo por todos os lados, para onde irão as balas perdidas? Alguém duvida que vão acabar se instalando nos lombos dos cidadãos dos estados que não tiveram a sorte de participar da festa?.

Em novembro, expulsão.
Por ter usado um minivestido rosa, , Geisy Arruda, foi expulsa da Uniban de São Bernardo do Campo, onde cursava turismo. Sua culpa foi ter atiçado a tara dos estudantes universitários. È por essas e outras que Suzana Vieira, Maitê Proença, Marília Gabriela e outras peruas sessentonas que adoram garotões - mas estão longe de atiçar a tara de quem quer que seja - resolveram adotar o rosa como farda oficial.

Em dezembro, retrospectiva.
Incorporada no jargão da mídia com o sentido de balanço dos acontecimentos, retrospectiva tem registro em português desde 1899 como “relato dos fatos” e “exposição das obras de um artista”. Virou uma das palavras-símbolos do fim do ano, uma sugestão de retomada da memória cujo sentido de revisão foi acentuada no português brasileiro por via norte-americana, de onde nos chegou retrospection ( usada no inglês desde 1674) por via francesa restrospection (desde 1839).
Esta é mais uma delas, feita às pressas, mas não a ponto de esquecer de desejar a todos os leitores um feliz ano-novo.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

E O PALAVRÃO VIROU PALAVRINHA

Artigo de sábado de O estado do Maranhão,
seção Hoje é dia de...


E O PALAVRÃO VIROU PALAVRINHA

“ Eu quero saber se o povo está na merda e quero tirar o povo da merda
em que se encontra”
Lula, presidente do Brasil

José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com




Como deve ter sido longa a trajetória da merda até chegar à boca de um presidente da república! Porém, calma, senhores, não queiram imaginar dejetos evoluindo ao longo dos séculos para chegar aos lábios de um ser humano importante. Até porque se existe algo imune à passagem do tempo deve ser ela, a merda. Provavelmente, continuará a mesma para sempre, quem sabe para nos lembrar o quanto seremos eternamente associados à imundície. Mas não estava falando do objeto físico e sim da palavra. E esta, quer queiramos ou não, evoluiu e muito.

Sim, porque antigamente a palavra merda era considerada um termo tão chulo que beirava a obscenidade pronunciá-la em celebrações e eventos públicos. Nessa época, , prezava-se o linguajar culto, aquele que ao sair da boca de alguém diferenciava uma pessoa importante do comum dos mortais. Digamos que, era inadmissível que alguém, escolhido por uma nação para dirigi-la, pronunciasse um palavrão num evento. Era vergonhoso, acintoso, imoral!
Depois da fala espontânea e recente do nosso presidente, em São Luis, ficou fácil concluir que os palavrões evoluíram e muito. Se antes eram restritos ao linguajar das cozinhas, dos porões e das alcovas, agora se mostram abertamente nos salões. Não precisam mais se esconder através de metáforas e eufemismos, e expõem uma verdade incontestável: o palavrão não existe mais, virou palavrinha. Se alguém duvida, basta pensar em alguns.

Porra: Será mesmo que algum dia, estas letras cinco letras significaram apenas esperma? Hoje, como todos sabem, essa expressão serve para tudo: adjetivo, pronome e substantivo ( tem gente que prefere ser chamado de porra, ao invés do próprio nome). Serve também como ponto de exclamação, vírgula, e até como figura de linguajem indefinida ( aquela que você pronuncia numa conversa como se fosse um resmungo, e que tanto serve para substituir um pensamento como para evocar o que não se tem para dizer):
“- Porra!”
“ “O que foi mesmo que você disse?”
“- Porra!”
“Puxa vida! Ainda bem, que existe alguém sempre prestando atenção à conversa para, no fim, fim sintetizar tudo de forma tão maravilhosa!”

