domingo, 18 de abril de 2010

ACONTECEU SÓ UMA VEZ

Texto publicado em O estado do Maranhão, sábado,
seção Hoje é dia de...
ACONTECEU SÓ UMA VEZ


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com



Toda unanimidade é burra, disse Nelson Rodrigues. Daí que nem precisa recorrer a Dostoievski “O original é um indivíduo que se coloca à parte”, para dimensionar o quanto a inteligência humana tem sede do que é único e raro. Vale a pena, portanto, de vez em quando, lembrar de coisas que aconteceram de forma exclusiva, ou apenas uma única vez.


1. Elvis Presley fez apenas um único show fora dos EUA. Foi no Canadá em 1957.

2. A única cidade do mundo onde o lixo serve como alicerce para construção de casas é o Rio de Janeiro.
Também é a única em que seus governantes acham isso o máximo.

3. O pagador de promessas de Anselmo Duarte foi o único filme brasileiro premiado com a Palma de Ouro do Festival de Cannes.
Dizem que o premio pode ter acontecido, também, por razões não artísticas. Como os franceses nunca acreditaram na seriedade dos brasileiros (“Esse não é uma país de gente séria”, sentenciou o presidente francês Charles de Gaulle”) ficaram ansiosos em aplaudir um brasileiro que - pelo menos no filme - cumpria suas promessas.

4. O único escritor da língua portuguesa a ganhar o Premio Nobel de Literatura foi Jose Saramago
Já o escritor da língua portuguesa que vendeu mais livros no mundo foi um brasileiro chamado Paulo Coelho. (E nem precisou de literatura para isso).

5. Van Gogh, o genial pintor holandês vendeu na vida um único quadro.
Foi também o único pintor que cortou a própria orelha – que também não conseguiu vender.

6. Os crocodilos e os jacarés são os únicos membros da família dos répteis que possuem voz alta.
Os juizes de futebol (répteis que andaram roubando O Vasco e outros times no fim de semana ) também possuem voz alta. Mas preferem o apito.

7. O lago Baicai , na Sibéria, é o único do mundo com profundidade suficiente para ter peixes em águas profundas.
Já o cérebro dos participantes dos BBB, são os únicos com profundidade suficiente para conterem volume de água equivalente à do lago Baicai.

8. Jane Seymour foi a única esposa de Henrique VIII que compartilhou seu túmulo.
A coleção de gigolôs de Suzana Vieira, no entanto, prefere compartilhar seus bens, antes do túmulo.

9. O único exército de amazonas autêntico era o das mulheres guerreiras do reino Dahoney, no oeste da África. Organizado pelo rei Agadja, no início do século XVIII, o exército tinha cerca de 2500 mulheres – todas esposas de oficiais do rei – que eram armadas com bacamartes, facas imensas, arcos e flechas. Muito eficazes só matavam por autodefesa. Em 1892 foram massacradas pelos franceses.

10. O único cientista profissional que se tornou chefe de uma nação foi o químico Chaim Weizmann, presidente de Israel em 1948, ano de sua fundação. Permaneceu no cargo até 1952, quando morreu.
O único torneiro mecânico que se tornou chefe de uma nação foi o metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil. Sua intenção é permanecer no cargo até quando Dilma Roussef sair. E, depois, continuar no poder até quando o seu time, o Coríntians, ganhar a libertadores da América. Ou seja...

11. A única estrela que fica acima da frase Ordem e Progresso na bandeira Nacional é a Spica ( Alfa da Virgem) representando o estado do Pará.
Portanto, estão errados os que pensavam que a única estrela representativa do estado do Pará fosse a Fafá de Belém.

12. O único império do Amor que é constituído por um sujeito que gosta de traficantes e outro que gosta de bater em mulher pertence ao time do Flamengo (Adriano e Wagner Love). Mas eles jamais são encontrados, por lá, em dia de treino.

13. O único país que faz parte do G20, do G7, do G8, do G3 e de qualquer G que fizerem, e que é também o país mais preparado do mundo para encontrar o ponto G, é o Brasil.( segundo seu presidente Lula)
Portanto, ele acaba de descobrir mais uma exclusividade do Brasil: é o único país preparado para encontrar algo que, segundo os cientistas, nunca existiu.

14. Em um único dia, um atleta que disputa o decatlo perde até três quilos de peso e gasta mais que 6500 calorias.
Em uma única noite de disputa-traveco, um atleta futebolista ganha até três quilos de peso e ganha mais de 6500 calorias. Tal fato foi comprovado por Ronaldo, o fenômeno.

15. O coração é o único órgão que não deixa de funcionar 24 horas ao dia.
Já o cérebro do Pedro Bial é o único que deixa de funcionar por 11 meses , até voltar, aos trancos e barrancos, durante o reality show do início do ano.

16. A única cidade do Brasil intitulada Atenas Brasileira, (graças aos méritos literários de seus cidadãos e intelectuais) é São Luis do Maranhão.
É a única também em que seus escritores precisam entrar na justiça para receberem o premio a que fazem jus, nos concursos de literatura oficiais da cidade.


domingo, 11 de abril de 2010

PARA SE LIVRAR DAS LARVAS

Texto publicado sábado na seção

Hoje é dia de... O Estado do Maranhão


Praga ou vírus? Nem um nem outro: essa perturbação de praga, essa contaminação de vírus, não passa de larva. Segundo cientistas, que pesquisam a memória humana, guardar um som torturante, que fica em sua mente como uma melodia presa no cérebro, é um fenômeno recorrente chamado earworms - literalmente, larvas de ouvido. (Já sentiu um mosquito enfiado em seu nariz? Recorda sua sofreguidão ao tentar ejeta-lo sem conseguir? É mais ou menos assim )
Portanto, aquela sensação angustiante de podridão cultural, que alguém sente quando escuta o refrão da música Rebolation, por exemplo, tem o efeito de larva se arrastando pelo seu cérebro. Quantas vezes por dia você já sonhou em expulsar um som desses de sua mente, sem conseguir? Quantas vezes por dia você já quis implodir quem passa defronte à sua casa zoando esse tipo de chacoalhar repetitivo bem perto do seu ouvido? Quantas vezes você já pensou em exterminar um sujeito de dois metros, rebolando à sua frente - se agitando e pulando feito um macaco, crente que está executando uma obra-prima da dança ao som desse refrão? Quantas vezes você não desejou que houvesse uma lei que defendesse sua paz e tranqüilidade desses disseminadores de larvas?
Tais pragas melódicas, dizem os cientistas - se alimentam da própria memória para infectar o pensamento (90% da população). Tanto é assim que, conforme publicado na revista Veja “a intragável (sic) Rebolation do grupo baiano Parangolé, alcançou 75000 downloads para celulares até quinta-feira passada, garantindo o primeiro lugar entre as músicas baixadas no período”. Sua “contaminação” , segundo os cientistas é devida , principalmente à repetição.
Os earworms começaram a ser estudados no fim do século XIX. Nessa época a invasão sonora não causava tanto transtorno, porque não era tão freqüente, não havia a explosão musical que existe hoje. Não havia celulares, nem havia trios elétricos: nem carros imitando trios elétricos, nem bicicletas imitando trios elétricos nem o mundo havia se transformado num gigantesco trio elétrico. Segundo a ciência, o problema é a repetição , ela é que causa a larva e somente um trabalho de proteção muito eficiente pode evitar que você seja contaminado. Como solução para evitar o contágio algumas alternativas são sugeridas por Philip Bearman. Tentemos avaliar, porém, sua eficácia:
1. “Tente não pensar no assunto” Os earworms são como chicletes
e sua definição é a mesma da piada: quanto mais você pisa mais gruda.
Seria cômico se não fosse trágico. Como não pensar no
assunto quando a música sequer tem assunto – como no caso de Rebolation?
2. “Coloque para tocar outra música.” Segundo o cientista cantar uma canção diferente pode neutralizar o efeito virótico.
Certo, mas que vantagem existe em você substituir uma larva por outra? Que proveito há em deixar de escutar o rebolation para ouvir outras larvas consagradas e reconhecidas, como Festa no Apê, de Latino, Pense em mim de Leonardo ou São as cachorras, de algum cachorro?
3. Compartilhe a canção com um amigo. Segundo o cientista, ao compartilhar a canção, o efeito de larva pode se diluir com base na matemática da propagação das larvas que diz: larva dividida por dois dá meia larva.
Vá lá! Mas e se o seu amigo se contaminar também e, infectado, resolver lhe devolver a música em dobro? Quem vai apanhar primeiro?
O que se percebe é que, apesar de toda boa vontade de Bearman, nunca se encontrará uma solução para o earworm. Até mesmo o consolo de que o “fenômeno” tem duração de 27 minutos e de que se as larvas voltarem, a recorrência é por apenas mais um dia, resiste à confrontação com a realidade. O problema, na verdade, não é só a capacidade de a industria musical produzir pestes sonoras, o problema maior é o de as pestes sonoras produzirem pestes humanas (devidamente disfarçadas , é claro, de motoristas montados em monstrengos barulhentos)
Contra estes jamais haverá defesa possível . Quem sabe a epidemia seria amenizada se, um dia, nossos legisladores aceitassem a sugestão proposta por um amigo meu: a de punir os disseminadores com uma lei determinando que toda vez que um sujeito contaminar o universo com suas larvas, deveria ser condenado a passar o dia inteiro escutando Bethoven, Chopin ou Villa-Lobos.
. Certo, não resolveria o problema, mas, pelo menos, o criminoso iria sofrer prá burro! Muito mais que nós sofremos.


terça-feira, 6 de abril de 2010

FRASES DE GRANDES HERÓIS

Texto publicado no jornal O Estado do Maranhão, ultimo sábado seção Hoje é dia de...