Sacana: Um dia foi sinônimo de cafajeste, calhorda, safado e por aí vai. Sua chegada ao reino dos xingamentos deu-se para substituir a acusação de canalha, já que a conhecida expressão, mostrava-se incapaz de traduzi-los com perfeição. O contínuo aprimoramento deles, dos canalhas, fez com que, por sua vez, o termo sacana hoje não passe hoje de um elogio, quase sempre afetuoso. Como o das mulheres, que adoram elogiar seus ex-namorados chamando-os, carinhosamente, de sacanas, enquanto choram:
“Só sei que para mim ele sempre foi um grande sacana, principalmente na cama!”
O que significa que ela continuará por muito tempo apaixonada pelo dito cujo.

Filho da puta. Esse tipo de xingamento já levou muita gente à morte. Hoje, já não tem o menor resquício da conotação ofensiva que tinha, mesmo porque o objeto da ofensa - a puta – está sendo cada vez mais exaltado pela mídia e pela sociedade. Todos admiram as putas: de Bruna Surfistinha ( que virou best-seller e depois filme ) às do Big-Brother. Tanta admiração faz com que, incentivadas pelas mães, a maioria das meninas comece o aprendizado da profissão desde cedo, assistindo programas infantis de Xuxa ou imitando os rebolados eróticos das dançarinas de forró.

Ora, aceitando-se que os palavrões não tenham autonomia para se desenvolver à revelia dos homens, é fácil deduzir, fechando a questão acima, que se os palavrões viraram palavrinhas não foi porque, de fato, evoluíram, mas porque a humanidade tornou-se muito pior em termos de ética e moral. Que palavrão seria capaz de se encaixar num governador que mete dinheiro público nas meias e cuecas e depois vai agradecer a Deus? E que, ao contrário do que fazem alguns de seus iguais no Japão (que envergonhados, suicidam-se) quer mais é se perpetuar no poder?

Por mais que alguém se esforce para encontrar um palavrão que nele se aplique, será difícil encontrar no linguajar mais chulo ou rasteiro de nossa língua, um só que caiba em José Roberto Arruda e seus asseclas. Donde se conclui que se o brasileiro evoluiu positivamente em conhecimento técnico e científico, deu para trás em termos de caráter e dignidade pessoal. É triste, mas novos palavrões precisam ser urgentemente inventados!

sábado, 12 de dezembro de 2009

FELICIDADE INTERNA BRUTA

FELICIDADE INTERNA BRUTA
artigo publicado, hoje, sábado, na seção Hoje é dia de...
o Estado do Maranhão



José Ewerton Neto, membro da AML

Jose Ewerton Neto@hotmail.com





Recente reportagem da Revista Isto é dá conta de que empresas e governos, preocupados com o nível de satisfação de seus cidadãos brevemente estarão utilizando métodos científicos para medirem a Felicidade Interna Bruta de seus empregados e cidadãos. Antes de receber o seu FIB (certificado de felicidade) acho melhor precaver-se, leitor.
De antemão solicito que jamais façam isso comigo e adianto que meu estado de felicidade aumentaria muito se algum representante do governo, simplesmente, ordenasse aos seus guardas de trânsito que deixassem de enviar multas fantasmas a torto e a direito, e que aprendessem a fazer coisa mais útil no trânsito, além de apontar uma cadernetinha em nossa direção com a única intenção de multar, multar, multar.
E depois, a felicidade é um sentimento muito complexo, para ser medido não é mesmo? É de se esperar que, ao invés de medirem a nossa felicidade interna bruta, logo estejam medindo, com a brutalidade que lhes é peculiar, a nossa desilusão interna – e externa. Medir a felicidade de quem quer que seja, como já disseram os filósofos, sempre foi uma brutalidade. Mas o que é mesmo felicidade?
Lembro de que, em determinada ocasião, uma repórter perguntou a um escritor se este era feliz. Ele respondeu: “Depende; no seu conceito de felicidade, eu sou, mas no meu, não considero. Mas de uma coisa você pode ficar certa: prefiro mil vezes ser infeliz com a minha felicidade, do que maravilhosamente feliz na sua. Deu para entender? Felicidades existem lá e cá, cada um tem a que merece proporcional às suas mediocridades, mas qual delas os Governos estariam propensos a medir? Vejamos algumas mais conhecidas:

A Felicidade Idiota: É a daquele que se acha na obrigação de propagar a sua felicidade como se fosse um adorno, enfim, que acredita piamente que a felicidade pode ser ostentada como se fosse uma jóia. É a felicidade de Suzana Vieira, Hebe Camargo e de mais um punhado de celebridades, cuja ostentação de felicidade parece estar incluída nas cláusulas contratuais, para deleite de platéias ávidas por uma compensação para a tibieza de seus projetos de vida.

A Felicidade Epidêmica. É a felicidade dos que se contaminam facilmente com o
frenesi da massa popular, como se tivessem sido picados pela “doença da multidão” que, nesta época do ano, principalmente no reveillon , se transforma em “felicidade obrigatória”. São aqueles que passam a vida pulando de show para show de forró acreditando piamente que, pelo fato de se “divertirem pra valer” são donatários de toda felicidade do mundo. Tão incompreensivelmente felizes se acham que nem se dão conta do quanto são carentes e tristes, ao dependerem da felicidade dos outros para legitimar as suas.

A Felicidade Oportunista: É a de alguns governantes e líderes empresariais que utilizam uma “felicidade de fachada” para moldar temperamentos e obter lucro pessoal. Não é à toa que toda essa onda de otimismo cosmético e desenfreado tenha surgido nas empresas norte-americanas de meados do século passado quando os patrões queriam que seus empregados se transformassem em robotizados personagens de um sistema que não lhes desse tempo de refletir sobre sua condição sub-humana e sem perspectiva. É a felicidade dos que propagam o melhor dos mundos – desde que este não permita questionamentos aos seus projetos de ambição pessoal. Mais ou menos como a felicidade de José Roberto Arruda e seus asseclas, enfiando dinheiro nas meias e rezando em seguida para agradecer a Deus. Alguém já tinha visto antes tanta “felicidade”?

A Felicidade Verdadeira. É a que eu espero que você esteja sentindo agora, caro leitor, admitindo que o simples fato de ter boa saúde e memória fértil (segundo Ingmar Bergman) e, ainda por cima, estar tendo tempo para ler e meditar sobre isso, seja razão mais do que suficiente para ser feliz.

sábado, 5 de dezembro de 2009

CONFRATERNIZAÇÕES

Texto publicado no jornal
O estado do maranhão, sábado,
seção Hoje é dia de...


CONFRATERNIZAÇÕES DE FIM DE ANO

José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com






Paira nesta época do ano, uma motivação diferente. As empresas e as organizações, através de festinhas de confraternização, tentam capitalizar esse espírito para promover a união entre seus funcionários. Tudo corre num ambiente de perfeita harmonia. (pelo menos nos cinco minutos iniciais):

1. No início, todos se cumprimentam e sorriem. Ouve-se uma gracinha aqui, outra ali, sobre futebol e a barriga proeminente de alguém. O comedimento ainda é a regra e os gordos ainda não viraram obesos.

2. As primeiras rodadas de cerveja percorrem as mesas com uma velocidade que vai de Barichello para Ayrton Sena em poucos minutos. A secretária particular do presidente, Geysiane, vulgo Geisybrega, que estava de dieta e se apresentou alguns quilos mais magra, já está no décimo copo.

3. Os garçons, jovens e educados, tratam todo mundo de senhor. Celso Bomdelíngua que assumiu recentemente a coordenadoria de fiscalização das Horas Super-Extras, quer saber, a altos brados, porque antigamente só traziam garçonetes boazudas e agora inventaram de trazer rapazes. “Só pode ser idéia do Mike Tyson”, diz. Mike, cujo nome de batismo é Francenildo, tem 1,90m de altura por dois de largura, faz capoeira e é chefe do Departamento de Segurança e Patrimônio, nesse exato momento se abraça com um dos garçons. Celso insiste: “Eu não disse?”