FRASES DE GRANDES HERÓIS


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com




Uma frase antiga, de um grande escritor, dizia que o olhar mostra o que uma pessoa é e suas palavras aquilo em que se transforma, mas, o que pode dizer de uma pessoa a sua frase, a frase predileta?
Penso que a vida moderna anda fazendo pouco caso das frases e do entendimento das mesmas. Retiro duas pérolas das placas visíveis pela cidade. A primeira diz: “Traga o seu avião que aqui temos o aeroporto.” A segunda: “Aqui a pipoca é mais gostosa.” Não se trata, ao contrário do que se poderia supor, da propaganda de um novo aeroporto, tampouco da McDonalds, mas de motéis. Isso mesmo, de motéis! Isso significa que o sexo deve ter muito mais a ver com aeronaves e saquinhos de pipoca do que sonha a vã inteligência humana. Tentemos entender.
O motel, que está oferecendo um aeroporto, tem também, por símbolo, um cupido, apontando uma flecha. Como você entende a gíria “avião”, mas não manja nada de aeroporto, algumas conjecturas são possíveis: 1. Provavelmente, o seu avião está enguiçado, ou está mais para teco-teco e vai precisar re-pousar. 2. Você está no prego (ao invés de com o prego) e, provavelmente, não dará conta de “voar” com um avião desses. 3. O aeroporto anunciado é apenas uma metáfora para algo grande, quem sabe um baita negão, pronto para servi-lo – ou à sua companheira. Ou seja, decididamente, o gerente do motel não bota muita confiança no seu taco, caro leitor, e é por isso que o anjinho, com uma flecha, aponta em sua direção como quem diz: “ Lucre mais ficando em casa, companheiro”
Já o outro, que anuncia que a pipoca por lá é mais gostosa, talvez esteja confiando em que você acabou de pegar uma gata ( ou avião, como queiram ), mas sua idade mental é a de uma criança. O nome da suíte que estão lhe propondo: “suíte cinema”, comprova o raciocínio. A insinuação clara é a de que você já deve ter chegado a uma fase que nem viagra adianta, e está ansioso apenas para assistir a um belo filme com sua parceira, comendo uma deliciosa pipoca.
Análise correta ou não, é facilmente constatável que as frases da propaganda moderna são incompreensíveis, o que não significa que não sejam aceitáveis, dentro do contexto da linguagem da comunicação visual, onde as palavras servem apenas de enfeite. Mas o que dizer das frases preferidas de três grandes heróis do nosso tempo?
A primeira é: “Retroceder nunca, render-se jamais”; a segunda: “Se é pra ser, que seja já.”; e a terceira: “ O não eu já tenho, vou atrás do sim.” Profundas, não? De fazer inveja a Shakespeare e Oscar Wilde. Onde eles teriam se inspirado? Talvez, escutando os textos de Pedro Bial, que, segundo o colunista Zé Simão, um dia farão, com que ele seja indicado à Academia Brasileira de Letras por Ana Maria Braga e Louro José. Tentemos interpretá-las, afinal de contas é nossa obrigação saber o que pensam nossos grandes heróis.
A primeira, mais fácil, significa que se um caminhão desgovernado ameaça atravessá-lo, você não deve retroceder, mas sim deixar que o mesmo passe por cima de sua cabeça: porque você é um herói, e heróis brasileiros não morrem, acabam num BBB, e viram celebridades. Já a segunda, que diz “Se é pra ser, que seja já” tem uma abrangência filosófica de fazer inveja ao “Penso, logo existo” de Descartes. Deve significar, que nada na existência tem valor se não for de imediato, lição de vida, aliás, que foi empregada por Alexandre Nardoni, quando atirou sua filha do alto. Por último, a mais complexa e metafísica: “O não eu já tenho, vou atrás do sim”.
Com quem a heroína teria aprendido tanta sabedoria? O aforismo significa, certamente, que todos carregamos um não de berço,e vamos atrás de qualquer sim que esteja vagando por aí, antes que chegue o outro, definitivo, que é a morte. Assim como Lula, num rasgo de inspiração, já disse que o Brasil seria muito melhor se todo brasileiro fosse um Faustão, nossa heroína proclama que o problema da imensa maioria dos brasileiros decorre de nunca desconfiarem de que não passam de um caminhão de nãos à procura de um sim que nunca chega. ( Ave Beckett e seu “Esperando Godot”!) As frases acima, antes que me esqueça, são, pela ordem, dos heróis Dourado, Cadu e Fernanda, gênios do BBB e do Brasil moderno, cada um mais sábio, mais iluminado e mais idolatrado do que o outro.
Depois de tudo o que escrevemos até aqui talvez seja possível responder
à questão proposta no primeiro parágrafo do texto acima. Decididamente, a frase preferida de cada um, não mostra apenas aquilo que a pessoa é, mas, principalmente quando estas - ganhem o premio que ganharem, façam o sucesso que fizerem - nunca vão passar de um gigantesco não. Não é isso mesmo que você queria dizer, genial Fernanda?

sábado, 27 de março de 2010

DE EX-LEILAS A EX-TESSÁLIAS

Texto publicado em O Estado do Maranhão,
hoje, sábado, seção Hoje é dia de...



DE EX-LEILAS A EX-TESSÁLIAS


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com




Estava outro dia em frente a uma banca de revistas, especialista em revistas novas e usadas quando deparei com duas Playboy, próximas, que apresentavam na capa, em uma delas a foto de Leila Lopes e no outro a de Tessália Serighelli. A de Tessália, ex BBB, é a ultima edição da revista e a outra, de 97, ainda em bom estado. Curiosamente, nas duas, a foto de capa não tinha apelo erótico, mas apresentava apenas o rosto das duas mulheres.
A revista mais antiga, com Leila Lopes, exibia o retrato de uma mulher bonita, mais para o lado cândido – na época ela criou fama como professorinha, na novela O rei do Gado. Talvez estivesse aí a fonte de insinuação erótica: a sensual fêmea escondida por trás da aparente ingenuidade da professora, a ser investigada nas páginas internas, um prato para preencher as fantasias masculinas. No ensaio, ela faz força para executar muito bem o seu papel de prostituta.
( Prostituta? Talvez os leitores considerem esse termo muito forte, afinal de contas, posar nua não é suficiente para caracterizar uma prostituta. Ou não? Recorrendo ao dicionário Larousse vemos que prostituta é aquela que se prostitui, sendo prostituir o ato de fazer algo conflitante com os próprios valores, por dinheiro; degradar-se ou aviltar-se. Portanto, o cronista está correto, mas esse não foi o motivo de ter escolhido propositadamente o termo, mas sim, o de aproveitar o ensejo para extrair daí uma verdade: estamos numa sociedade onde o que choca não é a atitude, mas a palavra ou a circunstância em que se fala. ) Voltando ao ensaio, ele é bonito, mas nada extravasa em termos de luxúria: Leila não tem o apelo erótico de uma Juliana Paz, por exemplo. Decididamente, estava mais para professorinha do que para vulcão sexual. Estou falando dela no passado, porque... Será que alguém se lembra dela? No fim do ano passado, morreu. Suicidou-se.
Já Tessália, que agora povoa o batalhão das celebridades sexy, ao exibir também sua nudez por dinheiro, tem em comum com a outra uma aparência doce. Seu ensaio resulta no que os especialistas chamariam de competente, porém, pouco sedutor. Assim como a primeira, Tessália apenas tenta cumprir o seu papel de subir na vida às custas de sua razoável beleza. Para isso tem um blog na Internet, para isso se candidatou ao BBB e se imbecilizou em companhia de gente estranha e estúpida, para isso rolou pelas camas com os machos, para isso se sujeitou a ouvir insinuações de um picareta chamado Pedro Bial. “Jogo da vida”, ela diria, o que, para ela, é suficiente para cumprir a sina que povoa o imaginário da maioria: Ser bonita, cavoucar celebridades pela Internet, cair num reality-show, posar nua, faturar uma grana, virar ex-BBB para o resto da vida e...
Não, não sejamos mórbidos ao imaginar que Tessália possa ter, um dia, o mesmo destino da outra. Suicidar-se um dia? Como e por quê? Para quê? Por que uma mulher bonita tentaria contra a própria vida? Não, decididamente Tessália não tem motivos, posou para a Playboy, vai virar Ex BBB, aconteça o que acontecer, pelo menos, terá a felicidade medíocre, de tantas.
E, no entanto, pelos mesmos motivos, quem pensaria, na época, que Leila Lopes se mataria? Que fã conceberia que ela um dia faria isso, aos quarenta e um anos, ainda bonita. Quem poderia explicar sua atitude? Lembro de alguns detalhes da carta que escreveu, antes de sua morte, e que li, numa revista: falava em Deus, dizia que não se suicidaria por necessidade financeira, mas por cansaço. Estava simplesmente cansada da vida e agora queria Deus. Apenas isso.
Não explicou, porém, porque razão precisaria morrer para chegar ao deus que, agora, ansiava. Entre uma das razões aventadas pelos amigos mais próximos para explicar sua atitude uma delas é a de ter feito, pouco antes de sua morte, um filme pornô. Depois disso, alijada do cenário artístico global, passou a sofrer uma condenação moral implícita no ambiente onde ainda queria sobreviver, o que a fragilizou definitivamente.
Donde se conclui que o mesmo meio que estimula o sexo
desenfreado em suas novelas, que mostra cenas de sexo em público nos seus reality shows, que exibe piadas obscenas para crianças, e que (ao mesmo tempo em que condena) insinua a pedofilia através de gestos e danças eróticas de crianças; esse mesmo ambiente repudia aqueles que assumem abertamente a “coragem” de se prostituir. Ou seja, estimular a prostituição e incentivar a pedofilia e outras aberrações sexuais é permitido, mas ter a coragem de assumi-las é condenável. Tal hipocrisia é do mesmo teor do comportamento da sociedade que, no passado, fechava as casas de prostituição que se intitulassem rendez-vous, admitindo as que passaram a se intitular motéis, que proliferaram do mesmo jeito.
Resta desejar que Tessália, a nova iniciante, a bem de nunca se suicidar, conviva naturalmente com as possibilidades do meio que escolheu, e que aprenda cada vez mais a ser hipócrita. Que não assuma jamais diante da própria filha que foi prostituta num programa de baixo nível, e que entenda definitivamente que o meio televisivo, que escolheu para subir na vida, é uma religião que não admite verdades. Assim como a Rede Globo sequer fez menção à sua ex-artista quando morreu, homenageando-a ou tendo uma breve compaixão pelo seu destino, que Tessália continue a ter vergonha também da realidade e conviva naturalmente e para sempre, (como tanta gente faz e gosta) sob a divindade da ilusão e da hipocrisia.



DE EX-LEILAS A EX-TESSÁLIAS


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com




Estava outro dia em frente a uma banca de revistas, especialista em revistas novas e usadas quando deparei com duas Playboy, próximas, que apresentavam na capa, em uma delas a foto de Leila Lopes e no outro a de Tessália Serighelli. A de Tessália, ex BBB, é a ultima edição da revista e a outra, de 97, ainda em bom estado. Curiosamente, nas duas, a foto de capa não tinha apelo erótico, mas apresentava apenas o rosto das duas mulheres.
A revista mais antiga, com Leila Lopes, exibia o retrato de uma mulher bonita, mais para o lado cândido – na época ela criou fama como professorinha, na novela O rei do Gado. Talvez estivesse aí a fonte de insinuação erótica: a sensual fêmea escondida por trás da aparente ingenuidade da professora, a ser investigada nas páginas internas, um prato para preencher as fantasias masculinas. No ensaio, ela faz força para executar muito bem o seu papel de prostituta.
( Prostituta? Talvez os leitores considerem esse termo muito forte, afinal de contas, posar nua não é suficiente para caracterizar uma prostituta. Ou não? Recorrendo ao dicionário Larousse vemos que prostituta é aquela que se prostitui, sendo prostituir o ato de fazer algo conflitante com os próprios valores, por dinheiro; degradar-se ou aviltar-se. Portanto, o cronista está correto, mas esse não foi o motivo de ter escolhido propositadamente o termo, mas sim, o de aproveitar o ensejo para extrair daí uma verdade: estamos numa sociedade onde o que choca não é a atitude, mas a palavra ou a circunstância em que se fala. ) Voltando ao ensaio, ele é bonito, mas nada extravasa em termos de luxúria: Leila não tem o apelo erótico de uma Juliana Paz, por exemplo. Decididamente, estava mais para professorinha do que para vulcão sexual. Estou falando dela no passado, porque... Será que alguém se lembra dela? No fim do ano passado, morreu. Suicidou-se.
Já Tessália, que agora povoa o batalhão das celebridades sexy, ao exibir também sua nudez por dinheiro, tem em comum com a outra uma aparência doce. Seu ensaio resulta no que os especialistas chamariam de competente, porém, pouco sedutor. Assim como a primeira, Tessália apenas tenta cumprir o seu papel de subir na vida às custas de sua razoável beleza. Para isso tem um blog na Internet, para isso se candidatou ao BBB e se imbecilizou em companhia de gente estranha e estúpida, para isso rolou pelas camas com os machos, para isso se sujeitou a ouvir insinuações de um picareta chamado Pedro Bial. “Jogo da vida”, ela diria, o que, para ela, é suficiente para cumprir a sina que povoa o imaginário da maioria: Ser bonita, cavoucar celebridades pela Internet, cair num reality-show, posar nua, faturar uma grana, virar ex-BBB para o resto da vida e...
Não, não sejamos mórbidos ao imaginar que Tessália possa ter, um dia, o mesmo destino da outra. Suicidar-se um dia? Como e por quê? Para quê? Por que uma mulher bonita tentaria contra a própria vida? Não, decididamente Tessália não tem motivos, posou para a Playboy, vai virar Ex BBB, aconteça o que acontecer, pelo menos, terá a felicidade medíocre, de tantas.
E, no entanto, pelos mesmos motivos, quem pensaria, na época, que Leila Lopes se mataria? Que fã conceberia que ela um dia faria isso, aos quarenta e um anos, ainda bonita. Quem poderia explicar sua atitude? Lembro de alguns detalhes da carta que escreveu, antes de sua morte, e que li, numa revista: falava em Deus, dizia que não se suicidaria por necessidade financeira, mas por cansaço. Estava simplesmente cansada da vida e agora queria Deus. Apenas isso.
Não explicou, porém, porque razão precisaria morrer para chegar ao deus que, agora, ansiava. Entre uma das razões aventadas pelos amigos mais próximos para explicar sua atitude uma delas é a de ter feito, pouco antes de sua morte, um filme pornô. Depois disso, alijada do cenário artístico global, passou a sofrer uma condenação moral implícita no ambiente onde ainda queria sobreviver, o que a fragilizou definitivamente.
Donde se conclui que o mesmo meio que estimula o sexo desenfreado em suas novelas, que mostra cenas de sexo em público nos seus reality shows, que exibe piadas obscenas para crianças, e que (ao mesmo tempo em que condena) insinua a pedofilia através de gestos e danças eróticas de crianças; esse mesmo ambiente repudia aqueles que assumem abertamente a “coragem” de se prostituir. Ou seja, estimular a prostituição e incentivar a pedofilia e outras aberrações sexuais é permitido, mas ter a coragem de assumi-las é condenável. Tal hipocrisia é do mesmo teor do comportamento da sociedade que, no passado, fechava as casas de prostituição que se intitulassem rendez-vous, admitindo as que passaram a se intitular motéis, que proliferaram do mesmo jeito.
Resta desejar que Tessália, a nova iniciante, a bem de nunca se suicidar, conviva naturalmente com as possibilidades do meio que escolheu, e que aprenda cada vez mais a ser hipócrita. Que não assuma jamais diante da própria filha que foi prostituta num programa de baixo nível, e que entenda definitivamente que o meio televisivo, que escolheu para subir na vida, é uma religião que não admite verdades. Assim como a Rede Globo sequer fez menção à sua ex-artista quando morreu, homenageando-a ou tendo uma breve compaixão pelo seu destino, que Tessália continue a ter vergonha também da realidade e conviva naturalmente e para sempre, (como tanta gente faz e gosta) sob a divindade da ilusão e da hipocrisia.



sábado, 20 de março de 2010

DOENÇAS MUITO ESTRANHAS ( OU NEM TANTO)

Texto publicado no jornal O Estado do Maranhão,
hoje, sábado, seção Hoje é dia de...

DOENÇAS MUITO ESTRANHAS ( OU NEM TANTO )


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com


Nestes dias de gripe A, uma pesquisa do jornal australiano Sydney Morning Herald relacionou dez das síndromes mais estranhas que atingem o ser humano. Todas essas doenças existem e mobilizam médicos e pesquisadores na busca de uma cura. Curiosamente, porém vê-se que a maioria delas já aconteceu no Brasil ou, pelo menos, alguma equivalente.

1. Síndrome do Sotaque Estrangeiro – Provocado por uma lesão no cérebro, o distúrbio faz com que suas vítimas passem a falar com sotaque – na maioria dos casos as vítimas sequer conhecem o novo idioma. Um dos casos mais recentes ocorreu em 2006, quando a britânica Lynda Walker sofreu um infarto e acordou falando inglês com sotaque jamaicano.
Doença muito semelhante ocorre com muitos brasileiros. Basta viajarem para o exterior: Paris, Londres, Nova Iorque etc. para propagar esse fato e ostentar – com sotaque interiorano - detalhes da viagem como se isso não fosse um fato tão corriqueiro hoje em dia. A doença não lhes permite perceber que num mundo tão globalizado como o de hoje, onde as diferenças culturais não são mais tão marcantes, nada justifica tanto alarde. Algum tempo atrás a televisão exibiu um desses doentes em visita ao exterior “chorando” de emoção porque estava vendo neve pela primeira vez na vida. Isso enquanto os de lá “choram”, mas de raiva, já que a neve, para eles, não passa do nosso equivalente em lama e aporrinhação.
Aparentemente, nossos doentes não se deram conta ainda que sofrem
desse mal, embora não se possa dizer que sofram da síndrome do sotaque estrangeiro, mas sim do complexo do sub-desenvolvido, ou do vira-lata, de que falava Nelson Rodrigues.

2. Síndrome da mão estranha. Em inglês “alien hand syndrome” ( síndrome da mão alienígena). Quem é acometido por essa doença vê uma das mãos ganhar vida própria. Os efeitos da falta de controle sobre a mão podem ser reduzidos dando a ela uma tarefa qualquer, como segurar um objeto.
Consta que alguns políticos, envolvidos com o mensalão, tentaram justificar a rapinagem do dinheiro público, apresentando-se como vítimas dessa doença. ( No caso, a anomalia teria acontecido, pela incapacidade de controlar as próprias mãos, todas as vezes em que sentem cheiro de dinheiro por perto.)
O Ministério Público ainda não se pronunciou a respeito, tanto é assim
que eles continuam à solta, mas e você? O que acha disso, caríssimo leitor?

3. Maldição de Ondina. Ondina é a ninfa das águas na mitologia pagã européia. As vítimas dessa doença perdem o controle da respiração, esquecendo-se de respirar e, muitas vezes, morrem sufocadas. Alguns, preventivamente, têm de dormir com um ventilador. Descoberta há 30 anos a síndrome registra cerca de 400 casos no mundo.
No Brasil o equivalente de maldição de Ondina não faz o doente perder o controle da respiração, mas do ouvido. Nossos doentes, se esquecem de pensar e, com o ouvido deteriorado, invadem as ruas com sons a decibéis de dar em doido. Somente através da doença se conseguiu finalmente explicar como a barulheira infernal não lhes corrompe os tímpanos. O que nunca vai dar para explicar é a perda da noção de que nem todo mundo está com o ouvido suficientemente atrofiado, para se deleitar com a parafernália.

4. Síndrome de Cotard. Espécie de depressão extrema que leva o doente a acreditar que já morrreu, e que todos ao seu redor também são cadáveres. Em casos extremos o doente pode até ter a impressão de sentir sua carne apodrecendo, e vermes passeando pelo seu corpo.
Especialistas julgam que o primeiro caso da síndrome de Cotard aqui no Brasil pode estar ocorrendo com a famosa atriz Suzana Vieira. Crente de que já morreu e que não tem satisfação alguma a dar ao mundo dos vivos ela deve ter a impressão de que sua carne está apodrecendo ( ver fotografias recentes). Daí o seu esforço em enganar a si própria, cometendo cada vez mais bizarrices, como a de rebolar seus oitenta anos, de forma grotesca, no carnaval. Uma razão adicional para acreditar que ela sofre mesmo da síndrome de Cottard é a de que ela realmente sente os vermes passearem sobre o seu corpo. Recorde-se de que, para os moralistas, um gigolô não passa de um verme.

5. Síndrome da redução Genital – Também conhecida como Koro, esse distúrbio mental deixa a pessoa convencida de que seus genitais estão desaparecendo. Em Cingapura, 1967, o serviço local registrou centenas de casos de homens que acreditavam que o seu pênis estava sumindo. No Brasil, um caso foi registrado no Instituto de Psiquiatria da USP, quando o doente, tentou se matar com duas facadas.
Como são as coisas! Na Cingapura centenas de casos ocorreram, mas ninguém chegou a ponto de tentar contra a própria vida. No Brasil, bastou acontecer uma primeira vez para que alguém tentasse se matar. Parece bastante razoável, portanto, que, num surto de previdência, um deputado tenha solicitado um projeto de lei autorizando a distribuição gratuita de viagras para a população. Dessa forma, estaria plenamente justificada a criação de mais uma bolsa: desta vez, o Bolsa-Aparece.

6. Síndrome de Capgras – Após sofrer uma desilusão com alguém próximo a pessoa passa a acreditar que eles foram seqüestrados e substituídos por impostores. O sintoma evolui até o ponto da vítima acreditar que ela também se tornou um farsante.
Um episódio recente, de repercussão internacional, corrobora a suspeita de que a síndrome de Capgras, infelizmente, chegou ao Brasil.
Quando Lula, um ex-sindicalista e grevista, e que já fez greve de fome, se pronunciou abertamente contra aquele que se suicidou através dela em Cuba, chamando-o de bandido, a favor de Fidel Castro, pairou a sensação de que de Lula , o ex-sindicalista, foi seqüestrado e que deve existir agora alguém muito parecido em seu lugar.
E pior, quando aceitamos tudo isso: acreditamos em Dunga e na transposição do Rio São Francisco; e suportamos Ivete Sangalo, Arnaldo Jabor e o Big-Brother, não resta a menor dúvida. Nós brasileiros, vítimas de uma gigantesca epidemia, também acreditamos que somos farsantes. Não passamos de réplicas. Nosso problema maior – Deus nos salve! - não é a gripe A, mas a síndrome de Capgras.