4. Um ligeiro contratempo fez com que a carne demore a ser servida. Quando desponta, a picanha é disputada no tapa. Juca Montanha avança em direção ao primeiro corte que voa em cima da mesa sem sequer perceber a mão que, um segundo antes, disputava o mesmo naco, e que, por acaso, é da esposa do seu chefe. Enquanto isso, agoniza pelo chão, a décima grade de cerveja.

5. Nesse momento adentram o recinto, rebolando, cinco estagiárias, recém-contratadas. Juca Montanha inicia o aplauso. Urros entusiasmados se sucedem, em meio aos gritos de “gostosas”. As esposas não entendem muito bem a razão, mas batem palmas. Tudo é levado na brincadeira. Os garçons já não chamam ninguém de senhor e já tem até um que chama Sizolete, a autoritária chefa de Recursos Humanos - e coordenadora do evento, de minha gata.

6. Montanha, cada vez mais inspirado, vai de mesa em mesa. Diz a um circunspeto senhor, do lado do qual o presidente não se arreda , que sua neta é muito bonita. Este responde que esta não é sua neta, mas esposa. Ante o constrangimento geral, já que o ancião é um político influente, alguém lembra de convocar Toninho Radiola, o mais antigo funcionário da empresa, para apresentar seu som. Feliz da vida, Radiola avança com sua parafernália, a reboque de um fusca caindo aos pedaços (que conseguiu comprar, a prestação, com seu premio de trabalhador mais antigo.) As mulheres começam a rebolar ao som de forró. Churrasco e cerveja continuam vazando no balde.

7. Em meio a algazarra geral alguém grita que precisa ler uma “mensagem” da Organização. Trata-se do presidente, mas ninguém o escuta. Enfurecido, ele sai tropeçando em garrafas e na cabeça do seu filho, Diego, de dois anos, que escorregou do colo de sua esposa e agora está dormindo no chão. Finalmente, consegue alcançar o som e o desliga. Ouve-se uma sonora vaia. “Quem começou a vaia?”, vocifera Mike Tyson, voltando a assumir as suas funções de protetor do patrimônio e macho-man.

8. O presidente inicia a leitura da mensagem e diz: “Para conseguir o melhor desempenho do seu motor flex é necessário testar a relação ideal álcool-gasolina...”. Ninguém entende. Alguém lhe sussurra: “presidente, o senhor deve estar lendo o manual do seu carro”. O político, experiente, pega o microfone e discursa: “Trata-se de uma mensagem de otimismo em gotas, como a do livro de auto ajuda”. Todos aplaudem, emocionados. Alguém berra: “E por falar em gotas, cadê a cerveja, já acabou?”Irritado, o presidente manda um bilhete para Sizolete avisando que se a cerveja não aparecer em menos de quinze minutos amanhã estará demitida”.

9. Enquanto a cerveja não chega os ânimos se exaltam Um incidente acaba de acontecer no banheiro quando a mulher de um funcionário chama uma das estagiárias de piranha. No meio de garrafas voando para tudo quanto é lado um dedo passa rente a racha da bunda da espevitada mulher do Gerente Financeiro. Desconfiada de que a dedada não foi de propósito, ela desaba a chorar. Pragmática, Geysibrega se oferece para fazer um espetáculo de dança do ventre, para acalmar os ânimos. Todos agora vibram, e as estagiárias, com uma disposição que nunca tiveram antes para o trabalho, se dispõem a ajuda-la.

10. Sizolete, de repente emburrada, diz que aquilo nunca foi dança do ventre, mas strip-tease e, conclama o restante das mulheres a irem embora. Os maridos aplaudem a idéia. Um bilhete circula de mão em mão, endereçado a uma das estagiárias, com um número de celular desconhecido. Neste exato momento chega no colo da mulher do presidente, que enrubesce e levanta os olhos, furibunda, para o marido. Desesperado, este grita: “Estão me sacaneando, isso não vai acabar assim!Cadê o Mike Tyson?” Todos temem pelo que possa acontecer , mas a cerveja chega nesse instante para o bem de todos e felicidade geral da nação.
Alguém fala em Lei Seca. Todo mundo ri da piada.