sábado, 13 de março de 2010

O ULTIMO ESCRITOR

Texto publicado em O estado do Maranhão,
seção hoje é dia de..., hoje, sábado

O ÚLTIMO ESCRITOR


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com



Esta cena não vai demorar a acontecer, daqui a uns vinte anos talvez, possivelmente menos. Talvez não aconteça dessa forma, mas seu contexto já está na imaginação de muita gente. Pode-se dizer que os estratos que dirigem esta nação e a imensa maioria do povo age como se isso já estivesse acontecendo.
- Mãe, o que é aquilo mãe?
O filho, aflito, aperta com intensidade a mão da mãe, e contempla alguém não identificado, um personagem sim, mas em tudo estranho aos seus olhos. Estamos num parque e o tal personagem está sentado num banco, com um ou dois livros do lado, escrevendo num caderno. O pequeno, assustado, parece se incomodar muito com isso.
- Sei não, filho, mas acho que é um escritor. Deve ser o mesmo que me parou outro dia na rua para me vender um livro. Que audácia! Quem vai gastar seu dinheiro com livro?
- Como? Escritor? Que é isso, mãe?O que é aquilo que ele segura? O que faz?
- Pare de fazer tantas perguntas bobas, menino!
Num ato impulsivo de curiosidade, próprio das crianças, o menino faz um gesto em direção do homem.
- Cuidado! Calma, menino! Não chegue perto, jamais chegue perto de um homem desses. Não falei que se trata um escritor?
- Sim mãe, mas o que é escritor? Veja, ele não tem cara de quem faz mal a alguém.
- Como não? Já te falei muitas vezes, não vou mais te repetir: Cauã!, fuja de quem faz coisas estranhas. Esse homem escreve, deve escrever muito Ele lê muito, passa o dia escrevendo. Por quê? Para quê? Isso é muito esquisito, filho, por que ele não procura outra ocupação? Se gosta tanto assim de ler, por que não se tornou um professor ? Por que não estudou para ser médico? E se não tem dinheiro para pagar faculdade porque não vai ser guardador de carro, que dá muito mais dinheiro?
- Ele é um vagabundo, então?
- Se não é, faz tudo para ser. O que pode pretender uma pessoa que passa o dia todo escrevendo? Não tem mulher? Não tem família? Sei que mora neste bairro porque já o vi antes. Mas nunca vi esse homem num supermercado, nunca o vi dando risadas, nunca o vi junto de um carro de som, botando conversa fora e escutando forró, como todo mundo. Certamente julga que seja bom viver desse negócio de livro. Ora, por que uma pessoa compraria um troço desses, se não serve para nada?
- Mãe, o que é mesmo um livro?
- Observe com atenção. Daqui dá para olhar.
O filho faz novamente menção de chegar mais perto para ver.
- Não vou te avisar outra vez, Cauã! Já avisei, não se aproxime dele, é perigoso.
O menino conteve-se e aguardou.
- Livro era esse negócio esquisito que ninguém mais usa. Sabia que houve tempo em que as crianças iam para a escola e carregavam um monte deles? Era feito de papel e ainda bem que hoje isso acabou. Hoje você tem e-book, tem celular, tem I-Pod. Enquanto a professora dá as lições, o aluno pode se distrair fazendo joguinhos e espiando coisas instrutivas como Big-Brother, novela, jogo de futebol. Você acredita que houve tempo que nos obrigavam a ler as histórias que vinham nesses livros e que chamavam de romances?
- Mãe, a senhora também chegou a ler algum?
- Tentei sim, era obrigada a isso, mas jamais consegui. Toda vez que tentava ler um, dormia.
- Era uma espécie de remédio, então, mãe?
- Pior, muito pior. Era uma tortura, filhinho. Os professores os usavam para nos meter medo. Tínhamos que ler histórias desagradáveis desses homens de muito tempo atrás, desses que viraram estátuas. Ora, se a gente podia ver novelas e filmes cheias de imagens, porque a gente tinha de matar a cabeça para entender essas mesmas imagens numa letra atrás da outra? Era coisa de gente perversa mesmo, de quem não gostava de criança. Queriam que a gente deixasse de escutar forró, de ver o Big-Brother, de assistir filmes, de namorar, tudo isso para ver esses livros escritos por psicopatas como esse daí. Você sabia filho? Alguns desses escritores se mataram. Teve um até que...
- Céus, como devia ser muito ruim nesse tempo, mamãe. Não deixar a gente ver Big-Brother, aquelas mulheres gostosas, não é mãezinha?
- Ah, safadinho! Sim, meu filho, era muita maldade. Mas ainda bem que o mundo evoluiu. Um dia você vai dar valor ao que a gente teve de agüentar para que as crianças do mundo de hoje...
De repente, o menino queda, extasiado, em contemplação profunda, o que interrompe a fala da mãe num quase grito
- Mãe, e agora, o que ele está fazendo?
- Filho, ele está pensando. Ele deve ter parado para pensar, é isso: parou para pensar, para refletir sobre alguma coisa.
- Para que mesmo, mãe? Refletir? Como se faz isso?
- Eu não te disse que ele é doido? Se existe tanto som para escutar, tanta gente para conversar, tanta coisa para fazer, tanta novela para assistir por que um ser humano pode pensar em pensar? Quem pode gostar de pensamento e silêncio?
- Mãe, não seria melhor chamar logo a polícia?
- Deixa para lá filho. Estamos no Brasil, eles demorariam para chegar. E depois, não precisa temer, esse é o último!


sábado, 6 de março de 2010

A ARTE DE SER CORNO

Texto publicado no jornal O estado do Maranhão,
seção Hoje é dia de...neste sábado

A ARTE DE SER CORNO


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com




A grande dificuldade de se medir o talento de um corno é saber até onde essa é uma arte sua, natural e exclusiva, ou apenas uma conseqüência do talento para botar chifres da parceira que escolheu. De forma que o talento do corno parece não se revelar apenas no ato em si, mas nas decisões que toma a posteriori.
Talentoso ou não, a ciência prova todo homem tem um potencial nato para ser chifrudo o que significa dizer que todo macho é uma cabeça à espera de um chifre, embora nem sempre tenha sido assim. Antigamente - e bote milhares de anos nisso - quando ainda éramos macacos não sabíamos que podíamos ser cornos. Mas já desconfiávamos. Segundo a teoria evolutiva todo esse ciúme, que o macho sente pela fêmea que julga sua, nasceu da impossibilidade de nossos tataravôs macacos saberem se o embrião que fazia a barriga da companheira avolumar-se era, de fato, seu. Podemos imaginar o drama. Se hoje em dia, com exame de DNA e tudo, as dúvidas persistem imagine nessa época.! (recente reportagem de uma científica atesta que, atualmente, 8 % dos filhos reconhecidos por seus pais, como seus legítimos descendentes, não o são, na realidade)
Não é de estranhar, portanto, que muito tempo depois, na idade
média, os homens tenham tentado proteger a exclusividade de seus genes com a invenção do cinto de castidade. Coitados, não conheciam, ou faziam de conta que não conheciam a primeira Lei Universal dos Cornos que diz: “não há equipamento capaz de prevenir um homem de se tornar corno” ( que é apenas uma versão – piorada - da muito popular Lei Universal da Natureza Feminina que diz: “fogo de morro acima, água de morro abaixo e mulher quando quer dar, ninguém segura”).
Cerca de oitocentos anos a mais de evolução, esse ciúme, tão instintivo e avassalador, gerou nas páginas do mestre Machado de Assis um verdadeiro tratado sobre o tema chamado Dom Casmurro. Neste romance ele relata, elegantemente, o drama de um corno chamado Bentinho, para sempre em dúvida quanto a verdade do seu gene na barriga da amada Capitu, atormentando-se por causa disso, capítulo após capítulo, sem coragem de dar a volta por cima. O certo é que, se evoluímos, passando de macacos para homens, o sofrimento, porém, continuou.
E, ao que tudo indica, nunca acabará. Nestes dias que correm,
de Internet, Big-Brother e pílulas de felicidade, uma notícia de chifre ganhou mais assunto na imprensa internacional do que a nova queda nas ações da bolsa européia. Trata-se do lateral Bridge, da seleção inglesa, que, traído pela namorada com um companheiro de time e de farra, Terry, decidiu abandonar o English Team. “Não posso usar a mesma camisa de um cara que pode ter usado as minhas camisinhas” teria dito ele, e, desde então, só se fala nisso na Europa.
O que teria acontecido, para que um acontecimento tão banal tenha adquirido tons de tragédia mundial? Parece que Bridge, ao dar uma de vítima, descuidou-se de uma das regras fundamentais do Manual Universal dos Cornos que diz: “todo chifre nasce do mesmo tamanho, mas aumenta desproporcionalmente, quanto mais se fala nele”. Por desconhecimento de uma regra elementar, o zagueiro, que se revelou um corno de raro talento ao se despedir voluntariamente da seleção, corre o risco de ficar mais famoso nessa arte que na de jogador de futebol.
Com o intuito didático de evitar que mais cornos se tornem famosos como Bridge lembraremos, a seguir, alguns itens desse manual Que este não se torne uma Bridge ( ponte, em português ) que o conduza, ao invés, para o outro lado, caríssimo leitor:

1. O sujeito que tem vergonha de ser corno deveria se lembrar que todo ser humano não passa de um corno, pois sua sina é ser traído e abandonado um dia por aquela que mais ama: a própria vida.

2. Todo homem que ama uma mulher acima de todas as coisas corre o sério risco de vê-la rapidamente abaixo das coisas do primeiro homem que aparece.

3. Numa relação homem-mulher nunca dá empate, sempre um dos dois está ganhando. Se o homem julga que sua relação está empatada é porque já está perdendo.

4. O bom corno não é mais corno não só porque o dia tenha só 24 horas, mas porque o alfabeto só tem vinte e três letras e o espelho só tem uma imagem.

5. Nunca existiu nem jamais vai existir equipamento de Proteção Individual para o corno. O melhor que já inventaram foi a camisinha, mas quem usa, quando interessa, é o outro.

6. Um corno pode ser perfeito, o não-corno jamais. Depois que inventaram a fantasia feminina não dá para escapar. Na melhor das hipóteses o sujeito toma chifre do Brad Pitt, na pior da Angelina Jolie. (ou vice-versa, com queiram).

7. O chifre foi a melhor forma já inventada por uma mulher para colocar os homens nos seus devidos lugares. Seu marido no seu (dele). Seu amante no seu (dela)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

AS ULTIMAS PALAVRAS DE ALGUÉM

Texto publicado em O estado do Maranhão, hoje
sábado, seção Hoje é dida de...


AS ÚLTIMAS PALAVRAS DE ALGUÉM


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com



A última frase dita por alguém jamais deve ser confundida com a de um epitáfio, eis que não são frases elaboradas, mas espontâneas. Diante do ignoto e do inominável, muitas vezes o ser humano expõe sua verdade mais íntima, sem artifícios. Ela pode ter sido:

Inexorável, como a de Jean Cocteau: “O gosto da morte está vindo. Sinto o sabor de algo que não é deste mundo.”

Filosófica, como a de Galois: “ Não fique triste meu irmão. É preciso muita coragem para se morrer aos vinte anos.”

Fatalista, como a de Jane Austen; “A única coisa que desejo é morrer.”

Irônica, como a de Heine: “Acho que Deus me perdoará. Afinal, esse é o seu serviço.”

Estóica, como a de Arquimedes: “Por favor, não atrapalhe minhas equações.”

Sarcástica, como a de Oliver Cromwell: “O diabo está aí para me seduzir. E eu já me sinto seduzido.”

Tragicômica, como a de Elizabeth Tudor: “Por favor, não me leve ainda. Todo o meu reino por só mais um minuto.”

Heróica, como a de Joana DÀrc “ Segure a cruz bem alto para que eu possa vê-la através das chamas.”

Patética, como a de Goethe: “Abra as persianas que eu quero ver luz, mais luz.”

Diante do que foi dito por essas pessoas, engrandecidas pela História, não custa imaginar como poderia ser , no futuro, a última frase de algumas de nossas atuais celebridades:

Madonna: “Luz, mais Luz”, mas não se referindo como Goethe, acima, a um raio luminoso, mas ao seu namorado Jesus Luz.

Suzana Vieira: “Que Deus encontre outra perua mais porralouca que eu para cuidar da minha coleção de gigolôs.”

Pelé: “Tenho que admitir que o pior presente que eu poderia ter deixado às criancinhas do Brasil não foi o meu milésimo gol, mas sim a Xuxa.”

Hugo Chaves: “Errei mas tenho uma desculpa. Para resolver todos os problemas da Venezuela nasci com muita chave no nome. E poucas na cabeça.”

Pedro Bial : “Não admito o crime de ter feito milhões de brasileiros de idiotas por causa do BBB, mas a culpa de, por dinheiro, ter me transformado no maior deles.”

Paulo Coelho: “Reafirmo que não fiz pacto nenhum com o diabo para ter vendido tanto livro ruim. Se houve algum mágico que tirou este Coelho aqui de sua cartola, só pode ter sido Deus.”

Ivete Sangalo: “Não tenho medo de nada. Se sobrevivi até hoje ao Axé, sobreviverei com certeza ao inferno, não é mesmo mãinha?”

Elton John: “Antes que seja tarde retiro o que disse. Nunca quis dizer que Cristo era gay, mas que ser gay era divino!”

José Roberto Arruda: “Diabos usam meias? Demônios usam cuecas? O que me preocupa é saber onde é que vamos esconder nosso dinheiro.”

José Serra: “Não quero que toquem o hino Nacional no meu funeral, prefiro o Hino da Bandeira para que cantem bem alto o verso que diz: “ Recebe o afeto que se enSerra em nosso peito juvenil...”
















terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

UMA QUESTÃO PESSOAL

Artigo publicado na seção Hoje é dia de...
sábado passado em O estado do Maranhão

UMA QUESTÃO PESSOAL


Jose Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com






Uma questão pessoal, soberba ou inveja: uma das três, ou as três ao mesmo tempo. Somente assim se explica porque o técnico Dunga, da seleção brasileira de futebol não convoca para a seleção brasileira de futebol o jogador Ronaldinho Gaúcho, um dos melhores do mundo na década e, ainda hoje, o mais talentoso jogador brasileiro em atividade.
A explicação dada pelo técnico não convence ninguém. Não convence os fãs africanos que gostariam de ver de perto seu ídolo, não convence seus admiradores no mundo todo e não convence ex-jogadores da estirpe de Maradona, admirador do seu futebol e incrédulo diante de sua não convocação. Primeiro, o técnico Dunga disse que o jogador precisa mostrar que o seu futebol ainda é o mesmo, para merecer a convocação. Ora, isso Ronaldinho tem mostrado de sobra, como comprovam as manchetes dos jornais europeus diante de suas últimas atuações. Não fosse por isso, porém, bastaria assistir a dois ou três lances do craque para concluir que Ronaldinho nem precisa mostrar todo o seu futebol para ser melhor do que gente do quilate de Julio Batista, Elano, Josuel, Ramires e mais uma penca, habituais “preferidos de Dunga”.

Quando contestado pelos repórteres sobre o porquê dessa fajuta decisão Dunga recorre à sua manjada tese do “amor à camisa”, talvez porque deva a ela a sua ascensão como técnico. Para quem não se lembra, Dunga estava completamente esquecido no cenário futebolístico, quando foi sacado, como um coelho, da cartola do “mágico” Ricardo Teixeira, presidente da CBF, depois do fiasco da última copa. Tentando tirar de cima dos seus ombros a responsabilidade pelos desmandos administrativos ocorridos no transcorrer da competição, Ricardo jogou a culpa nos três jogadores principais ( Ronaldo fenômeno, Ronaldinho e Kaká ) e os acusou de irresponsáveis e inconseqüentes, elegendo como contraponto para isso o burocrático e medíocre, mas esforçado Dunga, como o novo modelo a ser seguido.

Mas o que é mesmo esse tal de amor à camisa de que tanto se fala? Seria o patriotismo, de araque, que irrompe da voz de Galvão Bueno ou o entusiasmo efêmero de brasileiros, que só se lembram de ser patriotas em época de copa do mundo? Ou deveria ser o senso de profissionalismo que todo ser humano deve ter, independente da camisa que veste, a bem de sua própria realização? Ora, se Dunga está falando de profissionalismo então não deveria ter convocado Adriano, do Flamengo, que desapareceu do clube que lhe pagava na Itália para vir jogar no Rio, onde se acostumou a faltar treinos e a aparecer na hora em que bem entende. O que nos leva a concluir que argumento falho é o que não falta à boca de Dunga quando se propõe ao exercício de desprestigiar o craque do Milan, deixando transparecer toda a soberba que o norteia, por trás de sua implicância.
Soberba por quê? Talvez porque seja muito fácil ser arrogante, quando se dirige uma seleção brasileira de futebol. Trata-se, de um plantel que conta sempre com uma infinidade de craques, e que nem precisa dispor do melhor para ganhar uma Copa. Foi assim em 1962 quando nem precisou de Pelé ( havia ainda Garrincha e Amarildo) e foi assim em 2002 quando prescindiu de Romário (havia Rivaldo e Ronaldo, o fenômeno) Enfim, ao contrário do que se anuncia, ser técnico da seleção brasileira de futebol é um dos melhores empregos do mundo: ganha-se rios de dinheiro, adquire-se prestígio internacional e sua única “dificuldade” é justamente a fartura da matéria-prima. Dificuldade? Seria essa a mesma dificuldade a ser enfrentada por alguém, cuja profissão fosse a de ser milionário, e tivesse como único obstáculo o trabalho de conferir o excesso de dinheiro.
Pois Dunga já percebeu isso e, trata com indiferença o jogador do Milan, plenamente convicto de que pode ganhar a copa sem ele, o que é verdade. Para isso basta montar (como ele vem fazendo) uma equipe cheia de cães de guarda na defesa, deixando a coisa lá na frente para Kaká e Luis Fabiano resolverem. Isso, já foi suficiente em 1994 quando, mesmo jogando um futebol medíocre para os padrões brasileiros, o Brasil ganhou uma copa - nos pênaltis. Dunga, não coincidentemente, era um desses cães de guarda da seleção. Nada mais coerente que pretenda reviver, na seleção que dirige, o mesmo estilo “joga feio, mas ganha”, certo de que sua vitória representará a consagração do seu estilo.
O que faz aflorar, além de sua arrogância a sua inveja. Suas contradições mal conseguem disfarçar sua frustração por não ter tido a capacidade de Ronaldinho Gaúcho de fazer do futebol uma obra de arte. (Essa inveja tão própria da natureza humana – a do medíocre pelo talentoso, a do puramente esforçado pelo gênio – já teve sua crônica esmiuçada no filme Amadeus, quando seu diretor inspirou-se no esforçado compositor Salieri para contrapor o drama do medíocre diante do talento que a natureza sobeja a alguns poucos, como Mozart).
Não deveria esquecer, porém, de que a obrigação de qualquer técnico da nossa seleção não é apenas ganhar uma Copa, como também, faze-lo de forma incontestável, jogando bonito, sim. Assim aconteceu nas seleções de 58, 62, 70 e 2002. Ao optar por não convocar um dos melhores jogadores do mundo Dunga joga sua grande cartada, certo de que ganhará a copa jogando burocraticamente, mas dificilmente atingirá, dessa forma, a glória que almeja.
Pode até ganhar, mas não conseguirá acrescentar muita coisa ao seu
currículo. Ao confrontar craques e tentar dilapidar o estilo que fez a glória do futebol brasileiro apenas corre o risco de, como técnico, passar para a história como o jogador medíocre que sempre foi.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O ULTIMO CARNAVALESCO

Texto publicado na seção Hoje é dia de...
O estado do Maranhão, sábado

O ÚLTIMO CARNAVALESCO

Jose Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com





Chico Jardineira já decidiu: não vai brincar os quatro dias do carnaval deste ano. Para onde vai ninguém faz a mínima idéia. Embora tudo isso pareça muito esquisito, a verdade é que alguma coisa já vinha mudando no comportamento de Chico Jardineira de algum tempo para cá.
Há três anos que ele foge das grandes aglomerações carnavalescas. Nada de Madre Deus, de Litorânea, de bailes de Gala, nada. No carnaval do ano passado Chico Jardineira podia ser visto pelas ruas do bairro, sempre com uma fantasia diferente, mascarado, pulando e brincando. Sozinho. Onde houvesse uma turma de bêbados, no botequim ou no mercado, crianças vestidas de fofão, turmas de blocos de sujos, de repente, lá aparecia Chico Jardineira: festivo, alegre, dando sustos nas crianças e nos adultos, bêbado – que ninguém é de ferro –, mas sem aporrinhar ninguém.
E pensar que Chico Jardineira foi o maior folião que já existiu em São Luis. Chico era daqueles de sair de casa na quinta-feira de carnaval e voltar apenas depois da micareta de Ribamar. (Eu disse micareta? Taí uma coisa que Chico nunca aturou ) Um vez perguntou, furioso, como se tivesse levado um tapa: “Micareta? Que diabos é micareta, o nome daquilo é lava-pratos, que estão fazendo do carnaval?” Pois foi por amor ao carnaval que, ao longo de sua vida, Chico perdeu três esposas e cinco amantes. Lembram daquela música do Assis Valente sobre um cara que “vestiu uma camisa listrada e saiu por aí”? Chico era mais ou menos assim, só que não era a sua camisa que ostentava listras, mas, ao invés, seu próprio rosto, que ficava listrado de tantos lanhos que levava das mulheres, desprezadas por causa da folia.
Era, porém, irreconhecível depois do carnaval Voltar ao normal significa que Jardineira se transformava em Francisco Espósito, seu verdadeiro nome. Trocava tão radicalmente de personalidade que até hoje nunca se soube qual a verdadeira. Após o carnaval jamais era visto em festa de reggae, forró, ou qualquer outro evento musical , há quem diga até que no resto do ano virava budista. Donde se conclui que Chico Jardineira só gostava mesmo de carnaval, só se alegrava no carnaval, a sua felicidade na vida se confundia com o carnaval, tanto é assim que ele sabia cantar, de cor, todas as marchinhas carnavalescas, desde o Pelo Telefone, passando por Máscara Negra até as mais recentes, como o “Gostosa”, do Bulcão.
Pois Chico Jardineira acabou revelando algumas de suas decepções para uma amiga comum. Quando perguntado por que não freqüentava mais o circuito carnavalesco, ele explicou: “Falta alegria” “Como?” surpreendeu-se ela, “Que está dizendo? Tanta gente e falta alegria?” Ele respondeu: “ Só vejo ali gente andando de um lado para o outro, sem verdadeira animação, só conseguem dançar se botarem um trio elétrico na frente deles. Ora, alegria não se compra Se houvesse alegria espontânea não precisava o governo gastar tantos milhões para incentivar o carnaval. Tanto dinheiro deveria ser gasto era com hospitais, com a saúde pública e escolas e não para tentar entusiasmar um carnaval, onde já não há espontaneidade. ”
Agora fui eu que perguntei abismado:
- Ele disse mesmo isso?
- Disse, e disse muito mais.
- O quê?
- Que no Brasil não existe mais carnaval, que carnaval é um estado de espírito, não uma festa e que, portanto, durante seu período não era para serem executadas músicas de outros ritmos como axé, rock, forró ou o que quer que seja. Que nada tem contra o trio elétrico, mas contra as músicas que executam e que quase morre de rir quando ouviu tocarem , certa vez, no carnaval baiano, o Hino Nacional.
- Puxa vida! Quem diria... O Chico Jardineira falando isso!
- É, mas...
- Mas...
- Na verdade, quem me disse isso foi o Espósito, entende? Como você sabe, ele e o Chico Jardineira até eu tenho dúvidas se são a mesma pessoa.
Não quis esclarecer isso com o próprio Chico, mas, sábado passado o encontrei num boteco. Era o único carnavalesco, em pleno sábado magro, contrastando com uma multidão de beberrões discutindo futebol. Houve alguém que, inclusive, abriu o porta-malas do seu carro, ligou o som e elevou-o às alturas, tocando funk. Chico, fantasiado e alheio a tudo isso, parecia completamente deslocado, mas insistia nas suas brincadeiras carnavalescas, em vão. O tempo foi passando, um a um se foram, até que me vi sua derradeira companhia. Tive pena de sua solidão, bêbado diante de um copo de cerveja, depois de vê-lo cantarolar uma marchinha atrás da outra, numa ladainha que não tinha fim. Então disse:
- Chico, porque você não vai para a Madre Deus? Lá deve haver mais animação que aqui.
- Para lá eu não vou. Minha alegria é espontânea, entende? Assim como a minha tristeza de agora. Ambas são puras, sabe?
Ao contemplá-lo, todo pintado de branco, como um palhaço, era como se visse um foto dos antigos carnavais, o que, imediatamente, me fez lembrar de um elepê que tinha uma capa belíssima, com dois foliões mascarados e o curioso nome (para mim que era criança, então) de Lira de Xopotó. Como eu o via agora, tal e qual um pierrô desconsolado diante de um copo, vi também transportada, da fotografia para a realidade, uma visão esquecida dos velhos carnavais. Acho que não entendi muito bem o que ele quis dizer quando falou em pureza, alegria e tristeza, mas de uma coisa pude ter certeza: era o último carnavalesco.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

ATRÁS DA BOLSA-BANDIDO

Texto publicado ontem, sábado,
seção Hoje é dia de...

ATRÁS DA BOLSA-BANDIDO


José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com



Para um estrangeiro, aqui residente há pouco tempo, nosso país poderia ser interpretado como o país das meias: o lugar onde alguns governantes enfiam o dinheiro roubado dos eleitores. Poderia ser também o país das cuecas (pelo mesmo motivo), mas poderia também ser chamado, preferencialmente, o pais das bolsas. É que, por aqui, de um tempo para cá, tem bolsa para tudo. Depois da bolsa família, já surgiu a bolsa-cultura, a bolsa-olímpiada, a bolsa-copa e, por último, o que nem todo mundo está sabendo, a bolsa-marginal. Vejamos como funciona e como você pode se candidatar a uma..

1. Primeiro, crie um pouco de coragem. Basta um pouquinho, afinal de contas, roubar é um ato muito corriqueiro por aqui e dá muito status, principalmente se o ladrão for um homem importante. (O povo brasileiro, já deu para perceber, não liga muito para esse negócio de honestidade e quanto mais é roubado, mais aprecia o político que lhe assalta)
Se você não teve tanta sorte assim, mas tem talento para a marginalidade, fique sabendo que pode contar agora com a ajuda do governo para lhe dar uma força. Com um tantinho só de coragem (que em outros paises talvez chamassem de canalhice) vá em frente.
2. Ataque o primeiro desprevenido que aparecer e roube o que ele tiver. Não precisa temer sua reação. Após seu primeiro gesto de ataque, ele já estará consciente do que se trata e, acostumado, nem fará ocorrência policial. Pegue sua grana e vá embora, tranquilamente, lembrando de que esse é apenas o primeiro passo para candidatar-se ao direito de ter sua tão ansiada bolsa-bandido.
3. Depois de já ter assaltado uns cinqüenta você estará cada vez mais perto de conseguir essa dádiva tão generosa do governo para vagabundos como você. A merda é que ainda não lhe prenderam, (polícia por aqui não foi feita para prender ladrão , mas para multar, lembre-se disso) mas não desista , vá fundo, assalte mais um, mais outro...
4. Até chegar o dia de sua grande inspiração. Escolha alguém quepoderá ser uma velhinha, um aposentado, ou uma criança, que você queira violentar. Quando algum deles reagir meta-lhe uma bala, cometa qualquer atrocidade, seja perverso, mas, desta vez, se aperfeiçoe no escândalo, e não fuja. Quer queiram quer não desta vez eles vão ter de te prender.
6. Pronto, você agora é um assassino reconhecido, está preso e terá
direito à sua tão esperada bolsa. Foi mais fácil do que você pensava, não foi? Não importa que exista por aí um defunto assassinado por você, uma família destruída, parentes revoltados... Isso é o de menos: para o governo e para as leis desse país a vítima é você, ao invés daqueles que foram brutalizados. Pode fazer agora o seu melhor ar de coitado mas se, por acaso não quiser, não se preocupe: o direito que você adquiriu por ter cometido um crime é seu, ninguém poderá tirar.
7. Agora é só correr para o abraço. Na cadeia, com alimentação de graça
e sem trabalhar, você automaticamente fará jus a uma bolsa que vai sustentar seus dependentes pelo tempo em que ficar preso. Já tinha visto grana mais fácil? São mais de setecentos reais por dependente, R$ 752,12 garantidos por lei, conforme consta em mensagem que corre na Internet, site apontado www.previdenciasocial.gov.br. Mais do que uma empregada doméstica, mais do que um comerciário, mais do que um lavrador, ou milhões de brasileiros que se acabam nas filas da previdência. Quer recompensa melhor pelo crime que você cometeu?
8. Se a burocracia aporrinhar, não esquente, talvez demore um pouco,
mas sai. Afinal de contas, é para defender os seus direitos de marginal que existem as leis brasileiras devidamente aprovadas por aqueles a quem você deu seu voto de confiança. Elas sempre estarão do seu lado, qualquer empecilho basta chamar seu advogado, porque você roubou, você matou, você fez muito por esse país. Você não passa de um bandido mas seus direitos jamais serão contestados porque , como já disse alguém há muito tempo, “este é um pais feito por bandidos, para facilitar a vida de bandidos.”

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

PARA NUNCA MAIS ESCUTAR

Texto publicado na seção Hoje é dia de...
sábado, O estado do Maranhão

PARA NUNCA MAIS ESCUTAR


José Ewerton Neto, membro da AML.

ewerton.neto@hotmail.com



Lembro da frase de um grande escritor que dizia: “Quando falares cuida para que tuas palavras sejam melhores que o teu silêncio.” Se isso já não era fácil quando havia mais respeito ao silêncio alheio, imagine hoje em que se fala o que der na telha, por conta da impressão de que o barulho é a maior propaganda de si mesmo. Tem muito mentecapto por aí que, por não ter o que dizer, acha que pode substituir o seu vazio intelectual por uma caixa de som, como se pudesse falar através dela.
Uma prova de desrespeito ao próprio silêncio é o que dizem as ditas celebridades. Falam tanto e tão mal, que suas palavras reverberam como os decibéis de um trio elétrico de terceira categoria. Eis algumas delas, ainda do ano passado, como tentativa de exorcizar o que não deve ser dito no ano em curso.

“Vou passar do baile funk para o cemitério”, Susana Vieira.
Você está coberta de razão, Susana. Como você já morreu há muito tempo (embora não saiba), nem vai fazer diferença.

“Achava que ela era uma chata, daquelas metidas e afetadas”, Otaviano Costa sobre a mulher “capa da playboy” Flavia Alessandra, antes de conhece-la.
Grande Otaviano! Você quer dizer que, desde que isso não afete as metidas, pouca importa que ela seja uma chata, certo?

“Ronaldo não se recorda e, a princípio, nega ser o pai do menino.” Amir Bocaiúva, advogado de Ronaldo, o fenômeno, no processo de investigação de paternidade movido pela mãe de um garoto de 4 anos, em Cingapura.
Caro advogado, seria melhor usar outro argumento, já que em matéria de negar, o fenômeno dá de dez a zero em São Pedro, que só negou Cristo três vezes. De algum tempo para cá ele nega que transou com travestis, nega que fez lipo, nega que “abirobou” na Copa da França e nega que simulou uma contusão no ultimo jogo Coríntians x Fla para prejudicar o rival paulista, São Paulo. Para piorar nega até fogo, segundo Susana Werner e Milene, suas ex-companheiras.

“Se me perguntarem se sou bi, vou brincar e responder que sou penta.”
Preta Gil, cantora(?) sobre sua orientação sexual.
Alguma inspiração flamenguista, Preta Gil? Depois do ultimo campeonato o Fla oscila do penta , segundo os pernambucanos ao hexa, segundo os cariocas e ninguém sabe o certo, nem a CBF, nem a FIFA. Não seria melhor passar logo direto para o octa?

“Max é viciado nele mesmo. (...) Ele é um produto. As caretas são sempre as mesmas e isso não é à toa. Enquanto o produto vender, para que mudar?” Francine Paia ex bbb, sobre o seu namorado Max Porto, ex bbb.
A grande diferença, cara Francine, é que o picareta do Max ganhou muito dinheiro para ficar viciado nele mesmo. Pior são os telespectadores idiotas que se viciam nos que são viciados neles mesmos( os BBBs) e, ao invés de pagamento, recebem em troca o sorriso abestalhado do Pedro Bial.

“Não fiquei assustada com a diferença de idade. Fiquei assustada com a paixão.” Zezé Polessa atriz de 55 anos sobre o seu relacionamento com o ator Ricardo Nunes, 22 anos mais novo.
Já o teu namoradinho, Zezé, não ficou assustado com tua paixão, mas com a diferença de idade; principalmente quando te viu nua.

“Às vezes acho que sou do lado errado, da cor errada. Eu devia ser mulata.”Luma de Oliveira
Não bote a culpa na cor, Luma. Quem preferiu ficar do lado de um bombeiro do que do homem mais rico do Brasil(Eike Batista) , foi você. Provavelmente, uma sombra tolheu tua visão na hora da escolha. Mas, será que isso tem a ver com mulatice, ou com escuridão total?.

“ Eu sou um ser humano normal como qualquer outro, mas as pessoas não me acham.” Roberto Justus, empresário e apresentador, ao desmentir sua imagem de homem sofisticado.
Não seja modesto, Roberto. Para sermos justos (ou justus) as pessoas só não te acham normal porque você, é muito mais chato do que qualquer pessoa normal. Enfim, você é tão especial que consegue sofisticar a própria chatice, não é mesmo?

“Queria ser gay, mas não consegui.” Fernanda Young.
Com essa Fernanda Young está inaugurando mais um tipo de variação sexual além das cinqüenta que já existem. Caetano Veloso, por exemplo, já deu inúmeras pistas de que seja do grupo e existe indicação de muito mais gente seguindo pela mesma cartilha. Ainda não dá para encher um caminhão, mas um trio elétrico, com certeza.

“Elas são de malíssimo gosto, sem nada na cabeça e feias”, Theo Becker, do reality-show A fazenda, sobre as suas colegas de programa.
Que elas não têm nada na cabeça e são feias isso todo mundo já sabia, Theo. O que não se sabia era que o malíssimo gosto delas era muito pior do que o teu em relação à língua portuguesa.

“Quando ainda me restava um mínimo de consciência eu mesma me internava. Mas quando babava no chão era Roberto quem tomava a dianteira.” Rita Lee, sobre a época em que usou drogas.
Explica essa história direito, Rita. Se ele tomava a dianteira, a traseira ficava com quem?

“Um dia, se Deus quiser, serei também pastor”, Kaká, jogador de futebol
Torça para que Deus não queira, Kaká até mesmo porque se seu desejo se tornar realidade você se tornará o primeiro milionário a se tornar pastor. Normalmente acontece o contrário. No começo são mortos de fome, depois é que ficam ricos.




sábado, 30 de janeiro de 2010

PARA NUNCA MAIS ESCUTAR

Texto publicado no jornal O estado do Maranhão,
seção Hoje é dia de...hoje, sábado.




PARA NUNCA MAIS ESCUTAR


José Ewerton Neto, membro da AML.

ewerton.neto@hotmail.com



Lembro da frase de um grande escritor que dizia: “Quando falares cuida para que tuas palavras sejam melhores que o teu silêncio.” Se isso já não era fácil quando havia mais respeito ao silêncio alheio, imagine hoje em que se fala o que der na telha, por conta da impressão de que o barulho é a maior propaganda de si mesmo. Tem muito mentecapto por aí que, por não ter o que dizer, acha que pode substituir o seu vazio intelectual por uma caixa de som, como se pudesse falar através dela.
Uma prova de desrespeito ao próprio silêncio é o que dizem as ditas celebridades. Falam tanto e tão mal, que suas palavras reverberam como os decibéis de um trio elétrico de terceira categoria. Eis algumas delas, ainda do ano passado, como tentativa de exorcizar o que não deve ser dito no ano em curso.

“Vou passar do baile funk para o cemitério”, Susana Vieira.
Você está coberta de razão, Susana. Como você já morreu há muito tempo (embora não saiba), nem vai fazer diferença.

“Achava que ela era uma chata, daquelas metidas e afetadas”, Otaviano Costa sobre a mulher “capa da playboy” Flavia Alessandra, antes de conhece-la.
Grande Otaviano! Você quer dizer que, desde que isso não afete as metidas, pouca importa que ela seja uma chata, certo?

“Ronaldo não se recorda e, a princípio, nega ser o pai do menino.” Amir Bocaiúva, advogado de Ronaldo, o fenômeno, no processo de investigação de paternidade movido pela mãe de um garoto de 4 anos, em Cingapura.
Caro advogado, seria melhor usar outro argumento, já que em matéria de negar, o fenômeno dá de dez a zero em São Pedro, que só negou Cristo três vezes. De algum tempo para cá ele nega que transou com travestis, nega que fez lipo, nega que “abirobou” na Copa da França e nega que simulou uma contusão no ultimo jogo Coríntians x Fla para prejudicar o rival paulista, São Paulo. Para piorar nega até fogo, segundo Susana Werner e Milene, suas ex-companheiras.

“Se me perguntarem se sou bi, vou brincar e responder que sou penta.”
Preta Gil, cantora(?) sobre sua orientação sexual.
Alguma inspiração flamenguista, Preta Gil? Depois do ultimo campeonato o Fla oscila do penta , segundo os pernambucanos ao hexa, segundo os cariocas e ninguém sabe o certo, nem a CBF, nem a FIFA. Não seria melhor passar logo direto para o octa?

“Max é viciado nele mesmo. (...) Ele é um produto. As caretas são sempre as mesmas e isso não é à toa. Enquanto o produto vender, para que mudar?” Francine Paia ex bbb, sobre o seu namorado Max Porto, ex bbb.
A grande diferença, cara Francine, é que o picareta do Max ganhou muito dinheiro para ficar viciado nele mesmo. Pior são os telespectadores idiotas que se viciam nos que são viciados neles mesmos( os BBBs) e, ao invés de pagamento, recebem em troca o sorriso abestalhado do Pedro Bial.

“Não fiquei assustada com a diferença de idade. Fiquei assustada com a paixão.” Zezé Polessa atriz de 55 anos sobre o seu relacionamento com o ator Ricardo Nunes, 22 anos mais novo.
Já o teu namoradinho, Zezé, não ficou assustado com tua paixão, mas com a diferença de idade; principalmente quando te viu nua.

“Às vezes acho que sou do lado errado, da cor errada. Eu devia ser mulata.”
Não bote a culpa na cor, Luma. Quem preferiu ficar do lado de um bombeiro do que do homem mais rico do Brasil(Eike Batista) , foi você. Provavelmente, uma sombra tolheu tua visão na hora da escolha. Mas, será que isso tem a ver com mulatice, ou com escuridão total?.

“ Eu sou um ser humano normal como qualquer outro, mas as pessoas não me acham.” Roberto Justus, empresário e apresentador, ao desmentir sua imagem de homem sofisticado.
Não seja modesto, Roberto. Para sermos justos (ou justus) as pessoas só não te acham normal porque você, é muito mais chato do que qualquer pessoa normal. Enfim, você é tão especial que consegue sofisticar a própria chatice, não é mesmo?

Queria ser gay, mas não consegui.” Fernanda Young.
Com essa Fernanda Young está inaugurando mais um tipo de variação sexual além das cinqüenta que já existem. Caetano Veloso, por exemplo, já deu inúmeras pistas de que seja do grupo e existe indicação de muito mais gente seguindo pela mesma cartilha. Ainda não dá para encher um caminhão, mas um trio elétrico, com certeza.

“Elas são de malíssimo gosto, sem nada na cabeça e feias”, Theo Becker, do reality-show A fazenda, sobre as suas colegas de programa.
Que elas não têm nada na cabeça e são feias isso todo mundo já sabia, Theo. O que não se sabia era que o malíssimo gosto delas era muito pior do que o teu em relação à língua portuguesa.

“Quando ainda me restava um mínimo de consciência eu mesma me internava. Mas quando babava no chão era Roberto quem tomava a dianteira.” Rita Lee, sobre a época em que usou drogas.
Explica essa história direito, Rita. Se ele tomava a dianteira, a traseira ficava com quem?

“Um dia, se Deus quiser, serei também pastor”, Kaká, jogador de futebol
Torça para que Deus não queira, Kaká até mesmo porque se seu desejo se tornar realidade você se tornará o primeiro milionário a se tornar pastor. Normalmente acontece o contrário. No começo são mortos de fome, depois é que ficam ricos.




sábado, 23 de janeiro de 2010

PERFIL DE BIG-BROTHER

Texto de hoje é dia de...

O Estado do Maranhão, sábado, 23

PERFIL DE BIG-BROTHER

José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com

“Quer conhecer analgésico melhor que a felicidade? A idiotice, não é? A idiotice é vital. Ser meio idiota é legal para ser feliz.” Ana Maria Braga.



Prepare-se, você foi escolhido. Calma, não fique nervoso, a rede de televisão não sabe ainda que você é idiota, portanto, está apenas experimentando-o. Quem vai mostrar e provar isso é você que, daqui a alguns dias, estará pegando um telefone e ligando para votar em uma pessoa que nunca viu mais gordo, que nada tem para oferecer, menos ainda para dizer e muito menos ainda para mostrar.
Você pensa que estará fazendo isso porque não tem o que fazer, mas sabe que essa não é a única verdade. Você sabe perfeitamente que só um idiota perde o seu tempo com gente mais idiota ainda, mas... Quer saber mesmo a verdade? – você já nem se importa com isso. Durante toda sua vida lhe fizeram de idiota: políticos que escondem seu dinheiro nas meias, cartolas que armam resultados de jogos para favorecer times de maior torcida, departamentos de trânsito que lhe cobram multas extorsivas. Você então pensa que ser idiota um pouco mais um pouco menos, já nem faz diferença.
Eles também (os big-brothers) fazem de conta que são apenas exibicionistas, mas tem coisa pior por trás: são ignorantes, aproveitadores, grotescos, parvos e humanos, demasiadamente humanos, enfim. Você poderia tentar ser diferente deles mas você não quer, você já não têm mais ânimo, nem vontade. Você já pensou um dia em ler um livro, em aprimorar seu possível talento musical, mas qual, você prefere ser assim mesmo, alienado e bobo. Na verdade, toda essa estupidez generalizada (que faz com que tanta gente almeje se tornar boneco de circo de um picadeiro que tem um pilantra como animador, chamado Pedro Bial); na verdade isso o atrai, e, no fundo, você é doido para ser um deles, não é mesmo?
E é para ajudá-lo – se você for realmente fã do BBB - que estamos lhe entregando o perfil dos Big-Brothers dessa edição, todos tão parecidos. Vá lá: escolha um, tanto faz.


Alex: O advogado de São Paulo tem 36 anos e chegou ao programa dizendo que não gosta de quem tem duas caras. Tradução: ele só gosta de quem tem mais de duas revistas Caras, que ele sempre achou o máximo em matéria de literatura.

Ana Marcela: A estudante de Recife tem 25 anos e define-se como uma gargalhada, em um site de relacionamentos. Tradução: Ana Marcela acabou de descobrir um talento próprio: sabe se definir. Quando diz que é uma gargalhada está falando sério. Sua diferença para Pedro Bial, o animador pseudo-intelectual, é que a gargalhada dele caçoa dos telespectadores, a dela, ri de si mesma.

Anamara: É policial militar, natural de Juazeiro, BA. Deve apostar na sensualidade para conquistar fãs no programa e já disse que no sexo, gosta até de apanhar. Tradução: Anamara dá voz de prisão a torto e a direito, mas só libera quando apanha. (De cacete ou cassetete?)

Carlos: conhecido como Kadu, é personal trainner, trabalha em uma badalada academia carioca e tem visual sarado. Tradução: Kadu precisa ter visual sarado porque sua penúria mental nunca sara. Por isso tem um sonho na vida: dedicar-se a ser ex-big-brother no futuro. E vai conseguir porque não há remédio que sare vocação tão contundente!

Claudia: moradora de Ribeirão Preto, 28 anos, tem uma agencia especializada em recepção e serviços, e potencial para ser uma Grazzi Massafera. Tradução: o potencial de Claudia é tão grande que vai passar direto para Suzana Vieira sem precisar fazer estágio em Graziela Massafera. Por isso já está saindo à caça do primeiro gigolô que aparecer. A casa está cheia. .

Dicesar: maquiador, atua como dragqueen na noite paulista com o codinome Dimmi Keer. Tradução: Dicesar é de César ( o imperador de Roma) a quantos Brutos imperarem no caminho. E jamais dirá: “Até tu Brutus?”


Elieser: 25 anos, modelo e engenheiro agrônomo em Maringá, foi mister Ecologia e define-se como bom de pegada. Tradução: como um bom animal pré-histórico, no físico e, principalmente, no conteúdo do cérebro, sua pegada é, de fato, bastante parecida com a de um mastodonte.


Tessália: publicitária de Curitiba, tem 22 anos. Apresenta-se como Twitess. Está solteira e terá de administrar a saudade da filha. Tradução: Tessália não devia se preocupar tanto com isso A filha aprendeu depressa o que significa a mãe ser Twitess, por isso entende, perfeitamente, seu sacrifício de abandoná-la para se enfiar numa casa de orgias sexuais públicas com um bando de retardados. Nem faz questão de saudade.


sábado, 16 de janeiro de 2010

A VIDA E A MORTE DO PONTO G

texto publicado na seção hoje é dia de...
Jornal O estado do maranhão, hoje, sábado, 15


A VIDA E A MORTE DO PONTO G


JOSE EWERTON NETO, membro da AML
ewerton.neto@hotmail.com


O Ponto G foi descoberto ( eu disse inventado, ou descoberto?) por um sujeito chamado Ernst Graffenberg nos idos dos anos 50. Naquela época os tabus sexuais ainda estavam por serem demolidos e a maioria das mulheres ainda pensava que era fundamental para chegar ao prazer que este fosse compartilhado exclusivamente com homens e não com mulheres, cães, gatos, vibradores, metrosexuais, enfim , as muitas variações de sexo que existem na Internet, no BBB e que proliferam no nosso mundo moderno.

( Até hoje não se sabe exatamente porque Graffenberg se preocupou tanto com isso. Passados tantos anos algumas hipóteses surgiram para explicar sua obsessão:

1. Conforme sugerido em 1976 por Shere Hite, intelectual do movimento feminista, a descoberta do ponto G não teria passado de um complô machista com a intenção de retardar a conscientização feminina de que o homem só serve para a procriação e olhe lá...[sabe-se que os bancos de sêmen que proliferam por aí prescindem da presença masculina no ato sexual]. Quanto ao prazer, o buraco é mais embaixo e Graffenberg não passaria de laranja de mais uma manipulação dos machos, com intenção de subjugar as mulheres, matando a cobra, mas não mostrando o pau, ou melhor moatrando o pau, mas não mostrando o ponto.
2. A segunda hipótese, menos mafiosa, sugere que Ernst , sendo pouco
atraente, queria aumentar suas chances com as mulheres. Na impossibilidade de atraí-las pelo método convencional, ofereceu-se como pesquisador e conseguiu, a aquiescência das mesmas, ganhando a chance de conhece-las de forma íntima e profunda ( na verdadeira acepção da palavra ).
O certo é que milhares de mulheres passaram pelo consultório de Graffenberg enquanto ele caçava o ponto G de cada uma. Um fato que corrobora para confirmar essa hipótese é o de que, ao contrário dos demais experimentos científicos cuja pesquisa usa animais como cobaias, no seu, Enrst resolveu partir logo para as mulheres. Ou seja , jamais passou pela sua cabeça a idéia de descobrir, preventivamente, onde estava o ponto G das ratazanas.
Qualquer que seja a hipótese correta, a verdade é que Enrst Graffenberg morreu feliz por ter imortalizado o seu nome. Antes de partir ele teria dito a célebre frase: “ Se Avogadro imortalizou-se por ter dado seu nome a um número amalucado, Fourier a uma série que pouca gente entende, e Alzheimer a uma doença, morro orgulhoso por ter dado o meu nome a um ponto que pertencerá eternamente à intimidade das mulheres. E, principalmente, por tê-lo colocado lá dentro.”)

É fácil imaginar o quanto às mulheres da época vibraram ( mesmo não dispondo ainda de bons vibradores ) com a notícia. Suas chances de prazer aumentavam em 70% e muitas esposas vislumbraram, de imediato, a possibilidade salvadora de não precisarem correr para o banheiro e recorrer aos clitóris, tão logo os maridos barrigudões saíssem de cima delas.

Alguém duvida que surgiu daí a revolução dos costumes que sacudiu a década seguinte? Como se sabe, logo elas inventaram a mini-saia, a tanga minúscula e o top-less. Claro, porque valia a pena, de novo, atraírem os homens, para ajudá-las a encontrar o dito cujo. Que começou a ser caçado, muito mais do que, décadas depois, Osama Bin Laden. O problema é que, assim como Osama, o desgraçado nunca deu jeito de aparecer.

Durante muito tempo elas continuaram fingindo, condicionadas pela pressão masculina, até que começaram a desistir da idéia por volta dos anos noventa. Desistiam, diga-se de passagem, não dele, mas dos maridos. E dos companheiros, e dos namorados, e dos homens. “Ora, se o ponto G existe mas ninguém descobre, então de quem é a culpa? Só pode ser desse cara que está comigo!” Donde provavelmente deve ter se originado o mais espetacular holocausto nas relações familiares que se tem notícia desde Sodoma e Gomorra, e que deu no que deu: mulheres para um lado, homens para outro e sexo para todo lado, inclusive das cabeças das criancinhas que não têm nada a ver com isso.

(Algo de muito curioso nessa história é que nenhum estudo sexológico ou social concedeu até agora ao ponto G sua posição como verdadeiro transformador dos costumes da vida pós-moderna. Temos de reconhecer a dificuldade: como colocar o ponto G no seu devido lugar se ninguém sabe qual é ?)

O certo é que, semana passada, tentaram dar um ponto final no ponto G. Andréa Burri ( que é burri, mas não tem nada de burra) comandou uma pesquisa no King`s College de Londres com mais de mil e oitocentas gêmeas, antes de anunciar sua inexistência, tendo o cuidado de acrescentar. “No entanto, nenhuma conclusão definitiva pode ser tirada e essa pesquisa precisa ser replicada com métodos mais refinados.”

No que concorda a interpretação sábia de uma de suas colegas que participou da pesquisa, menos como cientista e mais pela sua enorme experiência de vida. Segundo ela o ponto G, de fato, estaria morto, mas não enterrado; jamais desaparecerá do imaginário feminino e, nos últimos anos, mudou apenas de lugar. Se antes estava na vagina das mulheres agora está, com certeza, nas suas mãos , desde que elas carreguem um cartão de crédito. O orgasmo, finalmente alcançado, é só uma questão do que e do quanto este permitirá comprar.

sábado, 9 de janeiro de 2010

O VIBRADOR ENTRA EM AÇÃO

artigo publicado em O Estado do Maranhão,
seção Hoje é dia de...

O VIBRADOR EM AÇÃO

José Ewerton Neto, membro da AML

ewerton.neto@hotmail.com




E o 2010 acabou chegando com mais estranheza do que tem direito.
Primeiro, a escolha de Ronaldo, o fenômeno, como uma das dez pessoas mais confiáveis do país (como uma nação pode confiar num sujeito que não sabe a diferença de um travesti para uma mulher?). Depois, o que aconteceu esta semana, aqui mesmo, em São Luis: o assaltante Dentinho resolveu inovar e partiu para uma nova modalidade de instrumento de persuasão criminosa.
Dentinho assaltou uma mulher chamada Janice Minervina com um pênis de borracha (ou vibrador, como queiram) de 28cm x 18 cm. Dizem os autos da delegacia policial que Janice, quando passeava na Lagoa da Jansen, ao sentir o “cano” da arma em suas costas entregou de imediato a bolsa que trazia a tiracolo e chamou a polícia. Fica para a imaginação do leitor tentar chegar a uma conclusão satisfatória a respeito da hipótese levantada por alguns repórteres policiais: a de que se o vibrador tivesse sido endereçado para outro local do corpo da vítima a sua reação teria sido outra.
Como toda sanluizense já foi roubada pelo menos uma vez nesta cidade ( nem que seja de um inocente celular) nada como pesquisar o que elas acham dessa nova modalidade de assalto, de acordo com a profissão que exercem.

Hortênsia – Professora de matemática do ensino médio. Mora na Cohab:
“Prefiro esta. Pelo menos o diâmetro da arma é maior e, sendo mais grosso e viril, os ângulos de sua conformação são mais suaves e, dessa forma, sua imagem é menos aterradora ”.

Elenaura – Psicóloga, mora no São Francisco e tem um consultório num Shopping:
“Psicologicamente, esta deixa um trauma de menor impacto na mente
feminina. Algumas mulheres, de personalidade mais forte, terão chances até de fantasiar suas futuras emoções.”

Dra. Etiene - Clinica geral, mora no centro e atende no Maiobão:
“O efeito colateral é menos prejudicial. Pelo fato de ser de borracha,
não fere e pode até deixar uma sensação agradável no corpo. Tenho certeza pessoal e científica de que este que é mil vezes preferível a um objeto cortante, um punhal, por exemplo.”

Domingas - Comerciante, mora no Lira e trabalha nas feiras móveis, vendendo verduras. “ Tem mais chance de se fazer um bom negócio. As mulheres poderiam
sugerir a troca de suas bolsas pelo vibrador; ou então dos celulares.”

Hilda Franchesini - “Mineira, mora no Calhau.. Freqüentadora assídua da páginas sociais, é perua profissional e tem uma clínica de rejuvenescimento nas horas vagas:
“Nada contra, só acho que o vibrador tem de ter qualidade. As mulheres
só deveriam entregar os seus pertences se comprovada a etiqueta do bicho. Teria de ser comprovadamente chique, meu filho! ”

Nanasara - Estudante de filosofia, é também cantora de banda de bumba-pop da ilha, se apresenta na região do Turu e adjacências:
“Como dizia Platão, ou , possivelmente Aristóteles, como todo ato sexual
é uma forma de assalto daquilo que você ainda precisa completar em si mesmo, as vibrações do viver quando interrompidas por um gesto, precisam de simbolismo vivo para continuarem. No caso, um vibrador é muito mais eficiente para isso do que um revólver.”

Serena Campos – Estudante, desistiu do vestibular convencional há dez anos, quando decidiu seguir a profissão de candidata ao big-brother. Já publicou um livro de poesias chamado As razões do coração,
“Acho que, no caso desse tipo de assalto, as razões secretas do coração passam a vibrar mais intensamente...e de outras partes, também.”

Lucília Ernestina - Advogada criminalista, mora na Cidade Operária e faz
pos-graduação em salto-triplo – para fugir dos assaltantes.
“Esta nova modalidade de assalto precisa ser incluída urgentemente numa nova categoria dos códigos do direito criminalista, cuja hipótese vai contribuir para amenizar a pena do infrator. Ou seja, a de que o objeto do crime por parte do algoz pode ser confundido com o objeto de desejo da vítima.”

Cecília Regina, enfermeira, mora na Madre Deus.
“ Só acho que o assaltante, após ter apavorado a vítima com o vibrador, deveria ser condenado a acalmá-la depois com o mesmo objeto, para que as enfermarias dos hospitais não fiquem lotadas de mulheres à beira de um ataque de nervos.”

Soliege Brito, 35 anos – Formada em educação física, pratica vários
tipos de disputa, físicas ou não: judô, capoeira, basquete, lutas marciais, divórcios, etc. Praticamente mora na Lagoa da Jansen, onde faz cooper 23 horas por dia.
“ Bem , por razões sentimentais só posso dizer que vou direto para a delegacia, agora que já sei com quem está o vibrador de estimação que eu perdi.”